Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

O amor nos tempos de cópula

Enquanto a protagonista de "DESCARRILADA" faz jus ao título, o novo filme de Judd Apatow até faz a diferença. Mas quando a personagem de Amy Schumer entra nos eixos, o argumento descarrila e estampa-se.

 

TRAINWRECK

 

Há quem louve a mais recente proposta do autor de "Um Azar do Caraças" ou "Virgem aos 40 Anos" por não ter medo de apostar numa protagonista à qual não falta imaturidade e deboche, com direito a doses generosas de sexo ocasional, álcool e charros, traços mais habituais em personagens masculinas, em especial de parte da comédia norte-americana recente.

 

Amy Schumer, pelo tipo de humor cáustico q.b. que tem defendido tanto nos palcos como na televisão, é uma escolha coerente para vestir essa pele, e veste-a bem, mas numa altura em que uma série como "Girls" (com protagonistas tão mais "descarriladas") está a caminho da quinta temporada, este tipo de personagem será chamariz suficiente para pagar um bilhete de cinema?

 

Até certa altura,"DESCARRILADA" dá a entender que sim, mesmo com os altos e baixos habituais nos filmes de Apatow. Por cada gag que faz mira à vulgaridade (deliberada) há um humor observacional com algum tacto para as relações humanas, urbanas em particular, centradas em adultos que teimam em não crescer. Tem sido assim na filmografia do norte-americano (e no seu trabalho para televisão) e o argumento, desta vez da própria Schumer, não foge à regra. Mas infelizmente este guião também é mais atabalhoado do que os dos filmes anteriores (apesar de pormenores refrescantes, como uma perspectiva feminina sobre o universo desportivo), sobretudo quando parece começar a pedir desculpa pelo comportamento da protagonista, diluindo a relativa ousadia inicial num caminho inevitável para a redenção - feito ao lado de um homem, nem mais, a única opção para uma vida estável.

 

Se as duas últimas comédias de Apatow, "Funny People" e "Aguenta-te aos 40!", mostravam alguma acidez e gente de corpo inteiro com dilemas minimamente intrigantes, aqui cai-se numa fórmula girl meets boy (e diz adeus aos excessos) servida por personagens sem grande espessura. Enquanto o argumento não trai a sua natureza, a protagonista ainda se segue com curiosidade, pelo menos mais do que o seu namorado, na pele de Bill Hader, do qual será fácil gostar mas não é uma personagem assim tão interessante (a ideia é que seja mesmo aborrecida, só que a relação não faz faísca).

 

descarrilada2

 

Mas piores são quase todos os secundários, geralmente alguns dos melhores motivos para espreitar os filmes de Apatow. Aqui, do pai da protagonista cuja função dramática se adivinha ao fim de um par de diálogos à galeria de cromos dos colegas de trabalho, pouco há a reter. Brie Larson até consegue fugir à caricatura, embora o argumento não lhe dê muito para fazer (a não ser funcionar como contraste óbvio para Schumer), e parece saída de um filme mais exigente.

 

A libertinagem é só aparente e custa ver uma sequência brincar, com alguma graça, com os clichés da comédia romântica quando a última meia-hora escorrega nos mais preguiçosos, sem ironia. A excepção será uma cena desastrosa com Ezra Miller, secundário que é talvez a maior anomalia do elenco, num dos piores exemplos de irreverência pela irreverência. De qualquer forma, tudo volta à ordem quando "DESCARRILADA" insiste em resolver todos os problemas da protagonista de forma artifical e sem que esta faça muito para o merecer - do plano amoroso ao familiar, sem esquecer o profissional, mais arrumado seria difícil (ou talvez não, já que o sobrevalorizado "A Melhor Despedida de Solteira", de Paul Feig, amigo de Apatow, teve um desenlace tão ou mais conformista, noutra viragem de tom postiça).

 

Para um golpe de rins a sério ao "chick flick", mais vale (re)descobrir "Jovem Adulta", de Jason Reitman, por exemplo, que explora muito melhor a ambivalência da protagonista (no caso, Charlize Theron) e não amacia o final. E "Don Jon", de Joseph Gordon-Levitt, mergulhou em fantasmas sexuais de forma bem mais subtil sem deixar de ser hilariante nem precisar de sacrificar as personagens. Nesses casos, sim, há sinais promissores para a comédia norte-americana. "DESCARRILADA", apesar do alarido e promessas de felicidade, está longe de ser o amor de uma vida, ou sequer de um Verão. Fica-se, enfim, pelo patamar de um one night stand - e não dos mais gratificantes...

 

 

 

1 comentário

Comentar post