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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muita guerra, poucas estrelas

Ainda há esperança para uma saga que surpreendeu numa época muito, muito distante? A julgar por "ROGUE ONE: UMA HISTÓRIA DE STAR WARS", o máximo a que temos direito é um blockbuster esforçado, mas inevitavelmente limitado.

 

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Depois da amarga desilusão de "Star Wars - O Despertar da Força", um mero plágio mascarado de homenagem, o primeiro de vários spin-offs da saga criada por George Lucas há quase 40 anos prometia trazer outras caras, cenários e histórias a um universo que não tem falta de potencial para explorar. Sobretudo porque haveria, à partida, outra liberdade criativa ao saltar para narrativas laterais e delinear um caminho autónomo, como o da missão de um grupo de rebeldes que tenta sabotar os planos do Império Galáctico, em particular o da criação uma tecnologia capaz de destruir planetas.

 

Até certo ponto, "ROGUE ONE: UMA HISTÓRIA DE STAR WARS" consegue ser bem sucedido nesse propósito. Gareth Edwards, que deu algum fulgor à ficção científica recente em "Mostros - Zona Interdita" antes de decepcionar no desastroso (em mais de um sentido) último "Godzilla", concede de facto um tom mais negro a esta aventura, que não se fica pela fotografia menos luminosa e inclui um olhar mais ambíguo do que o habitual sobre a Aliança Rebelde (para a qual os fins justificam muitas vezes os meios), ainda que os maus da fita voltem a ser retratados sem grandes nuances (o lado negro da força continua imune a quaisquer sugestões de cinzento).

 

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Também ao contrário do filme antecessor, o realizador britânico tem carta branca para desenvolver uma história com princípio, meio e fim, em vez de ficar preso ao modelo de mega episódio piloto com um final a introduzir os próximos capítulos. E esse aspecto é de louvar não só dentro da saga, mas face a muitos blockbusters dos últimos anos (sobretudo de super-heróis), demasiado subservientes ao formato de cinema em série, no qual cada filme faz mais sentido integrado num quadro amplo do que individualmente.

 

Mas se em relação ao arco narrativo "ROGUE ONE: UMA HISTÓRIA DE STAR WARS" tenta e geralmente consegue bastar-se a si próprio, não deixa de ter demasiadas intromissões da saga na qual se integra. A banda sonora, logo ao início, tenta desviar-se do livro de estilo de John Williams, mas a partitura de Michael Giacchino volta invariavelmente a essa escola ao longo do filme, o que não seria um problema caso surgisse só nas cenas que pedem essa música operática. A questão é que esta missão especial tem mais raízes na série B do que na space opera que moldou a série (mesmo que não falte o obrigatório mote com relações entre pais e filhos) e aí a banda sonora nem sempre é oportuna. Igualmente dispensável é o robô de serviço, que pouco acrescenta a outros desta ou de outras sagas, instigador da maioria dos momentos espirituosos, quase todos a deitar abaixo alguma tensão (ainda assim, menos vezes do que em muitos blockbusters recentes).

 

Rogue One

 

Se outros pormenores, como cameos quase obrigatórios, são compreensíveis e não criam grandes entraves a um novo fôlego, no geral "ROGUE ONE: UMA HISTÓRIA DE STAR WARS" tende a não conquistar por completo ao parecer ficar longe do que Edwards pretendia. As várias refilmagens são conhecidas, e estão longe de ser caso único de intervenção dos estúdios, mas nem é difícil dar conta delas quando a vertente relativamente dramática e humanista da primeira metade (mesmo que com uma missão em modo jogo de pistas à mistura) vai cedendo espaço a uma narrativa mecânica que a realização de tarefeiro aplicado nem tenta disfarçar.

 

O último terço do filme é especialmente gritante quando quase se esquece das personagens numa demonstração vistosa, e certamente dispendiosa, de maquinaria e artilharia, com o filme de guerra a eclipsar a aventura intergaláctica. E ao ser tão longa, só realça que mais de duas horas é uma duração exagerada para esta história, sobretudo quando não há uma cena de acção que não seja genérica e demasiado próxima de outras aventuras (a excepção é uma sequência de poucos segundos já muito perto do final, num corredor, com mais intensidade do que a profusão interminável de naves que ficou para trás).

 

Quando a equipa de rebeldes volta a contar mais do que as armas, já é tarde demais, até porque tirando a relação das personagens de Felicity Jones e Diego Luna - bem mais interessante, conturbada e credível do que a dos protagonistas do filme anterior -, as outras praticamente não saem da casa de partida - e vivem mais do carisma de actores desperdiçados, como Riz Ahmed, do que de um interesse particular do argumento por elas. Enfim, pelo menos "ROGUE ONE: UMA HISTÓRIA DE STAR WARS" compensa ligeiramente essa limitação com um vilão apresentável depois do embaraçoso Kylo Ren, o que na verdade também não é dizer (nem pedir) muito. E se Ben Mendelsohn dá conta do recado nesse papel, também lembra que seria muito melhor que o mundo o conhecesse mais por séries como "Bloodline" do que por filmes destes. Haja esperança, pois então...

 

 

 

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