Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Onde está a revolução, Depeche Mode?

O mote para o novo álbum dos DEPECHE MODE foi a revolução, mas "SPIRIT", embora com uma carga política mais marcada do que o habitual no trio britânico, acaba por ser musicalmente conservador.

 

depeche_mode_2017

 

"Where's the revolution?", perguntava Dave Gahan no single de apresentação do 14º álbum da sua banda de sempre, deixando antever uma costela política mais visível do que o que o que tem sido regra nas suas canções dos últimos anos. Mas essa vertente interventiva está longe de ser inédita nos Depeche Mode, com o próprio tema de avanço a lembrar a certa altura algumas palavras e inquietações de "Stripped" (1986), ainda que o grupo troque agora a televisão pela religião (do desafio de "Let me hear you make decisions/  Without your television" do single clássico de "Black Celebration" passou às questões "Who's making your decisions?/ You or your religion?").

 

Tendo em conta que desde meados dos anos 90 a escrita da banda passou a lidar, de forma quase exclusiva (e a espaços exaustiva), com o universo emocional explorado por Martin Gore (o principal compositor), compreende-se que este novo olhar para a realidade exterior desperte outras atenções e conceda a "SPIRIT" um perfil distinto dos antecessores mais próximos.

 

Boa parte do alinhamento é bastante directo num retrato pouco optimista dos dias de hoje, do arranque ritmado e inflexível de "Going Backwards" ao mais contemplativo "The Worst Crime", com Gahan em modo crooner enquanto enumera uma série de falhanços colectivos ("Blame misinformation/ Misguided leaders/ Apathetic hesitation/ Uneducated readers"). O apontar de dedo de "Scum" é complementado por uma moldura sonora mais tensa, apesar de dançável, mas quer esta quer "You Move", com balanço a fazer jus ao título, destacam-se mais pelas variações na produção (entregue a James Ford, dos Simian Mobile Disco) do que pelas surpresas na composição.

 

depeche_mode_spirit

 

Essa evolução na continuidade já vem de trás (desde "Ultra", de 1997, o último grande álbum dos Depeche Mode?) e a postura mais política de "SPIRIT" não chega, por si só, para mudar muito as coisas. Até porque nem é necessariamente uma vantagem quando algumas letras escorregam em simplismos e lugares comuns, caso da denúncia estafada de "Poorman", talvez a canção mais fraca do disco (acesso bluesy já de si pouco inspirado e a disparar farpas genéricas na linha de "Corporations get the breaks/ Keeping almost everything they make").

 

O próprio "Where's the Revolution", apesar de ser um single eficaz com potencial para crescer ao vivo, é Depeche Mode em piloto automático, mesmo que ancorado numa letra condizente com os tempos de revoltas em redes sociais. Por isso, chega a ser irónico que "SPIRIT" se mostre mais aventureiro ao espreitar territórios intimistas, da cumplicidade ao luar de "Cover Me" (Dave Gahan em grande forma, um novelo instrumental intrigante q.b.) à obstinação de "So Much Love", viragem propulsiva num jogo de luz e sombra.

 

Outros momentos a guardar incluem a aspereza metálica de "Poison Heart", com o blues a revelar-se um aliado seguro, ou o mais sintético "No More (This Is the Last Time)", pop negra embora a recusar um final infeliz. Mas a despedida de "SPIRIT" fica mesmo por conta de "Fail", provavelmente a melhor canção da vertente mais politizada do disco. É uma das duas que Martin Gore interpreta aqui - ao lado da breve e também recomendável "Eternal" - e resume o ponto de situação actual deixado por muitas das anteriores ("Our souls are corrupt/ Our minds are messed up/ Our consciences bankrupt/ Oh, we're fucked").

 

O quadro não é nada auspicioso, mas a forma como a voz se conjuga com os sintetizadores, num tema final de compasso lento e inquietante, ampara parte do derrotismo da letra e deixa no ar a possibilidade de um vislumbre de esperança - ou não fosse este um álbum de uma banda que já nos deixou tantas canções "de fé e devoção". A próxima missa passa por Portugal já daqui a poucos dias - a 8 de Julho no NOS Alive, no Passeio Marítimo de Algés - e "SPIRIT", além de funcionar como pretexto oportuno para o regresso, ainda oferece alguns salmos, como "Fail", que justificam um grande palco e público à altura. Se a revolução sonora ficou pelo caminho, a celebração estará certamente garantida...

 

 

 

Música para as massas festivaleiras

 

Podiam ter entrado logo a matar. Não lhes faltam, como já se sabe e o concerto comprovaria mais à frente, munições pop prontas a acertar no coração de milhares de devotos. Mas não começaram por aí. No seu regresso a palcos nacionais este sábado, no Optimus Alive, os Depeche Mode arrancaram com duas canções do álbum novo, "Delta Machine", e tanto "Welcome to My World", mais atmosférica, como "Angel", mais eléctrica, souberam ir dando as boas vindas, pacientemente, de forma mais intrigante do que explosiva (e até soaram melhor do que em disco, do qual são também as duas faixas iniciais).

 

Aos primeiros acordes de "Walking in My Shoes", pouco depois, deu-se o primeiro grande acesso de euforia generalizada (ou segundo, se contarmos com o da entrada em palco), no tema mais reconhecido por grande parte do público até aí. Esta alternância entre novidades/temas obscuros q.b. e clássicos incontornáveis seria, depois, o padrão de um concerto capaz de manter um compromisso justo entre risco e segurança, com uma mão cheia de hits prontos a satisfazer os adeptos das rádios das "grandes músicas" (parte expressiva das massas que quase lotaram o recinto) mas sem precisar de os usar como recurso habitual ou tábua de salvação.

 

 

Veteranos, embora pouco dados a meras demonstrações de nostalgia, ao contrário de muitos dos seus contemporâneos, os Depeche Mode que nos visitaram mostraram-se bem vivos e não mais uns esforçados sobreviventes, com exemplo maior na garra de Dave Gahan, vocalista confiante, gingão e bamboleante como poucos. Quem o vê assim fica praticamente convencido (ou, pelo menos, com vontade de acreditar) que os episódios mais negros da sua vida pessoal, ameaças à continuidade da banda há uns anos, terão ficado mesmo para trás.

 

Foi muito por culpa de Gahan que uma canção recente como "Should Be Higher" passou da quase indiferença inicial a um dos finais mais faíscantes e envolventes, resultado das provocações de um vocalista com a escola toda quando o assunto é atiçar o público (o compasso tenso e hipnótico da canção, mais robusto ao vivo, e as imagens de pirotecnia também ajudaram). No extremo oposto, a timidez de Martin Gore foi acolhida com o respeito merecido durante as interpretações minimalistas (só voz e piano) de "Shake the Disease" e "Home", baladas oferecidas com uma intensidade à prova de qualquer cinismo.

 

 

Dos temas mais populares, "Precious" confirmou-se, passe a redundância, como um singles recentes mais preciosos dos Depeche Mode, com direito a versão simultaneamente intimista e espacial. A operação de cosmética também passou por clássicos como a já algo cansativa, sim, mas ainda suficientemente vibrante "Personal Jesus", "A Question of Time", mais musculada, ou o clássico dos clássicos "Enjoy the Silence", com frenesim instrumental dançável no final (e de longe o melhor momento para a fotografia da química entre público e banda, embora o mar de braços ondulantes já no encore, em "Never Let Me Down", tenha chegado lá perto). Mais extrema, a nova cobertura de "A Pain That I’m Used To", com o electro a eclipsar o industrial, tornou o tema quase irreconhecível, numa das variações mais inesperadas.

 

Ao longo de duas horas muito bem conduzidas, o concerto não chegou a superar o de 2009 no Pavilhão Atlântico (a ligação entre música e imagem, demasiado arbitrária, nem sempre funcionou e temas como "Black Celebration" ou "Heaven" refrearam os ânimos), mas deixou claro que a fé e devoção nos Depeche Mode é imune a quaisquer beliscões, pelo menos quando a banda sobe ao palco. As massas agradecem, aplaudem e ficam à espera de mais...

 

 

Foto @Filipa Oliveira/SAPO On The Hop Vídeos @apis38

 

Depeche Mode, aquela máquina

 

Por esta altura, ao fim de mais de três décadas, os Depeche Mode já deram a entender que não são capazes de fazer um mau disco. O 13º, "Delta Machine", não desfaz essa certeza mas deixa dúvidas de que a banda volte a assinar um grande álbum - já lá vão 16 anos desde "Ultra". No SAPO Música, escrevi sobre o novo e revisitei, um a um, os anteriores, enquanto fico à espera de ouvir os Depeche Mode no seu melhor daqui a uns meses - no reencontro ao vivo no Optimus Alive, a 13 de Julho, porque em palco a máquina ainda continua, aí sim, quase insuperável.

 

Fundo de catálogo (89): Depeche Mode

 

O "problema" de grupos como os Depeche Mode, donos de uma das discografias mais longas e irrepreensíveis das últimas décadas, é que na altura de convocar os seus pontos altos há dois ou três álbuns que acabam por se destacar com maior insistência: "Violator" (1990), quase sempre a primeira escolha (e ponto de viragem inegável), será o disco mais consensual, e logo atrás costumamos encontrar os dois ou três antecessores imediatos, "Music for the Masses" (1987), "Black Celebration" (1986), por vezes "Some Great Reward" (1984).

 

Claro que foi nestes discos que a banda de "Enjoy the Silence" melhor sedimentou e levou mais além a sua linguagem, aliando o aplauso crítico e comercial, mas o que nos deixaram antes da chegada à maturidade, se não gerou alinhamentos tão consistentes, também não foi pobre em momentos de génio (nem parte do que deixaram depois, aliás, especialmente no tão esquecido "Ultra", de 1997, brilhante do início ao fim).

 

O trio que inaugurou a discografia do grupo - "Speak & Spell" (1981), "A Broken Frame" (1982) e "Construction Time Again" (1983) -, habitualmente apontado como resultado da fase mais imberbe (associada a relatos boy meets girl com melodias ligeiras e condizer), revela várias qualidades escondidas debaixo dessa capa de ingenuidade. Além de serem, na altura, uma banda prolífica como poucas - quatro discos em quatro anos é obra, sobretudo quando são bons -, os Depeche Mode mostravam já um talento invulgar para canções acessíveis e trauteáveis, sim, mas não tão levezinhas como o seu look dava a entender (por muito que o equívoco fosse compreensível, a julgar por imagens promocionais como a deste post).

 

Por cada "Just Can't Get Enough" encontramos, nesses álbuns, duas ou três faixas menos luminosas, que já iam dizendo que o grupo de Essex não iria ficar-se por aí. Até porque nem foi por aí que começou, como o comprova a mais intrigante "Photographic", a primeira canção editada pelos Depeche Mode, na compilação "Some Bizarre Album", em 1981 - que incluía também temas de revelações como os Soft Cell, The The, Blacmange e outras que foram ficando pelo caminho. Cartão de visita impecável, marcou a estreia do grupo na busca da canção synth pop perfeita e contou com duas versões: a que integrou a compilação e a que surgiu, ainda no mesmo ano, no alinhamento de "Speak & Spell" (o único disco da banda assinado por Vince Clarke, antes de o compositor sair para formar os Yazoo e os Erasure). Como é difícil escolher a melhor, recuperam-se as duas abaixo, juntando-lhes uma versão ao vivo, na BBC, que regista uma das primeiras actuações televisivas dos Depeche Mode (mais uma vez, o look engana):