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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

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O grande fosso

Uma das melhores estreias dos últimos tempos vem da Eslovénia. A partir do conflito de gerações numa sala de aula, "O INIMIGO DA TURMA" sabe dar apelo universal a um caso local com um retrato da juventude mais certeiro do que os de muitas outras geografias.

 

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Apesar de ter chegado às salas do seu país natal em 2013, a primeira obra de Rok Bicek não parece ter perdido ressonância com o passar dos anos. Não só porque um dos seus temas-chave - a crise do sistema de ensino - continua entre os mais discutidos nas sociedades ocidentais, mas sobretudo porque a forma como olha para os alunos, os professores, a turma e a escola é uma lição de realismo e recusa de maniqueísmo.

 

Baseado em eventos ocorridos no liceu do realizador de 31 anos, que acabaram por marcar a sua adolescência, este drama parte do conflito que a substituição de uma professora de Alemão vai gerando entre um grupo de estudantes e o corpo docente. E se a rigidez do professor substituto já contrasta com a relativa permissividade da maoria dos seus colegas e gera alguma tensão por si só, o facto de esse aspecto poder ter influenciado o suicídio de uma aluna surge como principal catalisador de um ambiente de guerra civil - consolidado por atitudes cada vez mais revoltadas dos estudantes e a incapacidade de resposta dos professores.

 

Através deste ponto de partida, torna-se difícil não pensar em "A Turma", de Laurent Cantet, provavelmente o filme mais marcante a abordar a escola nos últimos anos. Mas embora Bicek aposte num realismo tão ou mais árido, o tom deste medir de forças é geralmente mais implosivo, além de mais assente no conflito de gerações do que no de classes - mesmo que não passe ao lado de questões como a imigração, com os breves episódios centrados no aluno oriental a ficarem entre os mais perspicazes.

 

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Com uma segurança rara numa primeira obra, "O INIMIGO DA TURMA" revela um cineasta hábil no desenho de uma teia dramática intensa e coerente, que em cerca de duas horas consegue dar espaço e singularidade a cerca de uma dúzia de personagens credíveis (e nunca reduzidas a bonecos de uma batalha de prós e contras).

 

Bicek também sabe como deixar algumas cenas na retina (em particular duas com um abrir e fechar de portas ou um plano-sequência de um flashback nos corredores) e tirar proveito de um elenco que junta actores profissionais (os professores) e amadores (os alunos) num filme em que todos são convincentes. O protagonista é-o especialmente, interpretado por um actor (Igor Samobor) a alternar entre a figura de carrasco, inimigo público e quase vítima enquanto deixa uma lição de underacting sem nunca abdicar da postura austera (e cuja vida pessoal se mantém um enigma num filme que nunca abandona o espaço escolar a não ser no epílogo).

 

Também vale a pena salientar a ausência de qualquer banda sonora indutora de estados emocionais - exceptuando uma composição de Mozart determinante para o argumento -, mais uma prova de que esta aula não quer deixar conclusões óbvias nem definitivas, e ainda bem.