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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

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O silêncio dos culpados

Embora estreie em Portugal com três anos de atraso, "A TRIBO" mantém-se tão implacável e inimitável como quando deu que falar em Cannes, em 2014. Mas apesar de ter alimentado muitas conversas, a primeira longa-metragem do ucraniano Myroslav Slaboshpytskyi sobressai por prescindir de qualquer palavra.  

 

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Os detractores de uma das maiores surpresas do cinema europeu dos últimos anos podem não ver aqui mais do que um filme-choque, e se Myroslav Slaboshpytskyi oferece pelo menos um par de sequências que até podem legitimar esse argumento, também será forçoso reconhecer que o faz com uma mestria ao alcance de poucos - de poucos cineastas veteranos e de ainda menos estreantes.

 

A proposta, admita-se, é desde logo extrema ao recusar a palavra, optando exclusicamente pela linguagem gestual (sem legendagem ou narração em off) ao acompanhar o quotidiano de um internato de surdos-mudos nos arredores de Kiev. E faz coincidir a entrada do espectador naqueles corredores silenciosos com a chegada de um novo aluno, seguindo o seu processo de integração num sistema rígido, fechado e agressivo, vincado por uma rede paralela na qual os colegas se dedicam a assaltos ou à prostituição.

 

Ao longo de duas horas, "A TRIBO" atira-se assim um relato coming of age especialmente cru e claustrofóbico, ainda que Slaboshpytskyi aposte numa realização relativamente arejada ao optar pelos planos de conjunto, mantendo a distância do grupo de jovens enquanto os acompanha num equilíbrio de planos fixos planos-sequência estranho ao primeiro embate, mas progressivamente intrigante. 

 

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A atenção metódica aos corpos e gestos de jovens actores (não profissionais embora credíveis nas suas inquietações), que ao início pode parecer uma limitação, chega e sobra para conferir ao filme uma energia própria e sem grandes paralelos, num desafio invulgar ao papel do espectador, aqui obrigado a tentar descodificar uma linguagem que não compreende (e a colocar-se assim, de certa forma, no lugar das personagens, também elas ostracizadas pela forma de comunicar maioritária).

 

Mas esta está longe de ser uma experiência hermética, uma vez que Slaboshpytskyi não só apresenta uma narrativa linear, apesar da atmosfera alienante, como vai dando pistas de interpretação enquanto consolida o dispositivo formal. Nesse processo deixa algumas sequências de antologia, com destaque para uma tão abrupta como terrível num parque de camionistas, à noite (que dá conta da especificidade sensorial do filme e das personagens). Por outro lado, as cenas de sexo entre o protagonista e a sua companheira ocasional são dos poucos refúgios emocionais de uma história duríssima, além de raros vislumbres de inocência e vulnerabilidade de jovens obrigados a crescer demasiado depressa (e que às vezes não andam longe de alguns "kids" de Larry Clark na sua amoralidade).

 

Entres estes momentos inspirados, "A TRIBO" ameaça derrapar a espaços para o voyeurismo miserabilista, cenário talvez mais evidente na sequência sem cortes de um aborto (em todo o caso, devidamente impressionante e com duas actrizes à altura). Mas se essa tentação talvez desequilibre o filme, não chega a ameaçar a solidez de uma estreia corajosa e de um exercício de realismo rigoroso e austero, ao qual nem falta um desenlace coerente: ou seja, capaz de deixar o espectador sem palavras.