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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Quando o realismo britânico tem eco universal

Da crítica cerrada ao Estado Social da nova Europa ao drama britânico de tradição realista, "EU, DANIEL BLAKE" mostra que o cinema de Ken Loach continua igual a si próprio. Mas também que o realizador veterano ainda tem muito a dizer, dentro e fora de portas.

 

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Os filmes de Ken Loach que tinham chegado a salas nacionais nos últimos anos, tanto dramas de época ("O Salão de Jimmy", "Brisa de Mudança") como olhares contemporâneos ("A Parte dos Anjos") deixavam evidente que o cineasta octagenário continuava a ser eficaz em retratos realistas, mas não só ficaram aquém de obras que ajudaram a consolidar o seu nome como mantinham, por vezes, as personagens reféns da militância do argumento (ainda que esta tenha feito parte do seu cinema desde a raiz).

"EU, DANIEL BLAKE", que vem interromper a suposta reforma do realizador (anunciada em 2014) e saiu contemplado com a Palma de Ouro em Cannes no ano passado, não pretende, à partida, mudar o estado das coisas, já que não se afasta dos territórios e temáticas habituais de Loach, dando voz àqueles que raramente a têm em cenários que ficam fora da lente de muitos realizadores. Esta história de um carpinteiro de meia-idade que lida com a precariedade laboral em Newcastle até chega a lembrar a jornada acidentada de Peter Mullan em "O Meu Nome é Joe" (1998), desde logo pelo título, o que também se explicará pela partilha do argumentista, Paul Laverty, cúmplice habitual de Loach desde meados da década de 90.

Essa proximidade, no entanto, resulta aqui mais como sinal de coerência de uma obra do que como exercício redundante, seja porque "EU, DANIEL BLAKE" parece ser um exemplo claro do filme certo na altura certa (que dirá tanto a quem mora em Newcastle como em Lisboa) ou porque o argumento, embora algo esquemático (em particular num final que facilmente se adivinha), consegue dar espaço a personagens que são figuras multifacetadas e não meras peças de um ensaio sociológico bem intencionado.

 

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Por cada vez que o filme ronda o miserabilismo, expectável no relato de um homem com um estado de saúde frágil que tenta orientar-se na máquina burocrática da Segurança Social, há quase sempre um momento de descompressão a equilibrar o tom. Geralmente, o efeito é cortesia do actor protagonista, o comediante de stand-up Dave Johns, a conciliar aqui gravidade e irreverência, ou então de um olhar colectivo que finta maniqueísmos associados a profissões, origens sociais ou etnias, dando abertura à cumplicidade e à empatia entre os esquecidos pelo sistema mas também entre estes e alguns dos seus representantes.

De um elenco que não falha uma nota e continua a dar bom nome à escola realista de Loach, vale a pena destacar Hayley Squires na pele de jovem desempregada, mãe solteira de dois filhos, responsável por algumas das cenas mais comoventes (inesquecível, a do Banco Alimentar), nas quais a realização e o argumento nunca traem a dignidade de um olhar que poderia confundir-se com o registo estereotipado de muitos casos da vida.

 

Esse tom justo mantém-se nas sequências com algum humor entre o desespero, como aquelas em que o protagonista se inicia na informática - a lembrar a procura de emprego de Vincent Lindon no também recente "A Lei do Mercado" - e "EU, DANIEL BLAKE" só não é ainda mais convincente porque o desenlace prova que Loach ainda tem a mão demasiado pesada em alguns momentos - o que em nada invalida, de qualquer forma, o misto de angústia e resiliência de um estudo de personagem a não deixar passar.