
Além de ser vocalista de uma banda cujo nome nasce de uma citação de Beyoncé, Lovefoxxx recorreu ontem, mais de uma vez, ao título de uma canção de Shakira para se descrever durante o concerto das Cansei de Ser Sexy no TMN ao Vivo, em Lisboa.
Tal como a colombiana, a cantora brasileira é não muito alta, roliça (os calções de ganga curtos e justíssimos não passaram despercebidos), tem simpatia para dar e vender e diz ter ficado "louca" com o frenesim de uma actuação "com muito mais gente do que na de São Paulo", cidade natal do grupo.
A adesão que tornou repleta a sala do Cais do Sodré foi mesmo algo surpreendente: por um lado, porque a banda já não goza de um hype como o da altura do disco de estreia (de 2005), por outro porque o rumo conturbado q.b. desde então - com um segundo álbum mal amado e a perda de dois elementos pelo caminho - poderia levar alguns seguidores a pensar duas vezes antes de um reencontro com o grupo.
Mas se esse cenário convidava a alguma relutância, a actuação permitiu tirar todas as dúvidas e mostrou umas Cansei de Ser Sexy em óptima forma. Ao longo de pouco mais de uma hora e quase sem pausas para descansar, as quatro brasileiras ofereceram-nos tudo a que tínhamos direito: crowdsurf (em "Let's Make Love and Listen Death from Above" e "Alala", claro, ambas demolidoras), a partilha do palco com um fã orgulhosíssimo (cujos lábios foram pintados de preto por Lovefoxxx), tagarelice (que incluiu pedidos de desculpas pelo cancelamento do concerto previsto para o ano passado na Queima das Fitas) e sobretudo um entusiasmo e energia que rapidamente atiçaram quase toda a sala.
Lá atrás, um baterista e um baixista ajudaram a fazer a festa, mas ficou claro que, mais do que nunca - depois da saída de Adriano Cintra -, a herança riot grrrl não se reflecte só na música e as meninas é que comandam as operações. No meio da folia, reabilitaram algumas canções de "Donkey" ("Let's Reggae All Night", surpreendentemente cool, ou "Beautiful Song", que foi mesmo dos momentos mais bonitos), testaram as águas do sucessor, "La Liberación" (quando é que "You Can Have It All" é single?) e despediram-se com um semi-hit da sua fase inicial, "Superafim", brega e irresistível como poucos ("a nossa canção da Xuxa", disse Lovefoxxx numa descrição certeira). Também como nesses primeiros dias, estas raparigas não estão para enganar ninguém: só querem divertir-se divertindo-nos. Há melhor maneira de começar a semana?

Foto @Raquel Cordeiro

É um dos momentos altos de "La Liberación", o terceiro álbum dos Cansei de Ser Sexy, e por isso uma escolha nada surpreendente para novo single. Mas "City Grrrrl" não deixa de ser uma aposta certeira, devolvendo à banda paulista uma energia que já lhe fazia falta.
O videoclip está à altura, com Lovefoxxx a mostrar-nos alguns dos recantos mais coloridos de Nova Iorque numa colaboração com os norte-americanos Ssion. E a própria vocalista ganha também novas cores, com uma atitude algures entre uma Ke$ha mais arty e uma Cyndi Lauper dos primeiros dias:

"La Liberación", o novo disco dos Cansei de Ser Sexy
Numa das canções de "Donkey", "Give Up", Lovevoxxx canta "Life is just so serious/ You won't make me serious", mas durante a maior parte do disco a segunda afirmação raramente se confirma. Pelo menos quando se comparam os temas aí incluídos com os do primeiro álbum dos Cansei de Ser Sexy, a banda brasileira mais internacional dos últimos tempos.
Há dois anos, a estreia em álbum do grupo foi uma das maiores surpresas do panorama pop alternativo, exibindo uma energia contagiante, uma postura despretensiosa e uma amálgama de estilos que, sem renovações de maior, conseguiu definir uma identidade singular.
Com uma produção orgulhosamente lo-fi que em nada comprometia um fortíssimo apelo melódico e um espírito de folia descontrolada, "Cansei de Ser Sexy" confirmou a promessa manifestada nos EPs que percorreram o underground de São Paulo e, depois, a internet.

Desde então, o quinteto (outrora septeto) foi rapidamente promovido a nova coqueluche indie mais ou menos exótica, estatuto que "Donkey" torna agora algo duvidoso. Não por ser um mau sucessor, já que acerta mais do que falha, mas por diluir os elementos da música da banda que mais geravam entusiasmo, constituindo uma versão pasteurizada das vitaminas pop do primeiro álbum.
Mais linear, contido e homogéneo, o disco só ocasionalmente oferece a ousadia e desbragamento do anterior, e embora a banda exiba maior solidez instrumental e vocal o preço a pagar pelo acréscimo de profissionalismo é demasiado alto, levando à perda de grande parte da espontaneidade - e de quaisquer temas cantados em português, alguns dos seus melhores.
A produção, a cargo de Spike Stent (Massive Attack, Madonna, Björk) e Adriano Cintra, o único elemento masculino da banda, também contribui para isso, investindo numa polidez que torna o alinhamento quase imune a contrastes.
Há, contudo, excepções, como o primeiro single, "Rat is Dead (Rage)", com óptimas guitarras pilhadas às Breeders ou aos Sonic Youth. Uma das canções mais abrasivas do grupo, sugeriu que a electrónica teria menos protagonismo em "Donkey", o que acabou por confirmar-se.

Ainda assim esta persiste em alguns momentos, não tanto através de batidas saltitantes mas em sintetizadores que não andam longe dos Killers ou dos Bravery - temas como "How I Became Paranoid" ou "Beautiful Song" não enganam.
Já em "Reggae All Night" servem um groove de base funk, mais festiva, mesmo que longe de devaneios, e na pequena pérola "Believe Achieve" é recuperada a atmosfera do primeiro disco, onde Lovefoxxx está mais carismática do que nunca. Menos apelativa, embora eficaz, "Left Behind" segue modelos de uma teen pop que Avril Lavigne não desdenharia e "Air Panther", a fechar, procura ambientes mais apaziguados e intimistas, pistas talvez a explorar num futuro próximo.
Não sendo uma desilusão, "Donkey" também não é o passo em frente que se esperaria de uma banda com uma estreia tão fulgurante. É antes um suficientemente interessante passo para o lado, que mantém algum apelo sem nunca se tornar hipnótico.
Mas não deixa de ser um disco apropriado para a época estival, solarengo e divertido q.b., mesmo que provavelmente tenha um prazo de validade tão limitado como um qualquer amor de Verão.

Cansei de Ser Sexy - "Left Behind"
Sem pré-aviso, em plena véspera, os Cansei de Ser Sexy cancelaram o concerto previsto para esta quinta-feira, durante o primeiro dia do Optimus Alive!08.
Segundo os próprios, em comunicado em inglês (?), a data do espectáculo colidia com compromissos promocionais ao novo disco, o morninho "Donkey".
Parece que no meio de tanta festa, as meninas e menino se esqueceram que a data da actuação já estava marcada há meses, embora prometam outro em nome próprio por cá mais para o final do ano.
O menos mau é que mesmo quem fosse ao festival só para os ver também não deixa de ficar muito bem servido com o restante cartaz, ainda que a extensão do concerto dos MGMT e do DJ set de Peaches não seja grande compensação pela ausência da banda brasileira - os rapazes de "Time To Pretend" ainda só têm um álbum (e apenas simpático) e a senhora de "Fuck the Pain Away" já tinha hora e meia por sua conta. Quem é que vai dar uns tapinhas à Lovefoxxx?
"Donkey", o segundo disco dos Cansei de Ser Sexy, com edição prevista para Julho, é o disco mais aguardado do Verão por estes lados.
"Rat is Dead (Rage)" foi o primeiro tema do álbum a ser revelado e agora já tem videoclip, onde a banda brasileira está mais abrasiva do que nunca, o que terá algo a ver com a maior presença das guitarras. Está ali ao lado, recomenda-se e é um bom pretexto para revisitar o disco de estreia enquanto não chega o sucessor.
Cansei de Ser Sexy - "Rat is Dead (Rage)"
Pegue-se nos brasileiros Tetine (a dupla da foto acima) e nos seus manifestos baile funk-electro-sexuais, junte-se-lhes a não muito mais bem-comportada Deize Tigrona e abana-se tudo (leia-se remisture-se) com os também habitualmente espevitados Cansei de Ser Sexy.
O resultado é "I Go to the Doctor (CSS Remixxx)", devaneio tão rasteiro e inconsequente quanto divertido e alucinante (dependendo, muito provavelmente, das circunstâncias). Fica ali ao lado, com "videoclip" caseiro como convém, mas aposto que soa melhor na praia.
Tetine & Deize Tigrona - "I Go to the Doctor (CSS Remixxx)"
"Rat is Dead (Rage)" já tinha descortinado um pouco o que traz o novo disco dos Cansei de Ser Sexy, "Donkey", com edição prevista para Julho.
Agora pode ouvir-se mais um tema inédito, "Left Behind", onde o indie rock da canção anterior cede lugar à teen pop, e embora o refrão até fique na cabeça não será das composições mais inspiradas da banda brasileira.
Tanto este tema como um sampler do álbum estão disponíveis para audição e download no The Putz Factory, e sugerem que o grupo de Lovefoxxx deixou de lado grande parte da electrónica que dominava o registo de estreia. Se isso é ou não uma vantagem, em breve saberemos - eu acho que não, mas...

O seu mais recente álbum, "Donkey", só é editado no Verão, mas um dos novos temas dos Cansei de Ser Sexy já pode ser adquirido gratuitamente através do seu site oficial.
Chama-se "Rat is Dead (Rage)" e nele a banda brasileira mostra-se menos festiva do que em canções como "Alala" ou "Superafim" e dá prioridade às guitarras em detrimento da electrónica. Não sendo um portento, é catchy como sempre e demonstra mais uma vez o carisma de Lovefoxxx.



Mal chegaram ao palco, os Cansei de Ser Sexy receberam logo um aplauso generalizado, ou não fossem muito esperados pelos espectadores que esgotaram o segundo de dois concertos que marcam a estreia do sexteto brasileiro em Portugal.
Começando de imediato a descarregar uma irresistível energia que contamina as suas canções, o grupo apresentou ao vivo o seu álbum de estreia homónimo e um dos mais aclamados de 2006, concentrado de pop infecciosa e imaginativa e resultado de uma brincadeira de amigos na internet que, com a preciosa ajuda desta (via blogues, fotologs, webzines e myspace), acabou por gerar um dos mais recentes fenómenos de culto para melómanos e não só.

A vencedora, arrisca-se, terá sido a vocalista Lovefoxxx, excelente entertainer que comprovou ao vivo todo o carisma que já emanava no disco. Incapaz de se manter quieta por mais de três segundos, foi sempre afável e comunicativa, mesmo quando se esqueceu do que tinha para dizer. A química com os espectadores foi evidente, para o qual terão contribuído os crowdsurfings regulares, as muitas perguntas a elementos da plateia ou o justo maiot escuro, de deixar a milhas o abanar de ancas de Shakira, a actuar à mesma hora no Pavilhão Atlântico.

Apesar de muitíssimo competente e sem episódios fracos, o concerto ficou um pouco aquém dos pergaminhos da banda, não por ter sido desapontante mas pela brevidade - durou apenas uma hora - e pela ausência de algumas das melhores canções do colectivo, como "Patins", "CSS SUXXX", "Computer Heat" ou "Bezzi", algumas delas pedidas mas que ficarão, talvez, para um regresso - quem sabe no Festival Paredes de Coura, para o qual o grupo já está confirmado.
Antes de Lovefoxxx e companhia, estiveram em palco os norte-americanos Tilly and the Wall, cujo cruzamento de folk e indie pop se iniciou de forma pouco auspiciosa e, embora tenha melhorado ao longo da actuação, nunca se elevou acima de uma entrega simpática servida por canções mornas. Nada que os Cansei de Ser Sexy não tenham remediado minutos depois, compensando uma longa espera com um concerto que valeu a pena mas soube a pouco. Ficou no entanto o mote para revisitar ao disco - caso alguém precisasse - enquanto se aguarda o retorno do grupo a palcos nacionais.
CSS - "Fuckoff is Not the Only Thing You Have to Show" (ao vivo na noite anterior, via burninghearts)
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