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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Amigos para sempre

E agora uma surpresa vinda da Islândia... "CORAÇÕES DE PEDRA", a primeira longa-metragem de Guðmundur Arnar Guðmundsson, tem sido premiada em vários festivais internacionais e com todo o mérito: está aqui um dos retratos da adolescência mais envolventes dos últimos tempos.

 

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Distinguido com o Queer Lion no Festival de Veneza do ano passado e, mais recentemente, eleito vencedor da iniciativa SCOPE 100 (através da qual uma comunidade de 100 cinéfilos escolheu um de sete filmes europeus a estrear em Portugal), "CORAÇÕES DE PEDRA" até nem se afasta, na premissa, de outros muitos outros relatos sobre a entrada na adolescência. Mas ao arrancar, centrando-se na amizade de dois rapazes de 14 anos, não demora muito a definir um espaço próprio através do olhar (claramente de cinema) de Guðmundur Arnar Guðmundsson.

 

Espaço é, aliás, um elemento determinante neste drama contido e realista, ambientado numa pequena localidade piscatória islandesa. Se por um lado a vastidão das montanhas e do mar compõe um cenário à medida do crescente sentido de descoberta dos protagonistas, inspirando imagens das quais o realizador sabe tirar partido, o lado mais inóspito da natureza também vai tomando conta de uma história directamente ligada à carga opressiva de um quotidiano insular.

 

Embora seja um estreante nas longas-metragens (depois de ter assinado algumas curtas), Guðmundsson tem uma desenvoltura atípica para explorar os estados emocionais das personagens, sintonizando-os com o ambiente sem forçar a nota. E é também bastante hábil na apresentação de um contexto comunitário que, não por acaso, tem qualquer coisa de autobiográfico. 

 

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Meios fechados, isolados e de horizontes curtos estão longe de ser uma novidade na ficção - cinematográfica ou outra -, mas "CORAÇÕES DE PEDRA" ainda consegue destacar-se ao desenhar um microcosmos singular e credível, no qual um rumor chega para deitar abaixo a reputação individual ou familiar.

 

Felizmente, Guðmundsson está pouco interessado em deixar um filme-denúncia e opta por se concentrar nas especificidades de um relato coming of age, muito bem alicerçado em dois protagonistas com jovens actores (estreantes) à altura - todo o elenco é, de resto, impecável, e todos os (muitos) secundários parecem gente de carne e osso em vez de mero acessório narrativo.

 

Entre a descontração e a solidão, a evasão e o desnorte, apontamentos bem humorados e um novelo dramático cada vez mais espesso, o realizador é sempre sensível e justo ao acompanhar uma amizade colocada em causa pela descoberta do sexo - à medida que vai revelando que os interesses amorosos não são os mais expectáveis nem para as personagens nem para o espectador.

 

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Além de abordar o confronto com a homofobia num contexto particularmente heteronormativo, "CORAÇÕES DE PEDRA" passa por questões de género com a mesma subtileza e espontaneidade (eis um filme feminista que nunca cai na militância nem no maniqueísmo), e também por isso se distingue de outras histórias boy meets girl ou boy meets boy.

 

Ainda assim, e apesar de contar com muito a seu favor, Guðmundsson também vai lembrando, lá para o final, que esta é a sua primeira aventura nas longas-metragens, revelando limitações pontuais entre as várias qualidades. Não que o remate chegue a desiludir, mas também não consegue ser tão livre como a primeira metade, quando lugares comuns de retratos do coming out (com alguma vitimização pelo meio) cortam parte do fôlego narrativo - e começam a sugerir que as mais de duas horas de duração talvez sejam excessivas.

 

A sensação saliente continua a ser, no entanto, a de um pequeno grande filme, islandês até à medula (nem falta a banda sonora com a prata da casa, a cargo dos Sugarcubes, Gus Gus ou Emiliana Torrini) sem com isso perder um impacto emocinal universal. A não ser que esbarre em corações como os do título...

 

 

 

Manifesto synthpop

O disco mais assumidamente político dos AUSTRA não submete as canções à mensagem. "FUTURE POLITICS", o terceiro álbum dos canadianos, é tão livre e pessoal no mergulho na pop electrónica como os anteriores - mesmo quando não é tão imediato.

 

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Tendo em conta que Katie Stelmanis apontava textos de economistas e filósofos entre as pistas para o terceiro álbum da sua banda, centrado em alternativas às previsões mais distópicas de tempos conturbados, poderia supor-se que "FUTURE POLITICS" seria ainda mais denso do que os antecessores, "Feel It Break" (2011) e "Olympia" (2013). Para não dizer mais pesadão, dada a lógica relativamente conceptual e ambiciosa de um alinhamento com uma postura política mais pronunciada.

 

O resultado, no entanto, parece ser antes um caso de evolução na continuidade do que uma viragem radical na identidade do quarteto canadiano, o que são boas notícias quando o caminho até aqui o colocava entre as forças mais aconselháveis da pop electrónica surgidas nesta década.

 

Longe de oferecer um ensaio exaustivo sobre os tempos que correm, "FUTURE POLITICS" vai pontuando as canções com ocasionais sinais de alerta na linha do que já se ouvia nos antecessores, como aliás os primeiros singles também sugeriram: "Utopia", uma balada cristalina e esperançosa com um olhar comunitário, e a faixa-título, mais dançável, urgente e ressentida (farpas como "I'm not a coward like them/ I don't need more money" podiam ser banda sonora de muitos casos de colarinho branco, do Canadá a Portugal). 

 

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Estes dois temas de avanço, ao anteciparem o álbum de forma tão inspirada, também acabam por ser responsáveis por alguma desilusão às primeiras audições, uma vez que o alinhamento não conta com outros momentos que agarrem de forma tão imediata - sobretudo na segunda metade, talvez o segmento mais cerebral de um álbum dos Austra. E isso nem se deve à eventual costela política de algumas canções, antes a uma sonoridade que não dispara tantos hinos para a pista de dança como Katie Stelmanis tinha garantido há uns meses.

 

Nesse aspecto, "FUTURE POLITICS" não é um disco assim tão certeiro para os dias acelerados de hoje. É daqueles que pedem tempo e reclamam atenção, esforço devidamente recompensado pela labriríntica e propulsiva "Freepower", pela house dopada e sinuosa de "43" e sobretudo pela alquimia synth pop de "Gaia" (com uma voz operática a brilhar como nunca antes no final) e a mais introspectiva e etérea "Beyond a Mortal" (a sugerir as pistas que Grimes podia ter seguido no último álbum).

 

Muito bem produzido, este é ainda dos discos que encorajam audições com auscultadores, a melhor opção para ir desvendado as camadas destas texturas, da espiral claustrofóbica de "I'm a Monster" à electropop borbulhante de "I Love You More Than You Love Yourself". E se na composição nem sempre arrebata tanto, deixa mais um capítulo estimável de um percurso que se tem mantido consistente e coerente. Para discografias como esta, o futuro não é menos do que promissor...

 

 

 

O silêncio dos culpados

Embora estreie em Portugal com três anos de atraso, "A TRIBO" mantém-se tão implacável e inimitável como quando deu que falar em Cannes, em 2014. Mas apesar de ter alimentado muitas conversas, a primeira longa-metragem do ucraniano Myroslav Slaboshpytskyi sobressai por prescindir de qualquer palavra.  

 

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Os detractores de uma das maiores surpresas do cinema europeu dos últimos anos podem não ver aqui mais do que um filme-choque, e se Myroslav Slaboshpytskyi oferece pelo menos um par de sequências que até podem legitimar esse argumento, também será forçoso reconhecer que o faz com uma mestria ao alcance de poucos - de poucos cineastas veteranos e de ainda menos estreantes.

 

A proposta, admita-se, é desde logo extrema ao recusar a palavra, optando exclusicamente pela linguagem gestual (sem legendagem ou narração em off) ao acompanhar o quotidiano de um internato de surdos-mudos nos arredores de Kiev. E faz coincidir a entrada do espectador naqueles corredores silenciosos com a chegada de um novo aluno, seguindo o seu processo de integração num sistema rígido, fechado e agressivo, vincado por uma rede paralela na qual os colegas se dedicam a assaltos ou à prostituição.

 

Ao longo de duas horas, "A TRIBO" atira-se assim um relato coming of age especialmente cru e claustrofóbico, ainda que Slaboshpytskyi aposte numa realização relativamente arejada ao optar pelos planos de conjunto, mantendo a distância do grupo de jovens enquanto os acompanha num equilíbrio de planos fixos planos-sequência estranho ao primeiro embate, mas progressivamente intrigante. 

 

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A atenção metódica aos corpos e gestos de jovens actores (não profissionais embora credíveis nas suas inquietações), que ao início pode parecer uma limitação, chega e sobra para conferir ao filme uma energia própria e sem grandes paralelos, num desafio invulgar ao papel do espectador, aqui obrigado a tentar descodificar uma linguagem que não compreende (e a colocar-se assim, de certa forma, no lugar das personagens, também elas ostracizadas pela forma de comunicar maioritária).

 

Mas esta está longe de ser uma experiência hermética, uma vez que Slaboshpytskyi não só apresenta uma narrativa linear, apesar da atmosfera alienante, como vai dando pistas de interpretação enquanto consolida o dispositivo formal. Nesse processo deixa algumas sequências de antologia, com destaque para uma tão abrupta como terrível num parque de camionistas, à noite (que dá conta da especificidade sensorial do filme e das personagens). Por outro lado, as cenas de sexo entre o protagonista e a sua companheira ocasional são dos poucos refúgios emocionais de uma história duríssima, além de raros vislumbres de inocência e vulnerabilidade de jovens obrigados a crescer demasiado depressa (e que às vezes não andam longe de alguns "kids" de Larry Clark na sua amoralidade).

 

Entres estes momentos inspirados, "A TRIBO" ameaça derrapar a espaços para o voyeurismo miserabilista, cenário talvez mais evidente na sequência sem cortes de um aborto (em todo o caso, devidamente impressionante e com duas actrizes à altura). Mas se essa tentação talvez desequilibre o filme, não chega a ameaçar a solidez de uma estreia corajosa e de um exercício de realismo rigoroso e austero, ao qual nem falta um desenlace coerente: ou seja, capaz de deixar o espectador sem palavras. 

 

 

 

Viva a França!

O filme certo no momento certo. Numa altura em que as eleições francesas deixam a Europa sobressaltada, Lucas Belvaux mergulha - com convicção e de forma convincente - na epidemia de movimentos populistas em "ESTA TERRA É NOSSA".

 

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Marine Le Pen acusa o novo filme do cineasta de "Um Casal Encantador" de a reduzir a uma caricatura, com o único propósito de denegrir a imagem da Frente Nacional. Lucas Belvaux rebate e garante que, mesmo sendo um exercício ficcional, "ESTA TERRA É NOSSA" não toma grandes liberdades criativas na caracterização do modus operandi do partido que surge neste drama como equivalente ao da candidata às eleições presidenciais francesas.

 

De facto, não há aqui grandes subtilezas no contraste entre a realidade e a ficção. Uma das personagens secundárias é obviamente decalcada da mulher que deu novo embalo à extrema-direita, das características físicas e trejeitos à retórica nacionalista e alarmista, e Belvaux não hesita muito em associá-la a traços de frieza e calculismo. Mas esse elemento é só parte de um quadro bem mais vasto e, mais importante, quase sempre bem sucedido na aversão a maniqueísmos fáceis.

 

Ao partir do quotidiano de uma jovem enfermeira altruísta, respeitada numa pequena localidade do norte francês, que acaba por se tornar candidata às eleições autárquicas através de um partido muito semelhante à Frente Nacional,  "ESTA TERRA É NOSSA" faz uma esclarecedora radiografia das tensões políticas, sociais e culturais que se têm replicado em muitas sociedades do ocidente (com o desemprego e os fluxos migratórios crescentes à cabeça). 

 

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Se é verdade que, por vezes, essa lógica de estudo de caso torna a narrativa algo mecânica, Belvaux compensa a relativa indistinção formal com um efeito realista bastante certeiro, desde logo ao entregar o papel protagonista a Émile Duquenne. A actriz é tão segura no misto de voluntarismo, resiliência e deslumbramento que quase faz esquecer a não tão verosímil ingenuidade de algumas atitudes da sua personagem na segunda metade do filme. 

 

Com um leque de secundários à altura, tantos nas caracterizações como nas interpretações, a "sósia" de Marine Le Pen acaba por ser uma limitação menor na forma como Belvaux dá conta do universo familiar e comunitário da protagonista - enriquecido pelo retrato do pai, militante comunista; do novo companheiro, com um passado ligado a uma facção neonazi (e a conceder ao drama uma curiosa costela de thriller); ou dos adolescentes que lidam como podem e sabem com estes conflitos.

 

Que o filme olhe para este universo particular, muitas vezes simplificado na ficção ou nos telejornais, sem abdicar da empatia pela maioria das personagens - mesmo que não prescinda de sentido crítico nas entrelinhas -, é uma qualidade decisiva de uma história facilmente compatível com um panfleto de boas intenções ou um retrato ácido e cínico.

 

"ESTA TERRA É NOSSA" também tem a vantagem de não se esgotar no tema, num exemplo de realismo social mais próximo do aconselhável "Eu, Daniel Blake", de Ken Loach, do que do demasiado plano "São Jorge", de Marco Martins, outros dramas recentes que tentaram captar o ar do tempo na "nova" Europa desviando o foco para os mais desfavorecidos. Se as eleições francesas têm de marcar o ano também no cinema, que seja com um filme assim...

 

 

 

A mulher da casa

O desempenho maior do que a vida de Sônia Braga, aliado ao olhar atento sobre a realidade brasileira, quase disfarça o maniqueísmo da cruzada de "AQUARIUS". Mas mesmo que fique aquém do potencial, o novo filme de Kleber Mendonça Filho raramente deixa de ser fascinante.

 

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Percebe-se porque é que o sucessor de "O Som ao Redor" tem sido um dos casos do cinema brasileiro recente, e mais ainda a grande arma de arremesso cinematográfica contra a destituição de Dilma Rouseff, sobretudo depois dos protestos do elenco na mais recente edição do Festival de Cannes. Embora Kleber Mendonça Filho seja o primeiro a admitir que "AQUARIUS" começou a ser pensado muito antes do polémico jogo de cadeiras do cenário político brasileiro, não falta sentido de oportunidade à sua segunda longa-metragem, com uma ode à resistência protagonizada por uma mulher sexagenária.

 

Mas por muito que o filme tenha sido objecto de um autêntico debate (ou duelo) de prós e contras dentro e fora de portas, ou que Sônia Braga tenha ascendido a símbolo de um tempo (mais uma vez, 40 anos depois de "Gabriela", e de forma tão diferente), é bom ver que o seu peso temático tem correspondência na singularidade do olhar cinematográfico.

 

Com "O Som ao Redor", Kleber Mendonça Filho já tinha conseguido encontrar um lugar à parte na forma de retratar os contrastes e contradições do Brasil moderno, sem deixar de traduzir ecos de todo um passado de clivagens económicas, sociais ou culturais. Se aí recorria a uma narrativa em mosaico para espreitar espaços públicos e privados do Recife, a partir de um condomínio de luxo e com uma sonoplastia invulgar entre os trunfos, em "AQUARIUS" aposta num retrato mais focado, e até algo obcecado e deslumbrado com a personagem de Sônia Braga, mas igualmente amplo na forma de cruzar tempos e espaços, vivências e conflitos.

 

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Tal como o antecessor, o filme cruza realismo social e sugestões de thriller, mistura aqui ancorada na disputa entre uma ex-jornalista musical da classe média alta e a construtora que insiste em comprar a sua casa, o último apartamento ocupado de um antigo edifício do Recife à beira mar. Mas se este braço de ferro é o fio condutor, está longe de ser o elemento mais intrigante - e até o mais bem desenvolvido - de quase duas horas e meia nas quais cabe um retrato feminino ambivalente e imune a clichés, com uma personagem de corpo inteiro e vida cheia que Kleber Mendonça Filho vai desvendando sem pressas (e por aqui justificam-se as comparações habituais com a Isabelle Huppert de "Ela", embora a Paulina García do menos visto "Gloria", do chileno Sebastián Lelio, seja outra aproximação possível nos últimos anos).

 

Se no papel Clara já seria uma personagem forte, Sônia Braga amplifica o seu carisma ao conciliar charme e altivez, idealismo e amargura, resiliência e curiosidade. O realizador não se cansa de a filmar, dos gestos ao cabelo longo volumoso (ou falta dele), sem se desviar das marcas físicas de uma doença que a moldou (mas sem a relação simplista de causa-efeito de outras narrativas). Também não se desvia do sexo, filmado sem pseudo-tentativas de choque nem falsos pudores: aliás, é através do humor que começa por entrar em cena, com flashbacks desconcertantes que interrompem um pacato (e tão aparentemente cândido) serão familiar.

 

A família é, aliás, um dos alicerces da protagonista e do filme, e ao abordá-la Kleber Mendonça Filho parece recuperar parte da estrutura em mosaico de "O Som ao Redor": a relação de Clara com uma tia decisiva para o seu percurso, com os filhos, com o irmão e cunhada ou com o sobrinho permitem-lhe revelar facetas distintas, mas o espectro é ainda mais vasto quando passa pela família da empregada ou de outros secundários (como a de um antigo colega ou dos agentes da construtora, a encorajar um foco mais transversal).

 

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Novidade face ao filme anterior, a relação da protagonista com a arte, e em especial com a música, oferece alguns dos momentos mais memoráveis de "AQUARIUS". Do entusiasmo face a uma descoberta recente que se torna ainda melhor partilhada, logo ao início, às cenas na sala de estar, recheada de discos de vinil (cada um com a sua história),a vertente musical tem ligação directa à tentativa de preservação da memória, à recusa do esquecimento que o apartamento de Clara acaba por simbolizar.

 

Infelizmente, algum desse simbolismo torna-se demasiado esquemático numa recta final que não está à altura do que Kleber Mendonça Filho edificou até aí. O grito de revolta contra a gentrificação pode ser legítimo, mas não tem, por exemplo, as nuances do recente "Homenzinhos", que também olhava para o fenómeno de muitas metrópoles. Se nesse filme Ira Sachs deixava ver que cada personagem tem as suas razões, a ambivalência de "AQUARIUS" parece esgotar-se na caracterização de Clara, revoltada mas apesar de tudo francamente privilegiada. Já os seus opositores são reduzidos a antagonistas de serviço, ardilosos como convém, para que a simpatia do espectador seja ainda mais direccionada para a protagonista. Não havia necessidade: a entrega de Sônia Braga e as camadas do argumento eram mais do que suficientes, faltou só ceder ligeiramente ao som (e fúria) ao redor.

 

 

Caso de uma noite? Não, amor para a vida

Os HERCULES & LOVE AFFAIR estão longe de ser uma novidade em palcos nacionais, mas voltar a vê-los é uma proposta difícil de recusar. Sobretudo quando o projecto de Andy Butler foi um dos cabeças de cartaz da segunda edição do Lisboa Dance Festival, no sábado passado, e esteve à altura desse estatuto na LX Factory.

 

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Desta vez, quem viu os nova-iorquinos até teve direito a um bónus. Ao entrar em palco, a banda avisou que a actuação seria a primeira a apresentar alguns temas do próximo álbum, previsto para este ano, e o alinhamento insistiu em material novo logo aos primeiros minutos. E não demorou muito para se perceber que a fórmula entre a house, o disco e a pop do grupo continua apurada, com as reacções de um público que foi aumentando em volume e entusiasmo a confirmarem a adesão à dança.

 

Rouge Mary e Gustaph, a dupla de vocalistas que acompanhou Butler e outro músico, já tinha passado por Lisboa na última edição do Rock in Rio e comprovou que o DJ e mentor do projecto é especialmente criterioso na escolha de quem defende as suas canções - depois de a estonteante Nomi Ruiz já ter comandado um concerto memorável no Optimus Alive ou de outra formação ter deixado o mesmo efeito no Lux em anos anteriores. Até porque se tanto os temas antigos como os novos não dispensam batidas, têm na voz um elemento tão ou mais nuclear, num contraste com a maioria da música que se ouviu no festival.

 

Com um timbre que lembrou Marc Almond, Rouge Mary deu início à noite com uma canção inédita, e das mais calmas do alinhamento, cuja atmosfera também remeteu para os ambientes mais tranquilos dos Soft Cell - ou das torch songs do seu mentor a solo cruzadas com as baladas de Martin Gore nos Depeche Mode. Mas o ritmo rapidamente acelerou noutras novidades que denunciaram mais audições de electrónica dos anos 80 e 90 ("Controller", o viciante novo single, arrisca pela EBM), estreias perfeitamente entrosadas com o desfile de episódios-chave dos três álbuns do grupo.

 

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Tal como em concertos anteriores, Butler não se preocupou em ser muito fiel à matriz original das canções já conhecidas. "Visitor" surgiu numa aura mais intempestiva, quase industrial, com cenografia negra a condizer, enquanto os vocalistas lembravam que era tempo de saltar. Não que fosse preciso insistir, já que o público aderiu e assim continuou nas aguardadas "You Belong" (com os músicos a puxarem mais pelos espectadores, convidando-os a cantar), "My House" ou a jóia da coroa "Blind", que fechou pouco mais de uma hora de festa de forma tão estrondosa como seria de esperar - mesmo que numa moldura mais sintética e robusta, sem o arranjo de cordas do original, omissão que também marcou uma "Painted Eyes" de compasso metronónimo e igualmente irresistível. Regresso garantido ainda este ano, tendo em conta que há álbum a caminho?

 

 

Se os Hercules & Love Affair serviram hedonismo desenfreado, certeiro num sábado à noite, os MOUNT KIMBIE foram preparando o público da Fábrica XL de forma bastante mais contida. Mas sedutora à sua maneira, ainda que a introspecção do duo londrino (que surgiu no palco enquanto quarteto) não seja a escolha mais óbvia para um festival de música de dança. O que não é necessariamente mau quando também não há nada de óbvio nas composições do grupo, capazes de embalar os curiosos que se foram aglomerando ao início da noite com viagens entre o R&B, a house e o indie rock com tangentes ao techno minimal, ao krautrock ou ao downtempo. Também com material novo em primeira mão, dispensaram quase sempre a voz para darem protagonismo a um novelo intrincado mas envolvente de teclados e sintetizadores, num crescendo de intensidade que lá para o final, com o ritmo circular de "Made to Stray", atingiu uma euforia a milhas da quase timidez do início. Resultado? Uma bela surpresa, com uma versatilidade que não se adivinhava nos discos anteriores mas deixa muita curiosidade em relação ao próximo.

 

 

 

Fotos: Pedro B. Maia/SAPO On The Hop