Com "Respirar (Debaixo d'Água)" (2000), a mais popular das suas curtas-metragens, ou a longa "Esquece Tudo o que te Disse" (2002), António Ferreira tornou-se para muitos um dos nomes do cinema nacional a seguir.
"Embargo", o seu novo filme, é agora mais um passo importante, que tanto pode dar mais visibilidade à sua obra como talvez tirar as teimas a quem não aderiu aos títulos anteriores.
Inspirado num conto homónimo de José Saramago, este drama com toques de absurdo acompanha o trabalhador de uma roulotte que tem a ideia da sua vida e pretende usá-la para mudar a indústria do calçado... mas acaba por ficar preso no seu próprio carro (e o filme vai mostrando que não é fácil sair).
Tal como a ideia do protagonista, a que dá mote ao filme oferece boas possibilidades. Se são bem aproveitadas é outra história. A Menção Especial do Júri na mais recente edição do Fantasporto sugere que sim, mas há quem não tenha ficado com tanta certeza. Nada como ir vê-lo para tirar as dúvidas.
Além de "Embargo", há mais nove(!) estreias esta semana e a lista pode consultar-se aqui.
e-Cinema: Mulheres renovadas e escritores adaptados
Passou pela última edição do festival de Cannes e, já em salas nacionais, foi um dos destaques do Queer Lisboa 13 há poucas semanas. E hoje, "Morrer Como um Homem" conhece finalmente estreia nacional.
A terceira longa-metragem de João Pedro Rodrigues, sucessor de "O Fantasma" (2000) e "Odete" (2005), parece dar continuidade ao misto sinuoso de realismo e romantismo que tem distinguido o percurso do realizador.
Neste caso, o filme adapta a história verídica de Ruth Bryden (Joaquim Centúrio de Almeida), conhecida travesti lisboeta, e desenha mais um retrato de uma Lisboa nocturna e fantasmagórica, palco de histórias de amor, sexo e solidão.
Tal como os antecessores dificilmente terá um acolhimento consensual, embora seja mais um testemunho a descobrir de um realizador que, pelo menos, tem marcado pela diferença - e já há quem garanta que não está abaixo do genial.
Hoje é, também, o dia do arranque da sétima edição do Doclisboa, que decorre na Culturgest até 25 de Outubro.
Na noite desta sexta-feira, Lisboa tem, pelo menos, duas propostas promissoras no palco e no grande ecrã. Infelizmente não poderei ver nenhuma, mas para quem estiver pela capital ficam as sugestões.
E este ainda tem a particularidade de ser filmado, já que o espectáculo surge integrado nos Club Docs, documentários sobre artistas nacionais que serão exibidos este ano na RTP2 (sábado é a vez dos também recomendáveis X-Wife).
No cinema, merece referência o arranque do Queer Lisboa 13, Festival de Cinema Gay e Lésbico de Lisboa. "Morrer como um Homem", o novo filme de João Pedro Rodrigues ("O Fantasma", "Odete") é o título da sessão de abertura (às 22h no Cinema São Jorge).
Tal como nas edições anteriores, o festival conta com curtas e longas-metragens, da ficção ao documentário, assim como com uma selecção de videoclips temáticos.
E este ano inaugura uma nova secção onde recupera alguns filmes marcantes - como "The Living End", de Gregg Araki (realizador do memorável "Mysterious Skin").
Ainda na sétima arte, chegaram esta semana às salas dois filmes a reter: o muitíssimo elogiado "Estado de Guerra", de Kathryn Bigelow (que tem no currículo o excelente "Estranhos Prazeres") e o menos aplaudido "Taking Woodstock", de Ang Lee (cujas sessões incluem a curta-metragem "Arena", de João Salaviza, premiada em Cannes).
E voltando à música... Mais a norte, no Porto, há Clubbing na Casa da Música com concertos de Ebony Bones e The Rakes. E se ainda for a tempo deles, pode ser que venha aqui contar como correram...
Chegou esta semana às salas "Mal Nascida", o muito aguardado novo filme de João Canijo (pelo menos por quem considera o antecessor, "Noite Escura", um dos melhores filmes portugueses dos últimos anos).
Estive à conversa com o realizador e com a actriz principal, Anabela Moreira, e parte dela pode ser vista no vídeo que deixo aqui:
E se Cristóvão Colombo tivesse sido português? É esta a ideia que Manoel de Oliveira tenta comprovar em "Cristóvão Colombo - O Enigma", em que parte de investigações que defendem que o navegador que descobriu a América não era italiano mas originário da aldeia de Cuba, no Alentejo.
Os protagonistas do filme são, por isso, Manuel Luciano da Silva e Sílvia Jorge da Silva, casal que na década de 40 realizou estudos com vários indícios de que a nacionalidade de Colombo era portuguesa. Oliveira começa por se concentrar nas pesquisas da dupla, nos tempos em que eram mais jovens, e acaba com o foco na sua relação nos dias de hoje, já na velhice, debruçando-se sobre a sua experiência conjugal.
Infelizmente, "Cristóvão Colombo - O Enigma" nunca se revela muito interessante em nenhum dos cenários, sendo até bastante insípido durante grande parte da sua duração. A História de Portugal é abordada com num misto de didactismo gritante e uma nostalgia excessivamente reverente pelas glórias dos Descobrimentos, através de diálogos demasiado explicativos e sem qualquer traço de espontaneidade.
As interpretações não disfarçam essa falta de subtileza, já que tanto Ricardo Trêpa como Leonor Baldaque não concedem qualquer espessura dramática às personagens, mantendo sempre uma rigidez exasperante e debitando texto sem convicção.
Ao fim de poucos minutos, o filme vai caindo num esquematismo incapaz de seduzir, e nem mesmo a sobriedade da câmara de Oliveira é capaz de compensar a mediocridade de tudo o resto, até porque a iluminação do interior dos locais por onde o casal vai passando deixa muito a desejar.
Admita-se que o cineasta gera, pontualmente, alguns pequenos milagres, como a criação de uma Nova Iorque dos anos 40 envolta em nevoeiro ou o modo como a retrata hoje em dia, a milhas da forma como esta costuma ser filmada.
Mas por cada oportuna ideia visual há duas ou três fragilidades do argumento ou das interpretações, o que leva a momentos dispensáveis como as aparições do anjo de Portugal ou a declamação de um poema de Pessoa por Luís Miguel Cintra, um dos maiores picos de pretensão do filme.
Quando a acção foca o casal na velhice torna-se um pouco mais entusiasmante, até porque a reflexão sobre a experiência conjugal se sobrepõe, e ainda bem, à vertente histórica. Aqui, o par protagonista surge interpretado por Oliveira e a sua esposa, o que talvez ajude a explicar o intimismo e cumplicidade que resulta de algumas cenas, contrapondo-se à postura forçada de Trêpa e Baldaque.
Quando, nestes momentos, "Cristóvão Colombo - O Enigma" se debruça na relação amorosa - que parece não ser tanto a das personagens mas a daqueles que as interpretam - até oferece algumas sequências curiosas e enternecedoras, embora deite tudo a perder quando se entrecruza com a História e volte aos tiques de vídeo institucional amador. E são esses que, por serem quase omnipresentes, tornam o filme numa experiência cinematográfica pesada e mortiça, que apesar de não ir além dos 70 minutos parece durar o dobro do tempo, resultando num enigma que não desperta muita curiosidade.
música: "Para Luis", María Daniela Y Su Sonido Lasser
O ciclo "Emigração Portuguesa" arranca hoje e mantém-se até dia 8 no cinema S. Jorge, em Lisboa. A iniciativa, de entrada gratuita, é composta por filmes maioritariamente portugueses e documentais, sendo alguns apresentados pelos realizadores e comentados por especialistas.
Uma boa oportunidade para (re)ver títulos como "Ganhar a Vida", de João Canijo (dia 6 às 22h), "Esta é a Minha Casa" e "Viagem à Expo", de João Pedro Rodrigues (dias 8 às 17h30), ou "Mudar de Vida", de Paulo Rocha (dia 8 às 22h), entre outros. Programação completa aqui.
"A Outra Margem", o novo filme de Luís Filipe Rocha, gera desde logo alguma curiosidade por contar com uma dupla protagonista pouco habitual: um tio e um sobrinho onde o primeiro é um travesti e o segundo um adolescente com Síndrome de Down. O resultado, contudo, é menos atípico ou mesmo irreverente do que esta junção poderia sugerir, originando um drama sóbrio e contido que se debruça nas contrariedades das relações humanas, tanto familiares como amorosas, e sobretudo na forma como a diferença as influencia.
Ricardo, que faz espectáculos musicais como travesti num bar lisboeta, entra em desespero após o abrupto suicídio do namorado, mas depois de uma visita da sua irmã, que não via há anos, decide regressar com ela à sua terra natal, uma localidade no interior, local onde deixou um pai desiludido e uma noiva frustrada. É aí que conhece outro familiar, o seu sobrinho Tomás, um jovem com trissomia 21 que aos poucos o vai contagiando com a sua espontaneidade e optimismo, e as conversas que partilham acabam por os encorajar a encetar novas fases nas suas vidas.
Luís Filipe Rocha apresenta aqui um filme corajoso, honesto e sensível, características que compensam alguns dos seus problemas. Um dos maiores é o facto dos primeiros 15/20 minutos não serem especialmente envolventes, presos a cenas com planos demasiado longos e contemplativos que impõem um arranque desnecessariamente moroso.
Felizmente, o desenvolvimento da narrativa torna-se mais interessante à medida que as personagens se vão dando a conhecer, e mesmo com um ritmo irregular este drama acaba por ir conquistando através de um argumento consistente e um assinalável rigor formal.
Tal como em outras obras do cineasta, "A Outra Margem" demonstra apuro tanto na realização como na direcção de actores, tendo esta última sido distinguida no Festival de Montreal, onde Filipe Duarte e Tomás Almeida foram ambos galardoados com o prémio de melhor actor. Percebe-se porquê, já que a dupla oferece aqui interpretações sentidas, e Duarte é especialmente notável, compondo uma personagem que facilmente poderia cair na caricatura mas que aqui surge num retrato tridimensional - das expressões faciais à linguagem corporal, o actor sofre uma impressionante metamorfose face ao que já demonstrou em qualquer outro papel que encarnou.
Maria D'Aires e Sara Graça convencem na pele das duas personagens femininas e a fotografia de Edgar Moura potencia alguns belíssimos planos - as paisagens de Amarante, onde grande parte da acção foi filmada, também ajudam -, complementando os seguros enquadramentos de Rocha. Igualmente curiosa é a banda-sonora criada pelos Corvos, ainda que a sua quase omnipresença possa ser cansativa a espaços.
Pena que os interessantes conflitos entre as personagens não sejam tão explorados como se desejaria, impondo um desenlace que deixa várias pontas soltas. Situações como a do reencontro do protagonista com o pai - claramente simbólica, a explicar o título do filme - perdem força por não terem seguimento, não aproveitando ao máximo as possibilidades da premissa.
Aliadas aos problemas iniciais da narrativa, fazem de "A Outra Margem" uma obra desequilibrada, embora não a impeçam de se destacar como um dos bons títulos do final de 2007 e, principalmente, como um dos escassos filmes portugueses dos últimos tempos que vale a pena descobrir.
Um dos temas recorrentes de parte do cinema português dos últimos anos é o do passado recente do país, em particular questões relacionadas com o antigo regime, exploradas em títulos como "Inferno" ou "20,13", de Joaquim Leitão; "Os Imortais", de António-Pedro Vasconcelos; "Capitães de Abril", de Maria de Medeiros; ou "Preto e Branco", de José Carlos de Oliveira, entre outros.
"Julgamento", de Leonel Vieira, também volta a mexer em algumas feridas eventualmente por sarar, uma vez que no centro dos acontecimentos estão reminiscências de torturas efectuadas pela PIDE a alguns dos protagonistas, obrigando-os a lidar com fantasmas de uma outra época que regressam através de um reencontro inesperado.
Ao assistir a um julgamento em que a sua filha participa como advogada de defesa, Jaime, um professor universitário de meia idade, reconhece no arguido traços de um agente da PIDE que o torturou nos seus tempos de jovem antifascista, e que terá sido um dos responsáveis pela morte de Marcelino, um dos seus melhores amigos.
A revolta que acumulou ao longo dos anos encoraja-o a procurar respostas e a fazer justiça pelos seus próprios meios, e assim rapta o suposto ex-agente e leva-o para a sua casa de campo, onde as regras do jogo são agora ditadas por si. Esse confronto torna-se ainda mais conturbado quando a filha de Marcelino, com quem mantém uma relação, e dois amigos de longa data também alvo da acção da PIDE, acabam por ter conhecimento do rapto e reagem de modo díspar e hesitante, gerando um problema legal e moral de difícil resolução.
Desdobrando-se entre o thriller e o drama, "Julgamento" confirma o eclectismo estilístico de Leonel Vieira, que aqui apresenta um filme nos antípodas da comédia de "A Bomba", do romance de "A Selva" ou do olhar sobre a juventude urbana de "Zona J". De tom menos ligeiro do que alguns desses títulos, mergulha num retrato geracional de forma mais densa e madura do que se esperaria, evitando as tentações de algum cinema assumidamente comercial que se faz por cá - não há por aqui overdoses de cenas de sexo gratuitas, linguagem censurável ou violência despropositada.
Tecnicamente, Vieira mantém a eficácia pela qual já se havia distinguido, apostando numa realização fluída e dinâmica, mas não epiléptica, num apurado trabalho de fotografia e iluminação e numa banda-sonora capaz de sugerir tensão sem resvalar para picos dramáticos insuflados.
O argumento exibe algumas semelhanças com o de "A Noite da Vingança", de Roman Polanski, que também era marcado por fortes contornos políticos (nomeadamente ditatoriais), onde uma vítima raptava o seu suposto torturador, ainda que "Julgamento" esteja longe de ser um exercício copista, conseguindo definir personagens e ambientes próprios.
Por vezes o debate interno do protagonista é previsível e o de algumas das outras personagens fica por explorar com um grau de complexidade mais acentuado, mas o filme está uns degraus acima de um mero objecto panfletário pronto a despertar consciências, contando com figuras adequadamente ambíguas e credíveis. Também era difícil não o fazer tendo em conta o elenco, sem dúvida um dos mais consistentes vistos numa película portuguesa nos últimos tempos, que concentra uma galeria de veteranos como Júlio César, José Eduardo, Carlos Santos e Henrique Viana, este no seu último papel.
Todos oferecem fortes interpretações, embora Júlio César talvez seja o que mais impressione uma vez que a sua personagem, a protagonista, é a que permite maior versatilidade. Alexandra Lencastre confirma as sólidas impressões que os seus últimos trabalhos têm reforçado, sobretudo os que fez com Fernando Lopes ("O Delfim", "Lá Fora"), e Fernanda Serrano não compromete num papel que poderia ter mais relevo.
"Julgamento" poderá não ser ainda o filme que levará a que Leonel Vieira seja considerado um "autor" pelos seus detractores, mas é um digno exemplo de cinema que tem em vista o grande público sem prescindir de uma abordagem inteligente às questões que foca, servindo-a com uma profissionalíssima embalagem industrial. Caso raro tanto em filmes portugueses como estrangeiros, e que por isso mesmo impõe que este seja saudado, visto e divulgado.
Filmes portugueses coesos e convincentes não são propriamente uma regra, e são menos ainda aqueles feitos a pensar no grande público que não caem em facilitismos como forma de chamariz. Surpreendentemente, "Julgamento" é um desses raros casos, reavivando memórias do antigo regime numa história bem desenvolvida e melhor interpretada, contando com um elenco que inclui Júlio César, Alexandra Lencastre, José Eduardo ou Henrique Viana (naquele que viria a ser o seu último papel). Leonel Vieira pode não ser o realizador com a filmografia mais impressionante ("A Bomba", "Zona J", "A Selva"), mas neste caso o seu filme justifica sem dúvida o preço do bilhete.
E a propósito da estreia deixo aqui um vídeo, feito por mim e pela Vera Moutinho, com comentários do realizador e de dois actores, Júlio César e Fernanda Serrano.
Embora só agora se estreie com uma longa-metragem, Jorge Cramez tem já um considerável percurso ligado ao cinema, tendo sido assistente de realização de nomes como João César Monteiro, Fernando Lopes ou Jorge Silva Melo e conte com cinco curtas-metragens assinadas por si. Esta experiência terá ajudado a que "O Capacete Dourado" exiba claros sinas de maturidade em alguns aspectos, ainda que como um todo este seja um filme que não escapa às fragilidades presentes em muitas primeiras obras.
A mais evidente regista-se no argumento, que se debruça sobre a relação entre dois adolescentes, Jota e Margarida. Ele, rebelde e impulsivo, passa os dias em viagens de mota, escape para um sistema de ensino no qual não se enquadra, não sentindo afinidades nem com os professores nem com os colegas do liceu. Ela, tímida e vulnerável, recém-saída de uma clínica, vive numa redoma edificada pelos pais, que a sufocam com recorrentes conselhos e perguntas. "O Capacete Dourado" segue o elo que vai crescendo entre estes dois outcasts, e que aos poucos vai alterando o seu quotidiano quando ambos encontram alguém em que se podem rever.
Este ponto de partida foi inspirado num caso real, em que um casal de namorados de Guimarães tentou suicidar-se (ainda que só ela o tenha conseguido), como forma de protesto ao antagonismo das suas famílias. Cramez alterou o local da acção, mantendo contudo o ambiente rural - o filme foi filmado em Vila Real - e aos poucos decidiu encaminhar a sua história noutro sentido, mudando sobretudo o desenlace.
O cinema recente tem sido fértil em complexos olhares sobre a adolescência, nomeadamente a facção indie, mas o curioso aqui é que "O Capacete Dourado" segue mais o modelo de exemplos clássicos - como "Fúria de Viver", de Nicholas Ray, uma influência assumida -, e se é interessante ver essa herança adaptada à realidade portuguesa, o realizador não apresenta aqui o golpe de asa que faça desta uma obra marcante. Há cenas das quais emana uma tridimensionalidade no retrato dos adolescentes poucas vezes vista no cinema nacional, que nos últimos anos só terá paralelo em escassos títulos como "Os Mutantes", de Teresa Villaverde, ou "A Passagem da Noite", de Luís Filipe Rocha. Sequências como a da consola de jogos ou a de snooker são verosímeis, assim como os desempenhos do duo protagonista, Eduardo Frazão e Ana Moreira.
Infelizmente, a actriz adopta mais uma vez o registo que a tem distinguido e que impressionou nesse memorável filme de Villaverde ou no mais recente, "Transe". O seu desempenho não compromete, pelo contrário, mas seria preferível vê-la noutro tipo de personagens que não a de jovem angustiada e contemplativa.
Ainda assim, "O Capacete Dourado" vive mais do elenco jovem - ao qual se acrescenta Alexandre Pinto, também um "mutante" - do que do veterano, pois os actores consagrados pouco têm para fazer além de cameos desnecessários. É o caso de Rita Blanco, Alexandra Lencastre, Teresa Madruga e Maria João Luís, no papel de professoras entregues a diálogos algo forçados no início do filme. Rogério Samora, com mais tempo de antena, não pode fazer muito mais quando tem para interpretar o cliché do pai de família autoritário.
O desenvolvimento da narrativa também raramente se afasta dos lugares-comuns na abordagem aos conflitos geracionais e às dificuldades do crescimento, além de deixar demasiadas pontas soltas e contar com cenas despropositadas - caso daquela que foca uma pensativa mãe de Margarida ao pé da porta.
Até certo ponto, estes desequilíbrios são compensados pelo trabalho de realização de Cramez, capaz de sugerir cenas de um envolvente realismo poético, dominado por uma tensão longe de bucólica, seja pelos movimentos fluídos da câmara ou pela apelativa fotografia. E há episódios que mostram o filme que "O Capacete Dourado" poderia ter sido, como o da festa, vincada por uma forte componente sensorial a partir da eficaz interligação entre imagem e música. A banda-sonora é, de resto, um dos trunfos, cujo eclectismo inclui Echo & the Bunnymen, Strauss, Humanos e Vitalic.
Mais promissor do que convincente, "O Capacete Dourado" tem o mérito de apostar num retrato da adolescência poucas vezes visto no cinema nacional, e ainda que não seja plenamente conseguido deixa algumas provas de talento. Uma delas é o protagonista Eduardo Frazão, cuja segurança demonstrada nesta sua estreia como actor já justifica, por si só, a descoberta do filme.
Ao longo desta semana, a programação nocturna da RTP2 inclui alguns títulos do cinema português recente, quase a fazer lembrar os antigos ciclos "5 Noites, 5 Filmes". Assim, hoje é exibido "Daqui p´rá Alegria" (na foto), de Jeanne Waltz (cujo mais recente "Pas Douce" foi dos mais elogiados no último IndieLisboa); amanhã "A Janela", de Edgar Pêra; na quarta "Sem Ela", de Anna de Palma; quinta "Mal", de Alberto Seixas Santos; e sexta "Vai e Vem", de João César Monteiro.
Destes só vi "Mal", do qual não gostei, mas surge aqui uma boa oportunidade para (re)ver alguns filmes difíceis de encontrar. De hoje a sexta, com início entre as 23h30 e a meia-noite, mesmo antes da série "A Letra 'L'".