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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

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Que paródia de férias

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"FORÇA MAIOR" tem suscitado algumas comparações com o estilo de Michael Haneke e até de Lars von Trier ou Stanley Kubrick, e se é verdade que o novo filme de Ruben Östlund chega a sugerir traços desses nomes - sobretudo do primeiro, pela realização clínica e rigorosa a demarcar um olhar seco sobre a natureza humana -, também tempera o drama familiar com um humor que corta parte da frieza emocional.

 

Esse pormenor não é de desconsiderar e ajuda, às vezes muito, a lidar com um retrato a ameaçar tornar-se demasiado distante ou exasperante, ao partir de umas férias em família aparentemente idílicas, numa estância turística nos Alpes franceses, que resultam num teste de resistência quando um susto não causa estragos físicos mas deixa um nervoso miudinho a pairar.

 

Como reagir numa situação limite que também envolve aqueles que nos são mais próximos? O realizador não dá respostas, embora para Ebba, esposa e mãe, a resposta seja óbvia. Óbvia é também a sua desilusão pela reacção de Tomas, o marido, face à situação tensa que instaura o martírio conjugal e consegue, como poucos filmes, deixar o espectador tão desorientado como os protagonistas - ou, no mínimo, a permitir que a dúvida se intrometa em algumas das suas certezas e códigos de conduta ao confrontar instinto, medo e amor.

 

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Do ritmo paciente aos habituais planos fixos de conjunto, alicerçados numa geometria de corpos e cenários, Östlund não deixa nada ao acaso num drama analítico e meticuloso, mas menos sisudo e pessimista do que os de alguns cineastas aos quais tem sido comparado.

Os juízos de valor partem todos das personagens e felizmente nenhuma se destaca como voz óbvia do realizador e argumentista, assim como nenhuma se sujeita a saco de pancada privilegiado de um humor escarninho e incómodo q.b., mas encadeado  num desenvolvimento dramático mais humanista do que parece à partida.

 

Depois de quase duas horas capazes de fintar expectativas, "FORÇA MAIOR" dá-se ao luxo de servir pelo menos dois (bons) finais falsos antes de se decidir por um remate também conseguido, que só peca por ser demasiado conveniente ao forçar o fecho de um círculo, beliscando parte do efeito realista tão bem gerido até aí. Mas tem força suficiente para aguardar com expectativa o próximo filme do seu autor, além de encorajar a descoberta dos três que assinou antes, nenhum com estreia no circuito comercial português. Esta, no entanto, fica já entre as melhores estreias do ano.