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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

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A mulher da casa

O desempenho maior do que a vida de Sônia Braga, aliado ao olhar atento sobre a realidade brasileira, quase disfarça o maniqueísmo da cruzada de "AQUARIUS". Mas mesmo que fique aquém do potencial, o novo filme de Kleber Mendonça Filho raramente deixa de ser fascinante.

 

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Percebe-se porque é que o sucessor de "O Som ao Redor" tem sido um dos casos do cinema brasileiro recente, e mais ainda a grande arma de arremesso cinematográfica contra a destituição de Dilma Rouseff, sobretudo depois dos protestos do elenco na mais recente edição do Festival de Cannes. Embora Kleber Mendonça Filho seja o primeiro a admitir que "AQUARIUS" começou a ser pensado muito antes do polémico jogo de cadeiras do cenário político brasileiro, não falta sentido de oportunidade à sua segunda longa-metragem, com uma ode à resistência protagonizada por uma mulher sexagenária.

 

Mas por muito que o filme tenha sido objecto de um autêntico debate (ou duelo) de prós e contras dentro e fora de portas, ou que Sônia Braga tenha ascendido a símbolo de um tempo (mais uma vez, 40 anos depois de "Gabriela", e de forma tão diferente), é bom ver que o seu peso temático tem correspondência na singularidade do olhar cinematográfico.

 

Com "O Som ao Redor", Kleber Mendonça Filho já tinha conseguido encontrar um lugar à parte na forma de retratar os contrastes e contradições do Brasil moderno, sem deixar de traduzir ecos de todo um passado de clivagens económicas, sociais ou culturais. Se aí recorria a uma narrativa em mosaico para espreitar espaços públicos e privados do Recife, a partir de um condomínio de luxo e com uma sonoplastia invulgar entre os trunfos, em "AQUARIUS" aposta num retrato mais focado, e até algo obcecado e deslumbrado com a personagem de Sônia Braga, mas igualmente amplo na forma de cruzar tempos e espaços, vivências e conflitos.

 

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Tal como o antecessor, o filme cruza realismo social e sugestões de thriller, mistura aqui ancorada na disputa entre uma ex-jornalista musical da classe média alta e a construtora que insiste em comprar a sua casa, o último apartamento ocupado de um antigo edifício do Recife à beira mar. Mas se este braço de ferro é o fio condutor, está longe de ser o elemento mais intrigante - e até o mais bem desenvolvido - de quase duas horas e meia nas quais cabe um retrato feminino ambivalente e imune a clichés, com uma personagem de corpo inteiro e vida cheia que Kleber Mendonça Filho vai desvendando sem pressas (e por aqui justificam-se as comparações habituais com a Isabelle Huppert de "Ela", embora a Paulina García do menos visto "Gloria", do chileno Sebastián Lelio, seja outra aproximação possível nos últimos anos).

 

Se no papel Clara já seria uma personagem forte, Sônia Braga amplifica o seu carisma ao conciliar charme e altivez, idealismo e amargura, resiliência e curiosidade. O realizador não se cansa de a filmar, dos gestos ao cabelo longo volumoso (ou falta dele), sem se desviar das marcas físicas de uma doença que a moldou (mas sem a relação simplista de causa-efeito de outras narrativas). Também não se desvia do sexo, filmado sem pseudo-tentativas de choque nem falsos pudores: aliás, é através do humor que começa por entrar em cena, com flashbacks desconcertantes que interrompem um pacato (e tão aparentemente cândido) serão familiar.

 

A família é, aliás, um dos alicerces da protagonista e do filme, e ao abordá-la Kleber Mendonça Filho parece recuperar parte da estrutura em mosaico de "O Som ao Redor": a relação de Clara com uma tia decisiva para o seu percurso, com os filhos, com o irmão e cunhada ou com o sobrinho permitem-lhe revelar facetas distintas, mas o espectro é ainda mais vasto quando passa pela família da empregada ou de outros secundários (como a de um antigo colega ou dos agentes da construtora, a encorajar um foco mais transversal).

 

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Novidade face ao filme anterior, a relação da protagonista com a arte, e em especial com a música, oferece alguns dos momentos mais memoráveis de "AQUARIUS". Do entusiasmo face a uma descoberta recente que se torna ainda melhor partilhada, logo ao início, às cenas na sala de estar, recheada de discos de vinil (cada um com a sua história),a vertente musical tem ligação directa à tentativa de preservação da memória, à recusa do esquecimento que o apartamento de Clara acaba por simbolizar.

 

Infelizmente, algum desse simbolismo torna-se demasiado esquemático numa recta final que não está à altura do que Kleber Mendonça Filho edificou até aí. O grito de revolta contra a gentrificação pode ser legítimo, mas não tem, por exemplo, as nuances do recente "Homenzinhos", que também olhava para o fenómeno de muitas metrópoles. Se nesse filme Ira Sachs deixava ver que cada personagem tem as suas razões, a ambivalência de "AQUARIUS" parece esgotar-se na caracterização de Clara, revoltada mas apesar de tudo francamente privilegiada. Já os seus opositores são reduzidos a antagonistas de serviço, ardilosos como convém, para que a simpatia do espectador seja ainda mais direccionada para a protagonista. Não havia necessidade: a entrega de Sônia Braga e as camadas do argumento eram mais do que suficientes, faltou só ceder ligeiramente ao som (e fúria) ao redor.

 

3,5/5

 

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