
Uma retrospectiva integral da filmografia de André Téchiné (pela primeira vez em Portugal, finalmente) ou "Le Refuge", o novo filme de François Ozon (uma das 20 ante-estreias em destaque), já seriam motivos suficientes para passar pela Festa do Cinema Francês, cuja 11ª edição arranca hoje em Lisboa.
Mas o evento, que até 9 de Novembro vai passar também por Almada, Coimbra, Faro, Guimarães e Porto, tem ainda Sandrinne Bonnaire como madrinha - e por isso vai exibir filmes que marcaram a actriz -, recorda a obra de Pierre Etaix, conta com uma secção especial dedicada aos mais novos e propõe duas noites de curtas-metragens, levando ainda programações especiais à FNAC (um ciclo dedicado a primeiros filmes de novos realizadores franceses) e à RTP2.
O arranque faz-se esta noite às 21 horas com "Le Concert", de Radu Mihaileanu, no Cinema São Jorge, em Lisboa, onde a Festa decorre até dia 16 (permanecendo mais tempo na capital, mas na Cinemateca). E voltando a Techiné, deixa-se aqui o trailer de um dos seus filmes que vale a pena (re)ver por lá:

"Paraíso a Oeste" podia ter sido um grande filme. Ancorado nas peripécias de um imigrante ilegal que mergulha no mar Egeu quando o barco onde viaja é interceptado pelas autoridades, segue o seu refúgio numa estância turística de luxo, assim como os restantes locais por onde passa na sua viagem até Paris.
Intrigante combinação de road movie com traços de comédia burlesca e metáfora social, a mais recente longa-metragem de Costa-Gavras vê-se sempre com curiosidade ao longo das suas duas horas, mas acaba por ficar aquém das suas ambiciosas aspirações.
O principal problema é a falta de subtileza desta visão das assimetrias sociais na Europa, vincada por maniqueísmos e simbolismos demasiado óbvios que servem mal uma questão tão complexa como a da imigração.
Por vezes certeira, embora muitas vezes feita a preto-e-branco, esta abordagem não impede, ainda assim, que "Paraíso a Oeste" funcione francamente bem nas suas outras vertentes.
O veterano realizador grego ainda não perdeu a mão e não só gera alguns bons momentos de suspense como sabe tirar proveito do carisma (e invejável fotogenia) de Riccardo Scamarcio, um dos actores-revelação de "O Meu Irmão é Filho Único" - que aqui convence num registo diferente e é determinante para que o filme resulte.

"Paraíso a Oeste" é um dos filmes da 10ª Festa do Cinema Francês e será reexibido no Porto e em Coimbra (locais e horários aqui)
Estreia nas longas-metragens do iraniano (radicado na Áustria) Arash T. Riahi, que até aqui dirigiu documentários, anúncios publicitários e videoclips, "Pour un Instant la Liberté" é seguramente um dos melhores filmes da 10ª Festa do Cinema Francês.
Parcialmente autobiográfico, este drama acompanha as histórias (que por vezes se entrecruzam) de três pequenos grupos de fugitivos do Irão, refugiados clandestinamente na Turquia - onde aguardam autorização da ONU para emigrarem para outros países.

O tema está longe de ser novidade, mas a forma como Riahi nunca deixa a acção escorregar para mais um filme-denúncia assente no retrato de "desgraçadinhos" é admirável, muito por culpa do respeito evidente por todas as personagens (e são muitas).
O elenco, quase todo com actores não-profissionais, não é menos do que extraordinário, e a realização sabe como captar as suas expressões de genuíno entusiasmo ou melancolia (numa narrativa onde o desencanto e a esperança se complementam).

Mais do que um relato realista da imigração, "Pour un Instant la Liberté" é um comovente olhar sobre a amizade, a confiança e a família, com uma carga dramática fortíssima temperada com frequentes e deliciosos toques de humor (essenciais para compensar a angústia de alguns momentos).
Aliás, mais do que um dos grandes filmes da 10ª Festa do Cinema Francês, este é mesmo um dos melhores a passar por salas nacionais este ano. Infelizmente não tem estreia prevista, mas poderá ser visto em Almada, Porto, Faro e Coimbra nos próximos dias - salas e horários aqui.


A celebrar uma década de existência, a Festa do Cinema Francês arranca esta noite em Lisboa e vai passar por várias salas nacionais até 10 de Novembro. Cabe a "Parlez-moi de la Pluie", o novo filme de Agnès Jaoui ("O Gosto dos Outros"), abrir a iniciativa mais logo, pelas 21 horas, no Cinema São Jorge.
E a partir de amanhã a festa subdivide-se em várias secções, que além das 21 ante-estreias da principal (onde constam os mais recentes títulos de Chabrol, Costa-Gavras ou Pedro Costa) inclui ainda uma homenagem à documentarista Agnés Varda, um olhar sobre primeiras obras ("A Vida Sonhada dos Anjos", de Erick Zonca"; ou "Persépolis", de Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud), outro sobre premiados nos Césares ("A Turma" de Laurent Cantet; ou "O Escafandro e a Borboleta", de Julian Schnabel) e uma retrospectiva do percurso da actriz Jeanne Balibar.
Para os mais novos há a Festinha, que propõe, entre outros filmes, a trilogia de Astérix, e quem preferir não sair de casa pode acompanhar a programação especial da RTP2 (com curtas e longas-metragens).
Como habitual a música não foi esquecida e, por isso, há concertos de Jane Birkin (8 de Outubro, às 21h, no Centro Cultural de Belém) e do colectivo Moriarty (9 de Outubro, às 21h, no Instituto Franco-Português).
A 10ª Festa do Cinema Francês mantém-se em Lisboa até 19 de Outubro, passando depois por Almada (de 13 a 19), Porto (de 20 a 25), Guimarães (de 22 a 25), Faro (de 28 a 1 de Novembro) e Coimbra (de 4 a 10 de Novembro).
A programação completa está disponível no site oficial.

Do documentário de animação "Valse Avec Bachir", de Ari Folman, sobre a guerra do Líbano; à comédia dramática "Paris", de Cédric Klapish, com Romain Duris e Juliette Binoche; passando pelo olhar sobre o ensino em "Entre les Murs", de Laurent Cantet; por mais um exemplo do realismo peculiar dos irmãos Dardenne em "Le Silence de Lorna" ou pela excentricidade do não menos idiossincrático Emir Kusturica em "Promets-Moi", a 9ª Festa do Cinema Francês parece ter consideráveis motivos de interesse.
Como já é habitual, o evento arranca no cinema São Jorge, em Lisboa, onde se mantém até dia 12 (bem como na Cinemateca e Instituto Franco-Português), passando depois por Almada (de 8 a 12), Coimbra (de 13 a 18), Porto (de 21 a 26) e Faro (de 29 de Outubro a 2 de Novembro).
O cartaz apresenta 25 obras em ante-estreia e este ano tem a particularidade de apostar em mais co-produções francesas com países de todos os continentes (a propósito do Ano Europeu do Diálogo Intercultural).
Além das ante-estreias, a secção "Cannes em Portugal" disponibiliza filmes inéditos em Portugal que passaram pela Quinzena dos realizadores nos últimos anos, enquanto que uma outra, "Paris-Lisboa", conta com 10 filmes rodados nas duas capitais.
A programação inclui ainda concertos, debates, uma exposição fotográfica ou a presença de realizadores e actores, tudo devidamente apresentado no site oficial.
A sessão de abertura é "Les Femmes de l'ombre", de Jean-Paul Salomé, drama protagonizado por mulheres ambientado na Segunda Guerra Mundial, com início marcado para esta noite às 21h no São Jorge.

Embora os espaços onde se desenrola a acção sejam quase sempre os mesmos - as casas ou locais de trabalho das personagens -, Resnais filma-os com uma frescura sempre renovada, apresentando novos pormenores e explorando ao máximo as potencialidades dos impressionantes décors, com enquadramentos imaginativos, nunca caindo no entanto em exageros de esteta exibicionista.
A neve, elemento recorrente do início ao fim do filme, é outra ideia visual que reforça a mestria cénica, funcionando por um lado como metáfora para a frieza emocional que percorre as grandes metrópoles e como fonte catalisadora de uma aura poética que se entrecruza com o ambiente realista dominante.
Investindo nos modelos cada vez mais adoptados do filme-mosaico, "Corações" segue os (des)encontros de seis figuras que, para além do emprego (ou procura deste), pouco têm de certo nas suas vidas, o que os força a tentar encontrar pontos de fuga à solidão, seja através do refúgio no álcool, em anúncios em jornais ou no entretenimento televisivo.

Entre a comédia e o drama, o argumento flui com inteligência e sensibilidade, colocando em jogo os comportamentos humanos e as redes que vão estabelecendo, alicerçando-se em personagens suficientemente complexas. Contudo, ainda que todas sejam interessantes, algumas só ganhariam se fossem mais desenvolvidas, e o filme resultaria melhor se fechasse mais subenredos.
"Corações" não será a obra mais original, arrojada ou marcante de Resnais, mas o facto de ser um filme com tanto de pertinente como de agradável e de reunir um elenco em estado de graça - Sabine Azéma, Pierre Arditi ou Lambert Wilson, entre outros - já é mais do que muitos cineastas conseguem oferecer, e especialmente impressionante quando desenvolvido por um que atingiu já os 85 anos - uma idade respeitável, tal como este filme.
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM
Se a espaços o filme quase se perde em cenas demasiado contemplativas, compensa-as noutras com uma forte intensidade emocional e visual, de onde sobressaem os expressivos olhares das protagonistas ou a cuidada iluminação com frequentes (e hipnóticos) tons azulados.
A bela banda-sonora instrumental composta por Para One, uma das sensações da nova electrónica francesa, sedimenta a elegância cenográfica e ajuda a que algumas sequências remetam para a carga sensorial da obra de Sofia Coppola, embora Céline Sciamma também mostre o que Catherine Breillat poderia ter atingido em "Para a Minha Irmã!" se não tivesse o propósito de chocar. E assim apresenta uma primeira longa-metragem que surpreende pela maturidade demonstrada e deixa curiosidade quanto a futuros - e breves, espera-se - passos na realização.
Para One - "Finale"

A música já tinha sido um elemento basilar no filme anterior do realizador, "Em Paris", em especial numa inesquecível cena onde Romain Duris ouvia uma canção de Kim Wilde no quarto ou numa outra onde cantava "Avan la Haine" ao telefone, mas em "As Canções de Amor" surge com uma relevância reforçada, uma vez que os vários momentos em que as personagens cantam são episódios fundamentais para a expressão das suas convulsões emocionais.

Embora a vertente musical seja forte, o filme não se resume, ao contrário de outros exemplos do género, a uma sucessão de números mais ou menos pomposos e impressionantes, antes investe numa sólida base dramática complementada por canções sóbrias e melancólicas. Compostos por Alex Beaupin, os temas seguem a tradição singer/songwriter e são interpretados pela maioria dos actores, abordando, tal como o filme, as dificuldades das relações humanas e nunca desvirtuando a atmosfera discreta e realista que domina a narrativa.
Dividido em três actos - a partida, a ausência e o recomeço -, "As Canções de Amor" começa por se centrar num triângulo amoroso que é destruído pela súbita morte de um dos jovens que o constitui. O filme segue depois as reacções dos outros dois, em especial as de Ismael, que ao tentar reconstruir a sua vida enceta várias relacionamentos sem superar, no entanto, a tragédia recente.
Tal como nos títulos anteriores de Honoré, o amor e a família voltam a ser elementos centrais, e o realizador constrói novamente uma história assente em personagens credíveis, onde os erros que fazem não as impedem de gerar empatia e apenas reforçam a sua verosimilhança.

A narrativa mantém a leveza de "Em Paris", contando com uma realização viva e imaginativa, mas não exibicionista, e o tom caloroso reforça a ideia de que Honoré deixou para trás os ambientes clínicos e inquietantes de "Minha Mãe". O que se recupera, e de forma cada vez mais madura, é um subtil olhar sobre as relações amorosas, que em "As Canções de Amor" se desdobram entre a monogamia e a poligamia, assim como pela hetero, bi e homossexualidade, sem que se enverede por qualquer tentativa de moralismo, irreverência juvenil ou choque gratuito.
O elenco reflecte o mesmo equilíbrio e inclui nomes confiáveis como Louis Garrel, habitué nas obras do realizador, que mais uma vez confirma ser um dos melhores jovens actores de hoje, epíteto que que também pode servir para Ludivine Sagnier, que tem aqui um dos seus desempenhos mais comoventes e memoráveis.
A presença - e voz - de Chiara Mastroianni ou Clotilde Hesme, em papéis secundários, sedimentam o afinco da direcção de actores, contribuindo para que o filme resulte num conjunto de grandes canções e interpretações. É o melhor de Honoré a chegar a salas nacionais e catapulta-o para a lista de cineastas obrigatórios do novo cinema francês, sendo também uma das experiências cinematográficas mais belas e contagiantes do ano. A ver - e ouvir - sem reservas.
é o filme de abertura da 8ª Festa do Cinema Francês e estreia a 18 de Outubro

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