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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

"Ninguém parado, ninguém calado"

elza_soares

 

Apesar de não ter contado com um cartaz tão sonante como os de algumas edições anteriores, o VODAFONE MEXEFEST, que regressou a Lisboa na passada sexta e sábado, ainda contou com uma mão cheia de bons concertos. No SAPO Mag, recordo os dos Jagwar Ma, Nao, Sunflower Bean e Medeiros/Lucas, no primeiro dia, e de Elza Soares, Digable Planets e Señoritas, no segundo.

 

Volta ao mundo em três dias

Noite esgotada, castelo repleto, África escolhida como protagonista. O FESTIVAL MÚSICAS DO MUNDO (FMM) despediu-se de Sines no sábado depois de ter arrancado em Porto Covo, na semana anterior, e fechou em alta com uma dupla pai e filho. Mas houve outros concertos para recordar...

 

FMM_Sines_publico

 

Quando a oferta é muita... a curiosidade é atiçada? Tem sido assim em Sines nos verões dos últimos 17 anos e a edição mais recente do FMM voltou a ser ocasião para reencontros e descobertas, romarias de avós e netos (juntos ou em separado), concertos gratuitos e pagos (alguns agendados, outros improvisados em qualquer esquina sem serem encarados como parentes pobres).

 

Quem, como eu, só conseguiu passar por lá nos últimos três dias ainda teve exemplos suficientes da diversidade do cartaz, que tenta encaixar cinco continentes nos poucos metros entre o castelo e a praia (e, ao contrário da maioria da oferta da estação, não dá primazia à facção anglo-saxónica).

 

Bruno Pernadas mostrou o lado mais exótico da prata da casa, com harmonias vocais e um combo instrumental a servirem de brisa de final de tarde. Chegados do outro lado do mundo, os chineses Shanren extremaram os contrastes num caldeirão com raízes locais e condimentos entre o rock, o reggae e até o metal, conjugados com simpatia e humor. Menos surpreendente, Alo Wala, norte-americana de ascendência indiana, serviu música de dança mestiça contaminada por hip-hop ou dancehall demasiado encostada a M.I.A. (a imagem reforça a comparação), mas capaz de instalar a festa sem dificuldades na última noite, em modo discoteca ao ar livre - o jogo de luz e cor ajudou, tal como a explosiva "In a Minute", faixa em que colaborou com os Buraka Som Sistema. E se não terão faltado outros concertos a deixar marca (houvesse tempo para espreitar todos), as melhores recordações ficaram por conta dos três abaixo:

 

TOUMANI & SIDIKI DIABATÉ no Castelo - sábado, 25 de Julho

 

Toumani_&_Sidiki_Diabaté

 

Pai e filho, o espiritual e o espirituoso, dois músicos que valeram por pelo menos seis. Porque como explicou Toumani, a kora, tocada por ambos, equivale a três instrumentos (e a sua música nasce da conjugação entre baixo, melodia e improviso). A "missão de vida" destes malianos, realçou também o pai, era "mostrar a beleza de África" e será seguro dizer que foi cumprida sem contrariedades.

 

Actuais representantes de uma tradição com mais de 700 anos, nascida da peculiar harpa de 21 cordas, Toumani e Sidiki são também dois dos nomes centrais da música do Mali - o pai, veterano respeitado, já colaborou com Björk, Damon Albarn ou Ali Farka Touré; o filho é uma estrela hip-hop em ascensão que não descura a herança cultural familiar. A Sines trouxeram as canções do álbum "Toumani & Sidiki" (2014), o único editado em conjunto até agora, já apresentado em Fevereiro na Culturgest, em Lisboa. Para quem ainda não o conhecia, terá ficado como uma das maiores revelações desta edição do FMM, até porque as actuações que fecharam a última noite no castelo, a cargo de Salif Keita e Orlando Julius & The Heliocentrics, limitaram-se a muito profissionalismo com pouco rasgo.

 

Sem tanta pompa, a dispensar o formato a caminho da big band, a dupla Diabaté mostrou que menos pode ser mais ao enlear milhares em instrumentais cristalinos, cujo aparente minimalismo esconde camadas atravessadas por sugestões de melancolia a esperança. A introspecção nem sempre se deu bem com uma multidão em horário nobre - quanto mais longe do palco, mais incomodativo era algum burburinho do público -, mas nem isso abalou a experiência por aí além.

 

Pelo meio houve espaço para um mini-workshop de kora, oferecido por Toumani, o mais comunicativo do duo - também foi ele que apelou, no fim, a que os dirigentes políticos valorizassem mais o plano humano do que o económico, pedido complementado por "Lampedusa", tema de homenagem a migrantes ilegais desaparecidos no mar. Aparentemente mais despreocupado, Sidiki equilibrou a seriedade e comoção do pai com um à vontade inabalável, quase sempre traduzido em gestos e olhares. Da óbvia química entre os dois nasceu um concerto a provar que a beleza de África passa mesmo por aqui - e é bom ouvir alternativas aos surtos de kizomba duvidoso de tantas outras paragens. Para ouvir: "Dr. Cheikh Modibo"

 

 

IVA NOVA na Avenida da Praia - sexta, 24 de Julho

 

Iva_Nova

 

A primavera russa começa em Sines? Foi o que pareceu ao ver esta girl band que de girly pouco teve. The Organ meets Yann Tiersen é só um eventual princípio de canções mutantes com atitude à altura e adesão imediata - a folia dos Gogol Bordello entrecruzada pela electrónica e dicção de Mãozinha (lembram-se?) poderia ser outra entrada possível. Mesmo assim seriam só aproximações à singular "technofolk" (a classificação é da vocalista) deste quarteto de São Petersburgo. Aliar (ou confrontar) tradição e modernidade não é novidade, em alguns casos até é aposta arriscada - sobretudo quando a modernidade resulta em música "modernaça" -, mas as Iva Nova parecem uma aposta confiável, pelo menos ao vivo.

 

A apresentação do quarto álbum, editado no ano passado, motivou a estreia em Portugal e deixou a vontade de conhecer também os anteriores. Não terão, claro, o bónus de permitir testemunhar o gozo e entrega de uma banda decidida a aproveitar cada momento junto de um público que cresceu em número e entusiasmo. Da postura rock n' roll da baixista e da baterista ao lado mais circense da acordeonista e da vocalista, não faltou desenvoltura nem episódios a guardar.

 

"Hoje é o dia da emancipação feminina", comentava alguém enquanto o grupo fazia a ponte entre a tarde e a noite à beira-mar. Mas para as Iva Nova esse grito já parece ter chegado em 2002, quando se juntaram para levar a palco histórias tristes de noivas búlgaras (um dos idiomas das canções, ao lado do georgiano, ucraniano e, claro, russo) que terminam em ambiente de festa na aldeia patrocinada por Goran Bregovic. E que bonita foi, à imagem da banda. Para ver e ouvir: "Spring" (ao vivo)

 

 

IDIOTAPE na Avenida da Praia - quinta, 23 de Julho

 

Idiotape

 

Antes destes três coreanos subirem a palco, foram apresentados como uma banda inspirada pelo rock conterrâneo clássico dos anos 60 e 70 - descrição confirmada pelo site do festival. Mas não é preciso conhecer muito o rock coreano clássico para desconfiar que a música dos Daft Punk, Digitalism, Vitalic ou Justice terá sido tão ou mais influente (com ênfase no mais).

 

Resposta sul-coreana ao french touch? É tentador dizer que sim, e se chega com atraso não deixa de ser eficaz naquilo a que se compromete. Para o horário das quatro da manhã, este ataque sónico de house e electro maximal cumpriu perfeitamente, pelo menos para quem já sabia no que se ia meter: entre batidas robustas, ritmos acelerados, crescendos desenfreados mas geridos por quem tem a lição bem estudada.

 

A electrónica é dominante, mas o rock também acaba por passar por aqui, apesar de este power trio só manter a bateria da formação instrumental clássica (em palco, porque o baixo e a guitarra também se ouvem, embora sintetizados). A presença dos músicos não passou despercebida e nem foram precisas palavras para a energia dos três incitar reacções do público - compare-se com as estrelas DJs da geração EDM e vejam-se as diferenças. Também é verdade que esse poderio, a amplificar a vertente live, não chegou para evitar um alinhamento a rodar em seco na recta final, vítima de alguma rigidez rítmica. Mas a atenção foi devidamente resgatada na despedida, com um trunfo muito bem jogado: "Sabotage", dos Beastie Boys, disparada com embrulho electrónico. Depois de Seul e Paris, Nova Iorque dos anos 90 ajudou a fazer a noite. Não admira que o novo disco se chame "Tours"... Para ouvir: "Melodie"

 

 

Fotos @Facebook do Festival Músicas do Mundo

 

Fundo de catálogo (102): Front 242

front_242_2

 

Num ano, até agora, marcado por mais regressos do que grandes surpresas na agenda de concertos, não deixa de ser estranho (e injusto) o quase silêncio em torno da estreia por cá dos FRONT 242 - sobretudo quando comparada com a euforia pela enésima actuação de uns Prodigy, também eles referências da electrónica industrial (nada contra, são uma aposta seguríssima ao vivo).

 

É verdade que os belgas actuam em Portugal com quase 25 anos de atraso (formaram-se em 1981), mas o papel enquanto pioneiros da EBM (electronic body music), reforçado por uma discografia especialmente influente nos primeiros registos, torna-os num destaque obrigatório do Festival Forte e numa das melhores confirmações deste Verão - que, lá está, só peca por tardia.

 

O grupo que deixou, ao lado dos Nitzer Ebb, Skinny Puppy ou Ministry, alguma da electrónica mais austera, negra e ainda assim dançável dos anos 80 revisita o catálogo no evento do Castelo de Montemor-o-Velho, cuja segunda edição decorre entre 27 e 29 de Agosto. E deverá ser uma revisitação com mais rasgo do que as de muitos veteranos, sobretudo se se concentrar em "Front by Front" (1988), o terceiro álbum e também o mais consensual, sem a dispersão de ideias da estreia, "Geography" (1982), e com um equiíbrio entre composição e produção ainda por consolidar em "Official Version" (1987).

 

O pragmatismo rítmico conjugado com samples instrumentais ou vocais pode soar datado, mas ainda mantém a força que distinguiu a banda em clássicos como "HEADHUNTER" ou "MASTERHIT", dois dos temas obrigatórios ao vivo recordados nos videoclips abaixo (o primeiro com assinatura inconfundível de Anton Corbijn). "IM RHYTHMUS BLEIBEN", numa versão ao vivo gravada há poucos meses, sugere que o grupo continua a fazer todo o sentido num palco, apesar de o último álbum ter sido editado há mais de dez anos ("Pulse", de 2003). Tão boa ou melhor é a remistura de "HAPPINESS", a resistir muito bem duas décadas depois, cortesia dos Underworld (que reconheceram aqui uma influência extensível a outros nomes da classe de 90, caso dos Nine Inch Nails, Rammstein ou... Prodigy, na fase mais explosiva). Não faltam argumentos para o pesadelo de uma noite de Verão...

 

 

 

 

 

Houve festa (rock, disco, pop) na cidade

Mesmo tendo posto de lado o tradicional dia do metal, a edição que marcou os dez anos do Rock in Rio em Portugal deu mais palcos às guitarras do que algumas das anteriores sem deixar de picar outros géneros. Talvez ainda não o suficiente para convencer alguns melómanos desconfiados com a música - para alguns, ruído - bombardeada pela colecção de bancas promocionais do recinto, é certo.

 

A vertente de entretenimento para toda a família continua a sobrepor-se à de festival e não parece dar tréguas, mas isso não impediu que os Arcade Fire dessem um dos concertos do ano na Bela Vista, neste sábado - e o melhor concerto rock do Rock in Rio Lisboa 2014, pelo menos para quem não conseguiu ver Rolling Stones nem Queens of the Stone Age.

 

 

"Reflektor", o último álbum dos canadianos, já tinha sido uma surpresa para muitos dos que apontavam algum comodismo ao antecessor, "The Suburbs", e essa vitalidade transpareceu num alinhamento mais expansivo, capaz de abraçar o tom épico associado à banda desde os primórdios até ambientes lânguidos e tropicais muito bem representados por "Here Comes the Night Time" (final féerico com chuva de confetti, num furacão a competir com o de Ivete Sangalo dias antes) ou "Flashbulb Eyes" (incursão dub mais convincente em palco do que em disco).

 

A velhinha "Haiti" relembrou que o sol também já brilhava, embora não tanto, nos tempos de "Funeral", e só a interrupção (dupla) de "Month of May" refreou um pouco os ânimos depois de um arranque vigoroso. Win Butler soube agarrar o momento e evitou o flop com uma versão de "My Body Is a Cage" que pediu energia (e voz) ao público... e o público deu. Sem trocar muitas mais palavras com os espectadores, o vocalista deixou "uma canção sobre a saudade", "The Suburbs", que não ficou entre os picos de euforia sonora da noite mas foi das mais sentidas (ou assim pareceu, com milhares a gritar "I'm movin' past the feeling").

 

A dança ficou por conta de clássicos como a dupla imbatível "Neighborhood #3 (Power Out)" e "Rebellion (Lies)", responsável por um arranque flamejante depois de "Reflektor" mostrar estar a caminho desse estatuto. "No Cars Go" é outra que resulta sempre ("Hey!") e "Normal Person" foi perfeita para arrebitar uma recta final mais contemplativa onde se ouviu "It's Never Over (Oh Orpheus)", com Régine Chassagne em modo celestial no meio do público (e com direito a um esqueleto como acompanhante) a cantar de frente para Win, no palco. Envolvente pela abordagem cénica, a canção, menos directa do que a maioria do alinhamento, nem sempre agarrou 47500 espectadores, e da faceta tranquila o destaque irá para o "Rococo" in Rio, com um coro colectivo a entoar o título desse tema.

 

E quando um alinhamento destes é defendido por uma grande banda - na entrega e no número de músicos, dos sopros aos metais - que pareceu ainda maior com a entrada em palco dos Reflektors (ou cabeçudos, como muitos espectadores os apelidaram), o resultado só podia ser um triunfo. O entrosamento entre festa e melancolia pode ter ficado ligeiramente abaixo do que se viu no Super Bock Super Rock de 2011, no Meco, imune a quebras de ritmo e de som, mas um concerto não é decepcionante por ficar a uns degraus da perfeição.

 

 

 

Quem também não pareceu ter saído decepcionado na noite de sábado foi o público de Lorde. Ou talvez apenas de "Royals"? A dúvida era legítima, tendo em conta o airplay excessivo desse single e ridiculamente reduzido dos outros temas de "Pure Heroine" (a paciência de tantos ouvintes para massacres radiofónicos merecia ser objecto de estudo). Mas o álbum de estreia da neozelandesa tem mais (e melhores) argumentos a seu favor, algo bem evidente numa actuação com coragem para dispensar qualquer espalhafato e valorizar a música.

 

O minimalismo talvez tenha sido demasiado austero para o Palco Mundo: uma cantora, um teclista, um baterista, pouquíssimos vídeos e zero adereços. Não fosse a óbvia dimensão do nome - ou, lá está, do single - e o espaço da Electrónica teria servido melhor um espectáculo com estes contornos. Mesmo assim, a pose anti-diva de Ella Marija Lani Yelich-O'Connor foi uma curiosidade inesperada no horário nobre.

 

Entre algum desconforto, ou pelo menos estranheza, acompanhado de palavras e olhares emocionados - que, ao contrário de outros, não pareceram pré-fabricados -, a cantautora foi surpreendendo e conquistando. A sua pop electrónica discreta, que não se esgota na vertente levemente dançável (as letras têm mesmo algo a dizer), foi mais insinuante do que arrebatadora, mas episódios como o frenético final de "Team", com uma pulsão infecciosa a desviar-se da versão gravada, ou a bonita constelação de smartphones em "Ribs" (inspirada reflexão sobre o crescimento) compensaram a mediania geral. One hit wonder? "Let them talk", disparou a neo-zelandesa no final, com a óptima "A World Alone".

 

 

 

Se Lorde, apesar das fragilidades de principiante, consegue esboçar um universo pessoal nas suas canções, Justin Timberlake não dá muito mais do que a enésima variação de relatos boy meets girl. Tal como grande parte da pop, alguma dela boa, também é verdade. Mas mesmo dando de barato que ninguém o ouve pelas letras, fica por esclarecer o interesse da maioria da música.

 

Na sua estreia em Portugal, no domingo, o ex-'N Sync mostrou simpatia, empenho, descontração e capacidades como dançarino e cantor. Talvez nem fosse preciso tanto: a julgar pelas reacções efusivas de muitos dos 80 mil espectadores, bastava-lhe aparecer e deixar que o palminho de cara e a fatiota impecável fizessem o resto. Veio bem acompanhado, com os Tennessee Kids, cujas dezenas de músicos tiveram espaço para brilhar e asseguraram um profissionalismo também visível nos bailarinos e coreografias.

 

Infelizmente, esse competência foi desperdiçada num cocktail funk/R&B/rock ora bombástico ora sonolento, quase sempre vazio. Os momentos mais dinâmicos ancoraram-se nos ritmos sincopados via Timbaland, minimamente eficazes quando o objectivo é dançar mas com poucas composições que os valorizem. Ainda assim, foram preferíveis às baladas, que reforçaram a insistência no falsete e foram mais de cantautor de segunda linha do que de um suposto rei da pop (as da rainha dão-lhe dez a zero). As versões de Michael Jackson e Jackson 5 não mudaram muito o cenário e a de "Heartbreak Hotel", de Elvis Presley, valeu mais pela diferença face ao alinhamento do que por sinais particulares de Timberlake.

 

Mas o pior foi a guitarrada à la Def Leppard a assassinar "My Love", pop sintética com potencial para ser um dos picos da noite antes de sofrer o tratamento "Guitar Hero" também empregue em "Cry Me a River". Salvou-se o ambiente futurista de "LoveStoned/I Think She Knows" (com imagens computadorizadas a complementar bem a canção), a interação particularmente feliz de "Take Back The Night", com a banda a mostrar gozo e garra, ou o colosso dançável "SexyBack", cereja em cima de um bolo com muita cobertura mas pouco recheio.

 

 

 

Já o concerto dos Hercules and Love Affair, sexta-feira, só foi pequeno na duração e na quantidade de público que convocou. Um dos destaques de uma noite especialmente forte na Electrónica - por onde passaram ainda Octa Push, Bis Boys Please ou Tiga -, o projecto de Andy Butler, longe de ser novidade nos palcos portugueses, é sempre sinónimo de festa garantida. A celebração na Cidade do Rock não foi tão exuberante como no Optimus Alive ou no Lux, em ocasiões anteriores, embora não por falta de entusiasmo dos nova-iorquinos.

 

Se o espectáculo de Lorde talvez ganhasse na Electrónica, a energia destes dois vocalistas não se deixaria intimidar pelo Palco Mundo. Mas actuar no mesmo horário que os Linkin Park levou a que a festa não tenha arrancado com mais do que algumas dezenas, apesar de tudo alargadas ao fim de uma hora, com uma moldura humana bem mais expressiva e desperta.

 

O terceiro álbum, "The Feast of the Broken Heart", editado na semana passada, foi o pretexto para o regresso e dominou o alinhamento, com uma homogeneidade house de inícios de 90 a limar contrastes de outros concertos do grupo por cá (e a reduzir sobretudo a carga disco). Versões de temas mais antigos como "Blind" ou "Painted Eyes" (melhor a segunda do que a primeira) souberam a pouco, mas não abalaram um espectáculo por vezes viciante, quase sempre divertido e com um activismo LGBT mais denunciado (tanto nas letras das novas canções como nas declarações dos dois mestres de cerimónias e do próprio Butler, mentor e DJ de serviço). Venha mais um regresso em nome próprio, sff..

 

 

Fotos @Agência Zero/ Site oficial Rock in Rio Lisboa

 

Alive and kickin'

Katy B no Palco Heineken. Foto @Ruben Viegas/Everything is New

 

Quase quatro da manhã. Um Palco Heineken a rebentar pelas costuras (e uma área de restauração, à volta, não menos lotada). Uma actuação dos Metronomy que faz dançar com um desfile de doces synthpop. Belo programa para uma sexta à noite, não? Ou um sábado, talvez. O que ninguém imaginaria era este cenário num domingo, mas quem esteve neste fim de semana no Optimus Alive confirmou que, às vezes, o improvável acontece.

 

Se o que se pretendia num festival era, precisamente, um ambiente de festival a sério (coisa que nem sempre se encontra num Verão onde crescem como cogumelos), o do Passeio Marítimo de Algés ofereceu isso mesmo, numa versão ainda mais concorrida do que a de anos anteriores. Para o melhor, como num after hours como este, que além de portugueses chamou nuestros hermanos e muitos turistas de terras de sua majestade (afinal, o público para ver Stone Roses em 2012 tem de vir de algum lado), noutros casos para o pior, como no concerto dos Radiohead. A precisão, arrojo e intimismo da banda de Thom Yorke merecem respeito, mas os muitos fãs(?) nem sempre o demonstraram, pelo menos a vários metros de distância do palco, onde a prioridade parecia ser beber copos, gargalhar ou gritar, ritual ocasionalmente interrompido (ora bolas) pelos escassos hits que o grupo lá foi deixando.

 

De certo modo, até se compreende: os dois ecrãs gigantes pouco ou nada ajudavam quem queria ver o que se passava no palco (um com um plano geral, logo inútil, outro dividido em seis partes com planos de pormenor, não muito melhor), tornando frustrante um concerto que, apesar da frieza (esperada), teve muito para apreciar (uma mão cheia de grandes canções, essencialmente, como na sequência perfeita de "Pyramid Song", "I Might Be Wrong", "Climbing Up the Walls", "Nude" e "Exit Music (for a Film)").

 

Felizmente, a postura cerebral e distante dos Radiohead deu lugar ao rock ultra-físico dos The Kills, umas horas depois, com a perfeição a insinuar-se em "Last Day of Magic" ou "Tape Song". "The Last Goodbye", autêntica cereja em cima do bolo, conseguiu ir mais longe, mostrando as lágrimas de uma Alison Mosshart estupefacta com a entrega do público - depois de dedicar o tema a um fã desmaiado que insistiu em ajudar. Além de comovente, foi o maior momento de antologia do festival, a mostrar aos cabeças de cartaz da noite que um concerto é (ou deve ser) mais do que uma sucessão de canções (mesmo que algumas sejam muito boas).

 

Também em forma, e no Palco Heineken, Santigold foi outra que deixou saudades com uma simpatia contagiante e música à altura - que volte mais vezes, e já agora em nome próprio, porque o novo álbum merecia mais tempo de antena. Com um disco mais antigo, mas ainda fresco, Katy B não esteve pior numa das grandes surpresas (parciais, vá) da sexta edição do festival. Death in Vegas ou Caribou, entre a abstracção e o êxtase, também marcaram pontos, enquanto que Zola Jesus não aqueceu nem arrefeceu, os Morcheeba cumpriram sem grande alarido ("Não conhecemos nenhuma canção da Florence, por isso vamos tocar esta cover que ela canta" teve a sua piada) e a electrónica pica-miolo dos Justice perdeu a (pouca) graça ao fim de quinze minutos (idem para o aparato visual). Mas concertos mais mortiços há sempre e o festival, no geral, esteve bem vivo. Os fãs de Radiohead, que (quase) nunca se enganam, não me deixam mentir:

 

Foto (do concerto de Katy B) @Ruben Viegas/Everything is New

Shirley e Natasha

 

Esta quinta-feira foi dia de boas notícias para quem aguardava novidades sobre os festivais de Verão. Ou, pelo menos, para quem aguardava novidades relacionadas com os Garbage e Bat for Lashes, duas das mais recentes adições aos cartazes do Marés Vivas e do Super Rock Super Rock, respectivamente.

 

A banda de Shirley Manson e Butch Vig estreia-se no norte de Portugal, no festival de Vila Nova de Gaia, a 19 de Julho, num concerto obrigatório para alguém que ainda guarda religiosamente um autógrafo pedido no final da actuação na Expo 98 - ou que desconfia, com consideráveis doses de certeza, que "Version 2.0" é o disco que mais ouviu na vida.

 

Já Bat for Lashes nunca actuou mesmo por cá, o que não deixa de ser estranho quando o seu primeiro disco, "Fur and Gold", já tem uns anos - foi editado em 2006 - e o segundo, "Two Suns" (2009), reforçou o culto em torno de Natasha Khan - e ambos a confirmaram como uma das melhores (a melhor?) nova cantautora dos últimos tempos. E só mesmo por confirmações como esta é que vale a pena considerar enfrentar, mesmo que com alguma resistência, as condições pouco convidativas (eufemismo) do SBSR, a 5 de Julho.

 

Enquanto não chega o Verão, antecipam-se alguns dos cenários possíveis com dois vídeos. Dos Garbage, fica a recordação de um dos momentos-chave da actuação na Expo 98, o clássico "Only Happy When It Rains", cuja introdução é a não menos clássica cena de Shirley Manson com os calções de um espectador. Para acalmar, seguem-se os sussurros demolidores de Bat for Lashes na cerimónia de entrega do Mercury Prize, em 2009 (que venceu, num dos prémios mais justos da indústria musical em muitos anos):