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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Sim, senhora ministra

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Na nova grelha da RTP2 há pelo menos um exemplo do que poderá aproximar-se de uma ideia de serviço público. "BORGEN", a iniciar nesta segunda-feira a segunda temporada, não chega para compensar as péssimas telenovelas nacionais mascaradas de séries que infestam o horário nobre do primeiro canal, mas já é um princípio. Até porque, a julgar pelos primeiros dez episódios, esta produção dinamarquesa não desmerece os muitos prémios internacionais, os elogios de fãs como Stephen King ou Hillary Clinton e traz uma lufada de ar fresco à abordagem dos meandros da política.

 

De certa forma, está aqui o antídoto perfeito para "House of Cards", embora a série criada em 2010 pelo argumentista Adam Prince e produzida pela equipa da versão original de "The Killing" seja habitualmente comparada a "The West Wing", na qual se inspirou em parte. Se a saga protagonizada por Kevin Spacey insiste num cinismo sem fim à vista, com a podridão do sistema político a emergir como verdade absoluta e inescapável, "BORGEN" (nome do castelo de Copenhaga que acolhe o Parlamento, o gabinete do primeiro-ministro e o Supremo Tribunal) aposta num idealismo que se diria fora de moda, utópico e ingénuo, não fosse o caso de ser desenvolvido com uma subtileza e inteligência menos constantes em muitas propostas do outro lado do Atlântico.

 

Birgitte Nyborg, a candidada a primeira-ministra pelo Partido Moderado que acaba por ocupar o cargo nos  episódios iniciais, está bem mais interessada em tomar as decisões certas do que em quaisquer regalias pessoais, apesar de a decisão certa se ir tornando cada vez mais difícil de identificar e, sobretudo, de colocar em prática.

 

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Mas mesmo quando vê o cerco a apertar, tanto na vida profissional como familiar, Nyborg recusa-se a entrar em qualquer modelo determinista que tornaria "BORGEN" em mais uma denúncia fácil da corrupção do sistema. Não é que este seja impoluto, como a série também mostra através das muitas jogadas de bastidores, com o oportunismo de alguns ministros ou figuras da oposição a sobrepor-se a qualquer esboço de altruísmo. A diferença está no difícil equilíbrio entre humanismo e ambiguidade moral que a acção consegue manter sem nunca reduzir as personagens a bandeiras nem as suas relações a uma série de esquemas.

 

A protagonista pode revelar-se cada vez mais pragmática, calculista e intransigente, tanto no trabalho como em casa, mas essa transformação gradual parece sempre orgânica, tão genuína como a crise conjugal sugerida no arranque e confirmada nos últimos episódios. O mesmo pode dizer-se dos arcos narrativos das outras duas personagens principais: um assessor de imprensa enigmático, cínico e impulsivo e a ex-namorada deste, uma jornalista televisiva cujo idealismo supera o de Nyborg. Dos três, a pivot e repórter é a que mais se arrisca a cair na caricatura, embora a escrita e direcção de actores, ambas impecáveis, confiram credibilidade a estas figuras e ao que as move - uma atenção também visivível nos secundários, incapazes de falhar uma nota ao desenharem personagens com mais mundo do que as suas profissões.

 

Com a dinâmica dos episódios a partir quase sempre da ligação entre este trio, "BORGEN" acaba por ser também um retrato das relações (muitas vezes promíscuas) entre a política e a imprensa, aqui apresentado sem tiques didácticos ou sobranceiros. Aliás, o olhar sobre as instituições só funciona por estar ancorado num novelo dramático com uma óptima sintonia entre razão e emoção, em que o rigor convive muito bem com a empatia. Frieza nórdica, só mesmo à superfície.

 

"Borgen" é emitida na RTP2, de segunda à sexta, às 22 horas.