Qua | 8 Nov 06
Terapia de grupo
Uma das surpresas do último festival de Sundance, "Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos" (Little Miss Sunshine) tem tido uma recepção crítica francamante positiva, tanto a nível internacional como nacional, e se esta estreia nas longas-metragens de Jonathan Dayton e Valerie Faris, casal de realizadores com experiência nos videoclips, tem méritos mais do que suficientes para justificar vários elogios, não é menos verdade que entre estes não se encontra propriamente a reinvenção de códigos que têm começado a formatar o cinema independente norte-americano.

Esta dramedy on the road segue a viagem de uma família (disfuncional, como não poderia deixar de ser) que se desloca numa velha carrinha até à Califórnia para que a filha mais nova, Olive, possa concorrer a um concurso de beleza para crianças. Entre a partida e a chegada, surgem uma série de peripécias através das quais os ténues elos de ligação serão reforçados, levando a que todos os elementos contribuam, voluntária ou acidentalmente, para que a família se torne mais coesa e unida.

 

Se o desenvolvimento desta premissa é geralmente previsível, as personagens não são muito mais surpreendentes, constituíndo uma galeria de outcasts à medida daqueles que o cinema indie tanto tende a privilegiar.
Desde o pai, obcecado pelo sucesso e cujo livro sobre os novos passos para o atingir está prestes a ser editado; passando pelo filho adolescente, em voto de silêncio até conseguir entrar para a escola de aviação; pelo avô, viciado em heroína e de temperamento difícil; ou pelo tio homossexual e especialista em Proust, que tenta reorganizar a sua vida após uma tentativa de suicídio; não faltam aqui protagonistas dominados por alguma bizarria. As excepções acabam por ser as figuras femininas, tanto a mãe, que se esforça por fazer com que a família não desmorone, como a pequena filha, optimista e entregue ao sonho de ganhar o título de "Little Miss Sunshine".

Estas personagens geram uma dinâmica curiosa, mas individualmente é raro ultrapassarem a caricatura, sendo pouco mais do que variações de arquétipos do loser excêntrico em que o cinema independente norte-americano se tem alicerçado.
Felizmente, a direcção de actores joga a seu favor, já que Greg Kinnear, Toni Collette, Steve Carell, Abigail Breslin, Paul Dano e Alan Arkin apresentam interpretações sem falhas que conseguem compensar, pelo menos em parte, a bidimensionalidade a que o argumento de "Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos" sujeita os seus papéis, dotando o filme de um dos elencos mais invejáveis do ano. Carrell e Dano são particularmente bem-sucedidos, o primeiro nos antípodas da personagem que o ajudou a celebrizar-se em "Virgem aos Quarenta Anos" e o segundo a mostrar talento e versatilidade depois da boa impressão deixada por "L.I.E. - Sem Saída" e "A Balada de Jack e Rose".

O carisma do elenco é responsável por grande parte do apelo do filme, mas o argumento de Michael Arndt também tem tem mérito ao enveredar por territórios reconhecíveis sem se limitar a repisar lugares-comuns, conseguindo mesmo inverter as expectativas a espaços. Pontualmente escorrega no tom, como nas sequências do hospital e nas que estão dependentes desta (mais apropriadas a filmes como "Fim-de-Semana com o Morto"), contudo a combinação de comédia com drama é quase sempre feita com engenho, exigência e, mais importante, alma, oferecendo algumas cenas ora hilariantes (os gags da buzina são de antologia) ora desencantadas (como nas da revolta da personagem de Dano).

A crítica ao culto do sucesso em terras do tio Sam não é muito subtil nem sequer original (um concurso de beleza é um alvo demasiado fácil) e na segunda metade do filme o auge da união familiar mistura-se com a defesa de uma questionável irreverência desmedida, mas reconheça-se que, não obstante os seus defeitos e a opção pelo template indie, "Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos" irradia um encanto próprio e é um dos mais saborosos feelgood movies dos últimos tempos. Não revoluciona, mas é uma primeira obra muito promissora.

E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM


publicado por gonn1000 às 18:57
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Dom | 29 Out 06
(O fim d)A idade da inocência
Um dos cineastas-revelação do novo milénio, Michael Cuesta iniciou a sua filmografia com uma obra complexa e sensível, "L.I.E. - Sem Saída", em 2001, e desde então desenvolveu um interessante percurso na realização de alguns episódios de séries televisivas como "Sete Palmos de Terra" e, mais recentemente, "Dexter".

"Aos Doze e Tantos" (12 and Holding), à semelhança desses trabalhos, dá continuidade à abordagem de questões habituais do cinema independente norte-americano, focando a inadaptação, as relações familiares ou a morte, e revisita os dilemas da adolescência com um olhar novamente vincado pelo realismo e sentido de observação.

Desta vez, o filme segue o percurso não de um mas de três adolescentes, em especial a forma como estes reagem, directa ou indirectamente, à morte de um outro, que perde a vida devido a um incêndio originado por dois colegas de escola.


Leonard, que sofre de excesso de peso, decide mudar o seu tipo de alimentação, dedicando-se a uma dieta de maçãs e suscitando a estupefacção da sua família; Malee, a rapariga deste trio de amigos, apaixona-se por um trabalhador das obras que recorre às consultas de psicologia da sua mãe; e Jacob, irmão da vítima do acidente, divide-se entre optar pelo perdão aos responsáveis pela morte ou fazer justiça pelas próprias mãos (e aqui o filme lembra, a espaços, "Bully - Estranhas Amizades", de Larry Clark, ou "Uma Pequena Vingança", de Jacob Aaron Estes).

Atento mergulho nas contrariedades do processo de crescimento, oferecendo três personagens centrais que, apesar de terem doze anos, não são reduzidas a estereótipos e têm a tridimensionalidade que merecem, "Aos Doze e Tantos" evidencia que a perspicácia de Cuesta para retratos da adolescência (e neste caso, da pré-adolencência) presente no seu predecessor não foi mera sorte de principiante.
Ainda que a certo ponto o argumento contenha situações extremas, a verosimilhança do filme nunca é posta em causa, fruto não só de uma escrita séria e inteligente mas também das credíveis interpretações de todo o elenco, de onde importa destacar a pequena Zoe Weizenbaum, que passou despercebida em "Memórias de uma Gueixa" mas é aqui brilhante como a precoce Malee.

"Aos Doze e Tantos" é então uma obra de méritos vários mas não exibe, infelizmente, o golpe de asa que lhe permita ascender à lista das obrigatórias, nas quais o muitíssimo promissor "L.I.E. - Sem Saída" podia integrar-se.
Ao contrário da sua primeira longa-metragem, Cuesta divide a acção em três pequenas narrativas que ocasionalmente se entrecruzam, o que não é necessariamente mau - pelo contrário, está bem aproveitado -, mas nunca atinge o efeito obtido pelo enfoque nas experiências do protagonista do filme anterior.
Mais frustrante é o facto do cineasta apostar aqui num trabalho de realização algo indistinto, suportado pelo recurso à câmara à mão, apropriado a uma obra de contornos realistas mas também mais genérico, utilizado em tantos outros títulos indie e menos estimulante do que a sofisticação visual e carga sensorial características da sua película de estreia.

O facto de não estar à altura do peso das expectativas imposto pelo seu antecessor não implica, no entanto, que "Aos Doze e Tantos" seja uma decepção, antes um filme dominado por uma estimável solidez onde se vê potencial para resultados mais memoráveis e onde permanece, felizmente, a impressão de que Cuesta é um realizador que deve continuar a ser seguido.
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM


publicado por gonn1000 às 14:35
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Ter | 22 Ago 06
(Mais uma) Viagem ao mundo da droga
Do cinema australiano não há grande tradição de estreias em salas portuguesas, mas ocasionalmente vão chegando alguns exemplos dessas paragens. É o caso de "Candy", de Neil Armfield, drama que segue o percurso autodestrutivo de um jovem casal toxicodependente, testemunhando a passagem de uma fase de experimentação e hedonismo para uma dolorosa situação de fragilidade física e emocional.

História de amor atormentada pelas consequências do vício, o filme evita, felizmente, um posicionamento moralista, que poderia delimitar um argumento centrado na dependência das drogas, mas tal não invalida que não seja prejudicado por outros elementos.



Embora não julgue as suas personagens nem apresente respostas fáceis ou tendenciosas aos seus dilemas, "Candy" perde o rumo ao assentar num argumento pouco ambicioso, sem surpresas, que apenas revisita territórios já muitas vezes percorridos noutras películas sobre o mesmo tema.
O ritmo, não raras vezes arrastado, também faz com que estas duas horas ofereçam níveis de entusiasmo irregulares, assim como algumas sequências vincadas por um dispensável histerismo, com uma gestão dramática de gosto duvidoso (nomeadamente em certas cenas com a família da co-protagonista).


Contudo, "Candy" não deixa de ser uma experiência possuidora de alguns méritos, com destaque para a direcção de actores, onde constam Heath Ledger (competente, a seguir as boas pistas deixadas em "O Segredo de Brokeback Mountain") e Abbie Cornish (a actriz do belíssimo e também australiano "Salto Mortal", mais uma vez espontânea e luminosa), que compõem o par principal, ou Geoffrey Rush, num pequeno mas relevante papel.


A realização de Neil Armfield revela-se inspirada a espaços, como na sequência inicial, no parque de diversões, ou nos momentos mais agonizantes vividos pelo casal, e a união entre a imagem e a música (a cargo de nomes como Tim Buckley, Amon Tobin ou Soul Coughing) proporciona episódios com atmosferas envolventes e palpáveis, num intrigante misto de realismo e onirismo (por vezes próximas das de "Salto Mortal", ainda que não tão conseguidas).


Dificilmente acrescentando algo a uma temática já sobre-explorada, tanto no cinema ou noutros domínios, "Candy" não arrebata mas é uma proposta aceitável, que vale sobretudo pela descoberta de um realizador que poderá fazer melhor no futuro e pelo acompanhamento de dois jovens actores em ascensão. Não é muito, mas também não desmerece alguma atenção.


E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL




publicado por gonn1000 às 11:01
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Ter | 1 Ago 06
Pai para mim… mãe para ti
Noah Baumbach conta já com três filmes no seu curriculum de realizador, mas “A Lula e a Baleia” (The Squid and the Whale) é o primeiro que chega a salas nacionais, e ainda bem, uma vez que, a julgar pelo que oferece, revela um cineasta interessante e instiga a curiosidade para a descoberta das suas obras anteriores.

Vencedor dos prémios de Melhor Argumento e Melhor Realização em Sundance e nomeado para o Óscar de Melhor Argumento Original, o filme é um seguro e perspicaz melodrama familiar com toques de comédia (quase sempre amarga), percorrendo territórios próximos dos de alguns realizadores indie – Kenneth Lonergan, Burr Steers ou Wes Anderson, que assume aqui o cargo de produtor - que têm gerado outras dramedies acerca das dificuldades das relações humanas, do crescimento ou de conflitos geracionais.

Se por um lado Baumbach não apresenta nada que se distancie muito da linguagem desses outros nomes, propõe aqui um atento e credível retrato dos laços familiares, apoiando-se numa escrita sólida e complexa, que tanto apela ao riso subtil como a uma inquietante sensibilidade, vincada pelo verismo das situações quotidianas.

A Lula e a Baleia

A acção decorre no Brooklyn dos anos 80 e segue o divórcio de um casal da classe média alta, ele professor universitário e escritor em declínio, ela escritora aspirante, cuja separação é recebida pelos dois filhos adolescentes num misto de surpresa e angústia, e desde logo cada um toma partido de um dos seus progenitores.

Com base nesta premissa, Baumbach constrói um conseguido estudo de personagens, todas ambivalentes, verosímeis e perdidas após a dolorosa desagregação familiar. Especialmente interessante é o desenvolvimento das mais jovens, tanto do filho mais velho, Walt (Jesse Eisenberg), fascinado pela figura paterna, e sobretudo do mais novo, Frank (Owen Kline, excelente revelação), cuja rebeldia da entrada na adolescência é reforçada pela conturbada situação familiar.
As prestações dos veteranos – e subvalorizados - Jeff Daniels e Laura Linney na pele dos pais são outras mais-valias para o filme, que só não surpreendem porque estão ao elevado nível interpretativo habitual, e a cada vez mais omnipresente Anna Paquin contribui também num pequeno mas importante papel de aluna espevitada.

“A Lula e a Baleia” só peca por saber a pouco, dado que os seus 81 minutos de duração impõem que o desenlace seja algo abrupto e não tão bem resolvido como poderia. Fosse uma obra de maior fôlego e talvez constasse entre as mais estimulantes do ano, assim é uma das que vale a pena conhecer mas que deixa a impressão de objecto inacabado.
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM


publicado por gonn1000 às 15:19
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Qua | 19 Jul 06
A terceira mutação
De entre as várias personagens dos comics norte-americanos adaptadas para cinema ultimamente, os X-Men são dos que têm tido um percurso mais estimulante, muito por culpa do realizador dos dois primeiros filmes, Bryan Singer.

Respeitando a essência dos mutantes da Marvel e doseando eficazmente acção, ficção científica, drama e algum humor, condimentando-os com um interessante subtexto sobre a tolerância e a reacção à diferença (elemento nuclear no Universo X), Singer fez de "X-Men" e, sobretudo, do soberbo "X-Men 2" (AKA X2), dois dos melhores filmes de super-heróis dos últimos anos, sendo apenas superados, embora por pouco, pela saga do "Homem-Aranha", de Sam Raimi.

O hábil realizador já não se ocupou, contudo, de "X-Men - O Confronto Final" (X-Men: The Last Stand), o aguardado final da trilogia, devido ao seu envolvimento no mais recente filme do Super-Homem, facto que levou a que o desfecho da série fosse trabalhado por Brett Ratner, cujos créditos na direcção de películas inconsequentes como "Hora de Ponta" não sugeriam nada muito auspicioso.
Ora, apesar dessa suspeita, que em parte se confirma, "X-Men - O Confronto Final" é afinal um muito digno último capítulo da série, uma vez que, mesmo com algumas cedências e facilitismos, Ratner mantém-se conceptualmente quase sempre próximo da visão de Singer, ainda que sem a mesma subtileza e sofisticação.

Angel

Ao contrário do que ocorreu, por exemplo, com as adaptações de Batman na década de 90, onde as perspectivas de Tim Burton e Joel Schumacher nao poderiam colidir mais, aqui a mudança de realizador não prejudica tanto a saga, ainda que Ratner não evite tropeços que evidenciam o seu estatuto de tarefeiro.

O filme peca pelo excesso de efeitos especiais, tentando impressionar através de megalómanas sequências de acção (cuja mais gritante é a da ponte), factor que por vezes se impõe ao desenvolvimento dos dilemas das personagens, alvo de abordagens mais superficiais do que nos episódios anteriores.
O excesso de personagens já era um dos elementos que mais prejudicava a saga, mas aqui torna-se ainda mais problemático pois há muitas novas caras que não chegam a ter uma participação digna de nota, caso do Anjo, uma das mais esperadas que se limita a fazer breves aparições, e principalmente de Colossus, que apesar de admirado por muitos fãs é apenas um mero figurante.

Pior ainda é o facto de personagens com alguma relevância nos dois filmes anteriores, como Cyclops ou Rogue, serem aqui subaproveitadas de forma a conceder mais tempo de antena a Wolverine e Storm. A vantagem é que estes dois últimos acabam por ter um desenvolvimento interessante, em especial Storm, que tem finalmente um papel com impacto, supostamente devido a exigências contratuais de Halle Berry (que ainda não parece ser a melhor escolha para a heroína, ainda que esteja mais convincente do que antes).

X-Men: The Last Stand

O argumento apresenta também desequilíbrios, uma vez que aglomera vários enredos que na banda-desenhada eram independentes, desde a marcante saga da Fénix (interligada com a ambição e a sede de poder), até à "cura" para o gene mutante (que obriga algumas personagens a questionar a sua natureza), passando pelo contacto com a comunidade Morlock, um grupo de mutantes que vivem isolados, ou pela reformulação da equipa.

Estas histórias dariam, por si só, material para uma nova trilogia, por isso condensá-las num filme que não chega a atingir as duas horas de duração era uma missão ingrata. Ratner não é mal sucedido, pois consegue interligá-las sem que o resultado pareça forçado, porém nenhuma é abordada com a complexidade que merecia, tornando "X-Men - O Confronto Final" numa obra repleta de ideias muito interessantes que, infelizmente, não têm - e dificilmente poderiam ter apenas num filme - concretização à altura.

Se na carga dramática a película poderia ter ido mais longe, caso explorasse mais a fundo as personagens e o argumento, enquanto entretenimento ultrapassa, contudo, qualquer outro blockbuster de 2006, já que nunca perde o ritmo e apresenta sequências de acção e ideias visuais mais criativas do que as da concorrência, a que não são alheias as apelativas habilidades mutantes.
E também não são muitos os filmes-pipoca que podem orgulhar-se de contar com um elenco tão talentoso, onde brilham Hugh Jackman (mais uma vez desenvolto e carismático como Wolverine), Ian McKellen (exímio na composição de um austero e obstinado Magneto), Patrick Stewart (dificilmente haveria alguém mais apropriado para Xavier) ou Kelsey Grammer (perfeito como o ponderado Beast, a mais conseguida das novas personagens), assim como actores mais jovens mas promissores como Anna Paquin (uma das melhores actrizes da nova geração, mas aqui com pouco para fazer), Ellen Page (a co-protagista de "Hard Candy", segura no papel da perspicaz Kitty Pride), Aaron Stanford (um Pyro intenso e sombrio) ou Shawn Ashmore (cujo ar de boy-next-door é apropriado para Iceman).

Wolverine

Ficando aquém da coesão narrativa, fluidez da realização e imbatível energia de "X-Men 2", "X-Men - O Confronto Final" é ainda um sólido capítulo final para uma saga que, sem revolucionar, não deixa de ter uma consistência apreciável.
Embora o filme tenha sido promovido como o último da série, o final em aberto e algumas pontas soltas do argumento deixam espaço para novos desenvolvimentos (e spin-offs centrados em Wolverine e Magneto estão já em preparação). Se forem tão satisfatórios como até aqui, valerá a pena ir ver mais aventuras mutantes no grande ecrã.
E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

 



publicado por gonn1000 às 14:05
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Dom | 16 Jul 06
Casa de pânico
Um dos filmes independentes que mais burburinho tem gerado ultimamente, acolhido com entusiasmo em festivais como o de Sundance, "Hard Candy" é a estreia nas longas-metragens de David Slade, mais um realizador com experiência na área da publicidade, territórios que já revelaram talentos marcantes como David Fincher ou Mark Romanek.

A acção da película concentra-se quase exclusivamente em duas personagens, Hayley, uma rapariga de 14 anos, e Jeff, um reputado fotógrafo trintão. Após poucas semanas de conversas através da Internet, os dois decidem conhecer-se pessoalmente num café e, pouco depois, encontram-se já em casa dele, e a partir daqui "Hard Candy" torna-se numa tensa e inquietante experiência não só para os dois protagonistas (em especial para Jeff), mas também para o espectador.

Tema delicado e polémico, a pedofilia tem sido alvo de abordagem recente noutros filmes independentes, casos de "O Condenado" ou "L.I.E. - Sem Saída", mas enquanto esses se aproximavam do drama "Hard Candy" envereda mais por domínios do thriller, funcionando enquanto um prodigioso exercício de estilo sem deixar de ser um acutilante estudo sobre a ambiguidade moral.

A câmara de Slade movimenta-se com desenvoltura e criatividade, proporcionando muitos momentos de impressionante impacto visual. O filme contém fluência e energia na realização (que consegue ser vibrante sem conter tiques de videoclip acelerado), um estupendo trabalho de fotografia e uma rigorosa atenção aos cenários e ambientes (vejam-se os decors do apartamento de Jeff), que lhe conferem uma rara elegância formal, e o ritmo da narrativa raramente falha, emanando uma estranha envolvência.

Contudo, apesar deste perfeccionismo estético, "Hard Candy" não é tão equilibrado no argumento, que apesar de interessante tem um desenvolvimento cuja credibilidade é questionada em algumas cenas, em particular no forçado e maniqueísta desenlace, deitando por terra a ambivalência moral presente em grande parte da película.

Parte do problema do argumento prende-se com a personagem de Hailey, demasiado camaleónica e cujas motivações são apenas sugeridas mas não reveladas, e se essa aura enigmática funciona até certa altura mostra-se algo frustrante no final do filme.
Aplauda-se, no entanto, a soberba interpretação da jovem Ellen Page, perfeita no misto de fragilidade, genialidade e calculismo, destacando-se automaticamente como uma das grandes revelações do ano. Patrick Wilson é igualmente exemplar na composição do (inicialmente) tranquilo e discreto Jeff, embora o seu desempenho não seja tão surpreendente pois o actor já tinha dado provas de talento na mini-série "Anjos na América".

Ficando aquém do grande filme que os primeiros minutos sugerem, "Hard Candy" não deixa de ser uma boa surpresa, possuindo algumas sequências de antologia que seduzem pela sua palpável carga sufocante (não querendo revelar muito, diga-se apenas que a melhor de todas arrisca-se a deixar de rastos os espectadores do sexo masculino). Uma obra desequilibrada, mas merecedora de atenção.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM




publicado por gonn1000 às 03:45
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Dom | 2 Jul 06
Irmão, onde estás?
Alvo de algum culto por onde tem passado, a que não será alheio o facto do seu argumento e banda-sonora serem da autoria de Nick Cave, “Escolha Mortal” (The Proposition) recupera alguns dos cânones do western, género quase esquecido nos dias de hoje, para contar uma história amarga história de vingança, traição e dor ambientada na Austrália de finais do século XIX.

Centrado no dilema de um criminoso que, para conseguir que o seu irmão mais novo escape à pena de morte, terá de matar o mais velho, um assassino cruel e impiedoso, o filme segue em paralelo a relação do capitão local e da sua esposa, estas as duas únicas figuras que conseguem gerar alguma empatia.
É precisamente pela falta de empatia que a maioria das suas personagens despoleta que “Escolha Mortal” resulta numa obra desequilibrada, pois o desenrolar das peripécias que envolvem os irmãos Burns, além de ser algo previsível, não emana grande carga emocional, arriscando-se a que o destino destes se torne indiferente para o espectador.

 

As interpretações também nem sempre ajudam, já que Guy Pearce apresenta um registo apático e inexpressivo, compondo uma personagem determinante mas de escassa espessura, Richard Wilson limita-se a ser histérico e a fazer pose de coitadinho no papel de irmão mais novo e apenas Danny Huston, que encarna o implacável líder do gang de assassinos, é o único do trio a estar à altura do que lhe é pedido.
Ray Winstone e Emily Watson oferecem desempenhos mais convincentes, mas infelizmente as suas personagens, apesar de serem interessantes, carecem de maior desenvolvimento.

É pena que o argumento e a construção de personagens sejam pouco mais do que esquemáticos, porque nos outros aspectos “Escolha Mortal” é bastante conseguido. A realização segura de John Hillcoat proporciona uma atmosfera claustrofóbica e hostil, apropriada à amoralidade e inquietação que caracteriza a maioria das figuras do filme. A impressionante fotografia de Benoît Delhomme é fulcral para a consolidação dos ambientes tórridos e áridos, assim como a reconstrução de época, minuciosa e verosímil. Já a banda-sonora de Nick Cave, não sendo um assombro, é suficientemente intrigante e adequada às atmosferas do filme, entre o brutal e o poético.

Contudo, como esta intensidade visual e sonora raramente tem contraponto em sequências com uma carga dramática ao mesmo nível, “Escolha Mortal” não ultrapassa a fasquia do filme curioso, o que é especialmente lamentável tendo em conta que, com alguns acertos no argumento e no ritmo da narrativa, poderia ter ascendido a um patamar bem superior.
E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL


publicado por gonn1000 às 15:47
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Ter | 20 Jun 06
Nas teias da corrupção
Claude Chabrol tem evidenciado, nos seus últimos filmes, poucos traços da ousadia que o distinguiu enquanto nome-chave da Nouvelle Vague, incidindo quase sempre nos mesmos temas e ambientes com maior ("A Dama de Honor") ou menor ("No Coração da Mentira") eficácia.

"A Comédia do Poder" (L`Ivresse du Pouvoir) é mais uma película que vem confirmar essa tendência, pouco ou nada acrescentando à filmografia do cineasta mas contendo, ainda assim, algum interesse.

O filme é um olhar sobre os meandros da política, do mundo empresarial e dos laços ilícitos que se geram entre estas esferas, sendo aqui investigados por uma austera, impiedosa e dedicada juíza cuja determinação em denunciar um caso de corrupção acaba por perturbar a sua frágil vida privada.
 
Misto de thriller e drama conjugal embalado por uma fina camada de humor negro, "A Comédia do Poder" é um título que emana inteligência e competência, mas que raramente consegue elevar-se acima da média.
Os diálogos astutos e subtis e as não menos sólidas interpretações (em particular a de Isabelle Huppert) são trunfos valiosos, no entanto a realização algo indistinta e, sobretudo, o argumento irregular não permitem que o filme forme um todo consistente.

Suficientemente envolvente quando se dedica às situações da rotina familiar da protagonista, tanto à falta de comunicação desta com o marido como à intrigante relação que mantém com o sobrinho (sendo esta a que fornece as melhores cenas), "A Comédia do Poder" é uma obra menos conseguida quando se limita a proporcionar mais uma estafada perspectiva sobre um inquérito judicial que apenas leva a um já visto e revisto conflito de poderes e interesses, abordado de uma forma tão plausível quanto previsível.

Longe do desastre, é certo, mas ficando também muito aquém do brilhantismo, o filme é um objecto curioso que peca por não funcionar plenamente enquanto entretenimento nem como fonte de reflexão. A ver, mas com reservas.

E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL



publicado por gonn1000 às 08:48
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Seg | 22 Mai 06
Nascido para matar?
Após atingir, durante a década de 90, o pico da sua carreira no papel do agente secreto mais famoso do mundo, Pierce Brosnan foi recentemente substituído por Daniel Craig e, se à partida poderia ser difícil imaginá-lo num papel distinto do de 007, “O Matador” (The Matador) prova que tal não só é possível como resulta surpreendentemente bem.

Neste misto de drama, thriller e comédia negra, o actor encarna Julian Noble, um assassino profissional que esteve sempre à altura das suas missões, nunca falhando um alvo. No entanto, após vários anos envolvido em homicídios e, nas horas vagas, entregue ao álcool e às mulheres, Julian apercebe-se que, apesar de bem-sucedido dentro da sua área, tem uma vida pessoal pouco preenchida, não podendo contar com quaisquer amigos.

Durante uma tarefa na Cidade do México, trava conhecimento, num bar, com o vendedor Danny Wright, que também se encontra algo deprimido, mas porque tem dúvidas quanto à sua capacidade de consolidar um negócio fundamental. Partilhando momentaneamente as suas solidões, os dois protagonistas estabelecem um laço que os aproximará muito mais do que a conversa descomprometida que encetam nessa noite, gerando uma atribulada mas determinante amizade.

Com um argumento curioso, onde nada é exactamente o que parece, “O Matador” contém algumas boas surpresas, e Richard Shepard apresenta um escorreito trabalho de realização, sem grandes ideias mas também não comprometendo.
O filme, contudo, pertence a Brosnan, que constrói uma personagem atípica e excêntrica, mas irresistível, um loser desbocado e caricato que encontra na amizade uma fuga para a superficialidade que contaminou a sua vida. Greg Kinnear e Hope Davis ajudam a fortalecer o elenco através de desempenhos sólidos, ainda que as suas personagens sejam menos peculiares, e a química entre os actores é evidente, sobretudo entre Brosnan e Kinnear.

Suficientemente divertido e lúdico, “O Matador” não aspira ser muito mais, e por isso resulta dentro dos seus modestos objectivos. Por vezes, há alguma indefinição na escolha do tom, com oscilações demasiado abruptas entre momentos leves e mais sérios (embora o filme nunca chegue a ser profundo), e a narrativa nem sempre tem o mesmo fôlego, contando com algumas sequências onde o ritmo é pouco aliciante.
De qualquer forma, “O Matador” é uma proposta agradável e a espaços estimulante, ainda que não atinja o nível de “Kiss Kiss, Bang Bang”, de Shane Black, imbatível na posição de melhor buddy movie dos últimos tempos.
E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL


publicado por gonn1000 às 20:03
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Dom | 21 Mai 06
Em carne viva
Quando se estreou na realização em 2004, com “A Cabana do Medo”, Eli Roth desde logo gerou reacções díspares, sendo acusado, por muitos, de mero copista de lugares-comuns do terror e do gore, mas também defendido por tantos outros, que nele viram um promissor nome a seguir num género já algo moribundo.
David Lynch ou Peter Jackson foram dois dos cineastas que depositaram confiança em Roth, e na sua segunda obra, “Hostel”, o realizador conta com a estratégica colaboração de Quentin Tarantino, cujos créditos na produção do filme contribuíram para que este fosse um dos mais aguardados de 2006.

Tal como o seu antecessor, “Hostel” é um teen movie on acid, uma vez que, durante grande parte da sua duração, limita-se a seguir as peripécias de três jovens (dois amigos norte-americanos e um companheiro de viagem islandês) pela Europa, que pouco mais procuram do que sexo fácil e drogas em doses generosas.
O oásis desta busca parecia ser Amesterdão, mas aí conhecem um rapaz que lhes recomenda uma pousada na Eslováquia onde a quantidade de hedonismo e luxúria é ainda maior, pelo que o trio rapidamente decide escolhê-la como novo destino.
Contudo, se ao início essa experiência se revela compensadora, o rumo dos acontecimentos é alvo de uma viragem repentina quando cada um dos jovens se torna vítima de torturas várias, sendo aprisionados numa autêntica casa do terror onde não falta quem esteja disposto a pagar quantias avultadas para exercer os seus requintes de malvadez nos turistas mais frágeis e desatentos.

Partindo dos clichés das comédias sobre adolescentes norte-americanos com a libido ao rubro, Roth insere as suas personagens pouco mais do que caricaturais num ciclo de experiências-limite ensopadas em sangue e demais fluidos, gerando episódios sinuosos e doentios bem regados com um cáustico humor negro.
Não se espere de “Hostel” uma narrativa verosímil ou personagens tridimensionais, já que o filme não pede para ser levado a sério, tal como “A Cabana do Medo” já não pedia. Nem pode, dado o exagero de coincidências miraculosas que se encontram na acção, sendo a cena do atropelamento já perto do final a mais delirante.

O que Roth proporciona é apenas um exercício de estilo que, não sendo propriamente original, consegue revelar, mesmo assim, algum savoir faire, como o comprovam as sequências de mutilação e outros actos hediondos, onde o suplício das vítimas deixa o espectador com os nervos em franja, envolto numa claustrofóbica rede de suspense.
A violência é quase sempre bastante gráfica, o que se por um lado não poupa o estômagos também perde alguma eficácia, uma vez que o sugerido tem, muitas vezes, mais impacto do que o que é mostrado (Roth andou a ver os filmes de Takashi Miike, que de resto até tem aqui uma breve aparição).

“Hostel” foca questões que não chega a aprofundar devidamente, como a reacção a ambientes e culturas estranhos e por vezes inóspitos ou a reflexão acerca das motivações dos indivíduos que se envolvem em arrepiantes actos amorais de sadismo, mas não deixa de ser muito eficaz enquanto proposta de terror, com uma tensão recorrente e palpitante, uma boa gestão do ritmo e um curioso cromatismo visual.

Roth pode ainda não ser a next big thing de domínios gore e afins, pois se as suas obras têm sido convincentes, não são imunes a desequilíbrios, mas o entusiasmo do realizador é palpável e, embora por vezes corra o risco de se deslumbrar com a sua própria ousadia e de apostar num choque gratuito e despropositado, percebe-se porque é que um nome como Tarantino decidiu apadrinhá-lo. Roth não está, pelo menos por enquanto, à altura do mestre, mas felizmente também não manchou a sua reputação.
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM


publicado por gonn1000 às 16:35
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Sab | 22 Abr 06
A última hora
Ecléctico e geralmente seguro, François Ozon tem vindo a consolidar-se como um dos estimáveis cineastas franceses a emergir em meados dos anos 90, cuja obra tanto incide em domínios do musical (“8 Mulheres”), do suspense (“Swimming Pool”) ou do drama intimista (“5x2”), e onde o rigor e a eficácia costumam estar presentes.

“Le Temps qui Reste”, o novo filme do realizador, é o segundo de uma trilogia dedicada à morte, iniciada com “Sob a Areia”, no entanto desta vez o foco não incide sobre uma mulher de meia idade em busca do marido desaparecido, mas antes num jovem que é confrontado com a revelação de que lhe restam poucos meses de vida, devido a um tumor raro.
Romain, fotógrafo de 31 anos, vê a sua percepção do mundo alterar-se com a perturbante notícia, reavaliando as relações com os seus familiares, colegas e namorado e mergulhando numa espiral de inquietação, dor, dúvida e medo.

Películas baseadas em doenças terminais não são propriamente algo inovador por si só, e muitas vezes geram melodramas de escassa subtileza e gritantes doses de manipulação emocional, recorrendo aos rodriguinhos mais básicos e rasteiros (como o atestam muitos telefilmes). Ozon não envereda por esta via – nem tal se esperaria - e aborda o tema e o protagonista com o respeito e dignidade que merecem, nunca os utilizando como ferramentas para a comoção fácil.

Tendo já provado ser um perspicaz observador das relações humanas, o cineasta não defrauda as expectativas e apresenta um filme sólido, depurado e contido, sustentado em atmosferas realistas geradas pela fluída realização, que novamente concilia gravidade e leveza.

Se Ozon é decisivo para que “Le Temps qui Reste” seja um filme bem-sucedido, Melvil Poupaud mostra-se igualmente determinante, surpreendendo com uma interpretação magnética e carismática.
Compondo uma personagem ambígua e que dificilmente gera empatia imediata com o espectador, o actor principal oferece um desempenho exemplar, com uma entrega comparável à de Romain Duris em “De Tanto Bater o Meu Coração Parou”, de Jacques Audiard, outro filme francês recente com um belo título e um fortíssimo protagonista.
Em vez de incentivar a pena e as lágrimas do espectador, Poupaud constrói uma personagem de temperamento difícil, arrogante e individualista, mas que aos poucos vai revelando as suas fragilidades e virtudes, expondo assim o pior e o melhor da sua humanidade.

Com uma interpretação de alto calibre e uma temática marcante – e bem trabalhada -, “Le Temps qui Reste” sugere, a espaços, ser um filme capaz de se catapultar para um patamar próximo da excelência, mas infelizmente tal não chega a ocorrer.
Por um lado, há personagens secundárias cujo relacionamento com o protagonista é demasiado fortuito e inverosímil (o casal que deseja ter um filho), por outro, o filme, apesar de envolvente e por vezes tocante, sabe a pouco, parecendo bastante curto e deixando algumas arestas por limar (a relação de Romain com os pais e a irmã merecia maior aprofundamento, assim como a sua fase de adaptação à doença).

Embora se imponha como um dos bons filmes de 2006, “Le Temps qui Reste” acaba por desiludir um pouco porque tem elementos que lhe permitiriam juntar-se ao grupo dos melhores. De qualquer forma, Ozon continua a ser um cineasta a acompanhar, e este até é o seu melhor filme a estrear em salas nacionais, assim como o mais caloroso, só é grande pena que fique a um passo do brilhantismo.
 
E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM


publicado por gonn1000 às 04:50
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Qua | 19 Abr 06
O Libertino
Depois de algumas obras de escasso interesse, como "Chocolate" ou "As Regras da Casa", Lasse Hallström proporcionou uma das boas - e inesperadas - surpresas cinematográficas do ano passado com "Uma Vida Inacabada", que infelizmente foi alvo de menor mediatismo do que os títulos antecessores, passando despercebida perante grande parte do público e da crítica.


Menos discreta, "Casanova" é a mais recente proposta do realizador sueco a estrear em salas nacionais (embora também seja de 2005), debruçando-se sobre parte da vida do emblemático conquistador de corações femininos.

Curiosamente, o filme não foca tanto as manobras de sedução de várias mulheres por parte do protagonista (embora esse aspecto não seja ignorado, sobretudo no início), preferindo antes desenvolver o seu contacto com a única mulher que amou, assim como os episódios que marcaram o atribulado início desse relacionamento.




Tentando ver correspondido o seu amor por Francesca Bruni, uma feminista de personalidade forte, Casanova tem de se debater também com a perseguição da Igreja, que condena as suas atitudes consideradas imorais e escandalosas, e fugir ao controlo da sua noiva, a insinuante e virginal Victoria, com quem aceitou casar a fim de limpar a sua imagem.


Comédia rocambolesca, baseada em jogos de enganos e falsas aparências, "Casanova" é uma película despretensiosa e leve, que não tenta ser um biopic historicamente correcto pois adopta um registo caricatural e de diminuto peso dramático.

Com um propósito essencialmente lúdico, o filme cumpre a sua função de gerar cerca de duas horas razoavelmente divertidas, e ainda que os gags nem sempre resultem o ritmo raramente deixa a acção cair na monotonia.


É uma obra esquemática que não acrescenta muito, mas não se pode dizer que Hallström não seja competente, uma vez que tanto o guarda-roupa como os cenários são bastante elaborados, e as paisagens de Veneza do século XVIII tornam-se ainda mais impressionantes devido ao soberbo trabalho de fotografia.


Como as personagens não passam de estereótipos, os actores também não podem oferecer grandes desempenhos, mas Heath Ledger sai-se bem no papel de conquistador nato e desenvolto, Sienna Miller cumpre como interesse romântico e Jeremy Irons encarna com eficácia um bispo sisudo e implacável.


Filme de entretenimento puro e simples, "Casanova" é um misto de comédia, aventura e romance que, apesar de efémero e longe de marcante, consegue ser satisfatório, convencendo sobretudo não por ser bom mas por não ser tão mau como poderia. Reconheça-se que, dentro dos filmes-pipoca que se disseminam pela maioria das salas, há alternativas bem menos entusiasmantes.


E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL


publicado por gonn1000 às 00:15
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'ETs In Da Bairro', de Joe Cornish
críticas: filmes de 2011


- "127 Horas", Danny Boyle
- "A Nossa Vida", Daniele Luchetti
- "A Pele Onde Eu Vivo", Pedro Almodóvar
- "Amigos Coloridos", Will Gluck
- "Blue Valentine - Só Tu e Eu", Derek Cianfrance
- "Cisne Negro", Darren Aronofsky
- "Drive - Risco Duplo", Nicolas Winding Refn
- "Green Hornet", Michel Gondry
- "Gritos 4", Wes Craven
- "Hanna", Joe Wright
- "Harry Potter e os Talismãs da Morte: Parte 2", David Yates
- "Insidioso", James Wan
- "Jane Eyre", Cary Fukunaga
- "Kaboom - Alucinação", Gregg Araki
- "Melancolia", Lars von Trier
- "O Amor é o Melhor Remédio", Edward Zwick
- "O Código Base", Duncan Jones
- "Os Agentes do Destino", George Nolfi
- "Os Bem-Amados", Christophe Honoré
- "Pequenas Mentiras Entre Amigos", Guillaume Canet
- "Sem Identidade", Pierre Morel
- "Sem Tempo", Andrew Niccol
- "Tournée - Em Digressão", Mathieu Amalric
- "X-Men: O Início", Matthew Vaughn