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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

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Coragem debaixo de fogo

Ainda há heróis e "SÓ PARA BRAVOS" sabe como relembrá-los e homenageá-los partindo da história verídica de um grupo de bombeiros, num daqueles casos de equilíbrio feliz entre um argumento coeso, actores nos quais se acredita e um realizador a garantir que o fogo nunca se torna de artifício.

 

Só Para Bravos

 

Dificilmente se adivinharia que, depois da sequela "TRON: O Legado" (2010) e do muito curioso "Esquecido" (2013), Joseph Kosinski viria a trocar os cenários de ficção científica por um drama inspirado em factos reais, mas ainda assim a depender consideravelmente da tecnologia para colocar a ameaça em jogo. Não que a presença de efeitos especiais seja tão evidente desta vez, e essa discrição é logo uma das qualidades de um filme que opta sempre por se concentrar nas personagens em vez de temperar a acção com pirotecnia gratuita.

 

É verdade que as muitas sequências de incêndios que se estendem por largos quilómetros são prova de um reforço digital tão determinante como invulgarmente verosímil - sobretudo ao lado da espectacularidade ostensiva de tantos produtos de Hollywood -, mas "SÓ PARA BRAVOS" também mostra um realizador capaz de dar peso dramático a essas situações em vez de se contentar com o papel de mero tarefeiro.

 

2257471 - ONLY THE BRAVE

 

Partindo de um artigo da revista GQ, Kosinski recorda aqui os Granite Mountain Hotshots, unidade de bombeiros do Arizona que se debateu com um fogo florestal especialmente terrível em 2013, catástrofe que acaba por ter ecos nos incêndios de um Verão português tão trágico como o deste ano. A homenagem que o filme faz é, de resto, extensível a outros profissionais que, como os deste caso, são ou foram um exemplo de dedicação ao colocarem a vida em risco pela segurança da sua comunidade. Só que se noutras mãos o resultado poderia cair num relato de altruísmo cego e idealismo exacerbado, este destaca-se como um drama capaz de escapar aos moldes mais simplistas.

 

Se por um lado esta história é mais uma que nasce do encontro entre um veterano e um novato, com o primeiro a ter uma vida pessoal quase inexistente (ou que só sobrevive graças à insistência da companheira) e com o segundo na pele de perdedor mal acolhido pelo novo clã (e com direito a um colega particularmente desconfiado), por outro "SÓ PARA BRAVOS" consegue tornar singulares as inquietações e dilemas dos seus protagonistas. Até porque são protagonistas de corpo inteiro, com motivações menos óbvias do que podem parecer à partida: é o caso do chefe de bombeiros encarnado por Josh Brolin, cuja relação com a personagem de Jennifer Connelly é um dos pilares dramáticos do filme em vez de se ficar pelo elemento apenas funcional.

 

Só para Bravos 3

 

Brolin e Connelly são, de resto, uma dupla magnética e na qual facilmente se acredita, tendo aqui dos seus melhores desempenhos dos últimos anos. E felizmente nem são excepção num elenco que inclui ainda Miles Teller, cada vez mais uma confirmação do que uma promessa e com mais um exemplo de versatilidade, e secundários como Jeff Bridges, Taylor Kitsch ou Andie MacDowell (embora esta seja desaproveitada).

 

O acerto da direcção de actores é determinante tendo em conta que a recta final de "SÓ PARA BRAVOS" não será uma grande surpresa, e não necessariamente só para quem estiver a par do destino da primeira brigada de segunda classe dos EUA a conseguir estatuto de brigada especial florestal. Mas o que está para trás, ou mesmo a sobriedade do desenlace, não se limita a funcionar como hagiografia e alia as melhores intenções a outros méritos, entre eles a bela banda sonora de Joseph Trapanese, também ela a respeitar as personagens e as situações sem nunca se tornar intrusiva (uma lição para compositores como o cada vez mais bombástico Hans Zimmer e os realizadores que os recrutam).

 

Depois do também recente "Stronger - A Força de Viver", é bom dar conta que a dramatização de casos verídicos entre o heroísmo e a tragédia pode ter mais cinema do que o que sugere à primeira vista.

 

3,5/5