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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

O amor e outros clássicos

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Depois de ter editado "Menneskekollektivet" (2021), o primeiro (e promissor) disco do projecto Lost Girls, criado com Håvard Volden, JENNY HVAL retoma o percurso a solo. E regressa com aquele que será já o seu oitavo álbum, com a particularidade de ser também o primeiro editado pela reputada 4AD.

"Classic Objects", agendado para 11 de Março, inspira-se tanto em espaços do passado da norueguesa como naqueles que imaginou (ou com os quais sonhou) durante o confinamento, assim como em locais do futuro ou até impossíveis. Se o conceito pode parecer amplo, a cantautora promete ser mais clássica do que nunca na forma (o que ajudará a explicar o título do disco), prometendo um alinhamento de canções mais pop e mais convencionais, todas com refrão e verso incluído.

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Mas para já, o resultado das amostras iniciais continua a soar desafiante e até experimental q.b.. Era esse o caso de "Jupiter", single de quase oito minutos de duração com fôlego atmosférico e cinematográfico, revelado no final do ano passado, e volta a ser o de "YEAR OF LOVE", sucessor de arestas mais limadas e com um inesperado calor africano na percussão (influência directa de Paul Simon), é certo, embora com alguns desvios instrumentais e entoado por uma voz aguda que ainda se estranha antes de se ir entranhando.

O videoclip, realizado por HVAL com Jenny Berger Myhre e Annie Bielski, ilustra a confluência de espaços enquanto as palavras viajam pelas noções de liberdade, compromisso e felicidade normativa:

Mães paralelas

De França chegam duas das primeiras estreias cinematográficas aconselháveis do ano. Retratos de solidão e desespero, "ABRAÇA-ME COM FORÇA" e "O ACONTECIMENTO" são ambos olhares crus e singulares sobre mulheres em constante fuga para a frente.

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"ABRAÇA-ME COM FORÇA", de Mathieu Amalric: Revelada em "Linha Fantasma" (2017), de Paul Thomas Anderson, e um dos pilares da série "Das Boot: O Submarino", a luxemburguesa Vicky Krieps volta a ter mais um papel memorável nesta adaptação da peça de "Je Reviens de Loin", de Claudine Galea.

Mas o novo filme assinado pelo actor que também tem feito nome atrás das câmaras (em títulos como "Tournée - Em Digressão" ou "O Quarto Azul") está muito longe de se confundir com teatro filmado, propondo antes uma experiência sensorial, tão realista como etérea, enquanto segue a protagonista para terreno narrativamente incerto.

O que arranca como o drama de uma mulher que se faz à estrada e aparentemente deixa o marido e os filhos para trás torna-se uma história de superação invulgar e original, que subverte as expectativas do espectador (em especial durante o primeiro terço) sem cair num exercício de estilo ostensivo.

Pelo contrário, a inquietação da protagonista é bem palpável, não só pelo desempenho de Krieps, a tornar credível uma mulher no fio da navalha e inicialmente difícil de decifrar, mas pela forma como Amalric não perde a mão num trajecto fragmentado e não linear, entre cenas calorosas do quotidiano em família e a solidão desconcertante de uma mãe longe de casa. Por esta altura já sabíamos, mas é sempre bom voltar a confirmar que temos aqui actriz e realizador.

3,5/5

"O ACONTECIMENTO", de Audrey Diwan: A segunda longa-metragem da realizadora de "Mais vous êtes fous" (2019), estreia que não passou pelas salas nacionais, chega com o Leão de Ouro do último Festival de Veneza e tem sido apontado como um verdadeiro acontecimento do cinema francês recente.

Adaptação de um livro parcialmente autobiográfico de Annie Ernaux, acompanha uma jovem estudante universitária e a sua tentativa de fazer um aborto na França dos anos 60, quando a interrupção voluntária da gravidez não só era punida por lei mas podia decretar a morte de quem a tentasse, muito por culpa da falta de condições de algumas soluções clandestinas.

Exemplo de um realismo social enxuto e sempre verosímil, "O Acontecimento" é um drama que olha sem maniqueísmos para um tema ainda polarizador, embora tome claramente partido de um dos lados. Mas mais do que um ensaio filmado sobre um tema fracturante, escolhe sobretudo o lado da protagonista, ao qual a câmara (à mão e a valer-se de travellings frequentes) se fixa de forma obsessiva, à pele e às vezes à carne - algumas cenas parecem encaminhar-se para o body horror, embora dois ou três momentos mais gráficos não joguem necessariamente a favor do filme.

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Fechando o ecrã no formato quase quadrangular de 1.37:1, é um retrato com contornos de thriller psicológico para o qual é decisiva a presença de Anamaria Vartolomei, brilhante enquanto mulher fora do seu tempo cuja gravidez indesejada ameaça de forma inevitável os seus projectos de vida, em especial os estudos e a ambição de ser professora.

"O Acontecimento" é muito bom a mergulhar num mundo que se fecha a uma jovem determinada que vive livremente a sua sexualidade e que reivindica o seu corpo, e o que mais choca é que esta história de época ainda seja a realidade de muitas mulheres. Mas é precisamente por Diwan traduzir tão bem essa tensão quotidiana que o salto temporal dos últimos minutos propõe um desfecho algo frustrante, ao passar por cima de uma fase da vida da protagonista que merecia um olhar atento. De qualquer forma, o novo cinema francês é bem capaz de vir a passar por esta câmara e este rosto...

3/5

Uma máquina do tempo que vale a corrida

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"The Runner", o terceiro álbum dos BOY HARSHER, já era lançamento a sublinhar na agenda inicial de 2022 - chega dia 21 de Janeiro -, mas o novo single consegue vir aumentar a expectativa.

Sucessor dos também auspiciosos "Tower" e "Give Me a Reason", "MACHINA" é o avanço mais surpreendente até agora ao desviar-se da darkwave associada aos norte-americanos para territórios italo disco e Hi-NRG, com a particularidade adicional de ter Mariana Saldaña, dos conterrâneos BOAN, como vocalista convidada - e a cantar em inglês e espanhol, uma estreia na música da dupla.

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Descrita como uma canção de embalar robótica inspirada por noites na icónica discoteca mexicana Patrick Miller, é um single dançável e imediato com refrão orelhudo, dos mais viciantes da banda de Augustus Muller e Jae Matthews (o que não é dizer pouco). E continua a vincar a dupla como um nome a seguir entre os que revisitam uma pop electrónica sombria e imediatamente associada aos anos 80 sem soarem a decalque.

Mais do que um novo álbum, "The Runner" é a banda sonora da curta-metragem de terror homónima, criada pelo duo, que se estreia internacionalmente esta semana nos serviços de streaming Shudder e Mandolin. O novo videoclip deixa algumas pistas do que esperar, em modo burlesco e surreal, com uma actuação entregue a The Beautiful Woman (a própria Saldaña), The Strong Man e The Bondage Dancer:

Filmes, séries, discos e canções: 75 de 2021

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2021 não deixa tantas saudades como talvez se esperasse no final de 2020 - culpa de uma pandemia à qual não têm faltado variantes -, mas ainda ofereceu vários portos de abrigo nos filmes, séries e discos que foram chegando.

Se os cinemas limitaram as entradas e a oferta, mantendo a tendência do ano anterior, pelo menos permitiram descobrir filmes como "Minari", "O Homem que Vendeu a Sua Pele" ou "As Mil e Uma" em sala (embora o último por muito pouco tempo e em poucas cidades, problema que também afecta outras estreias menos sonantes). E boa parte dos festivais não fechou portas, sinal de resiliência a louvar.

Na televisão e streaming, menção especial para "Losing Alice" e "Manhãs de Setembro", duas das grandes surpresas do ano, que mereciam mais do que o rótulo de melhores séries que quase ninguém viu. Como também mereciam "Mr. Corman" e "Genera+ion", infelizmente canceladas às primeiras temporadas e a confirmar que, apesar da quantidade e diversidade de plataformas e propostas, não há espaço (nem público) para todas.

Na música também foi um ano de boa colheita, embora mais memorável nas canções do propriamente nos discos, o que não impede de continuar a acreditar no formato álbum - além dos listados abaixo também poderiam estar os novos dos Bicep, Anika, Dry Cleaning, audiobooks, Duran Duran, The Joy Formidable, Martina Topley-Bird, HARD FEELINGS ou Garbage. Venham mais concertos e festivais em 2022 (sem as restrições dos últimos meses) para que possamos ouvi-los num palco.

Ano novo, vida nova? Seja ou não, podemos sempre voltar a estes filmes, séries, discos e canções de 2021 - e ir descobrindo outros que ficaram por ver e ouvir, já que estas listas nunca são definitivas:

10 FILMES

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"As Andorinhas de Cabul", Zabou Breitman e Eléa Gobbé-Mévellec
"As Coisas que Dizemos, as Coisas que Fazemos", Emmanuel Mouret
"As Mil e Uma", Clarisa Navas
"Encanto", Byron Howard, Jared Bush e Charise Castro Smith
"Mães Paralelas", Pedro Almodóvar
"Minari", Lee Isaac Chung
"O Homem que Vendeu a sua Pele", Kaouther Ben Hania
"O Último Duelo", Ridley Scott
"Quo Vadis, Aida?", Jasmila Zbanic
"Raparigas", Pilar Palomero

Fora de circuito: "La Nave del Olvido", Nicol Ruiz (Queer Lisboa); "Magari", Ginevra Elkann (Festa do Cinema Italiano)

Filme português: "O Último Banho", David Bonneville

Barretes do ano: "Dune - Duna", Denis Villeneuve; "Titane", Julia Ducournau; "Uma Miúda com Potencial", Emerald Fennell

15 SÉRIES

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"Faz de Conta que Nova Iorque É uma Cidade" (T1), Netflix
"Genera+ion" (T1), HBO Portugal
"Gomorra" (T5), HBO Portugal
"Invincible" (T1), Amazon Prime Video
"Losing Alice" (minissérie), Apple TV+
"Love Life" (T2), HBO Portugal
"Love, Victor" (T1/T2), Disney+
"Manhãs de Setembro" (minissérie), Amazon Prime Video
"Mare of Easttown" (T1), HBO Portugal
"Mr. Corman" (T1), Apple TV+
"O Dia" (minissérie), RTP2/RTP Play
"Reservation Dogs" (T1), Disney+
"Shippados" (T1), Globo
"The Expanse" (T5), Amazon Prime Video
"The White Lotus" (T1), HBO Portugal

Barrete do ano: "Loki" (minissérie), Disney+ (do departamento Marvel, "WandaVision" e "Hawkeye - Gavião Arqueiro" saíram-se bem melhor)

10 DISCOS INTERNACIONAIS

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"Bratty", Brendan Hendry
"Bye Bye Baby", Requin Chagrin
"Flux", Poppy
"Liminal Soul", Kedr Livanskiy
"Mirror II", The Goon Sax
"Mobile Home", GusGus
"On All Fours", Goat Girl
"Salt Water", Fragrance.
"Thirstier", TORRES
"Undir köldum norðurljósum", Kælan Mikla

5 DISCOS NACIONAIS

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"CAOS'A", Rita Vian
"Garrincha", Mira Quebec
"Dead Flowers & Cat Piss", Callaz
"Punk/Pop and Soft Rage", Victor Torpedo
"Selfie Destruction", PZ

20 CANÇÕES INTERNACIONAIS

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"Anonymous XXX", Garbage
"Beautiful Lies", Duran Duran
"Birthday / The Pain", For Those I Love
"Concatentate II", Christina Chatfield
"Drive Me", TORRES
"Flux", Poppy
"Fou", Requin Chagrin
"Her Hippo", Dry Cleaning
"Hold On", Not Waving feat. Marie Davidson
"In the Stone", The Goon Sax
"LaLaLa It's The Good Life", audiobooks
"Mon amour tu bois trop", Leonie Pernet
"Sevier", The Joy Formidable
"Simple Tuesday", GusGus
"Since I", Real Lies
"Sister Infinity", HARD FEELINGS
"The Cure", Fragrance. feat. Lulannie
"Thresholds (through a hole in the fence)", Walt McClements
"Unseen", Zanias
"Your Turn", Kedr Livanskiy feat. Flaty

3 grandes versões: "A Man Needs a Maid" (Neil Young), Tindersticks;  "Crush" (Jennifer Paige), Hatchie; "Metal Heart" (Cat Power), Dave Gahan & Soulsavers

Outras canções a guardar:

15 CANÇÕES NACIONAIS

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"Atonal Heavy Metal Song", Callaz
"Balúrdio", Maria Reis
"Boats", Xinobi
"Camisa", Gomes Aires
"Confusing to Her Feelings", Oma Nata
"Daqui para Fora", PZ
"Dar Resposta", Joana Espadinha
"Dare", Neon Soho
"Dejavu", Jorge Benvinda
"Dois Manos a Bailar", Suave feat. Alex D'Alva Teixeira e Fred
"Hide", Sean Riley & The Slowriders
"HPA", Rita Vian
"Phisique", Paraguaii
"Psyche", Violet
"Trust Issues", Mira Quebec

Mais escolhas da prata da casa: