Dom | 2 Out 11
Quel dommage...

 

Decididamente, Christophe Honoré já viu dias melhores. Um ano depois do frustrante "Homme au Bain", até então o ponto mais baixo da sua obra, o novo filme do realizador francês não mostra sinais de regresso à forma.

 

"Os Bem-Amados", embora bem diferente desse antecessor, mantém o sabor a decepção e, sobretudo, os sinais de desgaste de um autor em tempos aliciante. E o pior é que este drama centrado nas vidas de uma mulher (interpretada primeiro por Ludivine Sagnier e depois por Catherine Deneuve) e da sua filha (Chiara Mastroianni) até arranca com alguma graça, leveza e desenvoltura, deixando que um par de sapatos seja o motor da acção e da mudança de vida da protagonista inicial.

 

O problema é que, após estas sequências escorreitas, o filme rapidamente perde o fulgor. Ao longo das quase duas horas e meia seguintes, Honoré vai adicionando dilemas e personagens, alimentando uma narrativa que decorre desde os anos 60 até aos dias de hoje e, infelizmente, esticando a acção muito além do aconselhável.

 

Os momentos musicais, que funcionaram tão bem em "As Canções de Amor", são aqui pouco mais do que mera consolidação de uma imagem de marca, raramente justificando a sua presença (e provando que, tal como o realizador, também Alex Beaupain já foi um compositor mais convincente).

A galeria de personagens não ajuda, sendo das menos carismáticas da obra de Honoré - a de Milos Forman é tão irritante que não se percebe como alguém se sentiria tentado a verter uma lágrima pelo seu destino. E certos desenvolvimentos da narrativa, além de arrastados, são especialmente forçados - caso da paixão obsessiva da filha por um músico gay, que nunca passa do inverosímil.

 

Mesmo assim, seja pelos actores ou pelo passado do realizador - cuja inspiração é a espaços resgatada -, "Os Bem-Amados" ainda convida ao benefício da dúvida durante boa parte da sua duração. Vale a pena? Não, porque a partir de certa altura é sempre a descer: Honoré está decidido a fazer deste o seu drama familiar épico, comprime décadas de acontecimentos que fariam mais sentido numa mini-série e na recta final, particularmente supérflua, serve os trinta ou quarenta minutos mais penosos que passaram pelo grande ecrã este ano. Quando dá o golpe de misericórdia, o nosso interesse já morreu há muito - e com ele a memória das (poucas) qualidades do filme.

 

 



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Dom | 8 Mai 11
A banhada de Honoré e Sagat

 

Nada contra o fascínio de Christophe Honoré por François Sagat, a estrela porno que protagoniza "Homme au Bain", o novo filme do realizador francês. Mas o resultado deste drama conjugal (sobre um casal recém-separado) talvez fosse mais interessante se o actor não fizesse apenas figura de corpo presente, à semelhança do que já tinha ocorrido em "L.A. Zombie", de Bruce LaBruce (então em terrenos do cinema de terror).

 

Como se não bastasse a sua personagem ter o carisma de um tijolo, as restantes também não lhe ficam muito atrás, até porque o autor de "As Canções de Amor" não parece saber muito bem o que fazer com elas. Além de as envolver em sucessivas cenas de sexo, filma-as a fumar, em modo contemplativo, de cinco em cinco minutos, mas não é por aí que "Homme au Bain" ganha estilo ou densidade. E mesmo os momentos musicais, ancorados em canções de bandas indie da moda (Two Door Cinema Club, Girls), são uma pálida derivação de sequências de antologia de filmes anteriores (ainda não é desta que a cena de Romain Duris ao som de Kim Wilde, elemento-chave de "Em Paris", tem sucessora à altura). Se a ideia de Honoré era filmar uma ode (pouco esforçada) ao corpo de Sagat, não deixou de o conseguir. Mas deixou um filme por fazer.

 

 

"Homme au Bain" é um dos filmes da oitava edição do IndieLisboa e pode ser revisto a 14 de Maio, às 21h45, na Sala 1 do Cinema São Jorge

 



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Sex | 26 Jun 09
"As Canções de Amor", agora num palco

 

Belo espectáculo, o que ontem juntou Alex Beaupain, Kéthévane Davrichewy e Valentine Duteuil no Instituto Franco-Português, em Lisboa.

 

O concerto incluiu não só, mas também, uma revisitação da banda-sonora d' "As Canções de Amor", de Christophe Honoré, intercalada com leituras do romance de Davrichewy, "Tout ira bien", cujo título deu nome a esta iniciativa do Festival Silêncio!.

 

Mais sobre o espectáculo no SAPO Livros.

 


música: "Swamp Song", Tool

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Qui | 25 Jun 09
Música e palavra

 

A decorrer em Lisboa até dia 27, o Festival Silêncio! divide-se em várias áreas (concertos, poetry slam, debates, conferências, audiolivros, leituras encenadas) e tem como tema nuclear as ligações entre a música e a palavra.

Esta noite, a programação propõe duas iniciativas especialmente sugestivas.

 

Às 21h30, o espectáculo "Tout ira bien" reúne Alex Beaupain, Kéthévane Davrichewy e Valentine Duteuil num encontro entre spoken word e os temas de "As Canções de Amor" - o melhor filme de Christophe Honoré, cuja banda-sonora foi composta por Beaupain.

Para ver e ouvir no Instituto Franco-Português, num evento de entrada livre.

 

Uma hora depois, Os Malditos sobem ao palco do MusicBox. O quarteto formado por Rodrigo Leão (teclados), Rogério Samora (voz), Gabriel Gomes (acordeão) e Viviena Tupikova (violino) debruça-se sobre a obra de Mário Cesariny num espectáculo também alicerçado no spoken word.

No vídeo abaixo, Rodrigo Leão comenta o festival e revela um pouco do que pode esperar-se mais logo:

 

 

Rodrigo Leão e o Festival Silêncio!

 


música: "Collect Call (Tom Wrecks Remix)", Metric

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Sex | 1 Mai 09
A turma de Honoré

Ainda há poucos meses "A Turma", de Laurent Cantet, apresentou um olhar sobre o ensino através do quotidiano de um liceu francês, e agora o novo filme de Christophe Honoré, "La Belle Personne", volta apostar nos mesmos ambientes como centro da acção.

 

Os contrastes, contudo, dificilmente poderiam ser maiores. Onde os alunos de Cantet eram exemplo do melting pot parisiense, frequentemente desordeiros e muito pouco interessados no que a escola lhes propunha, os de Honoré são filhos da classe média alta, emocionam-se ao ouvir Maria Callas, discutem literatura e aprendem italiano ou russo.

 

 

Mas "La Belle Personne" também não tem, de resto, ambições de ser um ensaio realista sobre o ensino, desde logo porque adapta (mesmo que de forma livre) o romance do século XVII "A Princesa de Clèves", de Madame de La Fayettel, cuja carga de romantismo quase fora de moda e aura trágica em crescendo assentam como uma luva ao universo de Honoré - ou não fosse ele o autor de um filme tão apaixonado (e apaixonante) como "As Canções de Amor".

 

O realizador francês não volta a oferecer, infelizmente, o encanto desse brilhante antecessor, mas esta história sobre um triângulo amoroso centrado numa adolescente (Léa Seydoux, magnética) indecisa entre um colega tímido e fiel (um genuíno Grégoire Leprince-Ringuet) e um jovem professor carismático e sedutor (Louis Garrel, quem mais?) ainda tem os seus méritos.

 

 

Se nos seus primeiros filmes Honoré era muitas vezes comparado (nem sempre de forma elogiosa) a referências da nouvelle vague, nos últimos tem conseguido criar um estilo singular e reconhecível, não obstante essas heranças assumidas.

 

Prova disso são os absorventes planos-sequência pelas ruas de Paris, cuja atmosfera ora lacónica ora melancólica é reforçada pela determinante presença da banda-sonora - embora desta vez as canções de Nick Drake ganhem espaço às de Alex Beaupain (que assina apenas uma).

 

Curiosamente essas "marcas de estilo", embora resultem em belos momentos, são parte do que impede o realizador de dar continuidade a um percurso criativo em fase ascendente - contrariando o que tinha acontecido nos trabalhos anteriores.

 

 

Agora há reconhecimento em vez de surpresa (nem sequer faltam as habitués Clotilde Hesme ou Chiara Mastroianni em pequenas aparições), e mesmo o modo como as personagens se entrecruzam é menos fluído do que se esperaria.

 

Mas se "La Belle Personne" não se junta aos melhores filmes de Honoré sai-se bem em vários aspectos: como adaptação de um romance de época aos dias de hoje (transpondo o cenário de uma corte para o de uma escola), como abordagem sensível e adulta aos dramas da adolescência (que são figuras tridimensionais e nunca caricaturas) e como envolvente retrato de alguns ambientes de Paris (onde a fotografia de tons azulados volta a conjugar o simples e o sublime).

Já é muito, e compensa largamente alguma falta de arrojo formal e a intromissão de demasiados (embora interessantes) sub-enredos na narrativa nuclear.

 

 

"La Belle Personne" integra a sexta edição do IndieLisboa e é reexibido no Cinema City Alvalade hoje às 21h45 e domingo às 18h15

 


música: "Flesh Python", Vitaminsforyou

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Ter | 15 Jul 08
As canções voltam a tocar

 

Acima, Jodie Foster num dos filmes estreados no ano passado que perdi quando esteve nas salas mas que consegui, finalmente, ver hoje no ciclo "Um Ano de Cinemas", no Nimas (cujo programa completo está aqui).

 

Tal como esperava, "A Estranha Em Mim" vale a pena, confirmando a quase sempre criteriosa escolha de papéis da sua actriz principal e a solidez da realização de Neil Jordan (mesmo que o argumento não seja dos mais plausíveis).

Sem dúvida mais interessante do que o título reposto no dia anterior, "Morte Num Funeral", de Frank Oz, comédia previsível e desinspirada que se assemelha a um longo episódio-piloto de uma britcom fraquinha.

 

Mas o motivo deste post é mesmo chamar a atenção para o filme em reposição nesta quarta e quinta-feira, o musical "As Canções de Amor". É não só o melhor dos que conheço de Christophe Honoré como um dos mais memoráveis de 2007, e merece muito ser visto ou revisto. Também em reposição aqui no blog, deixo a entrevista ao realizador e ao protagonista, Louis Garrel, feita perto da estreia:

 

 

Louis Garrel e Christophe Honoré

 


música: "Au Parc", Chiara Mastroianni

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Qui | 18 Out 07
ESTREIA DA SEMANA: "AS CANÇÕES DE AMOR"

Christophe Honoré intrigou-me em "Minha Mãe", interessou-me mais no superior "Em Paris" e agora convenceu-me plenamente em "As Canções de Amor" (Les Chansons d'Amour), um belo musical alicerçado num jovem triângulo amoroso criado e destruído na Paris dos dias de hoje.
É um dos grandes filmes do ano, para o qual contribui, claro, a igualmente recomendável banda-sonora composta por Alex Beaupain e interpretada pelos actores - entre estes constam Louis Garrel, Ludivine Sagnier ou Chiara Mastroianni (crítica ao filme aqui).

Honoré e Garrel passaram por Lisboa a propósito da ante-estreia do filme na Festa do Cinema Francês e eu e o Eduardo Santiago falámos com eles. A reportagem pode ser vista no vídeo que está aqui em baixo.

Outras estreias:

"A Estranha em Mim", de Neil Jordan
"El Cantante", de Leon Ichaso
"Eles", de David Moreau e Xavier Palud
"Um Azar do Caraças", de Judd Apatow, o realizador de "Virgem aos 40 Anos"




Entrevista a Christophe Honoré e Louis Garrel



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Qua | 3 Out 07
3 amantes em Paris
O musical, género cinematográfico considerado morto por alguns, tem nos últimos anos ressuscitado através de títulos tão díspares como "Moulin Rouge", de Baz Luhrmann, "Dancer in the Dark", de Lars Von Trier", ou "Hairspray", de Adam Shankman, entre outros, investindo tanto em formatos clássicos como mais extremos.

"As Canções de Amor" (Les Chansons D'Amour), o quinto filme do francês Christophe Honoré, é mais um exemplo da vitalidade que o género ainda vai exibindo ocasionalmente, recolhendo influências da obra de Jacques Demy (nomeadamente de "Os Guarda-Chuvas do Amor", de 1964) e recontextualizando-as num cenário parisiense contemporâneo, palco dos (des)amores de um grupo de jovens dos dias de hoje.


A música já tinha sido um elemento basilar no filme anterior do realizador, "Em Paris", em especial numa inesquecível cena onde Romain Duris ouvia uma canção de Kim Wilde no quarto ou numa outra onde cantava "Avan la Haine" ao telefone, mas em "As Canções de Amor" surge com uma relevância reforçada, uma vez que os vários momentos em que as personagens cantam são episódios fundamentais para a expressão das suas convulsões emocionais.


 


Embora a vertente musical seja forte, o filme não se resume, ao contrário de outros exemplos do género, a uma sucessão de números mais ou menos pomposos e impressionantes, antes investe numa sólida base dramática complementada por canções sóbrias e melancólicas. Compostos por Alex Beaupin, os temas seguem a tradição singer/songwriter e são interpretados pela maioria dos actores, abordando, tal como o filme, as dificuldades das relações humanas e nunca desvirtuando a atmosfera discreta e realista que domina a narrativa.

Dividido em três actos - a partida, a ausência e o recomeço -, "As Canções de Amor" começa por se centrar num triângulo amoroso que é destruído pela súbita morte de um dos jovens que o constitui. O filme segue depois as reacções dos outros dois, em especial as de Ismael, que ao tentar reconstruir a sua vida enceta várias relacionamentos sem superar, no entanto, a tragédia recente.

Tal como nos títulos anteriores de Honoré, o amor e a família voltam a ser elementos centrais, e o realizador constrói novamente uma história assente em personagens credíveis, onde os erros que fazem não as impedem de gerar empatia e apenas reforçam a sua verosimilhança.




A narrativa mantém a leveza de "Em Paris", contando com uma realização viva e imaginativa, mas não exibicionista, e o tom caloroso reforça a ideia de que Honoré deixou para trás os ambientes clínicos e inquietantes de "Minha Mãe". O que se recupera, e de forma cada vez mais madura, é um subtil olhar sobre as relações amorosas, que em "As Canções de Amor" se desdobram entre a monogamia e a poligamia, assim como pela hetero, bi e homossexualidade, sem que se enverede por qualquer tentativa de moralismo, irreverência juvenil ou choque gratuito.


O elenco reflecte o mesmo equilíbrio e inclui nomes confiáveis como Louis Garrel, habitué nas obras do realizador, que mais uma vez confirma ser um dos melhores jovens actores de hoje, epíteto que que também pode servir para Ludivine Sagnier, que tem aqui um dos seus desempenhos mais comoventes e memoráveis.


A presença - e voz - de Chiara Mastroianni ou Clotilde Hesme, em papéis secundários, sedimentam o afinco da direcção de actores, contribuindo para que o filme resulte num conjunto de grandes canções e interpretações. É o melhor de Honoré a chegar a salas nacionais e catapulta-o para a lista de cineastas obrigatórios do novo cinema francês, sendo também uma das experiências cinematográficas mais belas e contagiantes do ano. A ver - e ouvir - sem reservas.


E O VEREDICTO É: 4/5 - MUITO BOM

"As Canções de Amor"

 

é o filme de abertura da 8ª Festa do Cinema Francês e estreia a 18 de Outubro



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Qui | 2 Nov 06
ESTREIA DA SEMANA: "EM PARIS"

Estreia hoje o novo filme de Christophe Honoré, que no anterior "Minha Mãe" se candidatava a novo enfant terrible mas que apresenta neste "Em Paris" (Dans Paris) um olhar menos áspero e negro sobre as relações humanas, em especial as familiares. O filme segue um dia na vida de dois irmãos, o mais velho em depressão, o mais novo a tentar ajudá-lo enquanto reencontra a sua ex-namorada. Romain Duris e Louis Garrel protagonizam este drama com toques de comédia, uma das melhores obras da última edição da Festa do Cinema Francês.

Outras estreias:

"Manual de Amor", de Giovanni Veronesi
"O Ilusionista", de Neil Burger
"Paris, Je t' Aime", vários realizadores


publicado por gonn1000 às 22:34
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O MEU IRMÃO, EU E O MEU IRMÃO
Os primeiros momentos de “Em Paris” (Dans Paris) podem levar o espectador a pensar que o filme é mais um dos que peca por ser demasiado “espertalhão” e auto-consciente, tanto pela forma como uma das personagens fala directamente para a câmara, caracterizando-se simultaneamente como narrador, como pelo enfoque algo obsessivo, e que ameaça cair na redundância, sobre a relação conjugal de dois jovens.
Se se tiver em conta que a realização está a cargo de Christophe Honoré, cuja película anterior, “Minha Mãe”, se aproximava perigosamente da pretensão e do choque gratuito, então poderá temer-se que em “Em Paris” o cineasta tenha alargado o espaço para a auto-indulgência mascarada de transgressão e ousadia.

No entanto, após os minutos iniciais, o filme vai colocando de parte esta carga mais ostensiva para se dedicar, e ainda bem, ao que acaba por ter de melhor: um conjunto de personagens bem trabalhadas, unidas pelos laços familiares e entretanto afastadas por muitos outros factores que parecem agora irrisórios quando um dos elementos da família atravessa um momento crítico.

“Em Paris” assenta na relação de dois irmãos, Guillaume, o mais velho, que regressa do interior de França a Paris após o fim de um relacionamento que o deixou à beira da depressão, e Jonathan, o mais novo, que aí vive com o pai e leva uma vida despreocupada.
O estado desolado do primeiro leva a que o segundo, assim como os pais, tentem encontrar uma solução para o afastar do abismo, mas o melhor em que Jonathan consegue pensar é num desafio ao irmão, que o obrigará a ir ter consigo para passearem juntos pelo Bon Marché de Paris, à semelhança do que ocorria quando eram crianças.
Contudo, e ao contrário do combinado, Jonathan acaba por demorar mais de uma manhã a chegar ao local marcado, e o filme segue os episódios decorridos ao longo desse dia que vão, aos poucos e de forma mais ou menos directa, mudando a atitude e a ligação dos dois protagonistas.

Inesperadamente afastado da aura fria e clínica de “Minha Mãe”, “Em Paris” partilha com este um olhar sobre as relações humanas, em especial as familiares, que desta vez é bem mais caloroso, a espaços mesmo percorrido por uma envolvente candura, ainda que não deixe de evidenciar as contrariedades das emoções ou as dificuldades de comunicação geradas entre os que estão unidos pelo sangue.
O retrato resulta num filme genuíno e comovente, que não obstante pontuais cenas dispensáveis (fica por esclarecer a função do narrador) impõe-se como um drama adulto marcado por pontuais escapes cómicos, onde é claro o amor de Honoré pelas suas personagens.
 

Estas são, de resto, interpretadas por um elenco inatacável, sendo os protagonistas dois dos melhores jovens actores franceses, Romain Duris e Louis Garrel. Duris não destrona o seu magnífico desempenho em “De Tanto Bater o Meu Coração Parou”, mas também não desilude na pele do angustiado Guillaume, e Garrel surpreende como Jonathan, uma personagem mais espirituosa do que as que o actor encarnou em títulos como “Os Sonhadores” ou “Os Amantes Regulares” e que ameaçavam limitá-lo a composições mais soturnas. Guy Marchand é também brilhante no papel do pai, que encoraja Jonathan a ajudar o irmão e tenta tornar a sua família mais coesa.

Peculiar é ainda a utilização da banda-sonora, cujo espectro vai dos Metric a Kim Wilde, incluindo a partitura instrumental de Alex Beaupain. Particularmente significativas são as cenas da conversa telefónica entre Guillaume e a sua ex-namorada, em que ambos cantam “Avan la Haine”, ou aquela, também protagonizada pela personagem de Duris, em que uma canção de Kim Wilde é ouvida no quarto e oferece um momento de arrepiante intimismo.
Intimismo é, aliás, um elemento que Honoré parece ter interesse em desenvolver, e se “Minha Mãe” já sugeria que o realizador era capaz de originar abordagens estimulantes, “Em Paris” confirma-o, estando uns furos acima do seu antecessor. Motivo mais do que suficiente, portanto, para colocar o cineasta entre os novos nomes do cinema francês a seguir com atenção e esta numa obra a não perder entre as estreias da recta final de 2006.
 
 
E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM
 
Filme visto na Festa do Cinema Francês


publicado por gonn1000 às 22:31
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Dom | 7 Nov 04
AMOR DE MÃE

Após experiências recentes em obras como "A Pianista" (La Pianiste), de Michael Haneke, ou "Duas" (Deux), de Werner Schroeter, Isabelle Huppert regressa ao grande ecrã em mais um papel atípico. "Minha Mãe" (Ma Mère) é uma intensa proposta do cinema francês contemporâneo, centrando-se num universo claustrofóbico que congrega temas como o sexo, os laços familiares, o crescimento, a morte, a moral, a obsessão e o amor. O cineasta Christophe Honoré adaptou a obra literária homónima do "escritor maldito" Georges Bataille, inserindo na sua versão algumas influências de autores mais recentes como Bret Easton Ellis ou Dennis Cooper.

Focando as relações ambíguas entre um jovem de 17 anos, Pierre (Louis Garrel, que participou no muito recomendável "Os Sonhadores", de Bernardo Bertolucci) e a sua mãe Hélène, uma instável e hedonista mulher de meia-idade (Isabelle Huppert), "Minha Mãe" apresenta um denso olhar sobre personagens fracturadas que testam os limites da perversão e do amor.

Educado pela avó, Pierre encontra-se com os pais nas ilhas Canárias na perspectiva de se tornar mais próximo destes, mas pouco depois da sua chegada o seu pai sofre uma morte abrupta e inesperada. Com uma estrutura familiar dilacerada, o processo de crescimento e educação de Pierre será agora obtido através das experiências geradas pela sua mãe, que o inserem num mundo divergente das influências mais tradicionais e conservadoras que o moldaram até então. À medida que vai desvendando os segredos que Hélène lhe escondia, Pierre começa a sentir emoções cada vez mais extremas e profundas em relação à sua mãe, encetando uma caminhada numa complexa espiral descendente que o conduz ao abismo e a uma realidade difícil de suportar.

 

Christophe Honoré apresenta uma história marcada por atmosferas enclausuradoras e soturnas, ambientes caracterizados por personagens deslocadas e sem rumo que vivem experiências desprovidas de limites e fronteiras. A vertente transgressora do filme adensa-se continuamente, acompanhando a iniciação sexual de Pierre e as suas perspectivas (cada vez mais ambivalentes) acerca do novo mundo a que é exposto, despoletando um processo que mescla as margens entre a inocência e a perversão. Para melhor explorar este processo, o realizador recorre às ambiências nocturnas da ilha que, apesar de preenchidas por uma imensa multidão de turistas num contexto festivo e boémio, se caracterizam por cenários de sinistra melancolia e cruel solidão. Nestas viagens nocturnas ocorrem arriscados e intensos jogos de sedução, que originarão um conjunto de cenas cruas e abrasivas marcadas pelo desejo e sexo.

Christophe Honoré proporciona momentos que recorrem a um erotismo duro e visceral, essenciais para que Pierre se aproxime do universo e dos territórios de Hélène. Devido a cenas como essas, "Minha Mãe" arrisca-se a ser encarado como mais um filme-choque que tenta destacar-se pelo repúdio e abjecção que poderá eventualmente suscitar (um pouco à semelhança com o que ocorreu com "Ken Park - Quem És Tu?", de Larry Clark, que se estreou em Portugal em 2003 e abordava temáticas relativamente próximas). Contudo, o realizador preocupa-se em oferecer ambientes, personagens e linhas narrativas suficientemente convincentes e hipnóticos para que tal rótulo seja desconsiderado, gerando uma obra que tem tanto de emocional e caloroso como de gélido e distante.

Apresentando uma interessante perspectiva acerca da gestão dos afectos, das dores de crescimento, da sexualidade, da perversão e do desvio, "Minha Mãe" combina ambientes oníricos, algum humor negro, um desconcertante estudo de personagens e comprova a vitalidade do cinema francês recente. Dificilmente será um filme consensual, em certos momentos é mesmo pouco apelativo e e algo repetitivo, mas essa natureza dúbia (que tanto entusiasma e absorve como se estranha e repele) torna-o numa das obras mais ousadas e singulares do ano.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM



publicado por gonn1000 às 18:41
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'ETs In Da Bairro', de Joe Cornish
críticas: filmes de 2011


- "127 Horas", Danny Boyle
- "A Nossa Vida", Daniele Luchetti
- "A Pele Onde Eu Vivo", Pedro Almodóvar
- "Amigos Coloridos", Will Gluck
- "Blue Valentine - Só Tu e Eu", Derek Cianfrance
- "Cisne Negro", Darren Aronofsky
- "Drive - Risco Duplo", Nicolas Winding Refn
- "Green Hornet", Michel Gondry
- "Gritos 4", Wes Craven
- "Hanna", Joe Wright
- "Harry Potter e os Talismãs da Morte: Parte 2", David Yates
- "Insidioso", James Wan
- "Jane Eyre", Cary Fukunaga
- "Kaboom - Alucinação", Gregg Araki
- "Melancolia", Lars von Trier
- "O Amor é o Melhor Remédio", Edward Zwick
- "O Código Base", Duncan Jones
- "Os Agentes do Destino", George Nolfi
- "Os Bem-Amados", Christophe Honoré
- "Pequenas Mentiras Entre Amigos", Guillaume Canet
- "Sem Identidade", Pierre Morel
- "Sem Tempo", Andrew Niccol
- "Tournée - Em Digressão", Mathieu Amalric
- "X-Men: O Início", Matthew Vaughn