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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

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Pedaços de uma vida (pintados a óleo)

"A PAIXÃO DE VAN GOGH" é, indiscutivelmente, um dos maiores triunfos técnicos a chegar às salas este ano, capaz de dar novas possibilidades ao cinema de animação. Mas além do deslumbre visual evidente, Dorota Kobiela e Hugh Welchman conseguem oferecer um olhar bem recomendável sobre o malogrado pintor holandês.

 

Loving Vincent

 

É difícil não louvar a ousadia e dedicação de um filme que demora mais de cinco anos a ser feito, convocando 125 artistas para resultar na primeira longa-metragem de sempre integralmente pintada a óleo, partindo tanto de várias obras de Vincent Van Gogh como de cenas filmadas em imagem real e posteriormente ilustradas à mão - chegando aos cerca de 65 mil fotogramas.

 

Foi este o empreendimento que envolveu o casal composto pela polaca Dorota Kobiela e pelo britânico Hugh Welchman, ambos já com experiência no universo do cinema de animação e que podem ter aqui o projecto de uma vida. Ou pelo menos um virar de página incontornável tanto no seu currículo como na forma como é pensada e encarada a ponte entre a ilustração e a sétima arte.

 

Mas mais interessante do que apontar em "A PAIXÃO DE VAN GOGH" um marco técnico é constatar que a dupla de realizadores conseguiu não perder de vista o essencial: saber contar uma história através de imagens, estando à altura do desafio imposto pelo formato da longa-metragem - opção particularmente arriscada num caso que poderia ficar-se pelo exercício de estilo para se fazer notar, e que por isso mesmo talvez fosse mais compatível com a curta ou média duração.

 

Loving Vincent 2

 

Felizmente, o resultado também consegue ter uma identidade bem vincada na abordagem narrativa, esquivando-se ao modelo de biopic mais expectável ao optar por uma investigação detectivesca para chegar a um olhar multifacetado sobre o retratado (que vai tendo aparições nos muitos flashbacks a preto e branco entre o novelo quase policial). Se é verdade que Van Gogh surge aqui como artista à margem, tão incompreendido durante a vida como o que habitualmente se diz sobre ele, o filme vai dando a conhecer outros pontos de vista sobre a sua figura e quotidiano na pequena localidade francesa onde passou os últimos dias.

 

O protagonista até acaba por ser o filho do carteiro do pintor, que tem como missão entregar a sua última carta ao irmão, Theo Van Gogh, jornada que vai moldando um núcleo de personagens inspiradas em figuras reais das pinturas mais emblemáticas do artista holandês. Desse contraste nasce uma proposta irrecusável para conhecedores do legado do pintor, mas nem é preciso estar particularmente familiarizado com a sua obra para aderir ao jogo - que conta ainda com as dúvidas entretanto lançadas sobre as causas da morte de Vincent, quando a hipótese de homicídio vai ganhando terreno à de suicídio.

 

Loving Vincent 3

 

Se "A PAIXÃO DE VAN GOGH" surpreende e convence, e é completamente merecedor da experiência em sala, o mérito não se esgota num processo de animação nascido de uma paciência e empenho colectivo invulgares. O trabalho de vozes, por exemplo, entre as quais constam as de Douglas Booth, Jerome Flynn ou Saoirse Ronan, ajuda a tornar aquelas figuras mais palpáveis, assim como um argumento e diálogos que não as encerram em personagens-tipo. E depois há a banda sonora do habitualmente confiável Clint Mansell, emotiva sem forçar a nota e um recurso que complementa as imagens em vez de ser uma presença intrusiva (essa conjugação leva, aliás, a algumas das cenas mais envolventes).

 

Autores do que é claramente um "labour of love", Dorota Kobiela e Hugh Welchman talvez exagerem, a espaços, na reverência ao artista que homenageiam mais do que retratam, sobretudo num final que também não esconde as limitações do modelo de investigação policial, embora nada disso chegue a comprometer que esta paixão seja mais facilmente partilhada do que questionada - nem que esteja aqui um dos filmes mais bonitos do ano, com a vantagem adicional de não se deixar embasbacar com a sua própria beleza.

 

3,5/5

 

 

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