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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

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Juliette à beira de um ataque de nervos

Capaz de se manter luminosa numa personagem com queda para a auto-indulgência, Juliette Binoche é um óptimo motivo para não deixar passar "O MEU BELO SOL INTERIOR". Mas o novo filme de Claire Denis tem outros méritos que o tornam numa das últimas estreias de 2017 a merecer atenção.

 

O Meu Belo Sol Interior

 

A julgar pelo título e pelo cartaz promocional, este drama centrado numa artista plástica de meia-idade arrisca-se a passar por mais uma crónica feminina dominada por tiradas de auto-ajuda, com Juliette Binoche numa resposta francesa a alguns filmes-veículo para Julia Roberts ou Diane Lane. Mas de uma realizadora como Claire Denis ("Trouble Every Day", "Beau travail") dificilmente se esperaria qualquer sinal de ligeireza delicodoce, tendo em conta os olhares muitas vezes crus e sinuosos que têm vincado a obra da francesa (nem sempre com grande expressão em salas nacionais).

 

"O MEU BELO SOL INTERIOR" não foge à regra e, por isso, um contacto inicial mais desatento pode levar ao engano, ainda que este mergulho no caos afectivo de uma mulher se aproxime, aqui e ali, de territórios da comédia romântica. Mas é uma comédia com um humor bastante comedido e um romance bem menos solar do que o título do filme dá a entender, já que Denis está mais interessada em observar os relacionamentos tóxicos de uma certa elite intelectual parisiense do que em desenvolver histórias de amor inspiradoras.

 

Grande parte do filme assenta, aliás, na insegurança, ansiedade e até no desespero da protagonista, atirada para um ciclo de ilusão e frustração amorosa que a leva a iniciar relações sucessivas com vários homens. Denis nem tenta disfarçar que cada novo começo está condenado a ser também um novo falhanço, tanto que o argumento do filme pode resumir-se a um apanhado de vinhetas entre encontros sociais e episódios íntimos.

 

o_meu_belo_sol_interior

 

Só que em vez de resultar numa limitação, essa narrativa tão circular acaba por conferir boa parte do charme de "O MEU BELO SOL INTERIOR", sobretudo por servir de pretexto para alguns dos diálogos mais inspirados, perspicazes e envolventes dos últimos tempos (alguns a partir de "Fragmentos de um Discurso Amoroso", de Roland Barthes, sem nunca caírem em excessos literários, presunçosos ou verborreicos). E quando essas conversas têm entre as interlocutoras uma actriz em estado de graça com secundários à altura (caso de Xavier Beauvois, Bruno Podalydès ou Nicolas Duvauchelle) torna-se difícil não as acompanhar.

 

Juliette Binoche deixa um dos seus melhores desempenhos recentes e é o centro narrativo e emocional de um filme que, a espaços, ameaça cair no relato da pobre menina rica. Mas é aí que o humor entra em jogo e Denis assume que estes são mesmo problemas de primeiro mundo, e muito burgueses, deixando um retrato crítico sobre o seu meio sem olhar de cima para a protagonista. Pelo contrário, o pânico da solidão é muito palpável, como o são as dificuldades de uma vida a dois numa idade que reage mal à inocência e entrega plena de outros tempos, em especial quando as diferenças de classe podem colocar mais uma barreira (e acabam por conduzir a uma cena-chave que confirma o carácter tendencialmente volátil da personagem de Binoche).

 

"O MEU BELO SOL INTERIOR" só perde algum fôlego e desenvoltura mais para o final, que não sendo desajustado também não é dos mais imaginativos, além de que a entrada abrupta em cena de Gerard Dépardieu e Valeria Bruni Tedeschi quase parece uma manobra de distracção. Mas não é filme que mereça ficar perdido entre as últimas remessas de estreias do ano, principalmente quando oferece muito mais do que aquilo que sugere à primeira vista.

 

 3,5/5