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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

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Inferno na Terra

Vencedor do Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, "O FILHO DE SAUL" mostra que ainda há espaço para mais olhares sobre o Holocausto, mérito da experiência sensorial desenhada pelo húngaro László Nemes na sua estreia na realização.

 

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A estatueta dourada da Academia, entregue há poucos dias, foi apenas a distinção mais recente de um percurso invejável traçado por esta primeira obra, com destaque para galardões arrecadados em Cannes ou nos Globos de Ouro. É certo que pegar num tema forte e sensível - e nesse campeonato há poucos que façam frente às memórias da Segunda Guerra Mundial - é meio caminho andado para um filme ganhar eco internacional, mas neste caso há qualidades evidentes além do mero foco numa agenda histórica, política e social.

 

Apesar de as atrocidades cometidas pelos nazis já terem sido amplamente abordadas, tanto no grande como no pequeno ecrã, no documentário ou na ficção, "O FILHO DE SAUL" destaca-se daquilo que temos visto ao longo de décadas. E destaca-se não só pelo que mostra, mas também (ou sobretudo?) pelo que opta por não mostrar, ao concentrar-se num protagonista que acaba por ser o guia do espectador nesta descida ao inferno - ou um dos infernos na Terra, Auschwitz-Birkenau em 1944.

 

Raras vezes o cinema terá dado a ver tão de perto a rotina dos Sonderkommandos, prisioneiros judeus que auxiliavam os alemães nas tarefas dos campos de concentração durante poucos meses, gozando de alguns "privilégios" (sobretudo na alimentação e cuidados de higiene) antes de também eles serem exterminados. O realizador não poupa grandes detalhes do dia a dia destes agentes cujo destino estava praticamente condenado à partida, investindo no retrato metódico das suas actividades, da recepção de novos prisioneiros (muitos sem qualquer pista do gigantesco matadouro que os acolhia) aos preparativos para a sua morte, sem descurar o rigor na limpeza dos crematórios.

 

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"Já estamos todos mortos", diz a certa altura um dos Sonderkommandos. E se o cenário é propício para que o pessimismo abra caminho para o niilismo, Saul tenta encontrar algum propósito entre a tragédia em grande escala ao procurar enterrar de forma digna um rapaz que diz ser seu filho. A ambição vai-se transformado em obsessão, à medida que a tarefa de chegar a um rabino se complica, mas essa também parece ser a única forma de o protagonista conservar a sua humanidade, ainda que residual quando todos se mostram cada vez mais indiferentes ao sofrimento alheio.

 

Ancorado nesta premissa, "O FILHO DE SAUL" é quase o negativo cru, realista e angustiante de "A Vida é Bela", sem qualquer vislumbre do humor burlesco de Roberto Benigni e também desprovido do melodrama de outras ficções sobre o Holocausto (Nemes recusa até pontuar a acção com música, deixando que a jornada do protagonista fale por si). Desta vez o pai já não pode salvar o filho, mas nem por isso deixa de o acompanhar depois do fim.

 

O argumento, esquemático, não leva a ideia para territórios especialmente surpreendentes, e a certa altura até parece começar a rodar em seco, o que tanto pode ser visto como uma limitação da componente ficional do drama como do reforço da plausibilidade dos acontecimentos. E é fácil de acreditar na crença de Saul (Géza Röhrig, apropriadamente inexpressivo e contido), sobretudo quando a câmara de Nemes se cola ao protagonista para acompanhar o seu olhar. Mesmo quando a narrativa acusa alguma redundância, a vertente técnica de "O FILHO DE SAUL" não deixa de inquietar, seja pelo desfoque dos cenários contaminados pelo genocídio ou pelo som a traduzir o horror que o realizador opta por não encarar de frente.

 

Hábil nesta gestão de sugestões, Nemes é igualmente ponderado no retrato dos Sonderkommandos, abstendo-se de julgamentos e procurando ser minucioso na contextualização - deixando sinais do papel destes agentes na preservação de memórias do Holocausto, documentadas em textos e fotografias que implicaram um risco considerável. Deste distanciamento clínico, muitas vezes austero, nasce um drama ao qual é difícil aderir por completo, mas que também será difícil não respeitar no plano formal e emocional. Um filme tão implacável como aconselhável, portanto.