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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Apanhem-nos se puderem

Iceage

 

Sem novidades desde 2014, ano da edição do seu terceiro álbum, "Plowing Into the Field of Love", os ICEAGE interrompem finalmente o hiato criativo com um inédito. E "CATCH IT" compensa a ausência dos dinamarqueses com quase seis minutos de uma marcha gótica e psicadélica, que tem direito a viragem rítmica a meio acompanhada de um mergulho mais fundo na distorção.

 

O vocalista Elias Bender Rønnenfel, que nos últimos anos andou mais ocupado com o projecto a solo, Marching Church, reforça o registo denso e volta a dar razão a quem nele viu um discípulo de Nick Cave por alturas do álbum de estreia do grupo, em 2009. Mas apesar de assombrado, o novelo sonoro guiado por guitarras difícies de domar deixa espaço para alguma esperança lá para o final - pelo menos no videoclip da canção, que termina com o actor David Dastmalchian ("Twin Peaks") e a filha em ambiente de calma depois da tempestade.

 

Além do novo single, os ICEAGE anunciaram uma digressão em várias cidades europeias e norte-americanas a partir de Maio (Portugal não está contemplado), mas não há notícias de um quarto álbum a caminho. Em todo o caso, está aqui um dos bons regressos do início de 2018:

 

 

Aceitam-se reclamações

L7

 

Depois de terem regressado no ano passado com "Dispatch From Mar-a-Lago", canção que atirava algumas farpas a Donald Trump, as L7 voltam a mostrar-se iguais a si próprias no segundo tema original desde "Slap Happy", álbum de 1999.

 

"I CAME BACK TO BITCH" diz ao que vem logo no título e encontra as californianas insatisfeitas com o estado das coisas, mas sem abdicarem do sentido de humor, num single com alguns ambientes de Wall Street (e aparentados) na mira. A crítica à ganância desenfreada e à apropriação (que a banda vê como abusiva) do termo "rock star" tem moldura sonora na linha de discos como "Smell the Magic" (1991), através de um rock directo e orelhudo guiado pela voz espinhosa de Donita Sparks, ainda com ecos da escola riot grrrl.

 

Nada de novo, é verdade, mas o carisma mantém-se e a atitude é tão bem-vinda como em meados dos anos 90, quando o quarteto foi dos maiores símbolos de guitarras no feminino. "L7: Pretend We’re Dead", documentário de Sarah Price estreado em Outubro passado (sem distribuição em Portugal), já era, tal como a primeira canção nova, sinal de que a segunda vida da banda estava aí para durar, depois de um hiato em 2011.

 

A partir de Abril deste ano o regresso também passa pela estrada, com alguns concertos já agendados - por enquanto, só nos EUA -, que sugerem um novo álbum a caminho. Por agora, podemos ver Sparks e companhia no videoclip de "I CAME BACK TO BITCH", em modo tão do it yourself como nos primeiros dias do grupo. Neste caso, também nem é preciso mais:

 

 

Fundo de catálogo (108): Air

Air - Moon Safari

 

Se a pop francesa (e a de perfil electrónico em particular) alcançou novos voos em meados da década de 90, "MOON SAFARI" foi a cereja no cimo do bolo desse fôlego criativo com grande visibilidade internacional.

 

Editado a 16 de Janeiro de 1998, o álbum de estreia dos AIR resultou numa brisa entre a tensão de fim de milénio da música mais aventureira desse tempo e chega aos 20 anos sem muitas rugas. "Kelly Watch the Stars", uma das faixas mais populares, tinha sabor a clássico instantâneo e mantêm-se entre o melhor da colheita onírica da dupla de Versalhes, continuando a soar diferente de tudo o que Jean-Benoît Dunckel e Nicolas Godin (ou outros) viriam a fazer depois.

 

Tão sedutor e encantatório, "Sexy Boy" foi mais um single invulgar, de sabor retrofuturista, entre electrónica de sabor nostálgico e um apelo intemporal (ou que pelo menos não parece fora do prazo de validade 20 anos depois). E o mais contemplativo "All I Need" compõe o trio de singles perfeitos acompanhados por videoclips ao mesmo nível, todos realizados por Mike Mills (que viria a dirigir "Chupa no Dedo" ou "Mulheres do Século XX"), também eles decisivos para que a linguagem dos Air conseguisse cativar a geração MTV.

 

Moon Safari

 

Tal como há duas décadas, o alinhamento de "MOON SAFARI" nunca chega a acompanhar o brilhantismo desses cartões de visita, sobretudo numa recta final em modo lounge mais agradável do que essencial. Mas vale sempre a pena regressar a "You Make It Easy" (com a voz de "All I Need", Beth Hirsch, noutro dos momentos mais calorosos do disco), ao vododer servido com melodias em ponto de rebuçado de "Remember" ou ao arranque elegantíssimo e espacial de "La Femme d'Argent".

 

Momentos como esses ajudam a reforçar os sinais de personalidade de uma música não tão exclusivamente electrónica como a de muitos conterrâneos da altura (Daft Punk, Etienne De Crécy, Dimitri from Paris), na qual o baixo, os teclados ou os sopros ganham algum protagonismo entre as texturas quase sempre em lume brando - embora longe dos lugares comuns de algum downtempo e "novas tendências" chill out que começavam a instituir-se por esse dias. No caso dos AIR, este safari pelo lado mais sonhador do french touch pode continuar nostálgico, sim, mas não soa requentado.

 

Videoclip de "Kelly Watch the Stars":

 

 

Videoclip de "Sexy Boy":

 

 

Videoclip de "All I Need":

 

 

Amor cão

Soccer Mommy

 

Sophie Allison começou por criar e gravar música no quarto, mostrou-a a alguns amigos, partilhou-a online e aos poucos foi despertando atenções que ajudaram à gravação de um mini-álbum já com uma banda - "Collection", editado no Verão passado -, depois de alguns EPs nos quais se encarregava da composição, voz e guitarra.

 

Enquanto SOCCER MOMMY, a norte-americana de Nashville que viria a mudar-se para Nova Iorque foi assim moldando, desde 2015, uma indie pop lo-fi e confessional com inéditos prometidos para este ano, que aliás começaram a chegar há poucos dias.

 

Mais encorpado e a vincar uma aproximação a algum rock alternativo (o da classe de 90 e de nomes como Juliana Hatfield ou Helium, por exemplo), "YOUR DOG" é a porta de entrada para "Clean", álbum de estreia que deverá chegar a 2 de Março.

 

O disco volta, como as canções anteriores, a olhar para as relações amorosas, mas este primeiro single revela uma voz mais crispada (sem perder a doçura) e decidida a não se ficar no lugar para o qual a atiram.O videoclip leva essa intenção ao extremo, numa crónica conjugal em ambiente de terror urbano. E ainda intimista, mas num tom bem diferente do que registos como "Songs from My Bedroom" (2015) ou "For Young Heats" (2016) fariam esperar: