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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Fim de semana alucinante

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E se receber um bónus no vencimento levar ao despedimento de uma colega? É esta a questão decisiva de "Dois Dias, Uma Noite", o novo filme de Jean-Pierre e Luc Dardenne, que atira a estrela francesa Marion Cotillard para a pele de uma operária belga cuja vida vai necessariamente mudar num fim de semana - aquele em que tem de convencer dezasseis colegas a votar na continuidade do seu posto de trabalho, opção que os obriga a abdicar de um extra de mil euros.

 

O que este drama dos irmãos belgas tem de curioso é também aquilo que o limita: ao fim de poucos minutos, o modelo narrativo torna-se logo evidente e não ganha muitas variações. Sandra, a protagonista, vai fazendo uma jornada porta a porta, contrasta os seus problemas (a recuperação de uma depressão, comprometida pelo eventual despedimento que deixa a família economicamente dependente do marido) com os de outros empregados e tenta não se deixar abater pelo desespero, acentuado por uma corrida contra o tempo.

 

Mas se a relativa rigidez desta ideia torna "Dois Dias, Uma Noite" num filme narrativamente plano, este ainda é um belo exempo de cinema humanista na linha do que a dupla nos tem habituado. Menos radical do que títulos anteriores (como o muito celebrado "Rosetta", de 1999, talvez a cruz desta filmografia), evita o que poderia cair num ensaio misantrópico, ou politicamente infestado, e desenha um retrato tão cru e realista como digno e ponderado. Coloca-nos do lado da protagonista mas mostra, sem olhar as outras personagens de cima, que todas têm as suas razões, muitas e muito variadas, poupando-se (e poupando-nos) a julgamentos.

 

Frágil, inquieta, sem tempo ou disposição para sequer mudar de roupa, Sandra consegue gerar empatia sem que o filme a transforme numa mártir da crise contemporânea ou mendigue a nossa comoção (não há qualquer sinal de uma banda sonora manipuladora), por muito que a humilhação possa estar à espreita na porta a seguir. Marion Cotillard, sem ser assombrosa, é segura na insegurança da protagonista e o restante elenco nunca trai um olhar verosímil, que talvez ganhasse em aprofundar mais o estudo de personagem - o drama conjugal fica aquém do social -, mas não deixa de merecer lugar entre os destaques da temporada.

 

 

 

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