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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Caso de uma noite? Não, amor para a vida

Os HERCULES & LOVE AFFAIR estão longe de ser uma novidade em palcos nacionais, mas voltar a vê-los é uma proposta difícil de recusar. Sobretudo quando o projecto de Andy Butler foi um dos cabeças de cartaz da segunda edição do Lisboa Dance Festival, no sábado passado, e esteve à altura desse estatuto na LX Factory.

 

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Desta vez, quem viu os nova-iorquinos até teve direito a um bónus. Ao entrar em palco, a banda avisou que a actuação seria a primeira a apresentar alguns temas do próximo álbum, previsto para este ano, e o alinhamento insistiu em material novo logo aos primeiros minutos. E não demorou muito para se perceber que a fórmula entre a house, o disco e a pop do grupo continua apurada, com as reacções de um público que foi aumentando em volume e entusiasmo a confirmarem a adesão à dança.

 

Rouge Mary e Gustaph, a dupla de vocalistas que acompanhou Butler e outro músico, já tinha passado por Lisboa na última edição do Rock in Rio e comprovou que o DJ e mentor do projecto é especialmente criterioso na escolha de quem defende as suas canções - depois de a estonteante Nomi Ruiz já ter comandado um concerto memorável no Optimus Alive ou de outra formação ter deixado o mesmo efeito no Lux em anos anteriores. Até porque se tanto os temas antigos como os novos não dispensam batidas, têm na voz um elemento tão ou mais nuclear, num contraste com a maioria da música que se ouviu no festival.

 

Com um timbre que lembrou Marc Almond, Rouge Mary deu início à noite com uma canção inédita, e das mais calmas do alinhamento, cuja atmosfera também remeteu para os ambientes mais tranquilos dos Soft Cell - ou das torch songs do seu mentor a solo cruzadas com as baladas de Martin Gore nos Depeche Mode. Mas o ritmo rapidamente acelerou noutras novidades que denunciaram mais audições de electrónica dos anos 80 e 90 ("Controller", o viciante novo single, arrisca pela EBM), estreias perfeitamente entrosadas com o desfile de episódios-chave dos três álbuns do grupo.

 

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Tal como em concertos anteriores, Butler não se preocupou em ser muito fiel à matriz original das canções já conhecidas. "Visitor" surgiu numa aura mais intempestiva, quase industrial, com cenografia negra a condizer, enquanto os vocalistas lembravam que era tempo de saltar. Não que fosse preciso insistir, já que o público aderiu e assim continuou nas aguardadas "You Belong" (com os músicos a puxarem mais pelos espectadores, convidando-os a cantar), "My House" ou a jóia da coroa "Blind", que fechou pouco mais de uma hora de festa de forma tão estrondosa como seria de esperar - mesmo que numa moldura mais sintética e robusta, sem o arranjo de cordas do original, omissão que também marcou uma "Painted Eyes" de compasso metronónimo e igualmente irresistível. Regresso garantido ainda este ano, tendo em conta que há álbum a caminho?

 

 

Se os Hercules & Love Affair serviram hedonismo desenfreado, certeiro num sábado à noite, os MOUNT KIMBIE foram preparando o público da Fábrica XL de forma bastante mais contida. Mas sedutora à sua maneira, ainda que a introspecção do duo londrino (que surgiu no palco enquanto quarteto) não seja a escolha mais óbvia para um festival de música de dança. O que não é necessariamente mau quando também não há nada de óbvio nas composições do grupo, capazes de embalar os curiosos que se foram aglomerando ao início da noite com viagens entre o R&B, a house e o indie rock com tangentes ao techno minimal, ao krautrock ou ao downtempo. Também com material novo em primeira mão, dispensaram quase sempre a voz para darem protagonismo a um novelo intrincado mas envolvente de teclados e sintetizadores, num crescendo de intensidade que lá para o final, com o ritmo circular de "Made to Stray", atingiu uma euforia a milhas da quase timidez do início. Resultado? Uma bela surpresa, com uma versatilidade que não se adivinhava nos discos anteriores mas deixa muita curiosidade em relação ao próximo.

 

 

 

Fotos: Pedro B. Maia/SAPO On The Hop

 

A cor azul

Homofobia, bullying ou toxicodependência num cenário de pobreza (quase) extrema e sem fim à vista. Parece a receita perfeita para um dramalhão, mas "MOONLIGHT" consegue encontrar alguns oásis no meio do caos - e atira Barry Jenkins para a lista de realizadores a acompanhar no cinema norte-americano.

 

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Oito nomeações para os Óscares (incluindo Melhor Filme e Melhor Realizador) e o Globo de Ouro de Melhor Filme Dramático são apenas algumas das distinções que tornam a segunda longa-metragem de Barry Jenkis numa das mais aclamadas da temporada. Depois do menos visto "Medicine for Melancholy" (2008), o realizador norte-americano adapta agora a peça de "In Moonlight Black Boys Look Blue", de Tarell Alvin McCraney, inspirada em factos verídicos e rica em temas fracturantes que explicam parte da atenção mediática da qual o filme tem sido alvo.

 

Mas ao contrário de outros relatos inspiradores de superação da adversidade, presenças habituais na corrida às estatuetas douradas, "MOONLIGHT" vale também (e até mais) pelo olhar de cinema de Jenkis e pelas nuances de um retrato que não fica sufocado pelas muitas problemáticas sociais que vai conjugando. Mais do que um ensaio dado a generalizações fáceis, esta é a história de Chiron, ou pelo menos parte dela, uma vez que o filme a conta através de três capítulos - percorrendo a infância, adolescência e idade adulta -, recorrendo a elipses em vez de a servir de bandeja ao espectador.

 

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Há quem compare a estrutura narrativa a "Boyhood: Momentos de uma Vida", mas as experiências destas personagens de um bairro pobre de Miami, habitado por uma grande comunidade afro-americana, terão poucos paralelismos com o drama agridoce de Richard Linklater. "MOONLIGHT" não faz cedências ao mergulhar na solidão exasperante de um jovem negro e tímido, com uma insegurança sublinhada à medida que vai sendo obrigar a reprimir quaisquer sinais da sua orientação sexual - num contexto em que a homofobia se insinua desde os primeiros anos e rapidamente resulta em acessos de violência física.

 

Durante dois terços da sua duração, o filme mostra um realizador seguro no desenho de uma atmosfera realista, dos locais às pessoas, com o calvário de Chiron a tornar-se tão credível como familiar. Tão familiar que o segundo capítulo, talvez o mais agressivo, ameaça escorregar na vitimização e nos lugares comuns de que violência gera violência de outros casos da vida. Felizmente, o terceiro acto permite que o protagonista respire no segmento mais solto e fluído de "MOONLIGHT", a reforçar a languidez pontual das sequências na praia (reais ou oníricas, à noite, forradas com uma fotografia em tons azulados) e a tirar partido do peso dramático que está para trás sem cair no determinismo sugerido em alguns episódios.

 

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Jenkins deixa o final em aberto e confirma aí que tanto evita julgar como desculpabilizar as suas personagens, tentando compreendê-las sem forçar a empatia do espectador. Ajuda que tenha escolhido um elenco inatacável, desde os três actores que interpretam Chiron em várias fases da vida (e nem precisam de ter feições especialmente similares para fazerem nos acreditar que encarnam a mesma pessoa) a secundários como Janelle Monáe e Naomie Harris (esta a tornar verosímil uma mãe toxicodependente que no papel não se afasta muito do estereótipo). Só é pena que Mahershala Ali não mantenha uma presença tão regular como se esperava, já que tem a seu cargo uma das personagens mais interessantes (e avessa a clichés de retratos sobre dealers), além de um desempenho que sedimenta os de séries como "House of Cards" ou "Luke Cage".

 

A solidez do elenco compensa algumas opções formais discutíveis, da realização por vezes a forçar a nota na tentativa de crueza (via câmara rodopiante ou epiléptica sem grande critério aparente) à banda-sonora que também teima em impor um tom grave (e às vezes soa a falta de confiança noutros recursos). Hesitações como essas deixam "MOONLIGHT" uns degraus abaixo do estatuto de obra-prima (consideravelmente apregoado, embora não de forma unânime) e quem passou, por exemplo, pelas últimas edições do IndieLisboa ou do QueerLisboa terá visto dramas comparáveis tão bons ou até melhores ("Spa Night" será dos casos mais óbvios e não contou com um décimo da atenção). Ainda assim, se estiver aqui o grande vencedor da próxima edição dos Óscares, será das escolhas mais certeiras da Academia em muitos anos...

 

 

 

À boleia pela galáxia

É a grande aposta do canal Syfy dos últimos anos, adapta uma saga literária elogiada e está entre as melhores aventuras espaciais recentes do pequeno (ou grande) ecrã. Numa altura em que "THE EXPANSE" regressa com a segunda temporada, a primeira pode ser vista por cá na Netflix.

 

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No século XXIII, as Nações Unidas têm a seu cargo a gestão não só da Terra mas de todo o sistema solar, que inclui também Marte e Belt (colónia na cintura de asteróides entre o planeta vermelho e Júpiter) como zonas habitadas. Só que esta expansão apenas veio reforçar as assimetrias sociais e económicas, alargando o fosso entre privilegiados e excluídos e instigando um cenário de guerra fria entre a Terra e Marte.

 

Quando "THE EXPANSE" arranca, o conflito ameaça tomar outras proporções à medida que uma conspiração política pode tirar do mapa a classe desfavorecida de Belt, pondo fim ao clima de paz armada. A não ser que a equipa de um cargueiro espacial que transporta gelo, com algumas informações essenciais nas mãos, consiga virar o jogo a tempo...

 

A partir dos livros de James S. A. Corey (pseudónimo dos escritores Daniel Abraham and Ty Franck), editados desde 2012 e já com seis dos nove volumes previstos nos escaparates, Mark Fergus e Hawk Ostby criaram uma série que leva mais longe as ideias de ficção científica já presentes noutras colaborações da dupla de argumentistas, até aqui no cinema - em filmes como "Os Filhos do Homem", "Homem de Ferro" ou "Cowboys & Aliens".

 

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O facto de esta nova aventura ser desenvolvida no pequeno ecrã não foi sinónimo de menor ambição, uma vez que "THE EXPANSE" é a maior aposta do Syfy nos últimos anos, como aliás se torna evidente logo nos minutos iniciais do primeiro episódio - da realização à direcção artística, há aqui uma sofisticação muito acima do patamar algo modesto (e às vezes até embaraçoso) do canal.

 

A atenção ao detalhe é, de resto, um dos trunfos de uma série que conjuga ideias reconhecíveis de outras visões sci-fi ("Battlestar Galactiva" e "Firefly" estão entre as habitualmente comparadas) com uma vertente mais realista do que escapista no retrato das situações quotidianas, sobretudo o do lado mais prático do dia-a-dia numa nave espacial. Não admira, por isso, que a mais interessante das três histórias da primeira temporada seja mesmo a da tripulação que se vê envolvida num novelo de acidentes, tanto por potenciar os momentos visualmente mais interessantes como por conseguir manter um suspense quase contínuo, em paralelo com as relações que se vão desenvolvendo entre a equipa (cujos elementos são inicialmente quase tão estranhos uns para os outros como para o espectador).

 

Além deste grupo perdido no espaço, "THE EXPANSE" vai acompanhando as investigações de um detective de Belt, com Thomas Jane perfeitamente à vontade num ambiente noir futurista (a herança de "Blade Runner" também passa por aqui). Este arco policial, embora escorreito, não está assim tão longe de outros procedurals televisivos (no caso, centrado na busca de uma jovem desaparecida), mas tem um actor que agarra a personagem com convicção e a atmosfera desolada da colónia é palpável e intrigante, o que ajuda a conferir singularidade a uma trama à partida genérica.

 

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Menos entusiasmante é o arco centrado numa diplomata das Nações Unidas, na Terra, figura que a veterena Shohreh Aghdashloo defende de forma credível entre diálogos por vezes demasiado explicativos, episódios burocráticos pouco memoráveis e outros sinais de uma conspiração palaciana que demora a arrancar e nem sempre se dá bem com o tom mais cinético dos outros enredos. Se os destinos dos restantes protagonistas de "THE EXPANSE" acabam por se cruzar - e ganhar com isso - ao longo dos primeiros dez episódios, cada regresso à trama mais institucional quebra alguma fluidez narrativa - mesmo que seja uma peça importante para apresentar o contexto geopolítico da história.

 

Apesar de não ter a coesão das melhores sagas televisivas dos últimos anos, esta é uma aventura a (re)descobrir por fãs de ficção científica e não só, envolvente desde o episódio piloto - a fechar com um óptimo cliffhanger - e cada vez mais segura à medida que se aproxima do final da temporada, quando já estamos devidamente ambientados neste universo que promete ter mais para explorar. A estreia da segunda temporada, a 1 de Fevereiro nos EUA, é um bom pretexto para embarcar na produção de 2015 do Syfy que está disponível na Netflix desde finais do ano passado.

 

 

 

O capital humano

Entre o relato coming of age e o drama familiar, "HOMENZINHOS" dá razão a quem aponta Ira Sachs como cronista hábil tanto do quotidiano de Nova Iorque como das relações humanas modernas - aqui com o factor económico a moldar aproximações e despedidas.

 

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Filmes como "Deixa as Luzes Acesas" (2012) ou o mais recente "Love Is Strange - O Amor é uma Coisa Estranha", estreado em Portugal no ano passado, ajudaram a colocar Ira Sachs entre os nomes em ascensão no cinema independente norte-americano, elogiados pelo foco no humanismo das suas crónicas em ambientes nova-iorquinos e também pela quase recusa de grandes artifícios formais.

 

"HOMENZINHOS", sem pretender mudar muito a mistura de drama e comédia dominante noutras obras bem acolhidas em Sundance, não trai a reputação do seu autor e até a consolida ao apresentar um retrato fluído, empático e credível ao longo dos seus 85 minutos (algo económicos mas bastante certeiros).

 

A partir de duas famílias do bairro de Brooklyn e do impasse em torno da renda de uma loja, Sachs acompanha o dia-a-dia dos pais, que se vai tornando sufocante à medida que esse conflito burocrático não vai tendo solução à vista, e sobretudo o dos filhos, ambos recém-chegados à adolescência. E ao fazer conviver estes dois relatos, mesmo dando prioridade ao das personagens mais novas, o realizador e argumentista consegue deixar um olhar que tanto capta a inocência, deslumbramento e entrega das primeiras amizades como vinca, pela questão financeira que afasta as duas famílias, o preço a pagar quando elementos externos ameaçam desgastar ou mesmo aniquilar uma relação.

 

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Não por acaso, "HOMENZINHOS" arranca com o luto em torno de uma figura que funciona como elo entre as duas famílias, mas recupera esse estado emocional ao longo de uma história em que a cumplicidade tem tanto peso como a perda. À medida que os dois adolescentes vão aprendendo, como alguém diz a certa altura, a "deixar coisas para trás", Sachs deixa uma crónica coming of age (às vezes a insinuar um coming out) mais complexa do que muitos outros dramas juvenis, vincada por uma atenção rara ao detalhe e pelo afinco de todo o elenco (a juntar veteranos como Greg Kinnear, Alfred Molina ou Paulina García à dupla de estreantes Theo Taplitz e Michael Barbieri, actores sem experiência mas nos quais é fácil acreditar).

 

Se vários diálogos (e atitudes) dos dois jovens protagonistas são inevitavelmente caracterizados por alguma ingenuidade, a visão do realizador é decididamente adulta, o que só torna o antagonismo familiar mais difícil de solucionar ao recusar apontar bons e maus - até porque todas as personagens acabam por sofrer as consequências da gentrificação. E daí resulta também o sabor agridoce deste pequeno filme, mais envolvente e refrescante do que muitos retratos new yorker dos últimos tempos ancorados na classe média intelectual q.b. (de Woody Allen a Noam Bachmann, adeptos de um cinismo que não mora por estes lados). Numa altura em que as salas estendem a passadeira vermelha aos prováveis nomeados aos Óscares, vale a pena olhar para o lado e dar atenção a estreias como esta.