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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

O segredo dos seus olhos

Valeu a pena esperar para ver "Looking: The Movie" no grande ecrã, o filme de encerramento do QUEER LISBOA 20. Mas antes houve outras surpresas no festival que passou pelo Cinema São Jorge e pela Cinemateca nos últimos dias - como as quatro abaixo, para juntar a estas:

 

looking

 

"LOOKING: THE MOVIE", de Andrew Haigh: Num filme que surgiu para fechar pontas soltas - as das histórias de três amigos gay de São Francisco ao longo de duas temporadas da série homónima -, faz sentido que o seu protagonista queira fazer o mesmo com a sua vida pessoal, regressando ao lugar onde foi (in)feliz para encerrar capítulos amorosos e poder seguir em frente. E logo aí esta transição da produção da HBO para outro formato começa por ganhar um espaço próprio, ao ser simultaneamente um fim de ciclo e um recomeço, funcionando como a tal prenda para os fãs que o canal norte-americano tinha prometido mas conseguindo impor-se como objecto independente, tendo o seu próprio arco narrativo e abrindo a porta a novos adeptos.

 

Embora a cena final da série já fosse um desenlace memorável (talvez até mais do que o que o desta extensão), "LOOKING: THE MOVIE" não é uma mera desculpa para voltar a juntar o elenco e dizer adeus de vez - ao contrário, por exemplo, da obra de abertura do festival. Tratando-se de um telefilme, compreende-se que a nível formal não se distancie muito da série, o que não será uma limitação quando o material de base já contava com episódios invulgarmente cinematográficos. Esta hora e meia pode não ter a inspiração dos melhores, mas a duração mais longa dá-lhe um fôlego do qual se sentia falta demasiadas vezes nos 30 minutos semanais. Isso não quer dizer que não saiba a pouco em alguns momentos (Dominic, em especial, tem uma presença menos preponderante), pormenor apesar de tudo desculpável quando o resultado deixa um olhar tão conseguido sobre a solidão e a cumplicidade - e o salto do medo para a entrega - a partir dos (re)encontros de Patrick.

 

Tal como na série, o tom é melancólico mas caloroso, à altura de um protagonista angustiado mas capaz de manter o idealismo. E Haigh acompanha-o com humor certeiro e referências às vezes sucessivas à cultura pop, armas prontas a disparar quando os diálogos ameaçam derrapar para dicas de auto-ajuda. Se estes são ágeis e credíveis, os olhares não têm menos impacto, sobretudo os que Patrick troca com Kevin e Richie em dois momentos-chave da sua história - decisivos para o impacto emocional que o filme vai deixando entre cenas mais ligeiras. E quando os olhares dão lugar a algumas das palavras mais agrestes, numa discoteca, Haigh dá uma bofetada de luva branca a muitos detractores da série - cortesia da desbocada Doris -, deixando claro que, em vez querer ser porta-estandarte de uma forma legítima de representação de uma comunidade, está mais interessado em reflectir emoções universais através de retratos individuais. Como qualquer boa história, LGBTI ou não, no pequeno ou no grande ecrã.

 

 

barash

 

"BARASH", de Michal Vinik: Não falta charme a esta primeira longa-metragem do realizador israelita, seja o da actriz principal (Sivan Noam Shimon), perfeitamente convincente como adolescente com garra mas entediada face à rotina de uma pequena localidade, seja o atrevimento que passa da protagonista para um filme que nunca se leva muito a sério, mesmo tendo o conflito israelo-árabe nas imediações. Só que esse capital de simpatia, que não é de se deitar fora, nem sempre chega para seguir com mais do que mera curiosidade o que é, na essência, um drama coming of age (a caminho do coming out) relativamente convencional. A relação entre duas raparigas não domina os acontecimentos tanto como se esperaria à partida, mas ainda assim parece pouco mais do que um sucedâneo de "A Vida de Adèle", repetindo a dinâmica e até uma cena de sexo que deixa pouco para a imaginação (ainda que seja muito mais descontraída e sucinta do que a do filme de Abdellatif Kechiche). Entre o humor seco do quotidiano familiar, o mistério de uma irmã desaparecida e a iniciação no álcool e nas drogas, com um segmento mais declaradamente político (e satírico) pelo meio, o filme não se fica pelo drama conjugal, só que também não chega a aprofundar outros cenários com grande profundidade. Nem outras personagens, quase todas esquemáticas, num relativo desperdício de elenco do qual só a protagonista sobressai como figura de corpo inteiro - mas que deixa, de qualquer forma, alguma vontade de ver mais da actriz e do realizador.

 

 

goat

 

"GOAT", de Andrew Neel: Começa como um thriller intrigante sobre a violência, a dominação e o trauma, escorrega de forma demasiado abrupta para territórios de um after-school special pronto-a-revoltar, com debate encomendado para o final da sessão. Ecorrega mas, apesar de tudo, não cai nas piores armadilhas de um caso da vida da experiência universitária numa fraternidade norte-americana, com a possibilidade de explosão e/ou tragédia por perto. O realizador norte-americano, na sua segunda longa-metragem, é metódico, para não dizer exaustivo, na apresentação dos rituais de subjugação e humilhação a que muitos caloiros se sujeitam, e o esforço não resulta inglório quando tem actores seguros no centro: Ben Schnetzer como protagonista que recusa o papel de vítima, Nick Jonas (sim, o cantor) na pele de irmão esquivo, dividido entre o papel de agressor e protector. Infelizmente, a relação entre a dupla, bem construída e desenvolvida, não tem paralelo noutros aspectos do que fica sobretudo como um filme de denúncia, incapaz de manter a ambiguidade no retrato dos estudantes-carrascos, papéis entregues a actores menos confiáveis (ou que não têm grande oportunidade de mostrar o que valem em personagens-tipo, descontando um cameo surpreendente de James Franco, também produtor do filme). É pena quando pelo caminho ficam algumas boas ideias de realização e montagem (como uma sequência numa pista de atletismo), assim como um olhar sobre a brutalidade que recusa a histeria dramática.

 

 

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"SPA NIGHT", de Andrew Ahn: É raro encontrar um realizador que saiba tão bem o que e como dizer logo na primeira longa-metragem, tomando o tempo necessário para apresentar os seus espaços e figuras, desenhando e mantendo um tom - aqui contemplativo, de emoções rarefeitas, silêncios e sussurros, sem no entanto cair no hermetismo nem na auto-indulgência. Talvez porque Andrew Ahn seja tão controlado (não confundir com certinho) como o protagonista deste drama assumidamente pessoal, ou não fosse também ele um norte-americano de ascendência sul-coreana. Tímido e circuspecto, David encontra-se dividido não só entre culturas mas principalmente entre expectativas, sobretudo familiares, ao tentar manter-se como filho modelo enquanto tenta dominar a sua (homos)sexualidade a par de aspirações profissionais diferentes das traçadas pelos pais. Mas em vez de carregar em mais um relato de discriminação, Ahn prefere debruçar-se na falta de comunicação e nas desilusões do sonho americano, motores da vida dupla do protagonista - que começa a trabalhar num spa coreano de Los Angeles, palco da sua descoberta sexual, durante o horário em que supostamente estaria na universidade paga pela família. Com uma beleza plástica evidente, mas nada exibicionista, em especial nas cenas nocturnas de tons azulados, "SPA NIGHT" é um exemplo de rigor visual em sintonia com um desenvolvimento dramático ao qual também não faltam subtilezas - incluindo algumas viragens narrativas, seja o rumo do reencontro com um amigo de infância ou o desenlace apropriadamente implosivo. Essencial é também a cumplicidade do elenco nuclear, do desespero surdo dos pais (até certo ponto) ao jovem actor Joe Seo, com uma expressão dificil de decifrar e por isso perfeita para um protagonista que tenta esconder-se dele próprio - mas que em última instância se limita a correr num filme para ver com calma.

 

 

taekwondo

 

"TAEKWONDO", de Marco Berguer e Martín Faria: Habitué do Queer Lisboa (e Porto), Marco Berger volta aos seus temas habituais depois de filmes como "Plan B" ou "Ausente": a linha que separa (nas suas histórias, quase sempre fina) a amizade entre homens de sentimentos mais íntimos. Aqui o realizador argentino, ao lado do conterrâneo Martín Faria, fecha um grupo de amigos numa casa durante as férias, com piscina ou sauna incluídas, e é ainda mais obsessivo no escrutínio descomplexado (e descaradamente voyeurista) dos seus corpos. E também bem-humorado sem ser óbvio, cruzando clichés da representação masculina e a sua desconstrução, atirando um homossexual não assumido para um grupo de amigos hetero. Mas serão mesmo? A dúvida instala-se em torno de (pelo menos) um deles e a partir daí o filme faz um jogo de cintura (quase literal) entre o suspense e o romance iniciático, ameaçando clímaxes (em mais de um sentido) mas conjugando a manipulação lânguida com um olhar sensível e cru sobre as relações - entre eles e eles e entre eles e elas, quando as mulheres entram em cena a meio. E de um conjunto de personagens inicialmente estereotipadas vai traçando o perfil de pessoas a sério, acompanhando-as com questões sérias (prontas a desmontar rótulos) no meio do ardiloso jogo de sugestões (e seduções às vezes involuntárias). Com um ritmo tão pausado como as obras anteriores de Berger, o filme mostra um realizador mais do que à vontade na construção de um novelo intimista e mais intrincado do que parece ao primeiro contacto, destacando-se pela precisão dos enquadramentos ou pela espontaneidade do elenco de jovens actores. Só faltou mesmo limar os últimos 15/20 minutos, nos quais já disse tudo o que tinha para dizer e arrasta demasiado a dúvida em torno do par protagonista, com a inquietação a abrir espaço ao desinteresse - neste caso, o melhor são mesmo os preliminares...