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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Foi assim que aconteceu (só que não)

Ao tentar fintar os lugares comuns do biopic, "NERUDA" opta pelo policial noir com ecos BD da época "Mundo de Aventuras". O resultado é o filme mais lúdico de Pablo Larraín, mas os sublinhados de metaficção quase eclipsam o retrato do poeta e político.

 

Neruda

 

Embora seja anterior a "Jackie", o filme biográfico centrado em Pablo Neruda assinado pelo realizador de "Tony Manero" (2008) estreia em Portugal depois do olhar do chileno sobre Jacqueline Kennedy. E com muito menos pompa e circunstância do que a que acolheu a chegada do filme protagonizado por Natalie Portman, a contar com o embalo da nomeação para o Óscar de Melhor Actriz.

 

Mas se "Jackie" era um retrato demasiado sisudo e convencional, assim como o filme mais incaracterístico do cineasta que até aqui só tinha olhado para a sociedade chilena, "NERUDA" é bastante mais solto e arejado - e sobretudo mais inventivo. Tal como esse outro biopic, foca um período muito específico da vida do protagonista - a fuga, juntamente com a mulher, depois de críticas ao governo no final dos anos 40 -, embora dispense o tom contemplativo e aposte num ritmo às vezes alucinante (e alucinado) a milhas do formato docudrama "de prestígio" - que seria o mais óbvio para uma figura com um peso tão forte na política e na literatura.

 

Longe de um objecto reverente e hagiográfico, "NERUDA" prefere dar a conhecer o homem em vez da lenda, para o melhor e para o pior, tentativa bem sucedida tanto pelo argumento (que consegue dizer muito durante um período temporal relativamente curto) como pela direcção de actores (Luis Gnecco emana a combinação de carisma, orgulho e insolência que a personagem pede; Mercedes Morán está à altura na pele da pintora Delia del Carril, decisiva para um retrato conjugal que ajuda a ancorar emocionalmente o protagonista).

 

Neruda_2

 

Enquanto Larraín salienta o papel inspirador que Neruda teve na unificação da resistência comunista chilena, também aponta o seu estatuto relativamente privilegiado face a muitos dos seus camaradas, ambivalência reforçada pela narrativa paralela que acompanha o inspector responsável pela sua captura. Interpretado por Gael García Bernal, Óscar Peluchonneau surge quase como uma personagem de papelão, tendo em conta as cenas realistas q.b. do protagonista e da mulher. Mas o facto de o polícia obstinado ser pouco mais do que um arquétipo, pelo menos ao início, faz todo o sentido pela forma como "NERUDA" remata a combinação de realidade, ficção e metaficção, com direito a cruzamento de duas vozes em off e perspectivas igualmente entrecruzadas.

 

Às tantas, mais do que um filme sobre a história de Pablo Neruda, sai daqui um ensaio sobre como contar uma história e como ficar na História. Não é necessariamente uma má troca e o risco merece elogios, mas o resultado fica um pouco aquém da ambição. O terceiro acto, já em território quase western depois de um jogo do gato e do rato em cenário urbano, perde alguma desenvoltura quando não só se leva demasiado a sério como insiste em esmiuçar a vertente metaficcional, abordada com outra subtileza em sequências anteriores.

 

Por outro lado, este desenlace acaba por fazer justiça à personagem de Gael García Bernal e ao empenho do actor num papel ingrato até certo ponto, tornando a sua presença menos opaca para o espectador. E se for esse o preço a pagar por um biopic tão curioso e fora dos eixos como este, e tão envolvente durante quase duas horas, chega e sobra para desejar que Larraín siga o exemplo do poeta e volte a casa - ao contrário da experiência fora de portas, aqui não lhe falta inspiração.

 

 

 

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