Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

O Outono está a chegar

chelsea_wolfe

 

A caminho do quinto álbum, a música de CHELSEA WOLFE não dá sinais de aligeirar as tormentas exploradas em discos como o da estreia, "The Grime and the Glow" (2010), ou o mais recente "Abyss" (2015).

 

"Hiss Spun" é um dos motivos para ter em conta a agenda de edições de Setembro (está previsto para dia 22) e não deverá abandonar um universo que por esta altura já se tornou característico, com fronteiras pouco nítidas entre ambientes góticos, folk tão ou mais negra e influências directas do metal.

 

"16 PSYCHE", o novo single, mostra uma faceta especialmente robusta, amparada numa fúria de guitarras muito anos 90 - ou pelo menos os anos 90 de uns Marilyn Manson ou Nine Inch Nails, cuja herança também parece chegar, até de forma mais denunciada, aos cenários do videoclip e à própria imagem da cantautora norte-americana:

 

 

O Verão continua a não passar por estes lados, e talvez ainda bem. Aguardemos o Outono e mais canções como esta ou a também recente "Vex", colaboração com Troy Van Leeuwen (Queens of the Stone Age) na guitarra e Aaron Turner (Isis) na voz gutural, a sugerir que a costela metal pode ter mais peso nas próximas assombrações.

 

Quando um regresso é um exílio

ema

 

Não é preciso esperar pela rentrée para ouvir alguns dos regressos mais promissores do ano. Um bom exemplo é "Exile in the Outer Ring", o quarto álbum de EMA, que chega já esta sexta-feira, 18 de Agosto, e traz a mais recente colecção de canções de Erika Michelle Anderson desde o óptimo "The Future's Void", de 2014 (se não incluirmos nestas contas a banda-sonora instrumental do filme "#Horror", de 2015).

 

Tal como os anteriores, o disco é uma experiência de catarse que musicalmente promete retomar a folk e o noise dos primeiros registos da norte-americana, dando menos protagonismo às contaminações electrónicas da fase mais recente - a produção de Jacob Portrait, dos Unknown Mortal Orchestra, terá alguma coisa a ver com isso, e um tema mais sintético, como o já revelado "Breathalyzer", estará entre as excepções.

 

A nível temático, o ponto de partida foi um retrato dos subúrbios e do interior da América de Trump (mesmo que a cantautora saliente ter trabalhado muitas faixas antes das eleições), colocando em confronto a gentrificação do centro e a ansiedade da classe operária, a alienação e a resiliência.

 

Mas mais do que o mote, interessa sobretudo o resultado, que até agora tem sido encorajador. "Blood and Chalk", divulgada há poucos dias, é uma digna descendente da faceta intimista de "Past Life Martyred Saints" (2011), comandada por uma voz que não perdeu a força nem o encanto. Mais imediata, "Down and Out" (videoclip abaixo) transforma um relato sobre a frustração ("Everyone thinks you're worthless when you're down and out") numa delícia indie pop com potencial de hino. Venha então o álbum e, já agora, um concerto por cá - sobretudo quando EMA tem agendada uma digressão com os também regressados The Blow.

 

 

A força está com ela

maya_jane_coles_2017

 

O novo single de MAYA JANE COLES pode chamar-se "WEAK", mas é mais um passo confiante para a DJ, produtora, cantora e compositora britânica que tem vindo a construir um percurso em crescendo na música de dança recente.

 

Depois do álbum de estreia - o já distante "Comfort" (2013), que contou com Tricky ou Miss Kittin na guest list - e do projecto paralelo Nocturnal Sunshine - em 2015, inspirado sobretudo pelo dubstep -, a companheira de palcos dos Depeche Mode em parte da digressão mais recente da banda prepara o segundo longa-duração em nome próprio.

 

"Take Flight" chega já a 25 de Agosto e tem sido apresentado como o lançamento mais ambicioso de Coles até agora, reunindo 24 faixas, quase todas inéditas - repesca apenas duas do EP "Won't Let You Down", editado em Abril, e uma malha como "Cherry Bomb" bem merece uma segunda oportunidade.

 

"WEAK", que foi lançado juntamente com o lado B "Werk" (mais acelerado e apontado às pistas), é um sucessor natural da house devedora do trip-hop de "Comfort", aqui conduzida pela voz sedutora da DJ em vez de apostar em convidados. O videoclip acompanha a aura introspectiva, nocturna e enigmática da canção:

 

 

Os cavalos também se abatem

Garbage_2017

 

"Strange Little Birds", o sexto álbum dos GARBAGE, ficou entre as maiores desilusões do ano passado e é, de longe, o disco mais dispensável da banda. Uma pena quando Shirley Manson e companhia ainda conseguem ser memoráveis ao vivo (pelo menos com as canções mais antigas) e até têm andado na estrada com os Blondie, numa daquelas digressões dois em um a ter em conta.

 

Mas talvez ainda haja esperança de melhores dias e melhores discos. Ou assim parece ao ouvir o nada esperançoso "NO HORSES", novo single e manifesto sobre o estado do mundo, além de uma das canções mais declaradamente políticas do grupo.

 

Se por um lado o tema volta a confirmar que a ousadia e apuro da produção, capaz de deixar a concorrência a milhas, parecem estar mesmo confinados aos tempos de "Garbage" (1995) e "Version 2.0" (1998), por outro também há aqui um sentido de urgência que não se ouvia no último disco.

 

O caos contemporâneo surge vincado numa letra devedora do fatalismo maior do que a vida de uma "#1 Crush" ("There's a sky full of tears", "All the lovers turned cops") enquanto os sussurros de Manson são certeiros ao ajudarem a consolidar a atmosfera - entre o gótico, o pós-punk e o industrial -, ao lado de guitarras e electrónica. A própria estrutura da canção também é menos formatada do que a maioria das faixas dos álbuns mais recentes (tirando boas excepções como "I Hate Love", da qual chega a aproximar-se) .

 

O videoclip, bastante directo ao ilustrar e listar as preocupações sociais dos GARBAGE, conjuga imagens de arquivo com uma performance do grupo comandada pela vocalista e de inspiração mais do que provável na série-sensação "The Handmaid's Tale", do Hulu.

 

Vale a pena vê-lo, até porque os lucros das vendas e streaming do single serão doados, na íntegra, ao Comitê Internacional da Cruz Vermelha no final do ano: