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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

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O herói acidental

Apesar do título e da história de resiliência após a tragédia baseada em factos reais, "STRONGER - A FORÇA DE VIVER" está uns furos acima do relato edificante tão ao gosto de Hollywood. Mérito de David Gordon Green, que propõe um drama quase sempre enxuto, e de um Jake Gyllenhaal a confirmar, mais uma vez, que é dos actores imprescindíveis da sua geração.

 

Stronger

 

Depois de "Patriots Day - Unidos Por Boston", de Peter Berg, estreado no início do ano, os atentados que abalaram os EUA a 15 de Abril de 2013 voltam a ter repercussão no grande ecrã. "STRONGER - A FORÇA DE VIVER" também parte dos acontecimentos que se seguiram à explosão de duas bombas durante a maratona de Boston, mas, ao contrário do filme protagonizado por Mark Wahlberg, afasta-se dos códigos do thriller para se concentrar num drama familiar, às vezes quase de câmara, partindo da história de vida de um dos feridos.

 

Uma das mais de 250 vítimas da acção terrorista, Jeff Buman, de 27 anos, contou-se entre os feridos graves e teve as pernas amputadas logo após ter sido hospitalizado. Mas enquanto tentava lidar com a perda foi rapidamente promovido a herói local (e pouco depois nacional) e a símbolo inspirador de triunfo sobre a adversidade, tanto pela ajuda na identificação dos autores do crime como por não se ter deixado demover pela sua nova condição física.

 

Se com esta premissa o filme de David Gordon Green estava lançado para ser mais uma crónica de um caso da vida, especialmente conturbado e com desculpa para apelar à comoção sem grandes reservas, o resultado é um drama quase sempre inesperadamente contido, que nem precisa de fugir muito a uma fórmula demasiado reconhecível para oferecer uma abordagem subtil e envolvente.

 

Stronger_2

 

"STRONGER - A FORÇA DE VIVER" pode não inventar nada ao acompanhar, de forma atenta, às vezes até exaustiva, o longo e árduo processo de recuperação (parcial) do protagonista, mas o realizador norte-americano, com um percurso inicialmente aclamado por "George Washinton" (2000) e entretanto a perder o rumo em escorregões ocasionais como "Alta Pedrada" (2008), mostra-se aqui bastante seguro enquanto trata todas as personagens e situações com rigor e respeito, dispensando a vitimização, a condescendência ou um deslumbramento de coração nas mãos.

 

Claro que também ajuda ter no elenco um protagonista a cargo de Jake Gyllenhaal, capaz de conceder humanidade e sobriedade ao que noutros casos poderia resumir-se a um desempenho feito de tiques e esgares. "STRONGER - A FORÇA DE VIVER" recusa olhar para Buman como o arquétipo que o circo mediático instalou e o actor principal faz inteira justiça a essa opção, atribuindo à personagem uma espessura emocional que também vinca os desempenhos de Tatiana Maslany e Miranda Richardson.

 

A primeira, no papel de companheira do retratado, pode ganhar aqui uma merecida visibilidade global que uma série de culto como "Orphan Black" não lhe possibilitou (mesmo que lhe tenha garantido o Emmy de Melhor Actriz). A segunda é uma secundária de luxo como mãe-galinha amparada pelo álcool e encantada com a porta aberta pela popularidade do filho.

 

Jake Gyllenhaal, Miranda Richardson, and Tatiana Maslany in STRONGER. Photo credit: Scott Garfield; Courtesy of Lionsgate and Roadside Attractions

 

Um dos aspectos mais interessantes do filme é, aliás, o contraste entre a esfera pessoal e a pública, ponto de tensão do trio que constitui o centro narrativo. E há que reconhecer alguma coragem neste olhar inspirado pelo livro biográfico do próprio Jeff Bauman, escrito com Bret Witter, que não se esquiva aos momentos mais constrangedores e dolorosos das cenas domésticas (sem cair numa montra pronta-a-chocar) e que sugere que a relação de dependência extrema do protagonista com a namorada se tornou mais evidente pelo seu estado físico, mas já vinha de trás - e aqui quaisquer tentações de heroísmo são colocadas de parte quando Gordon Green sublinha a imaturidade e conformismo da personagem principal.

 

"STRONGER - A FORÇA DE VIVER" consegue um efeito ainda mais genuíno ao convocar actores não-profissionais para os papéis de familiares, amigos e colegas de Bauman, muitos deles conhecidos do próprio, para desenhar um cenário comunitário verosímil. Só se lamenta que esta procura de realismo acabe por não se manter até ao final, já que nos últimos minutos o drama vai cedendo ao tom algo panfletário e populista que tinha evitado (e até criticado) ao longo de boa parte da sua duração, num remate tão épico como desajustado. Mas se o grande filme que as intenções e as interpretações mereciam não chega a ganhar forma, o filme possível ainda é bem melhor do que muita encomenda feita à medida das estatuetas douradas - venham elas, então, ou pelo menos duas ou três nomeações...

 

3/5

 

 

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