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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

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Marte não ataca (nem sequer ameaça muito)

Há um lado prosaico em "PERDIDO EM MARTE" que sugere uma alternativa bem-vinda à ficção científica mais habitual do mainstream norte-americano. Mas se essa recusa da pompa de um "Interstellar" torna o novo filme de Ridley Scott numa obra com algumas singularidades, também acaba por limitar esta aventura espacial adaptada do livro "O Marciano", de Andy Weir, demasiado ligeirinha e contente com isso.

 

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Não se compreende muito bem o entusiasmo quase generalizado e menos ainda quem aponte um regresso à forma do realizador de "Alien, o Oitavo Passageiro". É verdade que Scott já fez bem pior, e não faltam blockbusters muito abaixo do patamar que é apresentado aqui, mas o demérito da concorrência não chega para tornar este num filme obrigatório, nem sequer particularmente recomendável.

 

Há ideias curiosas,sobretudo no retrato do dia-a-dia do protagonista, um astronauta da NASA abandonado em Marte pela sua equipa depois de uma tempestade. Resiliente e despachado, Mark Watney opta quase sempre pelo sentido prático face ao desespero, com uma formação em agronomia que acaba por ser um trunfo na altura de procurar ou criar recursos para se aguentar enquanto o seu resgate é preparado.

 

Matt Damon está à vontade no papel, tem sentido de humor à altura e é responsável por boa parte do capital de simpatia do filme. Só que nem ele consegue disfarçar o desenho de personagens a traço grosso, um pouco menos evidente no caso do protagonista (ainda assim, reduzido a um MacGyver do espaço em vez de se destacar como uma figura com profundidade, ambições, medos e laços emocionais específicos), mas gritante no caso dos secundários (um autêntico desperdício de nomes sonantes, com gente como Jeff Daniels, Jessica Chastain, Sean Bean, Kristen Wiig, Kate Mara ou Michael Peña a passear-se pelo filme com pouco mais do que uma expressão facial).

 

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Entre uma primeira metade mais concentrada no protagonista e uma segunda ziguezagueante entre conversas de bastidores, da vertente científica à organizacional da NASA, e o quotidiano da equipa de resgate, o filme nunca consegue encontrar um centro dramático forte, saltitando entre episódios curiosos (o disco sound como banda sonora da estadia forçada em Marte, piada recorrente em torno da personagem de Damon) ou nem por isso (quando sucessões de teorias e procedimentos tomam conta da acção sem lhe acrescentarem grande coisa).

 

O planeta vermelho nem é assim tão bem servido quando algumas das sequências visualmente mais memoráveis até são as da nave, com menção especial para o bailado dos corpos dos astronautas, que merecia um filme mais arrojado. Muito do que distingue, ainda assim, "PERDIDO EM MARTE" é logo apresentado no trailer e, também por isso, estas mais de duas horas demasiado dispersas têm poucas surpresas guardadas. O final, então, parece ser mesmo o único possível, tendo em conta que nunca chega a haver grandes riscos nesta aventura, excessivamente programada para um elogio muito compostinho à perserverança individual (acompanhado por uma comoção colectiva em que não se acredita) e maravilhas da ciência. O que não é necessariamente mau, mas é pouco.

 

 

 

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