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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Quem é David Haller?

legion

 

Mesmo quem não seja fã do universo dos X-Men deve dar uma oportunidade a "LEGION". A primeira série de imagem real inspirada nos mutantes da Marvel estreou esta semana em Portugal, na FOX, e a julgar pelo episódio piloto é das variações mais inventivas das histórias de super-heróis dos últimos tempos, como escrevo neste artigo do SAPO Mag. E tendo em conta este arranque promissor, deixo mais sugestões de outras personagens dos X-Men a adaptar para TV.

 

O fim do mundo em collants

Embora seja um final digno para a segunda trilogia dos mutantes, "X-MEN: APOCALIPSE" fica aquém dos capítulos anteriores e acaba por dar razão a um comentário de Jean Grey: neste caso, o terceiro filme é mesmo o pior.

 

x-men_apocalipse

 

Bryan Singer terá sempre um papel importante na transposição de super-heróis da BD para o cinema. Afinal, os seus dois primeiros filmes centrados na equipa do Professor Xavier provaram que havia esperança para o género quando as aventuras carnavalescas de Batman, dirigidas por Joel Schumacher, ainda estavam bem presentes e deixavam traumas à grande maioria dos fãs. Também é verdade que o que então foi um gesto arriscado transformou-se em tendência e na actual galinha dos ovos de ouro de Hollywood, mas o regresso do realizador de "Os Suspeitos do Costume" ao universo mutante, com "X-Men: Dias de um Futuro Esquecido", não desiludiu, mesmo que o melhor capítulo da saga tenha sido assinado por Matthew Vaughn - o antecessor "X-Men: O Início", uma lição de como fazer uma prequela.

 

"X-MEN: APOCALIPSE" vem agora fechar o ciclo e até nem o faz mal, apesar de realçar alguns problemas dos anteriores - como a overdose de personagens ou a previsibilidade do terceiro acto - sem juntar grandes ingredientes que lhe concedam especial valor acrescentado. Há caras novas, e vale a pena conhecer algumas, mas na essência esta continua a ser a história de Magneto, Xavier e Mística, o que nem sempre é uma vantagem. Se por um lado esse núcleo duro assegura a coerência narrativa da trilogia, as relações entre as personagens de Michael Fassbender (excelente, como sempre), James McAvoy (seguro, mais uma vez) e Jennifer Lawrence (mais apagada do que nos anteriores) já têm pouco da tensão inicial e parecem andar em círculos.

 

O final, por exemplo, tem uma ligeireza que faz tábua rasa ao que ficou para trás - com destaque para várias cidades transformadas em pó ou uma cena em Auschwitz a deixar sérias reservas - e torna os conflitos do trio protagonista meio indiferentes e inconsequentes. Mas se as motivações de Magneto parecem arbitrárias a partir de certa altura, as do verdadeiro vilão de serviço, Apocalipse (Oscar Isaac a fazer o que pode), são ainda mais vagas, sobretudo as que levaram à escolha dos seus cavaleiros: supostamente os mutantes mais poderosos do mundo, na prática uma Psylocke risível e um Anjo/Arcanjo igualmente frustrante - o caso dela é especialmente penoso depois de tanto alimentar de expectativa por parte de Olivia Munn (aqui em modo cosplay com ar de frete) e do material promocional.

 

x-men_apocalipse_2

 

A nova Tempestade, encarnada por Alexandra Shipp, também não convence muito e fica-se pela ligeira melhoria em relação à de Halle Berry. Mas a culpa nem é da actriz, já que não tem propriamente uma personagem para explorar. Mais promissores são os novos Ciclope e Jean Grey, embora Tye Sheridan seja capaz de muito melhor do que o que lhe dão e Sophie Turner nunca chegue a fazer esquecer Sansa Stark.

 

Com tantas figuras para seguir, "X-MEN: APOCALIPSE" perde boa parte do tempo com introduções e referências a episódios anteriores, o que nem seria grande problema se a recta final entusiasmasse e surpreendesse. Mas a solução Deus ex machina é demasiado fácil e Singer escorrega nos efeitos especiais da destruição em massa, não conseguindo disfarçar o excesso de CGI e ficando aquém da desenvoltura de sequências anteriores - como um confronto entre Anjo e Nocturno (pena que Kodi Smit-McPhee tenha tão pouco para fazer) ou o momento de descompressão a cargo de Mercúrcio (versão revista e melhorada daquele que Peter Evans protagonizou no filme anterior, com a vantagem de ser menos gratuita e de a sua personagem justificar a presença nesta história).

 

Este capítulo final olha, de resto, demasiadas vezes para trás, e se integrado na trilogia até funciona, enquanto objecto isolado tem mais dificuldades em fazer-se valer. Até a atmosfera dos anos 80, depois das das décadas de 60 e 70 nos capítulos anteriores, fica aquém do potencial, e se não fossem alguns pormenores ocasionais (um genérico de TV, o penteado à Martin Gore de Anjo) a acção poderia desenrolar-se nos dias de hoje. Neste aspecto, algumas das cenas cortadas (cerca de meia hora de material) talvez pudessem ter feito a diferença - como as que mostram Ciclope, Jean Grey, Nocturno e Jubileu (esta mais cameo do que personagem) no centro comercial, à partida mais interessadas em explorar as relações entre os X-Men do que em fazer o argumento andar.

 

Sente-se falta desse lado humano aqui, ainda que haja boas ideias a pairar no meio do caos, como o facto de Mística ser uma referência para os heróis mais jovens devido ao seu "coming out" mutante em frente às câmaras, uma daquelas pontes com a realidade que ajudaram distinguir a Marvel e esta equipa em particular. Nada que não possa ser repensado numa eventual (ou quase certa) nova trilogia, até porque não faltam mutantes à espera de vaga no grande ecrã...

 

 

 

Na feira ao cair da noite

Comprar ou não comprar? Mesmo com preços convidativos (ou talvez precisamente por causa deles), o dilema de uma visita à FEIRA DO LIVRO DE LISBOA não costuma demorar muito a instalar-se. E nem está em causa o interesse de muitas propostas que vou encontrando pelas bancas, antes o tempo que, passado o acto (e entusiasmo) da compra, consigo dedicar-lhes nos dias, meses ou anos seguintes, conforme os casos. Já a contar com isso, e a olhar para mais uma pilha em lista de espera nas estantes lá de casa, desta vez obriguei-me a ficar-me pelos mínimos e a ler pelo menos uma das compras anteriores até ao fim da edição deste ano, este domingo. E não correu mal.

 

aocairdanoite

 

Apesar de ter gostado de "Uma Casa no Fim do Mundo" (1990) e ainda mais de "Sangue do Meu Sangue" (1995), "Dias Exemplares" (2005) fez-me deixar Michael Cunningham de lado durante uns tempos - não cheguei a passar pelo mais celebrado "As Horas" (1998), talvez não devesse ter começado pelo filme. Mas escusava de ter deixado "AO CAIR DA NOITE" (2010) arrumado desde há umas quantas feiras do livro. Não tem o factor surpresa nem a ambição dos títulos mais antigos do norte-americano, uma vez que o território (narrativo, temático e emocional) já é familiar, embora isso seja bom (bastante, até) depois da estrutura tripartida e dos ambientes de ficção científica do livro anterior.

 

Se algumas das suas obras foram adaptadas para cinema, Cunningham admitiu que este romance seria menos apetecível para o grande ecrã e ao lê-lo percebe-se porquê. A história de um negociante de uma galeria de arte na casa dos quarenta e da sua relação com o cunhado, irmão mais novo da sua mulher à procura de um rumo além das drogas, não é propriamente rica em acontecimentos e menos ainda em grandes reviravoltas ou tramas secundárias. O que interessa aqui é o universo interior do protagonista, que o autor consegue explorar sem cair nos clichés de crises de meia-idade, do marasmo e ressentimentos conjugais, do questionamento da orientação sexual (mesmo numa idade já muito além da adolescência) ou do papel da arte, elementos fortes de um retrato profundo sem ser sisudo nem exaustivo, mérito de uma escrita ágil, limpa e capaz de encontrar humor entre o caos existencial.

 

Acessos de micro raiva entre marido e mulher, uma descrição original de uma viagem de táxi em Nova Iorque (que poderia aplicar-se a uma metrópole europeia, embora a cidade não seja mero cenário da acção) ou um apontamento tão implacável como realista do peso dos silêncios em (re)encontros ficam entre muitos momentos a sublinhar por aqui. E também como mais uma prova da capacidade de Cunningham para medir o pulso das relações humanas contemporâneas, através de alguns dos seus temas de eleição (amor, desejo, morte, família), que chegarão a mais gente do que as muitas alusões a autores e obras da literatura e da pintura - felizmente, o namedrop, às vezes excessivo, está longe de ser determinante para o balanço (bem satisfatório) da leitura.

 

 

x-force

 

Voltando à Feira do Livro... Desta vez, não serviu tanto para ir descobrindo mais da obra de Cunningham ou de alguns seus contemporâneos (Jay McInerney, Richard Ford, Douglas Coupland, David Leavitt...), mas para voltar a esgravatar bancas de alfarrabistas. A mania vem desde que há uns 15 anos, e com uns 15 anos, percorria quiosques e lojas entre o Rossio e o Cais do Sodré (ou a Feira da Ladra, se fosse à terça ou ao sábado), quase sempre à procura de BD, quase sempre de comics.

 

O hábito foi ficando pelo caminho (a internet foi chegando entretanto, outros hobbies também) e a Feira do Livro deu para matar as saudades. Até porque é sempre bom juntar mais umas edições da fase mais divertida da "Liga da Justiça" à colecção, a de Keith Giffen e J. M. DeMatteis, antes da tendência "séria" da DC pós-Nolan (com todas as excepções). Ou de um dos momentos mais subestimados da Marvel nos anos 90 (e do universo mutante em especial), a "X-Force" de John Francis Moore e Adam Pollina, outro caso de personagens de segunda linha que tiveram direito a uma vida mais interessante (e mutável) do que muitas das principais, à margem das grandes sagas e eventos da casa (ter um fraquinho por histórias coming of age na estrada ajuda). Já a bolsa de apostas ficou deste lado do Atlântico, com "Alguns Dias com um Mentiroso", do francês Étienne Davodeau - para descobrir, de preferência, antes da próxima romaria às bancas do Parque Eduardo VII.

 

algunsdiascomummentiroso

 

ligadajustica

 

Grandes esperanças

 

Se as aventuras dos X-Men deixaram uma das cronologias mais intrincadas, para não dizer confusas, da banda desenhada de super-heróis, "X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido" vem confirmar de vez que as adaptações cinematográficas estão à altura desse novelo mutante. O novo filme da equipa criada por Charles Xavier tanto funciona como sequela da prequela "X-Men: O Início" (2011) como nova prequela, e simultaneamente sequela (!), da trilogia original. Demasiado complicado? Não tanto como pode parecer à partida, cortesia de um golpe narrativo habilidoso de Bryan Singer, aqui bem regressado ao universo X depois de "X-Men 2" (2003).

 

Claro que toda esta ambição implica que os espectadores tenham algum conhecimento - quanto mais, melhor - dos filmes da saga, ou correm sérios riscos de ficar tão desnorteados como Wolverine, que aqui viaja de um futuro distópico (literalmente negro) para os mais luminosos anos 70 (a contextualização histórica é um dos trunfos, tal como no episódio anterior) de forma a evitar a maior ameaça à sobrevivência não só dos mutantes, mas de toda a humanidade.

 

 

Esta adaptação da história homónima criada por Chris Claremont, John Byrne e Terry Austin em inícios da década de 80, de longe uma das mais visionárias dos X-Men (a saga do Exterminador Implacável e inúmeras derivações que o digam) não tem, e dificilmente poderia ter, o impacto da matriz da BD. Mas Singer consegue não só respeitar essa base como ajustá-la à série que criou no grande ecrã, com o desenlace, em especial, a ir muito além do mero decalque aplicado. Talvez até vá demasiado longe, dando ao realizador o papel de costureiro com a tarefa de remendar algumas opções fulcrais da saga. Ainda assim, a desconfiança dilui-se quando a viagem se mostra compensatória ao conjugar esse sentido de oportunidade com um evidente investimento nas personagens, decisivo para que estes jogos temporais não sejam inócuos.

 

Sem contar com o efeito novidade dos primeiros filmes nem com a sensação de deslumbramento de "X-Men: O Início", que trouxe outro fôlego às adaptações, "X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido" volta a tirar partido, como esse antecessor, da ligação entre as versões jovens de Xavier, Magneto e Mística, agora também com Wolverine a fazer a ponte entre futuro e passado (na versão da BD este papel cabia a Kitty Pryde e por muito que alguns fãs se indignem, a opção pela personagem de Hugh Jackman fará mais sentido nesta altura do campeonato cinematográfico).

O mentor dos X-Men é alvo de especial atenção, mas se James McAvoy é credível ao atirar Xavier para zonas de sombra até aqui pouco exploradas, nunca se aproxima da excelência que o olhar sobre Magneto (com um não menos excelente Michael Fassbender) conseguia atingir no episódio anterior. Mais estratégica para a acção, Jennifer Lawrence volta a destacar-se na(s) pele(s) de uma Mística apropriadamente ambígua, cuja alma é disputada até ao final do filme.

 

 

O preço a pagar pelo peso dramático nascido destes quatro protagonistas é o subaproveitamento de muitos secundários - ou nem isso, já que algumas presenças são pouco mais do que cameos. A limitação não é novidade na saga, embora os fãs provavelmente não se importem com as muitas piscadelas de olho nem com a oportunidade de ver um herói menos popular em acção, ainda que por pouco tempo. Singer sabe, aliás, dosear as cenas dominadas por efeitos especiais, dispensando delírios exibicionistas e optando por uma elegância ainda capaz de impressionar. É pena que não dispense também tentativas de humor que dizimam a tensão de alguns momentos (as muito comentadas sequências com Mercúrio são escorreitas, inventivas, têm a sua graça, mas parecem pertencer a outro filme), tão frustrantes como pontuais overdoses de sentimentalismo (um dos episódios centrais da transição de Xavier, por exemplo, pedia outra subtileza).

 

Não sendo perfeito - e não aproveitando tão bem a realidade futurista como o título pode dar a entender -, "X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido" mostra que ainda há esperança para blockbusters de super-heróis em geral e dos mutantes em particular. O sétimo filme da saga mantém o nível médio acima da concorrência (esqueçamos a primeira aventura a solo de Wolverine) e abre a porta, como nenhum dos anteriores, a novas abordagens à metáfora contra a intolerância e a segregação. A coexistência pacífica pode ser utópica, mas a tentativa de lá chegar continua a acompanhar-se com entusiasmo.