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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Viver e morrer em Westeros (post com spoilers)

 

Quem vai morrer a seguir? Para alguns detratores de "A Guerra dos Tronos" (sim, existem, apesar dos recordes), a resposta a esta pergunta será a única que interessa à maioria dos fãs. E não há dúvida de que o número de óbitos, ao fim de quatro temporadas, já dá para uma lista farta, provavelmente a mais longa das séries actuais.

 

Mas se a incógnita sobre quem será a próxima vítima vai garantindo um suspense que nunca se dissipa, a morte por si só dificilmente teria grande efeito caso as personagens não importassem - por muito que a curiosidade mórbida mova algumas atenções. Felizmente, a adaptação da obra de George R. R. Martin tem algumas das melhores do pequeno (e grande?) ecrã e, por isso, o destino fatídico de parte delas tanto é motivo de regozijo como de desespero, dependendo dos casos.

 

O último episódio da quarta temporada, "The Children", não fugiu à regra. Os criadores tinham prometido um desfecho poderoso e chocante, com um capítulo de mais de uma hora (o mais longo até agora), e nota-se que não pouparam esforços para deixar algumas personagens pelo caminho. Mas desta vez, ao contrário de outros casos, ficou a dúvida sobre se terá valido mesmo a pena.

 

Se Jon Snow até teve direito a fazer o luto de Ygritte, assassinada no episódio anterior, nem todas as mortes deste final despertaram a mesma ressonância. E duas, em especial, até acentuaram os sintomas dos arcos narrativos mais problemáticos da temporada: o de Bran Stark e o de Tyrion Lannister.

 

 

A jornada do primeiro chegou finalmente a um momento de viragem depois de se arrastar até à exaustão, geralmente com momentos místicos e esotéricos, entre alucinações e presságios que combinavam mal com o tom dominante da série, mais cru. Desta vez, o contraste foi mais forte e interrompeu um episódio até aí sóbrio com uma luta contra esqueletos e uma miúda a disparar bolas de fogo, sequência mais expectável num sucedâneo genérico do universo de Harry Potter. No meio de tanto aparato, a morte de Jojen acabou por ser quase uma nota de rodapé, despachando uma personagem que nunca passou de um apêndice de outra. E quando nem os argumentistas investiram nela, porque é que os espectadores se importariam?

 

Mas se Jojen nunca passou de uma personagem instrumental (e excepção numa série com figuras complexas e com a sua própria história, das principais às secundárias), o caso de Shae é mais frustrante. Esta temporada já não a tinha tratado bem, dando-lhe o ingrato papel da traidora a depor contra Tyrion, num contraste extremo com a sua postura até aí. Depois dessa reviravolta gratuita, a deste episódio prova que, embora só tenha morrido neste capítulo, Shae já estava morta como personagem nos mais recentes - sendo reduzida, tal como Jojen, a peça para fazer o argumento avançar. A transição abrupta de mulher astuta e independente, mas fiel e dedicada, para prostituta vingativa e oportunista não convence (e, diz quem leu os livros, destoa drasticamente da versão original, com um percurso mais coerente). Ao não mostrarem o seu lado da história, retirando-lhe a complexidade que tinham desenvolvido até aí, os argumentistas dão-lhe a espessura de uma vilã de telenovela - uma vilã descartável e mero aquecimento de um duplo homicídio.

 

Claro que por estas duas situações que correram mal, "The Children" teve várias que correram bem, como as que envolveram Daenerys Targaryen, Cersei Lannister, Arya Stark, Brienne of Tarth ou The Hound. Mas para um desfecho a prometer tanto, aguardado com tanta expectativa e que só terá continuação daqui a tanto tempo, o todo foi estranhamente menor do que a soma das partes.