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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Tudo ao molho e fé em Daryl?

Considerar "SENSE8" uma das grandes desilusões do ano talvez seja um exagero. Afinal, o currículo dos irmãos Wachowski nunca conseguiu repetir a façanha de "Matrix" e chegou a bater no fundo com "A Ascensão de Júpiter". Mesmo assim, a estreia da dupla na televisão, ainda para mais ao lado de J. Michael Straczynski (bem cotado na BD ou em séries como "Babylon 5"), tinha, à partida, ambição e ingredientes para virar a página.

 

sense8

 

Infelizmente, nestes primeiros doze episódios de uma temporada com sucessora já confirmada pelo Netflix, Larry e Lana ficam-se quase sempre pelas intenções. E até são boas intenções, com um ensaio humanista sobre a identidade nascido das experiências de oito estranhos, designados de "sensates", cujo elo telepático que os distingue acaba por cruzar os seus percursos.

 

História a história, país a país (cada sensate está numa parte diferente do mundo), esta mistura de drama, ficção científica, algum humor e acção vai juntando as peças do puzzle, encarado pelos Wachowski e Straczynski como plataforma para um elenco de temas quase tão vasto como as nacionalidades dos actores: discriminação, solidão, traumas familiares, identidade de género, orientação sexual, religião, clivagens sociais e ecocómicas, livre arbítrio ou a força do destino...

 

"SENSE8" quer ir a todas e ter um bocadinho de tudo para toda a gente, mas o resultado é mais indigesto do que aliciante. A interligação de personagens com origens e experiências tão díspares tem gerado comparações com séries como "Lost" ou "Heroes", e se é verdade que a nível narrativo há semelhanças, aqui é tudo muito mais fragmentado, genérico e arrastado. Essas duas séries estiveram longe de ser consensuais, sobretudo nos finais, mas contaram, pelo menos no início, com arrojo, ritmo, ideias fortes e, sobretudo, personagens carismáticas, qualidades que faltam por aqui.

 

O caso de Naveen Andrews é um bom exemplo. Depois de ter encarnado Sayid, uma da personagens mais ricas de "Lost", é completamente desperdiçado numa figura com o papel ingrato de unir os pontos (leia-se sensates). Pior ainda está Daryl Hannah, cuja confirmação na série prometia mais do que um cameo de luxo reduzido a mero motor da acção.

Isso nem seria um problema se os protagonistas fossem mais intrigantes, mas o argumento limita-os quase sempre a clichés sobre as suas nacionalidades - do exotismo de papelão da Índia (não falta sequer o casamento agendado pela família) à onda de crime sub-"Cidade de Deus" do Quénia - ou sexualidade - Nomi, a sensate transgénero, raramente escapa à vitimização, não existindo muito para além disso; já Lito, o mexicano galã de filmes de acção e homossexual reprimido, até é das personagens mais fortes, mas o seu arco narrativo tem a profunidade de uma telenovela (bem intencionada, é certo, pena que só isso não chegue).

 

sense8_lito

 

Ainda dentro dos lugares comuns culturais, quase ao nível de um live action ingénuo de "Capitão Planeta" e dos seus planeteers "étnicos", não dá para fugir muito ao da sensate sul-coreana, mulher de negócios com uma família problemática... e obviamente especializada em artes marciais. Essa capacidade é mais valorizada nos últimos episódios, que não perdem a oportunidade de a usar como solução para a maioria dos perigos, num dos exemplos-chave de preguiça criativa da série - e a deitar abaixo qualquer hipótese de risco.

 

É irónico, mas também triste, que duas das piadas recorrentes, com homenagens a aventuras de Van Damme ou Conan, o Bárbaro, acabem por ser empregues numa história que vai ainda mais longe do que as desses filmes no ridículo e espalhafato das cenas de pancadaria - com direito a vilões básicos e todos maus como as cobras, sem qualquer hipótese de ambiguidade.

 

Como pastiche, até podia ter alguma graça, mas em geral "SENSE8" leva-se terrivelmente a sério, sobretudo nas longas e recorrentes cenas de diálogos existenciais que tentam ser profundos mas tornam-se constrangedores, com ares de desabafo adolescente e filosofia de "fortune cookies". Esta tendência é ainda mais gritante no romance insípido entre o polícia norte-americano e a DJ islandesa, cujo drama banal do desfecho da temporada está a milhas do atrevimento e frescura que os teasers da série prometiam. A muito falada orgia na piscina, por exemplo, só realça um caso de muita parra e pouca uva, com um acesso pontual de irreverência (outro inclui uma cena de nudez frontal masculina, ainda rara em produções norte-americanas) numa série demasiado acomodada, dispersa e que parece não saber para onde vai - tanto que os arcos narrativos de boa parte dos protagonistas pouco avançam em 12 episódios.

 

Talvez esta primeira temporada funcione apenas como uma longa introdução para uma história com outro fôlego, capaz de tirar partido dos recursos que a série obviamente tem (os valores de produção, a premissa, alguns actores). Mas quando a oferta da concorrência é tanta (maior do que nunca, aliás), e em muitos casos tão superior, é preciso mesmo muita fé para continuar a seguir por aqui...

 

 

 

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