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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

O fantasma

Ghostpoet

 

Os universos de GHOSTPOET e dos Massive Attack já se tinham cruzado quando o músico londrino deu voz a uma das canções mais recentes da banda de Bristol - "Come Near Me", no ano passado. Agora, Daddy G colabora no novo single retirado de "Dark Days + Canapés", o quarto álbum do projecto de Obaro Ejimiwe, editado este Verão.

 

Ponto de encontro entre ecos blues e a vertente mais taciturna do trip-hop, "WOE IS MEEE" é um dos episódios mais intrigantes do disco e sugere contaminações do clássico "Mezzanine" (1998), sobretudo a partir do momento em que a voz convidada entra em cena. Mas está longe de ser a única faixa sombria de um alinhamento ambicioso, que mergulha em questões como a imigração, o consumismo ou a dependência da tecnologia através de uma moldura sonora que vai do hip-hop ao pós-punk.

 

No videoclip do tema, o desnorte identitário abordado na letra surge ilustrado pela noite de um idoso entregue a si próprio, que confronta finalmente os seus fantasmas sexuais já perto do amanhecer. "As the night draws in/ We're all seeking love", vai entoando a dupla:

 

 

Charlotte para sempre (ou pelo menos para os próximos dias)

 

Filha de peixe sabe nadar? O percurso musical de CHARLOTTE GAINSBOURG já tinha dado a entender que sim, mas o seu novo álbum, "Rest", editado esta sexta-feira, deve mais à memória da sua meia-irmã do que à sombra do pai.

 

A morte da fotógrafa Kate Bishop, em 2013, impôs-se como a inspiração dominante do quarto disco de originais da cantautora (e actriz) franco-inglesa, cuja experiência catártica a levou a escrever todas as letras pela primeira vez, a maioria em francês, naquele que será o seu conjunto de canções mais pessoal. E também o mais promissor, pela lista de colaboradores de luxo - que inclui os produtores SebastiAn e Guy-Manuel de Homem-Christo (dos Daft Punk), mas também Owen Pallett ou Paul McCartney - e sobretudo pelos muito convincentes singles de apresentação.

 

"Deadly Valentine", um belo pedaço de electrónica dançável de sabor french touch (entretanto já com remistura dos Soulwax), abriu caminho para a meditativa e sussurrada "Rest", ao piano, e para a mais recente "RING-A-RING O'ROSES", talvez a melhor até aqui, com uma pop sonhadora e sedutora algures entre os melhores Air e os Ladytron da fase "Gravity the Seducer". O videoclip pode ser visto abaixo, o álbum já está à espera de ser ouvido na plataforma digital mais próxima:

 

 

Santíssima dualidade

Sleigh Bells

 

Um ano depois de terem editado o quarto álbum, "Jessica Rabbit", os SLEIGH BELLS mostram que continuam prolíficos. Se nesse disco deixaram 14 faixas, agora Alexis Krauss e Derek E. Miller propõem mais sete em "Kid Kruschev", registo que marca a viragem para o formato mini-álbum, anunciado como o prefencial nos próximos tempos ao permitir que a dupla nova-iorquina edite a um ritmo mais regular.

 

Como tem acontecido desde o primeiro EP, homónimo, em 2009, as novas canções voltam a derivar de um cruzamento entre pop, hard rock e electrónica, ainda que os acessos quase noise pareçam cada vez mais limados nesta fórmula. Aliás, às vezes o resultado até atinge uma serenidade inesperada, que mesmo não sendo novidade no duo estava longe de ser habitual até aqui.

 

É o caso de "AND SAINTS", o single de apresentação, no qual a voz de Krauss ganha maior protagonismo face ao novelo instrumental (na linha do que o álbum anterior já sugeria), impondo-se como elemento dominante de uma das canções mais implosivas dos SLEIGH BELLS. A tempestade de guitarras distorcidas e sintetizadores infecciosos nunca chega a ganhar forma, já que a dupla prefere manter a melodia circular e pesarosa de um tema que lida de frente com a depressão e a morte.

 

O videoclip, abstracto q.b., repesca o imaginário do liceu, com direito a cheerleaders, associado à banda desde o primeiro álbum, embora surja aqui em tom mais atormentado. Mas quem teme uma transição gótica de 180º não se apoquente: no alinhamento de "Kid Kruschev" há canções mais próximas dos discos anteriores, e se algumas soam mais a esboço de ideias do que aos SLEIGH BELLS no seu melhor, um single como "Rainmaker" (sucessor de "And Saints") vai deixando boas pistas enquanto pisca o olho ao também viciante "I Can Only Stare", do ano passado.

 

 

O single novo do imperador

Mark Lanegan

 

"Gargoyle", um dos bons regressos do ano, trouxe mais um capítulo meritório à discografia de MARK LANEGAN, ao reforçar a viragem electrónica q.b. do álbum antecessor, "Phantom Radio" (2014), com a voz de barítono do norte-americano à vontade em ambientes entre o gótico, o industrial e o pós-punk - nos quais as guitarras continuam, apesar de tudo, a ser as grandes protagonistas.

 

As novas canções até já passaram por palcos nacionais, embora merecessem mais do que a pouca atenção que lhes foi dispensada na primeira parte do concerto dos Guns N' Roses no Passeio Marítimo de Algés, em Junho. Em compensação, o ex-Screaming Trees edita agora um segundo single para dar outro impulso ao disco depois de "Beehive", há uns meses.

 

"EMPEROR" é dos temas mais directos (e até orelhudos) do alinhamento, com a voz de Lanegan a comandar uma marcha não propriamente desenfreada, mas ainda assim empolgante, e que acaba por ter reflexo num videoclip inspirado na queda do ditador romeno Nicolae Ceaușescu. Filmado nos subúrbios de Talin, na Estónia, é menos linear do que a canção, com uma narrativa em círculos que fica a meio caminho entre o thriller surreal e a denúcia política: