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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

O fantasma

Ghostpoet

 

Os universos de GHOSTPOET e dos Massive Attack já se tinham cruzado quando o músico londrino deu voz a uma das canções mais recentes da banda de Bristol - "Come Near Me", no ano passado. Agora, Daddy G colabora no novo single retirado de "Dark Days + Canapés", o quarto álbum do projecto de Obaro Ejimiwe, editado este Verão.

 

Ponto de encontro entre ecos blues e a vertente mais taciturna do trip-hop, "WOE IS MEEE" é um dos episódios mais intrigantes do disco e sugere contaminações do clássico "Mezzanine" (1998), sobretudo a partir do momento em que a voz convidada entra em cena. Mas está longe de ser a única faixa sombria de um alinhamento ambicioso, que mergulha em questões como a imigração, o consumismo ou a dependência da tecnologia através de uma moldura sonora que vai do hip-hop ao pós-punk.

 

No videoclip do tema, o desnorte identitário abordado na letra surge ilustrado pela noite de um idoso entregue a si próprio, que confronta finalmente os seus fantasmas sexuais já perto do amanhecer. "As the night draws in/ We're all seeking love", vai entoando a dupla:

 

 

Quando dançar é o melhor remédio

Sala esgotada, máquina bem oleada, devoção incondicional: o regresso dos HERCULES & LOVE AFFAIR a Lisboa, esta sexta-feira, trouxe o álbum mais vulnerável do projecto para sarar feridas na pista de dança. Mas foi uma festa na mesma, ainda que não tenha suplantado memórias de visitas anteriores.

 

Hercules & Love Affair

 

Com "Omnion", o muito fresco quarto álbum, editado em setembro, os HERCULES & LOVE AFFAIR voltaram a confirmar que são mais do que um fenómeno sazonal decisivo para a reabilitação de sonoridades disco há dez anos - altura na qual foi editado o longa-duração de estreia homónimo.

Álbum após álbum, o projecto criado por Andy Butler tem sabido moldar-se às viragens recorrentes da música de dança, com mudanças de vozes e géneros pelo caminho, sem perder o apelo hedonista inicial. Mas a carga festiva surge ligeiramente mais contida em "Omnion", disco nascido de um período especialmente atormentado para o DJ e produtor nova-iorquino, no qual o sucesso conseguido com os álbuns anteriores o atirou para um reencontro com o álcool e as drogas que foi do flirt à dependência, processo ampliado por relacionamentos encarados hoje como tóxicos.

Não admira, por isso, que o novo registo dos HERCULES & LOVE AFFAIR seja mais melancólico e também mais directo do que os antecessores na abordagem à depressão, à solidão e à diferença, por muito que "The Feast of the Broken Heart" (2014) também já tivesse feito um desvio assinalável nesse sentido, sobretudo ao reforçar o abraço à comunidade LGBT (ao qual "Omnion" dá continuidade, por exemplo, em "Are You Still Certain", tema que convida a banda libanesa Mashrou' Leila, talvez a maior porta-voz gay da música muçulmana nos últimos anos).

 

Omnion

 

Foi, de resto, com uma faceta mais frágil que arrancou o concerto da banda no Lux, precisamente com a faixa-título do novo disco. Se no álbum o tema é defendido por Sharon Van Etten, ao vivo surgiu na voz mais possante de Rouge Mary, que tornou a introspecção do original num momento de afirmação reforçado ao longo da noite.

Além da cantora transgénero, de figura imponente, quase diva disco - ou talvez "madrasta pérfida", como brincou Butler a certa altura? -, a formação actual do grupo completa-se com o mais discreto Gustaph, embora o espectáculo ainda tenha contado com um baterista em palco.

Confissões numa pista de dança

Como já tinham mostrado em actuações anteriores por cá - incluindo uma também este ano, em março, no Lisboa Dance Festival -, os dois vocalistas foram presenças suficientemente galvanizantes, à medida da música quase sempre assente numa mistura de house e disco em torno do formato canção. E o público aderiu, mesmo que a libertação dos corpos tenha sido mais limitada do que as dos movimentos, captados com cores garridas, do ecrã ao fundo do palco, tendo em conta que a sala estava esgotada - e que os cigarros de alguns dos presentes também pareciam querer dançar perigosamente perto dos espectadores à sua volta.

Ao longo de quase uma hora e meia, o alinhamento começou por insistir nos temas do novo disco antes de ir revisitando os anteriores, mas apesar dos inéditos a sensação foi mais de familiaridade do que de surpresa, pelo menos para quem já tenha estado noutros concertos dos HERCULES & LOVE AFFAIR. E face a muitas dessas ocasiões, boa parte do regresso ao Lux até foi inesperadamente morno, em especial numa primeira metade que demorou a reencontrar o fulgor que se dá por garantido numa actuação do grupo.

 

Hercules & Love Affair

 

Trunfos fortes como "My House" e "You Belong", a meio, lá injectaram novo fôlego a uma sequência apenas escorreita como a de "My Curse and Cure", "Wildchild" e "Through Your Atmosphere", contando até com uma maior interacção entre a banda e o público que também ajudou "5.43 to Freedom". "Sejam vocês mesmos com quem quer que vocês sejam vocês mesmos", encorajou Butler, aludindo às questões de identidade e liberdade da canção. O apelo teria continuidade mais para o final do concerto, já no encore, quando Rouge Mary deu voz ao grito optimista de "Rejoice", provavelmente o maior hino de "Omnion" - e reforçado por curiosos ecos industriais.

Mesmo assim, esta costela humanista nem sempre contrabalançou o lado demasiado mecânico de alguns momentos, com uma gestão de ritmos mais eficaz do que particularmente inspirada e um alinhamento não tão equilibrado como o habitual. Sentiu-se a falta de "Visitor" ou "Hercules Theme", casos de euforia garantida ao vivo, mas felizmente houve espaço para a excelência com o trio "Controller"/"Painted Eyes"/"Blind", embora as suas últimas tenham surgido em versões mais espaciais e sintéticas do que as gravadas, que têm outra exuberância.

Mudanças como essas salientam que as actuações do grupo têm vindo a dar cada vez mais prioridade à house e até ao techno, deixando o disco cada vez mais diluído, o que nem sempre é uma boa troca. A mensagem dos HERCULES & LOVE AFFAIR continua louvável - até inatacável, é certo -, mas musicalmente este regresso pareceu relembrar-nos que o óptimo é inimigo do bom.


3/5

Fotos: Carlos Sousa Vieira. Texto originalmente publicado no SAPO Mag

 

Charlotte para sempre (ou pelo menos para os próximos dias)

 

Filha de peixe sabe nadar? O percurso musical de CHARLOTTE GAINSBOURG já tinha dado a entender que sim, mas o seu novo álbum, "Rest", editado esta sexta-feira, deve mais à memória da sua meia-irmã do que à sombra do pai.

 

A morte da fotógrafa Kate Bishop, em 2013, impôs-se como a inspiração dominante do quarto disco de originais da cantautora (e actriz) franco-inglesa, cuja experiência catártica a levou a escrever todas as letras pela primeira vez, a maioria em francês, naquele que será o seu conjunto de canções mais pessoal. E também o mais promissor, pela lista de colaboradores de luxo - que inclui os produtores SebastiAn e Guy-Manuel de Homem-Christo (dos Daft Punk), mas também Owen Pallett ou Paul McCartney - e sobretudo pelos muito convincentes singles de apresentação.

 

"Deadly Valentine", um belo pedaço de electrónica dançável de sabor french touch (entretanto já com remistura dos Soulwax), abriu caminho para a meditativa e sussurrada "Rest", ao piano, e para a mais recente "RING-A-RING O'ROSES", talvez a melhor até aqui, com uma pop sonhadora e sedutora algures entre os melhores Air e os Ladytron da fase "Gravity the Seducer". O videoclip pode ser visto abaixo, o álbum já está à espera de ser ouvido na plataforma digital mais próxima:

 

 

Festa prolongada, festa abençoada

21 anos depois, os LAMB celebraram o primeiro álbum num regresso a Lisboa que nem precisou de ter casa cheia para resultar numa festa memorável - e com benção (obrigatória) do anjinho Gabriel no final.

 

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Em 1996, "Lamb", o álbum de estreia do projecto de Andy Barlow e Lou Rhodes, foi um dos muitos a juntar-se à lista de novas tendências da música de dança e também daqueles rotulados como trip-hop, depois de nomes como os Massive Attack, Tricky ou Portishead terem ajudado a consolidar esse (então) novo género. Mas esse é também um rótulo que a dupla de Manchester hoje rejeita, e com alguma razão, porque o que se escutava no seu primeiro disco não se limitava a paisagens densas e claustrofóbicas, oriundas do dub e ensaiadas pelas bandas que cunharam o chamado som de Bristol.

Ele, produtor intrigado pelas linguagens do drum n' bass e do breakbeat, e ela, cantautora inspirada por heranças folk, tentavam antes juntar esses universos aparentemente díspares num formato canção que aceitava ainda ecos do jazz, num cruzamento acústico e electrónico que, sim, também passava pelos ambientes sedutores e/ou sinuosos do trip-hop, mas tinha horizontes mais vastos.

Que os LAMB sejam hoje recordados por muitos, às vezes apenas e só, como a banda de "Gabriel", êxito inesperado que se tornou ubíquo em Portugal já na viragem do milénio, acaba por ser irónico e sobretudo injusto, ao reflectir tão pouco daquilo que os seus primeiros álbuns tinham para oferecer.

Felizmente, 21 anos depois, "Lamb" volta a ganhar nova vida, agora em palco, ao estar no centro da mais recente digressão do grupo, e com direito a ser interpretado ao vivo na íntegra pela primeira vez - na linha de revisitações recentes que têm agraciado outros álbuns emblemáticos da segunda metade dos anos 1990, curiosamente também em domínio electrónico, como o disco de estreia homónimo dos Garbage ou "Guia Espiritual", dos Três Tristes Tigres.

 

Lamb Album

 

Algumas canções do álbum até tiveram a sua estreia absoluta ao vivo nesta digressão, como Lou Rhodes assinalou no início do concerto no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, esta terça-feira, depois de uma actuação no Coliseu do Porto na véspera. E tal como também tinha ocorrido na Invicta, o espectáculo na capital recordou os temas de "Lamb" pela ordem do alinhamento do disco, numa daquelas propostas irrecusáveis para qualquer fã.

A corrida à sala lisboeta, no entanto, não repetiu a adesão em massa de outros tempos - os tais vincados pelo sucesso de "Gabriel" ou episódios anteriores, quando a dupla já era uma banda com um culto assinalável por cá. E o facto de o Coliseu dos Recreios estar (apenas) bem composto, mas longe de esgotado, não deixou de ser algo estranho tendo em conta que os Lamb já não atuavam por cá desde 2011, quando apresentaram o álbum "5" no Centro Cultural de Belém.

Em compensação, se nessa visita anterior tinham assinado um concerto demasiado curto, com pouco mais de uma hora de duração, na mais recente apresentaram uma actuação tanto maior, com quase o dobro do tempo, como melhor, ao apostar num alinhamento mais forte e defendido por mais colaboradores (a dupla fez-se acompanhar de quatro músicos, entre as cordas, percussão e sopros).

Não há amor como o primeiro

Se houvesse dúvidas de que "Lamb" ainda continua a manter-se um álbum de recorte superior, esta foi a ocasião para as tirar. Não que o concerto se tenha limitado a ser uma mera transposição a papel químico do que se ouve no disco, antes pelo contrário: os arranjos surgiram quase todos renovados sem comprometerem a estrutura das canções, numa actualização sonora subtil que mostra como as novas tendências de 1996 não têm de soar anacrónicas em 2017.

 

Andy Barlow

 

"Lusty", "God Bless" ou "Cotton Wool", que abriram a noite, são grandes canções em qualquer época e das que expõem de forma mais evidente o contraste entre a faceta humana e maquinal da música dos LAMB, com a aparente fragilidade de Lou a medir forças com a energia cinética disparada por Andy. Mas a voz nunca ficou submersa na teia instrumental, tanto das programações e teclados a cargo da metade masculina da dupla como da presença igualmente habitual da bateria ou do contrabaixo (este último a reforçar a aproximação ainda mais vincada ao vivo a domínios do jazz e a fazer esquecer quaisquer vestígios de trip-hop em momentos como o ótimo instrumental "Merge").

Entre as estreias em palco contou-se "Zero", canção que a vocalista confessou ter sido das mais difíceis de revisitar por se ter inspirado na perda de uma criança. "Mas agora tenho duas crianças mais altas do que eu", acrescentou com um sorriso estampado, ao apresentar um tema que encara hoje como menos sombrio do que há duas décadas. E foi mesmo dos episódios mais bonitos da noite, dispensando, tal como na versão gravada, grandes adereços além da guitarra acústica e de elementos eletrónicos muito discretos. Outra das estreias, e também das melhores recordações, foi "Feela", o último tema do alinhamento de "Lamb" e o mais minimal, momento-chave para confirmar que a voz de Lou pouco ou nada mudou ao longo dos últimos 21 anos.

Ainda assim, a faixa mais celebrada do disco foi, provavelmente e sem surpresas, "Górecki", single que chamou as primeiras atenções para a música dos LAMB e está entre os seus temas mais populares. E não é difícil perceber porquê: contém a fusão perfeita do que torna o duo singular, partindo da faceta intimista de Lou antes de se render a um crescendo de euforia instrumental e dançável servido por Andy. Ao vivo, o produtor entregou as programações a um colega para se dedicar à percussão, tal como no videoclip do tema, numa das muitas ocasiões em que instigou reacções bem visíveis e audíveis do público - ao longo da noite não deixou de pedir gritos, aplausos e braços no ar, com o entusiasmo de um adolescente que vive a sua primeira digressão.

O salto de "Lamb" para o palco só não foi tão conseguido em "Trans Fatty Acid", o que não quer dizer que tenha corrido mal. A versão mais musculada, com um acesso rock inesperado na dupla, até foi muito bem acolhida pelos espectadores, mas ainda deixou saudades da original, muito mais implosiva, longa e arrepiante, com uma aura industrial que o concerto nunca chegou a sugerir.

 

Lou Rhodes

 
E depois de "Lamb"?

Uma actuação apenas centrada em "Lamb" já seria mais do que suficiente para justificar a ida ao Coliseu, sobretudo quando o rasgo do disco teve eco na postura dos músicos, mas a festa continuou, e bem. Antes de Lou regressar a palco, então com um novo vestido dourado e outro chapéu excêntrico q.b., Andy e os outros músicos iniciaram uma viagem pelos discos seguintes com o instrumental "Angelica", um dos momentos altos de "Between Darkness and Wonder" (2003), ancorado no piano e em texturas eletrónicas.

Nesta segunda fase do concerto, o difícil era escolher, uma vez que a discografia dos LAMB conta com seis álbuns. E apenas o quinto, "5", ficou de fora de uma viagem que incluiu a muito aplaudida "What Sound", a explosão drum n' bass de "Little Things", tão vertiginosa hoje como em 1999, e "Ear Parcel", um dos instrumentais mais populares, a convocar uma nova e vibrante aliança entre trompete e contrabaixo depois de "Merge".

Depois das recordações, ainda houve espaço para mais estreias: as de temas do álbum mais recente dos LAMB, "Backspace Unwind", de 2014, que nunca tinha chegado a ser apresentado em Portugal. "We Fall In Love", "As Satellites Go By" e a faixa-título estão já muito longe do lado cru e exploratório de "Lamb" e mostram a dupla a aderir a estruturas mais convencionais, mas a sua eficácia ao vivo foi inegável, com boa parte do público a deixar-se contagiar por uma sonoridade sintética e virada para as pistas.

É também por aí que segue "Illumina", a nova canção da dupla, uma boa confecção de pop electrónica que teria encerrado o concerto caso não faltasse o encore a cargo da inevitável "Gabriel". "Não podíamos deixar de tocar esta", assumiu Lou. E não podiam mesmo, como se viu pela reação dos muitos que se deixaram embalar pelo tema mais icónico dos LAMB, além do mais aguardado por uma fatia significativa do público. Mas se o final não guardou surpresas, antes de lá chegar o concerto soube conciliar o passado e o presente sem se render à nostalgia nem tentar gritar a novidade, quase sempre com canções muito acima da média. Que fossem assim todas as veteranias em cenário pop...

 

4/5

 

Fotos: Ana Castro. Texto originalmente publicado no SAPO Mag