Seg | 6 Fev 12
Respirar (debaixo d'água)

 

Crescer custa. E ao protagonista de "Atmen", cujo dia-a-dia decorre entre um centro de detenção juvenil e o trabalho numa agência funerária, custa especialmente. Não que esta obra do austríaco Karl Markovics alguma vez caia no miserabilismo: o actor principal de "Os Falsificadores" (vencedor do Óscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2008), que aqui se estreia na realização, oferece quase sempre um retrato cru, por vezes duríssimo, mas também estranhamente terno, sobre um adolescente de 18 anos que tenta encontrar o seu rumo.

 

Embora demore algum tempo a vincar o tom, ninguém diria que "Atmen" é resultado de um estreante. Markovics tira o maior partido do plano fixo, consegue enquadramentos tão rigorosos como impressionantes e quando move a câmara nunca o faz por acaso.

 

Mas além de tecnicamente admirável, este olhar seco sobre a morte, a solidão ou a redenção deve ainda muito ao jovem Thomas Schubert - outro estreante, desta vez como actor, cujo underacting é perfeito para carregar um protagonista que acumula emoções reprimidas. "Atmen" permite-nos conhecê-lo melhor do que os que o rodeiam e também aí o seu realizador mostra subtileza, revelando informação de forma paciente e optando, e bem, pela ambiguidade em vez de respostas fáceis. No final, temos uma primeira obra tão angustiante como imersiva - combinação com expoente máximo nas muitas e belas sequências na piscina, apenas alguns dos seus momentos de antologia.

 

 

"Atmen" foi o filme da sessão de encerramento da nona edição da KINO - Mostra de Cinema de Expressão Alemã

 



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Qui | 26 Jan 12
De Lisboa a Lissabon

 

"Lollipop Monster" mistura animação e imagem real e marca a estreia na realização de Ziska Riemann, até aqui mais conhecida como autora de BD. Além de despertar curiosidade, este drama adolescente é um dos destaques da KINO 2012 - Mostra de cinema de expressão alemã, que está de regresso ao Cinema São Jorge e ao Goethe-Institut, em Lisboa.

 

A nona edição da iniciativa é inaugurada esta noite na sala da Avenida da Liberdade, às 21h30, com a comédia "Almanya - Bem-vindos à Alemanha", de Yasemin Samdereli, e até 3 de Fevereiro apresenta sessões de manhã, à tarde e à noite.

 

Apostando nas secções "Next Generation Short Tiger 2011", "Mostra para Escolas" e "Cinema para Jovens" e tendo o "Ciclo Áustria" como tema principal, a KINO volta a trazer muito cinema germânico recente (e não só) que dificilmente veríamos por cá de outra forma. Se se mantiver como nas edições anteriores, a programação deverá reservar algumas boas surpresas.

 



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Seg | 31 Jan 11
Um é pouco, dois é bom...

 

Tom Tykwer tem construído a sua filmografia a saltitar entre géneros, mas ainda não tinha passado pela comédia romântica.

"Drei" não será propriamente uma - pelo menos não apresenta muito em comum com a maioria -, embora ande lá perto.

 

O novo filme do alemão tem o mérito de não seguir o determinismo de demasiados exemplos do género - característica que chega a ser comentada por uma das personagens - e de não se amparar numa realização tarefeira - ao contrário de outros títulos de Tykwer, aqui as ideias visuais servem a narrativa e não o inverso.

 

A partir do jogo de enganos entre dois elementos de um casal que iniciam uma relação com o mesmo homem - sem que o outro cônjuge saiba -, desenha-se um filme que, apesar do humor, também consegue ser amargo - ao insinuar, por exemplo, que a solidão mais dolorosa é a partilhada.

Mas esse contraste entre ligeireza e densidade, por vezes excessivamente abrupto, também faz de "Drei" um filme tão indeciso como os seus protagonistas.

Em todo o caso, antes esta indecisão que a adrenalina inconsequente de "Corre, Lola, Corre" (1998), a poesia insípida de "Heaven - Por Amor" (2002) ou o thriller à americana (versão rotineira) de "The International — A Organização" (2009).

 

 

"Drei" foi o filme de abertura da oitava edição da KINO - Mostra de Cinema de Expressão Alemã, que decorre até 4 de Fevereiro

 


música: "Leonora", Hercules & Love Affair

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Ter | 25 Jan 11
A Alemanha que raramente vemos

 

"Drei" (Três), o novo filme de Tom Tykwer, inaugura nesta quinta-feira a oitava edição da KINO 2011 – Mostra de Cinema de Expressão Alemã.

Misto de drama e a comédia, esta candidata-se a ser a obra mais realista do realizador de "Corre, Lola, Corre" ao seguir um triângulo amoroso entre um casal heterossexual e um homem bissexual - e tal como esse título de estreia, volta a ter Berlim como cenário e a ser falada em alemão. Talvez até seja desta que Tykwer tenha feito um bom filme (ou talvez já o tenha feito em "Der Krieger und Die Kaiserin/ The Princess and the Warrior", que não chegou a salas nacionais...).

 

Depois da sessão de abertura, a KINO 2011 leva ao Cinema São Jorge e ao Goethe-Institut, em Lisboa, cerca de dois filmes por dia até 4 de Fevereiro - sempre uma longa-metragem de ficção e um documentário (e por vezes com mais uma obra da secção Mostra para Escolas).

 

Entre as propostas desta edição, que concentram filmes alemães, austríacos, luxemburgueses e suíços, contam-se "Die Fremde" (A Estrangeira), de Feo Aladag, proposta alemã para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro; "Solino", filme de Fatih Akin que antecedeu "Head On - A Esposa Turca" e não teve direito a estreia por cá; ou "Pontapé de Saída (Kick Off)", o aplaudido documentário de Hüseyin Tabak sobre uma equipa austríaca que joga no campeonato do mundo de futebol para os sem-abrigo.

 

Tal como nas últimas edições, alguns balanços e sugestões deverão ir surgindo aqui no blog durante os próximos dias.

 


música: "Corner of the Sky", Cut Copy

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Sab | 6 Fev 10
O fantasma

 

Não falta mística a "Coming Out". A sua estreia decorreu na noite da queda do muro de Berlim, foi o primeiro (e único) filme da Alemanha Oriental centrado na homossexualidade e acabou premiado com o Urso de Prata no Festival de Berlim em 1990.

 

Mas visto hoje, mais de duas décadas depois, este drama de Heiner Carow distingue-se mais como curiosidade histórica do que enquanto abordagem especialmente inspirada da temática.

 

É claro que, tendo em conta o contexto em que nasceu, é um filme corajoso, embora esse arrojo também o leve a funcionar, por vezes, como uma bandeira a favor da tolerância e integração - a mensagem é louvável, já a forma como é passada nem por isso, revelando-se ocasionalmente ingénua e genérica.

 

Alicerçado no colapso emocional de um jovem professor, cada vez mais incapaz de manter uma relação com uma colega à medida que vai aceitando a sua orientação sexual, "Coming Out" consegue, mesmo assim, dar alguma intensidade a uma premissa genérica.

 

O elenco, em particular o actor principal, ajuda a conferir credibilidade às situações, e a realização despojada acentua o realismo dos ambientes (até porque todos os espaços nocturnos eram de facto reais e frequentados por grande parte dos secundários e figurantes do filme).

 

E se a narrativa cai por vezes na modorra, também serve algumas cenas fortes que ajudam a fazer desta uma obra meritória (como as do protagonista no quarto ou o monólogo de um idoso, com ecos do Holocausto), ainda que os seus maiores méritos não sejam os cinematográficos.

 

 

"Coming Out" integrou a programação da 7ª edição da KINO - Mostra de cinema de expressão alemã de Lisboa

 


música: "Humano", Mão Morta

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Ter | 2 Fev 10
Uma mulher sob influência

 

Há dois filmes em "Ghosted". Um concentra-se na história de amor entre Sophie, uma artista multimédia alemã, e Ai-ling, uma taiwanesa que emigra para Hamburgo em busca de pistas do seu passado.

O outro lida com a vida de Sophie após a morte abrupta de Ai-ling (cujo motivo permanece uma incógnita quase até ao final) e com os seus contactos com outra taiwanesa, que tenta entrevistá-la para uma publicação - e aqui esta obra de Monika Treut aproxima-se mais do thriller sobrenatural do que da crónica conjugal.

 

Intercaladas através de recorrentes flashbacks, estas duas linhas narrativas são muitas vezes intrigantes mas não chegam a construir um todo particularmente seguro.

"Ghosted" resulta bem quando incide nos episódios domésticos do casal protagonista, onde apesar dos contrastes culturais terem influência a homossexualidade não é tratada como um tema - abordagem rara e refrescante.

 

Infelizmente, quando aposta numa atmosfera de mistério (de tom fantasmagórico, embora sóbrio) o filme não se mostra tão convincente, lançando algumas pistas interessantes para acabar por desapontar num desenlace mal resolvido.

Fica a relativa originalidade da proposta e, ainda assim, a curiosidade em conhecer mais títulos de Monika Treut, autora com uma longa obra centrada essencialmente na mulher e na sexualidade.

 

 

"Ghosted" é um dos filmes da programação da 7ª edição da KINO - Mostra de cinema de expressão alemã de Lisboa

 

 



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O clube da esquina

 

Gerhard Klein, como realizador, e Wolfgang Kohlhaase, como argumentista, foram dois nomes fortes do cinema da Alemanha Oriental e autores de uma série de títulos conhecida como Berlin Films - alguns deles banidos nas décadas de 50 e 60.

 

"Berlim – Esquina Schönhauser" é um dos mais emblemáticos e daqueles que se tornou num objecto de culto, sendo muitas vezes considerado um dos melhores retratos da juventude alemã do pós-2ª Guerra Mundial.

 

O local que dá título ao filme era o ponto de encontro de adolescentes rebeldes e contestatários, e Klein e Kohlhaase centram-se em especial no quotidiano de quatro deles: Dieter, orfão, vive com o irmão e trabalha na construção civil; Ângela, a sua namorada, é costureira e tem uma relação atribulada com a sua mãe, viúva; Kohle, o mais imaturo e optimista, tenta esquecer as agressões do padrasto através do escapismo do cinema americano; e Karl-Heinz deixa de ser o adolescente modelo de uma família abastada quando se envolve em negócios obscuros.

 

Com um olhar crítico mas nem por isso maniqueísta, "Berlim – Esquina Schönhauser" espelha bem os contrastes entre o presente e o passado ou a Alemanha Ocidental e Oriental, elementos que marcam inevitavelmente o dia-a-dia dos jovens protagonistas - com reflexo na descoberta de uma bomba perto de uma estação de comboio ou na sedução de uma noite clandestina de jazz.

 

Além deste fosso geracional, histórico e cultural bem desenhado, o filme tem a seu favor a entrega de todo o elenco e a realização hábil e fluída de Klein, com a cereja em cima do bolo servida por uma soberba fotografia a preto e branco. Uma bela descoberta, portanto.

 

 

"Berlim – Esquina Schönhauser" é um dos filmes em exibição na 7ª edição da KINO - Mostra de cinema de expressão alemã de Lisboa

 



publicado por gonn1000 às 12:07
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Qua | 27 Jan 10
Histórias alemãs no grande ecrã

 

O fotograma acima pertence a "Amoklove", de Julia C. Kaiser, uma das curtas-metragens da sétima edição da KINO - Mostra de cinema de expressão alemã, que arranca esta noite no Cinema São Jorge, em Lisboa, onde decorre até 4 de Fevereiro (e conta também com algumas sessões no Goethe Institut).

 

Além de curtas (todas exibidas em Cannes), a iniciativa propõe ainda longas-metragens e documentários, com filmes recentes (a maioria) e outros que já somam algumas décadas (os que constam da secção comemorativa dos 20 anos da queda do muro de Berlim).

 

As edições anteriores têm permitido boas descobertas e a programação deste ano volta a despertar curiosidade. Mais informações neste artigo e, nos próximos dias, dois ou três apontamentos sobre alguns filmes aqui no blog.

 



publicado por gonn1000 às 18:29
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Sex | 23 Jan 09
A escola e a família, da Alemanha para Lisboa

 

 

Se o recente "A Turma", de Laurent Cantet, teve o mérito de abordar com rara perspicácia e sentido de oportunidade a problemática do ensino, não é felizmente o único exemplo bem-sucedido a mergulhar nessa questão.

 

"Luta de Classes" (Klassenkampf), o novo documentário de Uli Kick, repórter e realizador, parte de uma premissa semelhante ao acompanhar uma turma do 9º ano de uma escola de Munique, mas onde a obra de Cantet era um exercício ficcional que quase passava por documental, aqui ocorre o oposto.

O filme evidencia a experiência de jornalista do seu autor e é hábil no encadeamento entre depoimentos dos alunos e professores, entrecruzando-os com situações do seu quotidiano dentro e fora da escola.

 

Embora foque uma turma vincada por vários contrastes, uma vez que a maioria dos alunos são filhos de imigrantes e nem todos têm condições de vida especialmente aprazíveis, Kick nunca cai no miserabilismo nem faz desta hora e meia um panfleto social.

Em vez disso desenha um retrato simultaneamente sério, comovente e divertido sobre o caminho para a idade adulta e as escolhas, por vezes conturbadas e precoces, que os seus protagonistas são obrigados a fazer.

Um belo exemplo do melhor cinema documental, onde o óbvio baixo orçamento em nada compromete um olhar atento e singular.

 

 

 

Premiada em vários festivais internacionais, "O Estranho que há em Mim" (Das Fremde in mir) é a terceira longa-metragem de Emily Atef, e de acordo com a realizadora surgiu da necessidade de retratar uma situação que afecta cerca de 80 mil mulheres por ano na Alemanha mas que raramente é focada no cinema: a depressão pós-parto.

Aqui está na origem de um drama centrado num jovem casal cujo equilíbrio conjugal é ameaçado quando a esposa, Rebecca, não consegue adaptar-se ao novo dia-a-dia após o nascimento do filho.

 

Incapaz de se relacionar com a criança e dominada por uma ansiedade crescente à medida que passa mais tempo com ela, a protagonista chega a colocar a segurança do recém-nascido em risco e instala em "O Estranho que há em Mim" uma intensa e imprevisível viagem psicológica e emocional.

 

Atef aposta numa realização despojada e realista, próxima dos domínios da Nova Escola de Berlim, e se o ritmo da narrativa nem sempre é o mais cativante a óptima direcção de actores compensa-o.

Susanne Wolff, no papel principal, é especialmente notável - pense-se numa Norah Jones à beira do colapso - e apesar de alguns episódios extremos o argumento nunca julga as personagens nem se perde em explicações desnecessárias, dando espaço para o espectador tirar as suas próprias conclusões e oferecendo-lhe um dos mais belos e simples desenlaces dos últimos tempos.

 

 

"Luta e Classes" e "O Estranho que há em Mim" foram exibidos ontem na KINO - Mostra de Cinema de Expressão Alemã, a decorrer até 29 de Janeiro no Cinema São Jorge, em Lisboa

 



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Qua | 21 Jan 09
A Alemanha numa sala lisboeta

'Absurdistão' (Absurdistan), de Veit Helmer, exibido a 24 de Janeiro

 

Arranca hoje em Lisboa, no Cinema São Jorge, a KINO Mostra de Cinema de Expressão Alemã, que aí se mantém até dia 29 e apresenta novos filmes não só da Alemanha mas também da Áustria, do Luxemburgo e da Suíça.

 

Na edição do ano passado a iniciativa exibiu alguns títulos inéditos e recomendáveis como "Fantasmas" (Gespenster), de Christian Petzold, "Os Falsificadores" (Die Fälscher), de Stefan Ruzowitzky (premiado com o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2008), ou "Bungalow", de Ulrich Köhler, e por isso valerá a pena espreitar o que a programação sugere agora.

 

Esta noite, a sessão de abertura propõe "No Inverno um Ano" (Im Winter ein Jahr), a mais recente obra de Caroline Link, e conta com a presença da realizadora cujo filme anterior, "Algures em África" (Nirgendwo in Afrika), ganhou o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2003.

 

A mostra exibe dois filmes nos dias úteis e três nos do fim-de-semana e todas as informações podem ser consultadas no site do Goethe Institut - e algumas impressões sobre os filmes deverão estar aqui pelo blog entretanto.

 


música: "Internacional", Brazilian Girls

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Qui | 7 Fev 08
Instantes decisivos

Juntamente com Ulrich Köhler e Angela Schanelec, Christian Petzold é um dos realizadores que esteve na origem da Nova Escola de Berlim, movimento que nos últimos anos tem renovado o cinema alemão através de um olhar especialmente cru e desencantado sobre o quotidiano urbano contemporâneo.

 

É também um dos novos cineastas (e argumentistas) mais prolíficos, contando já com nove filmes, ainda que por salas nacionais apenas tenha passado "The State I Am In" (2000), na edição de 2007 do IndieLisboa, e "Wolfsburgo" (2003) e "Fantasmas" (Gespenster, 2005), na KINO - Mostra de Cinema de Expressão Alemã, este ano.

 

 

O segundo acompanha dois dias nas vidas de quatro personagens em Berlim - um casal que tenta recuperar após o desaparecimento da filha e duas adolescentes que se conhecem num parque e sentem uma cumplicidade imediata, que as une em roubos em lojas de roupa ou em castings para programas televisivos.

 

Os seus rumos acabarão por entrecruzar-se nesta história movida pelo acaso, onde a imprevisibilidade do dia-a-dia parece ser o fio condutor e a solidão o elemento dominante e do qual todos tentam fugir, seja pela tentativa de novas amizades ou da materialização de esperanças há muito perseguidas.

Mas Petzold nunca facilita a vida às suas personagens, deixando-as entregues a si mesmas e obrigando-as a confrontarem-se com a desilusão, o que faz de "Fantasmas" uma obra tristíssima, embora estranhamente bela.

 

O rosto de Julia Hummer, que interpreta uma das adolescentes, reflecte bem a atmosfera do filme, mantendo-se entre a resignação e a expectativa e confirmando as qualidades da jovem actriz que já tinha inquietado em "The State I Am In". É ela que, na pele de Nina, dá alma a "Fantasmas", cuja vulnerabilidade contrasta com a desenvoltura e garra de Toni, que Sabine Timoteo compõe com uma intensidade nos antípodas da discrição demonstrada em "Um Amigo Meu", de Sebastian Schipper.

 

 

Tal como no também interessante "Wolfsburgo", as clivagens sociais são um elemento forte no desenrolar da acção, mas Petzold expõe bem as diferenças entre os estilos e condições de vida das suas personagens sem cair em maniqueísmos nem generalizações, usando-as para compreender e não para condenar ou desculpabilizar os protagonistas.

 

"Porque é que fizeste isso?", pergunta Nina a Toni após esta roubar uma carteira, e cuja resposta é "Porque temos fome e ela estava a usar Prada". Uns vivem, outros sobrevivem, mas todos são permeáveis a assombrações do quotidiano, e "Fantasmas" é um conseguido espelho desses riscos, abrindo o apetite para "Yella", o mais recente filme do realizador que, felizmente, deverá estrear este ano em Portugal.

 

 

"Fantamas" foi um dos filmes da KINO - Mostra de Cinema de Expressão Alemã, decorrida no cinema São Jorge, em Lisboa, entre 30 de Janeiro e 6 de Fevereiro



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Dom | 3 Fev 08
Dois (ou três?) em um

Uma das qualidades de "Marselha" (Marseille, 2004) é a de não ser um filme fácil, jogando com as expectativas do espectador ao confrontá-lo com uma estrutura narrativa invulgar e, até certo ponto, engenhosa.

Infelizmente, essa carga inventiva nem sempre joga a seu favor, uma vez que a tentativa de surpreender deita abaixo grande parte da intensidade dramática que o filme vai moldando, pacientemente, durante a primeira parte.

 

A quinta obra de Angela Schanelec acompanha inicialmente a chegada de Sophie, uma jovem fotógrafa alemã, à cidade francesa que dá título ao filme. A troca de apartamento, durante alguns dias, com uma estudante, obriga-a a romper com a rotina do seu dia-a-dia em Berlim, a lidar com a solidão e a tentar adaptar-se a um novo contexto. E também a conhecer novas pessoas, como o mecânico de uma oficina a que recorre e com o qual estabele uma óbvia empatia, esboçando o seu primeiro sorriso após vários minutos de filme.

 

 

Durante estes episódios, dos passeios solitários da protagonista às suas saídas nocturnas com jovens locais, "Marselha" demarca-se como uma obra promissora, apostando num ritmo pausado, mas não monótono, numa realização com muitos planos fixos e enquadramentos minuciosos e numa eficaz secura dramática que o aproxima de domínios documentais. Uma sequência, centrada numa longa conversa de bar entre Sophie e o mecânico, é particularmente conseguida, transbordando espontaneidade e vibração emocional.

 

Se continuasse por aqui, "Marselha" seria provavelmente um belo filme, mas Schanelec muda repentinamente o espaço da acção e a protagonista, desviando-se para Berlim e concentrando atenções em Anna, irmã de Sophie, investindo na sua frustração profissional e dilemas conjugais.

Este corte, que até poderia ser interessante, serve apenas para encher o filme com duas exaustivas sequências de muito duvidosa relevância, uma decorrida numa sessão de fotos e outra no ensaio de uma peça de teatro, onde o tédio acaba por instalar-se. O facto de Hanna ser uma personagem pouco estimulante e da actriz que a interpreta não possuir - pelo menos aqui - a estranha fotogenia e olhar indecifrável da que encarna Sophie, Maren Eggert (por vezes a lembrar Valeria Bruni Tedeschi), também não ajuda.

 

 

Sophie volta a ganhar protagonismo na recta final, embora se veja envolvida numa situação bem diferente das do início e que pareça, por isso, deslocada, reforçando as falhas de um argumento que peca por excesso de arbitrariedade.

 

"Marselha" evidencia que Schanelec tem talento, mas esperava-se mais de uma realizadora que é tida como uma das essenciais da Nova Escola de Berlim, movimento que nos últimos anos tem reflectido as tensões quotidianas da sociedade alemã contemporânea recorrendo a um despojamento formal que acentua a vertente realista.

Ainda assim, fica a ténue esperança de que "Marselha" possa ser salvo por um impiedoso director's cut, aproveitando os primeiros 30/40 minutos e eliminando - ou repensando - todos os que se seguem, para que este não pareça dois (ou mesmo três) filmes mal cosidos mas o refrescante estudo de personagens sugerido nos momentos iniciais.

 

 

"Marselha" é um dos filmes da KINO - Mostra de Cinema de Expressão Alemã, presente no cinema São Jorge, em Lisboa, até 6 de Fevereiro


música: "Amor Fugaz", María Daniela Y Su Sonido Lasser

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Sab | 2 Fev 08
O ano em que os pais dele saíram de férias

"Bungalow" (2002) é a primeira longa-metragem de Ulrich Köhler, um dos mais recentes e aclamados realizadores alemães que dirigiu também a aplaudida "Montag kommen die Fenster" (2006).

Esta primeira obra foca as peripécias de Paul, que durante o Verão em que se encontra a cumprir o serviço militar afasta-se da sua companhia durante uma viagem e esconde-se no bungalow dos pais, ausentes em férias.

 

 

Mesmo assim não estará sozinho nesse retiro abrupto, já que o seu irmão mais velho, com quem tem uma relação conflituosa, vai lá passar uns dias com a namorada, que se torna em objecto de disputa.

 

Drama offbeat pontuado por alguns subtis acessos cómicos, "Bungalow" é um conseguido olhar sobre a atribulada e nebulosa fase que marca o fim da adolescência e o início da idade adulta, expondo de forma sensível e verosímil o desconforto do seu protagonista.

Tal como outros nomes do novo cinema alemão, Köhler recorre a um realismo cru e árido, apresentando uma série de situações prosaicas mas cuja eficaz tridimensionalidade as torna magnéticas q.b., mergulhando com perspicácia em pequenos episódios do quotidiano de um jovem.

 

 

Boa parte desse efeito realista deve-se também à interpretação do estreante Lennie Burmeister, cujo olhar lacónico e postura recatada expressam bem a dolência e tédio do qual Paul não consegue desprender-se - ou não quer, dúvida que o filme não chega a explorar.

Tendo em conta que o protagonista está presente em praticamente todas as cenas, "Bungalow" dificilmente resistiria sem um desempenho tão consistente, e que até acaba por compensar pontuais sequências de relevância algo questionável, onde o filme parece arrastar-se.

 

Sem nunca julgar Paul - ou qualquer outra personagem - nem tentar que este gere empatia através de rodriguinhos fáceis - antes pelo contrário -, Köhler capta aqui um interessante retrato do crescimento, que mesmo não sendo dos mais ousados ou imaginativos é suficientemente complexo e ambíguo para fazer de "Bungalow" um filme a ter em conta.

 

 

"Bungalow" é um dos filmes da KINO - Mostra de Cinema de Expressão Alemã, presente no cinema São Jorge, em Lisboa, até 6 de Fevereiro


música: "Give Me Your Eyes", The Cardigans

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'Os Descendentes', de Alexander Payne
críticas: filmes de 2011


- "127 Horas", Danny Boyle
- "A Nossa Vida", Daniele Luchetti
- "A Pele Onde Eu Vivo", Pedro Almodóvar
- "Amigos Coloridos", Will Gluck
- "Blue Valentine - Só Tu e Eu", Derek Cianfrance
- "Cisne Negro", Darren Aronofsky
- "Green Hornet", Michel Gondry
- "Gritos 4", Wes Craven
- "Hanna", Joe Wright
- "Harry Potter e os Talismãs da Morte: Parte 2", David Yates
- "Insidioso", James Wan
- "Jane Eyre", Cary Fukunaga
- "Kaboom - Alucinação", Gregg Araki
- "Melancolia", Lars von Trier
- "O Amor é o Melhor Remédio", Edward Zwick
- "O Código Base", Duncan Jones
- "Os Agentes do Destino", George Nolfi
- "Os Bem-Amados", Christophe Honoré
- "Pequenas Mentiras Entre Amigos", Guillaume Canet
- "Sem Identidade", Pierre Morel
- "Sem Tempo", Andrew Niccol
- "Tournée - Em Digressão", Mathieu Amalric
- "X-Men: O Início", Matthew Vaughn