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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

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Quando cai a noite na cidade

Mais do que a carta de despedida (involuntária) ao actor protagonista, Anton Yelchin, ou uma ode (nada turística) à Invicta, "PORTO" é um olhar muito curioso sobre o lado mais arbitrário e angustiante das relações amorosas. E no seu melhor é também um retrato visceral como poucos, sobretudo tendo em conta que se trata da estreia na ficção do realizador Gabe Klinger.

 

Porto

 

Será difícil olhar para "PORTO" sem pensar, e de forma recorrente, que foi dos últimos filmes de Anton Yelchin, morto num acidente de automóvel em 2016, aos 27 anos. Até porque o sentimento de perda percorre os três capítulos desta história, centrada num caso de uma noite entre um norte-americano que vive de biscates e uma francesa estudante de Arqueologia. A estrutura não-linear insinua que o desfecho não vai ser o mais animador, mas a melancolia e a solidão já marcam o percurso dos protagonistas antes desse breve encontro (e o filme, com uma duração de uns económicos 76 minutos, é condizente com essa brevidade).

 

De qualquer forma, se a despedida abrupta a Yelchin concede a este drama uma dimensão emocional mais forte e dura, Gabe Klinger revela qualidades que não limitam o resultado a mais um filme póstumo. O realizador brasileiro-americano, que se tinha estreado na realização em 2013 com o documentário "Jogo Duplo: James Benning e Richard Linklater" depois de ter sido crítico de cinema, aventura-se na ficção com uma linguagem que lembra outras épocas e sensibilidades (como a de alguns títulos de Jim Jarmusch, que é aqui produtor ao lado do português Rodrigo Areias) enquanto vai conseguindo esboçar um universo próprio.

 

Porto_Anton_Yelchin

 

Admita-se que o arranque, com uma narrativa fragmentada, obsessivamente turva e por vezes abstracta, parece condenar a experiência ao exercício de estilo legitimado por cauções cinéfilas. Mas essa desconfiança vai-se esbatendo quando "PORTO" não só se torna mais coeso de capítulo para capítulo como concilia muito bem o estado emocional dos protagonistas (que são, aliás, quase as únicas personagens) com a atmosfera da cidade que dá título ao filme. Captada em película de 8, 16 mm e 35 mm, a Invicta surge como o cenário praticamente obrigatório e insubstituível para este romance condenado à partida, atormentado pela ingenuidade e pelo fardo do compromisso.

 

A fotografia granulada de Wyatt Garfield dá outro peso aos ambientes já de si nebulosos, num cenário à medida do jogo de elipses e repetições conduzido por Klinger. Há quem compare o percurso destes amantes ao da trilogia "Before", sobretudo quando o filme anterior do realizador teve Linklater no centro, mas o romance icónico de Jesse e Celine fica quase sempre aquém desta crueza e amargura (nem o humor ocasional dá grandes tréguas ao desconforto).

 

Por outro lado, também é verdade que a aproximação da estrutura de "PORTO" a esses ou outros filmes sobre dilemas conjugais lhe retira algum factor-surpresa quando o dispositivo é apresentado, embora não retire a força de várias cenas partilhadas por Anton Yelchin e Lucie Lucas. Ele, que nos primeiros minutos ameaça personificar o cliché do homem torturado e de costas viradas para o mundo, torna-se comovente pela obstinação e idealismo que o actor russo consegue conjugar sem cair num registo histriónico (será certamente dos seus desempenhos mais intensos). Ela, mais esquiva e contida, tem tanto de femme fatale como de frágil e hesitante, mesmo que talvez não chegue a conquistar a simpatia do espectador. E se alguns diálogos até nem serão dos mais inspirados ou memoráveis, Klinger faz com que o casal também diga muito através dos gestos e olhares, principalmente nos contextos mais íntimos - numa das cenas de sexo mais justas, credíveis e bem filmadas dos últimos tempos, por exemplo.

 

3/5