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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Docinho electropop

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Se "High", o primeiro single do próximo álbum dos LITTLE DRAGON, insinuava que a banda continuava entregue ao flirt entre o R&B e o trip-hop, o novo avanço propõe outras paragens. E até são mais sugestivas do que a combinação que o quarteto sueco tem feito de forma competente, mas sem grandes variações ao longo dos últimos dez anos.

 

Com pulsão mais frenética do que o habitual, logo aos primeiros segundos, "SWEET" é uma pequena delícia electropop na qual o timbre de Yukimi Nagano chega a lembrar o de Kelis nas suas aventuras rumo à pista de dança. Os ritmos 8-bit são outro condimento-chave do festim de sintetizadores que pisca o olho o Verão enquanto acompanha a "sugar rush" da letra e atira "Season High" para a lista de álbuns a aguardar esta Primavera - chega a 14 de Abril e o videoclip junta-se ao single para ajudar a abrir caminho:

 

 

Caso de uma noite? Não, amor para a vida

Os HERCULES & LOVE AFFAIR estão longe de ser uma novidade em palcos nacionais, mas voltar a vê-los é uma proposta difícil de recusar. Sobretudo quando o projecto de Andy Butler foi um dos cabeças de cartaz da segunda edição do Lisboa Dance Festival, no sábado passado, e esteve à altura desse estatuto na LX Factory.

 

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Desta vez, quem viu os nova-iorquinos até teve direito a um bónus. Ao entrar em palco, a banda avisou que a actuação seria a primeira a apresentar alguns temas do próximo álbum, previsto para este ano, e o alinhamento insistiu em material novo logo aos primeiros minutos. E não demorou muito para se perceber que a fórmula entre a house, o disco e a pop do grupo continua apurada, com as reacções de um público que foi aumentando em volume e entusiasmo a confirmarem a adesão à dança.

 

Rouge Mary e Gustaph, a dupla de vocalistas que acompanhou Butler e outro músico, já tinha passado por Lisboa na última edição do Rock in Rio e comprovou que o DJ e mentor do projecto é especialmente criterioso na escolha de quem defende as suas canções - depois de a estonteante Nomi Ruiz já ter comandado um concerto memorável no Optimus Alive ou de outra formação ter deixado o mesmo efeito no Lux em anos anteriores. Até porque se tanto os temas antigos como os novos não dispensam batidas, têm na voz um elemento tão ou mais nuclear, num contraste com a maioria da música que se ouviu no festival.

 

Com um timbre que lembrou Marc Almond, Rouge Mary deu início à noite com uma canção inédita, e das mais calmas do alinhamento, cuja atmosfera também remeteu para os ambientes mais tranquilos dos Soft Cell - ou das torch songs do seu mentor a solo cruzadas com as baladas de Martin Gore nos Depeche Mode. Mas o ritmo rapidamente acelerou noutras novidades que denunciaram mais audições de electrónica dos anos 80 e 90 ("Controller", o viciante novo single, arrisca pela EBM), estreias perfeitamente entrosadas com o desfile de episódios-chave dos três álbuns do grupo.

 

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Tal como em concertos anteriores, Butler não se preocupou em ser muito fiel à matriz original das canções já conhecidas. "Visitor" surgiu numa aura mais intempestiva, quase industrial, com cenografia negra a condizer, enquanto os vocalistas lembravam que era tempo de saltar. Não que fosse preciso insistir, já que o público aderiu e assim continuou nas aguardadas "You Belong" (com os músicos a puxarem mais pelos espectadores, convidando-os a cantar), "My House" ou a jóia da coroa "Blind", que fechou pouco mais de uma hora de festa de forma tão estrondosa como seria de esperar - mesmo que numa moldura mais sintética e robusta, sem o arranjo de cordas do original, omissão que também marcou uma "Painted Eyes" de compasso metronónimo e igualmente irresistível. Regresso garantido ainda este ano, tendo em conta que há álbum a caminho?

 

 

Se os Hercules & Love Affair serviram hedonismo desenfreado, certeiro num sábado à noite, os MOUNT KIMBIE foram preparando o público da Fábrica XL de forma bastante mais contida. Mas sedutora à sua maneira, ainda que a introspecção do duo londrino (que surgiu no palco enquanto quarteto) não seja a escolha mais óbvia para um festival de música de dança. O que não é necessariamente mau quando também não há nada de óbvio nas composições do grupo, capazes de embalar os curiosos que se foram aglomerando ao início da noite com viagens entre o R&B, a house e o indie rock com tangentes ao techno minimal, ao krautrock ou ao downtempo. Também com material novo em primeira mão, dispensaram quase sempre a voz para darem protagonismo a um novelo intrincado mas envolvente de teclados e sintetizadores, num crescendo de intensidade que lá para o final, com o ritmo circular de "Made to Stray", atingiu uma euforia a milhas da quase timidez do início. Resultado? Uma bela surpresa, com uma versatilidade que não se adivinhava nos discos anteriores mas deixa muita curiosidade em relação ao próximo.

 

 

 

Fotos: Pedro B. Maia/SAPO On The Hop

 

Dança com as estrelas

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Enquanto os Tame Impala não avançam novidades desde o terceiro álbum, "Currents" (2015), o baixista do projecto de Kevin Parker encarrega-se de oferecer um dos discos a ter em conta esta temporada. "Ripe Dreams, Pipe Dreams", a estreia a solo de CAMERON AVERY, músico que também já passou pelos Pond, chega esta sexta-feira e um dos primeiros temas, "Wasted on Fidelity", deixava vontade de ouvir mais.

 

"DANCE WITH ME", o novo single, continua a manter-se distante do rock ou da electrónica de outras aventuras do australiano e investe numa balada de travo clássico, conduzida por uma convincente voz de barítono, com potencial para agradar aos fãs de Leonard Cohen ou Nick Cave - ou aos dos mais recentes Gabriel Bruce e Jack Colwell, outros seguidores de um romantismo enxuto e literato.

 

Tal como a canção, o videoclip dispensa grandes efeitos: num cenário nocturno, limita-se a convidar a modelo e apresentadora Alexa Chung para uma (última) dança com o baixista que, se continuar assim, é bem capaz ficar mais conhecido enquanto cantor de charme melancólico. Admita-se que não veste mal o papel:

 

 

O que há de novo no amor?

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Valeu a pena esperar cinco anos por "I See You"? Comparando o resultado com os dois álbuns anteriores dos THE XX, não especialmente. Embora esteja a ser louvado como o disco mais festivo de uma banda habituada à introspecção, não há assim tantos momentos de euforia ao longo de um alinhamento demasiado agarrado ao passado - e a uma fórmula que soava refrescante no final da década passada.

 

Mas mesmo sendo o registo menos obrigatório do trio britânico, "I See You" ainda vai oferecendo episódios a que vale a pena voltar. É o caso de "SAY SOMETHING LOVING", um dos temas que confirmam a faceta mais luminosa da banda já na idade adulta. A viragem conta com a ajuda do sample de "Do You Feel It?", canção esquecida dos Alessi Brothers, e de uma alternância das vozes de Romy Madley Croft e Oliver Sim feita de modo mais entusiasmante do que o piloto automático de outras faixas.

 

O tema foi das primeiras amostras do disco editado em Janeiro, mas o vídeo só chegou agora e é quase uma continuação directa do de "On Hold" - o que faz sentido tendo em conta que também é assinado por Alasdair McLellan, o realizador e fotógrafo de eleição para o novo álbum. Desta vez o foco salta do Texas para Londres, mas o retrato agridoce da adolescência mantém-se e casa bem com o embalo da canção: