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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

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Cidade sob pressão

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Aos primeiros episódios, "Gotham" não consegue disfarçar a sensação de ter gerado mais alarido por aquilo que poderia (e deveria) ser do que pelo que é.

 

Para fãs de BD e de Batman em particular, este recuo à infância de Bruce Wayne e às origens da galeria de vilões do seu alter ego (talvez a melhor dos comics) torna-se, à partida, numa proposta quase irrecusável, com uma variação do universo da personagem da DC tão diferente das versões em papel como das transpostas para o pequeno e grande ecrã até agora.

 

Desta vez, a principal diferença será o foco não tanto no vigilante mascarado mas no Comissário Gordon, aqui uns anos antes da versão mais popularizada, ainda como jovem inspector. Só que o que prometia ser um olhar renovado sobre uma das cidades mais emblemáticas da BD acaba por não se distanciar assim tanto de demasiadas séries policiais, desde a rotina de um caso por episódio (mesmo que haja acontecimentos que os unem) à própria dinâmica do polícia impoluto que tenta contrariar a corrupção do sistema (e que, para não variar, tem como parceiro um veterano cínico e habituado a ceder).

 

Não ajuda muito que o polícia em causa seja Ben McKenzie, a ex-estrela de "The O.C.: Na Terra dos Ricos" que trocou o sol da Califórnia pelo céu quase sempre cinzento de Gotham sem mudar o registo interpretativo, sisudo ou apenas inexpressivo. Além de o protagonista já não ser o mais carismático, a cidade não consegue impor-se como personagem, embora a direcção artística até seja uma das mais valias da produção. A atmosfera, mais Nolan do que Burton, também é mais serviçal do que envolvente, com uma procura de realismo que faz desta uma cidade genérica, apesar das particularidades de alguns dos seus habitantes.

 

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Claro que tem sempre alguma graça ir acompanhando as pistas sobre os vilões em potência, umas bastante óbvias, outras nem por isso, mas por enquanto faltam aqui personagens de corpo inteiro e diálogos que as reforcem. A morte dos pais de Bruce Wayne, mote narrativo e dramático, desperta pouco mais do que um encolher de ombros, tal a forma indiferente e rotineira como é apresentada. E até as cenas seguintes com a criança que virá a tornar-se no Batman parecem mais uma obrigação do argumento, com uma evolução esquemática e telegrafada, do que momentos capazes de gerar especial empatia ou surpresa. Nem seriam grande problema caso a relação amorosa do protagonista tivesse alguma química, uma personagem como a de Selina Kyle (a futura Catwoman) fosse minimamente credível e insinuante ou não houvesse por aqui um ex-romance lésbico embaraçosamente forçado (mais uma vez, as actrizes em questão não ajudam).

 

O Pinguim, na pele de Robin Lord Taylor, é talvez a única figura que consegue realmente deixar marca, ao misturar vulnerabilidade, obstinação, calculismo e uma demência crescente, trazendo assim alguma desordem a este conjunto de personagens e situações-tipo que, para já, estão muito longe do delírio ou assombro que uma cidade como Gotham merecia...

 

 

"Gotham" estreia esta terça-feira, 11 de Novembro, na Fox, Fox Crime, FX e Fox Movies, a partir das 22h15.