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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

O bom alemão (e um thriller não tão bom)

 

Por muito pedigree que "O Homem Mais Procurado" tenha, seja por adaptar um romance de John le Carré, contar com a realização de Anton Corbijn (ainda assim, mais celebrado por "Control" do que "O Americano") ou incluir gente como Willem Dafoe e Robin Wright no elenco, o mais provável é que vá ser lembrado por guardar a última interpretação de Philip Seymour Hoffman.

Destacá-lo sobretudo por esse motivo poderia ser redutor, para não dizer injusto, caso esta história de espionagem inspirada numa situação verídica conseguisse ser mais do que um thriller correcto - e sempre atento a questões da ordem do dia, é verdade (imigração, xenofobia, terrorismo...) -, mas com pouco de entusiasmante e singular.

"O Homem Mais Procurado" sai-se razoavelmente bem quando acompanha a rotina do protagonista, um agente dos serviços secretos alemães interpretado por um Seymour Hoffman que nem tem de se esforçar muito para encher a personagem de "pathos", solidão, desencanto e tensão, preço a pagar por um idealismo fora de moda.
Não será dos seus desempenhos mais exigentes e memoráveis, mas este Günther Bachmann, cujo olhar vale por muitos diálogos, dificilmente poderia concentrar melhor o tom de requiem que varre o filme - e cujo efeito se arrisca a ser ampliado, claro, pelo suicídio do actor este ano.

 


As cenas em que o protagonista está sozinho ou as partilhadas com Nina Hoss e Robin Wright - secundárias de luxo mal aproveitadas, embora à altura do que se espera delas - são de longe as mais conseguidas de um thriller a tombar para a inverosimilhança e anemia dramática nas restantes.
Rachel McAdams, erro de casting e caricatura de uma advogada ingénua, acaba por ir ganhando mais tempo de antena quando se aproxima de forma repentina (e forçada) de um imigrante ilegal, que por sua vez é um mero motor do argumento, tratado mais como um símbolo do que como uma personagem de corpo inteiro.

Corbijn faz questão de recusar perseguições tresloucadas e sucessões de reviravoltas, marca registada de muitos thrillers de espionagem, embora a distância de James Bond, Jason Bourne e aparentados não seja propriamente uma vantagem quando o argumento não tem grandes rasgos e o filme não tira partido dos actores (Daniel Brühl, então, é basicamente um figurante).

Admita-se que o realizador holandês consegue imprimir uma atmosfera com alguma tensão às ruas de Hamburgo (a fotografia de Benoit Delhomme dá uma ajuda no negrume) e a um final com um desespero implacável e nada gratuito, capaz de compensar parte da modorra destas duas horas (embora aí o mérito talvez até seja mais do livro). Mas se isso contribui para fazer de "O Homem Mais Procurado" um thriller digno, sério e empenhado, que tenta dizer alguma coisa sobre a (in)segurança do mundo de hoje, ainda o deixa muito abaixo dos melhores videoclips do seu autor (para os Depeche Mode, U2 ou Joy Division) e, lá está, da entrega do actor protagonista.