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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Corre, Martin, corre

Resposta norueguesa a "O Lado Selvagem" ou "Livre"? A premissa de "DA NATUREZA" é comparável à desses filmes, mas o drama de Ole Giæver faz questão virar do avesso as jornadas solitárias de auto-descoberta.

 

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Começar de novo, correr riscos, sair da rotina das 9 às 5 e da monotonia conjugal e familiar, do conforto tornado tédio. É isto que leva Martin a isolar-se, durante um fim-de-semana, na floresta a dois passos da pacata localidade do interior norueguês em que vive.

 

Na casa dos trinta, mas já a caminho de uma crise de meia-idade, o protagonista de "DA NATUREZA" é interpretado pelo próprio realizador, Ole Giæver (função partilhada com Marte Vold), que assina ainda o argumento desta comédia dramática, a sua segunda longa-metragem (e a primeira a chegar a Portugal).

 

O que poderia ser só mais uma incursão no "ennui" existencial burguês - tema muito europeu e também muito nórdico - acaba por ir ganhando pontos como uma variação personalizada, mas de apelo relativamente amplo, que conjuga algum desespero e até alguma auto-indulgência com um humor às vezes desarmante.

 

Esta combinação sai quase sempre dos pensamentos de Martin, que vincam o filme do princípio ao fim num caso em que dispositivo da narração em off se mostrar uma aposta consequente - em boa parte graças à rédea solta das confissões do protagonista, das mais cruas e angustiantes às mais desbragadas, sobretudo quando a libido se intromete (e intromete-se muito, em algumas das melhores sequências).

 

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É verdade que "DA NATUREZA" percorre os seus quase 80 minutos (curtos, mas que não sabem a pouco) sem acrescentar grandes viragens ou soluções às questões que coloca em jogo. Quem procurar epifanias inspiradas pela pureza da paisagem estará a apostar no filme errado (nesse departamento os dramas on the road dirigidos por Sean Penn ou Jean-Marc Vallée serão propostas mais esclarecedoras e bem comportadas).

 

Ole Giæver oferece antes um inventário de reflexões, ambições e inquietações - algumas urgentes, outras frívolas, todas pessoais mas transmissíveis - com sentido de oportunidade para os tempos que correm, valendo-se ainda de uma energia visual assinalável (que felizmente evita lirismos bucólicos) e uma entrega à altura como actor (apesar do turbilhão de pensamentos, o olhar sobre o corpo tem tanta ou mais força).

 

No final, mais do que as viagens ao ar livre vividas por Emile Hirsh ou Reese Witherspoon, o retiro de Martin lembra a inquietação de "Oslo, 31 de Agosto", do também norueguês Joachim Trier, pelo desnorte da passagem do tempo e refúgo na idealização da adolescência, mesmo que "DA NATUREZA" fique aquém dessa intensidade e prefira olhar para o céu do que para o abismo. E prefere ainda mais a fuga para a frente, mesmo que acabe por correr em círculos.