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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

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O império da telenovela

TV STILL -- DO NOT PURGE -- EMPIRE: Lucious (Terrence Howard) toasts his family in the "Devil Quotes Scripture" episode airing Wednesday, Jan. 21 (9:00-10:00 PM ET/PT) on FOX. Pictured L-R: Jussie Smollett, Serayah McNeill, Taraji P. Henson, Bryshere Gray

 

"EMPIRE" sabe como chamar a atenção. Não é qualquer série que pode dar-se ao luxo de juntar gente como Courtney Love, Snoop Dog, Macy Gray, Naomi Campbell, Cuba Gooding Jr., Rita Ora e Jennifer Hudson na lista de convidados ou de recrutar Timbaland para assinar uma banda sonora original. Terrence Howard e Taraji P. Henson como protagonistas - juntos depois de "Hustle & Flow", drama independente nomeado para os Óscares em 2005 - são uma aposta promissora e as audiências nos EUA têm correspondido, com recordes pelo caminho e uma segunda temporada já assegurada.

Mas se os criadores da série, Lee Daniels (realizador de "Precious", "The Paperboy - Um Rapaz do Sul" e "O Mordomo") e Danny Strong (actor de "Buffy, A Caçadora de Vampiros" antes de se tornar argumentista), tiveram habilidade e sobretudo meios para juntar ingredientes fortes, ou pelo menos com potencial, não se mostram assim tão inspirados na forma como os combinam. Isto porque a sensação que fica da primeira meia dúzia de episódios é a de estar aqui uma telenovela com valores de produção invejáveis, a deixar que os cenários e adereços se imponham demasiadas vezes a uma saga familiar pouco arrojada.

O drama arranca quando Lucious Lyon (Howard), CEO da Empire Entertainment, grande editora de hip-hop, soul e R&B, descobre que tem uma doença terminal, desafiando os três filhos a mostrar que merecem assumir o cargo. O mais velho, homem de negócios da empresa, é também o mais decidido a lutar pela sucessão e o principal instigador (com a ajuda da mulher) do jogo de intrigas que vai afectando a relação entre o irmão do meio, cantor R&B talentoso mas pouco ambicioso, e o mais novo, jovem artista hip-hop em início de carreira e o mais desregrado. Quem também entra na disputa, mas sem ser convidada, é Cookie, a ex-mulher de Lucious e mãe dos três rapazes, acabada de sair da prisão depois de mais de uma década.

 

empire

 

Cookie, na pele de Taraji P. Henson, é também, e com uma distância considerável, o melhor que "EMPIRE" tem para oferecer, numa sintonia feliz entre uma personagem desbocada, confiante, possessiva e exuberante e uma actriz capaz de lhe dar corpo e alma sem a reduzir a uma caricatura garrida (e nem sempre será fácil, até porque o guarda-roupa é todo um programa e dá luta à faceta mais camp de "Como Defender um Assassino").

Se Taraji P. Henson tem garra e convicção (temperadas por alguma vulnerabilidade revelada aos poucos), tem ainda a sorte de protagonizar alguns dos diálogos mais vivos e espevitados, frequentemente divertidos, e assim conseguir roubar a maioria das cenas em que entra. O pior são as outras, entre um drama familiar com um novelo de segredos e mentiras já demasiado visto, uma vertente criminal sem grande nervo e um olhar quase sempre simplista sobre os bastidores da indústria musical (com direito a discussões datadas sobre autenticidade e oportunismo que, de qualquer forma, não fariam sentido numa série com medo de apostar em música ao vivo, mesmo quando o palco é o cenário).

No meio de uma trama mais intrincada do que complexa, há algumas ideias meritórias, como a abordagem da homossexualidade no universo do hip-hop. Mas vale mais pela intenção do que pelos resultados, como é logo sugerido no primeiro episódio, com um flashback histérico e típico, lá está, de uma banal telenovela (nem falta a banda sonora puxa-lágrimas, aí sem as habituais batidas de Timbaland). E mesmo o namorado do filho gay do clã, por exemplo, acaba reduzido a um estereótipo, com uma presença tão decorativa como a personagem (?) inacreditável de Naomi Campbell. A modelo não é a única convidada mal aproveitada até agora: Courtney Love começa melhor, como cantora veterana caída em desgraça e entregue às drogas (qualquer semelhança com a realidade não será coincidência, como outras da série), mas o primeiro episódio em que participa desperdiça-a quando só a usa para mostrar como Cookie é a melhor no que faz. A solução para a depressão é apresentada com tanta ligeireza que volta a limitar o entusiasmo encorajado pelos ocasionais bons momentos. Apesar deles, da produção e ritmo bem oleados e da entrega de Taraji P. Henson, a fusão entre a herança de "Dinastia" e um videoclip de hip-hop talhado para a MTV está, para já, a precisar de uma remistura...

 

 "EMPIRE" estreia esta quinta-feira, às 22h20, na Fox Life, com episódio duplo.