Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Licença para gozar (revista e renovada)

Se "KINGSMAN: O CÍRCULO DOURADO" já não tem o efeito surpresa do primeiro filme, é uma sequela que sai a ganhar no equilíbrio entre humor, acção e puro delírio. E comprova, mais uma vez, Matthew Vaughn como um nome à parte entre os tarefeiros de Hollywood.

 

kingsman

 

À segunda, a piada ainda funciona. E até funciona melhor. Depois de "Kingsman: Serviços Secretos" ter adaptado, há três anos, a paródia a histórias de espionagem criada na BD por Mark Millar e Dave Gibbons, a segunda aventura resulta numa proposta menos inesperada mas ligeiramente mais consistente, que sugere estar aqui uma alternativa bem viável às missões de 007.

 

A organização britânica que dá nome à saga tem inspiração directa na fase clássica de James Bond no cinema e a abordagem de Vaughn, fiel à matriz dos comics, mostra como se faz aos últimos capítulos do agente secreto que tem sido interpretado por Daniel Craig - e em particular a um filme como "007 Spectre", um dos blockbusters mais penosos dos últimos anos.

 

"KINGSMAN: O CÍRCULO DOURADO" não se contenta em ser um mero sucessor do capítulo inaugural e quer ser um filme mais longo, com mais personagens, mais subenredos, mais aparato tecnológico e mais situações-limite de recorte cartoonesco (destaque inevitável para uma especialmente mirabolante, na neve, com punchline à altura). E talvez tenha ainda mais violência gratuita, mesmo que não ofereça sequências tão sangrentas como as que marcaram o início da saga comandada pelo realizador britânico. O que não quer dizer que não pise o risco de outras formas, desde logo ao encaixar numa trama de espionagem assumidamente exagerada um olhar - simplista, mas ainda assim contundente - sobre a liberalização das drogas.

 

Kingsman2

 

Claro que quem se aventurar nesta sequela com alguma expectativa de realismo poderá dar o tempo por perdido, mas admita-se que este é um pastiche que não pretende levar ninguém ao engano. Apesar das alusões ao narcotráfico ou ao cenário político internacional, o filme é escapismo descarado e que não pede desculpas por isso, e decididamente não aconselhável aos mais sensíveis (o arranque graficamente explícito deixa logo esse ponto bem assente).

 

Felizmente, o que noutras mãos poderia limitar-se a um desfile de pirotecnia espampanante, ruidosa e repetitiva ganha aqui um ritmo e uma energia imparáveis e entusiasmantes, com Vaughn a conseguir passar o gozo evidente do argumento e do elenco para lá do ecrã. E isso é particularmente meritório quando o filme tem o descaramento de ultrapassar as duas horas de duração sem acusar grande cansaço, mesmo que o último terço não consiga disfarçar a estrutura formulaica (mas até no obrigatório confronto final há aqui um realizador acima de boa parte da concorrência, capaz de disparar cenas de acção esfuziantes sem deixar o espectador desorientado ou atordoado).

 

Também será justo reconhecer que Vaughn já fez melhor: "Kick Ass: O Novo Super-Herói" e "X-Men: O Início" eram filmes mais ambiciosos, inventivos e autónomos. O elenco de luxo de "KINGSMAN: O CÍRCULO DOURADO", por exemplo, está lá mais para encher a vista e funcionar como chamariz. As personagens de Channing Tatum, Halle Berry e Jeff Bridges, introdução à curiosa faceta norte-americana de uma saga inicialmente "very british", demoram algum tempo a ser apresentadas mas não são especialmente trabalhadas (e quase se limitam a fazer a ponte com a sequela já garantida).

 

Kingsman3

 

Julianne Moore experimenta outros ares na pele de vilã pérfida, e sai-se bem nos requintes de malvadez, mas fica a sensação de que a sua Poppy podia ter ido mais longe (Emily Watson, num pequeno papel, consegue fazer mais com menos). E a forma meio arbitrária como a saga lida com a morte quebra boa parte dos riscos destas missões, por muito que o lado paródico seja intencional e que o regresso de Colin Firth (não será um spoiler referi-lo quando está no material promocional) seja uma mais-valia para o filme - a relação do mentor com o protagonista continua a gerar momentos dramaticamente fortes, tão calorosos como melancólicos, o que não deixa se ser surpreendente numa história marcada pela irrisão.

 

Além desta mistura de ingredientes, "KINGSMAN: O CÍRCULO DOURADO" ainda encontra espaço para uma participação de Elton John que não se fica por um cameo e realça a faceta delirante deste capítulo. E quando a música do britânico complementa sequências de acção, esta sequela chega a lembrar outro dos bons regressos do ano que tem um dos trunfos na banda sonora: "Guardiões da Galáxia 2". Só é pena que tanto um caso como outro sejam a excepção e não a regra num cenário de filmes pipoca cada vez mais derivativos e insípidos. Aproveitemos para saborear o atrevimento enquanto dura...

 

3/5

 

 

Caminho para a salvação

Ancorado numa das melhores interpretações de James Franco, "O MEU NOME É MICHAEL" adapta uma história verídica que parte de um conflito interior entre espiritualidade e (homos)sexualidade. A viagem identitária é irregular, mas recompensadora.

 

I_Am_Michael

 

Quando boa parte do cinema LGBTI ainda insiste em repetir variações sobre relatos coming out ou boy meets boy, a estreia de Justin Kelly nas longas-metragens tem desde logo a vantagem da premissa.

 

A vida de Michael Glatze, activista e jornalista gay com um percurso marcado pela defesa dos direitos homossexuais (incluindo a criação de uma publicação temática) que acabaria por se tornar num pastor cristão fundamentalista, é um ponto de partida aliciante para um biopic. O nome de Gus Vant Sant na produção executiva também é promissor. E o elenco, encabeçado por um James Franco surpreendente ao lado dos confiáveis Zachary Quinto e Emma Roberts, ajuda ainda mais.

 

Mesmo assim, "O MEU NOME É MICHAEL" é daqueles casos em que a execução fica uns furos abaixo do mote, a que não será alheio o facto de se tratar de uma primeira obra. Baseado num artigo da The New York Times Magazine escrito por Benoit Denizet-Lewis, antigo amigo do protagonista, o filme tem sido criticado, e com alguma razão, pela vertente demasiado episódica ou pela narração em off (sobretudo na primeira metade). Mas se estes recursos são duas das maiores limitações de dramas biográficos, aqui quebram algum do potencial sem retirarem a força de um estudo de personagem atípico.

 

I_am_Michael_2

 

O olhar digressivo sobre vários anos do retratado impede que algumas fases sejam tão explorados como mereciam, embora não comprometa a espiral descendente que o desempenho de James Franco ajuda a tornar credível e suficientemente inquietante - e a voz off até se perdoa quando é uma porta de entrada para os posts do blog de Glatze, aos quais o realizador recorre de forma comedida.

 

Além da pontaria para o tema e elenco, o maior trunfo de Justin Kelly é a resistência a maniqueísmos numa história que poderia ser facilmente reduzida a um tom sensacionalista ou a um panfleto LGBTI. "O MEU NOME É MICHAEL" opta pela empatia e pela ambiguidade, mantendo o espectador ao lado do protagonista sem se conformar com um relato acrítico - pelo contrário, é bastante directo ao apontar a estranheza que vai dominando Glatze na segunda metade do filme, tendo o mérito adicional de contar com um actor capaz de a agarrar sem histrionismos.

 

Do tom inicial mais garrido, vincado por uma montagem electrizante q.b. e uma intromissão documental oportuna, até à implosão que se segue no confronto com a vertigem da morte, o retrato acaba por conseguir traduzir a visão de um homem cuja necessidade de pertença surge atormentada pela dúvida e pela fuga obstinada a rótulos, sejam religiosos ou sexuais. E enquanto acompanha o seu desespero ao tentar conjugar dois mundos aparentemente incompatíveis, apresenta um realizador interessado em dar novos mundos ao cinema queer (como "King Cobra", o filme seguinte, também com James Franco, confirmou no ano passado - embora tenha chegado a Portugal apenas pela Netflix).

 

3/5

 

 

Primavera Árabe ou Verão escaldante?

Entre o drama e o thriller, "CLASH" escapa às armadilhas do filme de denúncia ao mergulhar nas consequências da Primavera Árabe no Egipto. Mohamed Diab, que já tinha dado eco à revolução em "Cairo 678" (2010), volta a afirmar-se como uma das vozes do país a ouvir - e também a ver em estreias aconselháveis como esta.

 

clash

 

Dezenas de pessoas detidas numa carrinha da polícia ao longo de hora e meia - tempo que o espectador acompanha, uma vez que para as personagens o enclausuramento é bem mais longo. Podia ser a premissa de uma série B despachada, mas no caso da segunda longa-metragem de Mohamed Diab é o formato encontrado para colocar em conflito - e outras tantas vezes em sintonia - as facções que levaram aos protestos de rua tensos e violentos no Egipto durante o Verão de 2013.

 

"CLASH" situa a acção no Cairo logo após o presidente Mohammed Morsi ter sido deposto pelos militares, opondo os membros e simpatizantes da Irmandade Muçulmana aos liberais, do lado das forças armadas. E também encontra espaço para quem não se revê num destes polos, que de resto se tornam menos extremados quando as ideologias parecem não oferecer respostas para situações concretas - e frequentemente aflitivas.

 

Clash_2

 

Sem nunca sair da parte de trás da carrinha, embora filme várias vezes o exterior, Diab vai captando e cruzando os rostos e as inquietações da sua amálgama de cativos, e é admirável como consegue ir gerindo e desenvolvendo tantos sem nunca os reduzir a personagens-tipo (sendo assim bem-sucedido onde Christopher Nolan falhou no também recente e bélico "Dunkirk").

 

É verdade que acaba por estar aqui uma montra da sociedade egípcia, ou boa parte dela, num grupo convenientemente diverso: além dos fundamentalistas islâmicos e dos que procuram um caminho no Ocidente, determinantes para que haja conflito, cruzam-se faixas etárias, classes sociais e profissões (ou falta delas). Mas admita-se que "CLASH" está mais interessado em mostrar como cada um tem as suas razões do que em tomar partido, e tanto abraça como encosta à parede todas as figuras que convoca - incluindo jornalistas e polícias.

 

Este misto conseguido de realismo e humanismo é mérito de um argumento eficaz, capaz de conjugar suspense e carga dramática, e de uma direcção de actores sem falhas, onde não é difícil acreditar naquelas personagens mesmo quando há uma ou outra situação mais forçada (como naquela que contrasta pais e filhos das duas facções, num braço de ferro entre a esperança e a tragédia).

 

Clash_3

 

E se o interior da carrinha em modo panela de pressão convence, a recriação das manifestações de rua consegue ser ainda mais arrepiante, ao dar conta de como o caos civilizacional pode instalar-se de forma tão repentina no quotidiano urbano. O pânico crescente da intrusão do exterior vai travando os momentos espirituosos com que Diab tempera a narrativa, decisivos para que o filme não se afunde num relato plano e miserabilista.

 

Só é pena que o realizador não seja tão hábil quando se serve de uma câmara à mão epiléptica para captar (e reforçar) os momentos mais agitados, recurso quase esgotado que não tem aqui variações muito estimulantes. Com outro fôlego cinematográfico nessas cenas - e, já agora, um final mais inspirado -, "CLASH" seria filme para reforçar o impacto... mas seja como for há aqui muito de bom para além das intenções.

 

3/5

 

 

Onde está a revolução, Depeche Mode?

O mote para o novo álbum dos DEPECHE MODE foi a revolução, mas "SPIRIT", embora com uma carga política mais marcada do que o habitual no trio britânico, acaba por ser musicalmente conservador.

 

depeche_mode_2017

 

"Where's the revolution?", perguntava Dave Gahan no single de apresentação do 14º álbum da sua banda de sempre, deixando antever uma costela política mais visível do que o que o que tem sido regra nas suas canções dos últimos anos. Mas essa vertente interventiva está longe de ser inédita nos Depeche Mode, com o próprio tema de avanço a lembrar a certa altura algumas palavras e inquietações de "Stripped" (1986), ainda que o grupo troque agora a televisão pela religião (do desafio de "Let me hear you make decisions/  Without your television" do single clássico de "Black Celebration" passou às questões "Who's making your decisions?/ You or your religion?").

 

Tendo em conta que desde meados dos anos 90 a escrita da banda passou a lidar, de forma quase exclusiva (e a espaços exaustiva), com o universo emocional explorado por Martin Gore (o principal compositor), compreende-se que este novo olhar para a realidade exterior desperte outras atenções e conceda a "SPIRIT" um perfil distinto dos antecessores mais próximos.

 

Boa parte do alinhamento é bastante directo num retrato pouco optimista dos dias de hoje, do arranque ritmado e inflexível de "Going Backwards" ao mais contemplativo "The Worst Crime", com Gahan em modo crooner enquanto enumera uma série de falhanços colectivos ("Blame misinformation/ Misguided leaders/ Apathetic hesitation/ Uneducated readers"). O apontar de dedo de "Scum" é complementado por uma moldura sonora mais tensa, apesar de dançável, mas quer esta quer "You Move", com balanço a fazer jus ao título, destacam-se mais pelas variações na produção (entregue a James Ford, dos Simian Mobile Disco) do que pelas surpresas na composição.

 

depeche_mode_spirit

 

Essa evolução na continuidade já vem de trás (desde "Ultra", de 1997, o último grande álbum dos Depeche Mode?) e a postura mais política de "SPIRIT" não chega, por si só, para mudar muito as coisas. Até porque nem é necessariamente uma vantagem quando algumas letras escorregam em simplismos e lugares comuns, caso da denúncia estafada de "Poorman", talvez a canção mais fraca do disco (acesso bluesy já de si pouco inspirado e a disparar farpas genéricas na linha de "Corporations get the breaks/ Keeping almost everything they make").

 

O próprio "Where's the Revolution", apesar de ser um single eficaz com potencial para crescer ao vivo, é Depeche Mode em piloto automático, mesmo que ancorado numa letra condizente com os tempos de revoltas em redes sociais. Por isso, chega a ser irónico que "SPIRIT" se mostre mais aventureiro ao espreitar territórios intimistas, da cumplicidade ao luar de "Cover Me" (Dave Gahan em grande forma, um novelo instrumental intrigante q.b.) à obstinação de "So Much Love", viragem propulsiva num jogo de luz e sombra.

 

Outros momentos a guardar incluem a aspereza metálica de "Poison Heart", com o blues a revelar-se um aliado seguro, ou o mais sintético "No More (This Is the Last Time)", pop negra embora a recusar um final infeliz. Mas a despedida de "SPIRIT" fica mesmo por conta de "Fail", provavelmente a melhor canção da vertente mais politizada do disco. É uma das duas que Martin Gore interpreta aqui - ao lado da breve e também recomendável "Eternal" - e resume o ponto de situação actual deixado por muitas das anteriores ("Our souls are corrupt/ Our minds are messed up/ Our consciences bankrupt/ Oh, we're fucked").

 

O quadro não é nada auspicioso, mas a forma como a voz se conjuga com os sintetizadores, num tema final de compasso lento e inquietante, ampara parte do derrotismo da letra e deixa no ar a possibilidade de um vislumbre de esperança - ou não fosse este um álbum de uma banda que já nos deixou tantas canções "de fé e devoção". A próxima missa passa por Portugal já daqui a poucos dias - a 8 de Julho no NOS Alive, no Passeio Marítimo de Algés - e "SPIRIT", além de funcionar como pretexto oportuno para o regresso, ainda oferece alguns salmos, como "Fail", que justificam um grande palco e público à altura. Se a revolução sonora ficou pelo caminho, a celebração estará certamente garantida...