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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

10 canções de 2020 (porque nem tudo está a ser mau)

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Com o isolamento social a continuar por um período indeterminado, acaba por ir havendo mais tempo para a recuperação ou reforço de hábitos caseiros. E se agora teremos outra disponibilidade para a leitura ou para acompanhar (cada vez) mais séries, a música também está entre as aliadas possíveis (ou até obrigatórias) dos dias de quarentena.

O primeiro trimestre do ano já foi suficientemente generoso em novidades a reter e, por isso, vale a pena lembrar o que de melhor se ouviu aqui pelo blog. Canções dos Nine Inch Nails, Letrux ou Porridge Radio estão entre as dez do primeiro trimestre de 2020 a ter em conta, numa lista que também poderia juntar temas dos novos discos dos Pet Shop Boys, Phase Fatale, Poppy, Best Coast ou Moaning. Talvez esses se juntem daqui a uns meses. Para já, fica o top 10 do balanço inicial, que pode ser ouvido abaixo:

 

Uma história de capa e guitarra

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"In Plain Sight" (2019), o terceiro álbum das HONEYBLOOD, foi o primeiro da antiga dupla criado apenas por Stina Tweeddale, depois de a escocesa ter passado a ser o único elemento do projecto. E não se saiu nada mal, num dos bons discos de guitarras (e sintetizadores ocasionais) dos últimos tempos, que recua a algum rock alternativo dos anos 80 e 90 sem deixar de fazer sentido no presente. 

O novo single, "GIBBERISH", nem está entre os picos do alinhamento, mas é um exemplo da eficácia pop (com distorção q.b.) que a escrita de Tweeddale também possui, aqui ao serviço de uma canção curta e acelerada que parte de inquietações sobre verdade e manipulação.

A cantora diz ter-se inspirado nos absurdos do contexto político actual, embora o videoclip leve os temas de representação e ilusão para a história da sua própria obra, num jogo de efeitos com a capa do álbum mais recente. Mas este não é o único vídeo onde poderemos vê-la por estes dias, já que Tweeddale tem sido uma das artistas com actuações online regulares nas suas redes sociais - quase sempre sozinha e às vezes com convidadas além da guitarra, enquanto a quarentena vai limitando outros palcos.

Maldita cocaína (e heroína)

São três séries a espreitar e propõem viagens muito diferentes aos (sub)mundos da droga. "GIGANTES" e "ZEROZEROZERO" começam bem, "OZARK" é um dos grandes regressos do ano.

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"GIGANTES" (T1), AMC: Esta aposta da Movistar é uma das boas séries espanholas recentes, um drama familiar criminal centrado numa rede de narcotráfico a cargo de um pai tirano e dos seus três filhos (que acabam a lutar entre si para disputar a liderança do império). Não sendo especialmente original, é um retrato conseguido tanto pelos conflitos que vai colocando em jogo (além dos familiares, há ameaças de clãs ou das autoridades) como pelo ritmo e sentido atmosférico com que é apresentado - mérito de Enrique Urbizu, um dos criadores e realizador da maioria dos episódios, há muito habituado a territórios do thriller (tendo recebido o Goya de Melhor Realizador em 2011 com "No habrá paz para los malvados").

Se o veterano José Coronado, na pele de patriarca repelente, não é tão bem aproveitado como poderia (a sua entrega não chega para dar mais dimensões à personagem), as jornadas dos filhos são mais intrigantes. Sobretudo o arco do mais velho, interpretado por um Isak Férriz com carisma e nervo à altura de um protagonista obstinado e indomável. Também interessante é o rumo das mulheres que vão cruzando a vida dos três irmãos, sejam cúmplices ou antagonistas, e que poderá vir a ser mais explorado. Uma pista a confirmar na segunda (e última) temporada, também já com estreia confirmada no AMC. A primeira (de seis episódios) chegou esta quarta-feira, 1 de Abril, depois de ter passado há poucos meses na RTP2, e tem um final tão caótico como engenhosamente orquestrado. Numa palavra, ¡vale! 

3/5

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"OZARK" (T3), Netflix: À terceira temporada, a série protagonizada por Jason Bateman (que também é produtor executivo e realizador de alguns episódios) e Laura Linney consolida o lugar entre as melhores dos últimos anos. E algum cepticismo inicial, sobretudo pelas muitas comparações com "Breaking Bad", tem cada vez menos razão de ser quando o drama da autoria de Bill Dubuque e Mark Williams já encontrou, dominou e apurou o seu universo.

A tensão continua a partir de dilemas conjugais que têm ligação directa com a lavagem de dinheiro para um cartel mexicano (e agora também há um casino pelo meio), mas além de um óptimo relato familiar cruzado com o thriller, os novos episódios reforçam as doses de humor negro em complementos tão estratégicos como (quase sempre) certeiros. A cena do desfecho, por exemplo, é de antologia, e antes dessa há um estudo de personagens que nunca sai comprometido pela intrusão de acessos espirituosos - e que podem ser simultaneamente inquietantes.

Além da relação ambígua do casal protagonista, esta temporada também sabe como dar espaço a secundários, sejam presenças habituais ou recém-chegadas. As cenas entre Ruth e Wyatt Langmore ou Wendy Byrde e o irmão, Ben Davis, são mesmo das mais fortes de toda a história da série, daquelas que tornam praticamente obrigatória a nomeação de alguns actores para os prémios televisivos, nos quais "Ozark" não se tem saído mal (Laura Linney, Julia Garner e a nova aquisição Tom Pelphrey são especialmente memoráveis, sobretudo no crescendo emocional da segunda metade da temporada). Se não é a melhor proposta de binge-watching do momento, deve andar lá bem perto.

4/5

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"ZEROZEROZERO" (T1), HBO Portugal: Não falta pedigree a esta produção que junta um elenco internacional (de Gabriel Byrne ao veterano Adriano Chiaramida), foi filmada em vários continentes, adapta o livro homónimo do italiano Roberto Saviano, autor de "Gomorra", e tem Stefano Sollima entre os autores e realizadores (que além de ter dirigido alguns episódios de "Gomorra", assinou os filmes "Suburra" e "Sicario - Infiltrado"). O dinamarquês Janus Metz ("Borg vs. McEnroe") e o argentino Pablo Trapero ("O Clã") são outros realizadores desta saga dividida em três histórias que acabarão por se cruzar, acompanhando a viagem atribulada de um navio de carga que transporta cocaína clandestinamente entre o México e Itália.

Senegal, Marrocos e os EUA também são pontos deste roteiro nada paradisíaco que mantém intocável (e irrepreensível) o realismo associado às adaptações das obras de Saviano. E retoma ainda a sua crueza e crueldade, com um tom quase sempre angustiante, às vezes claustrofóbico, ampliado pela banda sonora melancólica (e inspirada) dos Mogwai. Mas se em "Gomorra" (a série), o niilismo extremo é acompanhado de personagens bem desenhadas, aqui o seu desenvolvimento não é tão complexo, por muito que a maioria dos actores consiga acrescentar camadas a um argumento mais conseguido no retrato das relações de tráfico internacionais do que na singularidade dos seus agentes. Isso não compromete as óbvias qualidades formais e narrativas (todos os episódios têm uma cena-chave que obriga a um flashback, opção hábil para contar uma história tão ampla e ambiciosa), mas vai demovendo o impacto emocional de uma saga que poderia ter alcançando outros voos.

A fixar, ainda assim: o olhar indecifrável de Harold Torres, na pele de um soldado mexicano que passa para o outro lado do sistema, e Andrea Riseborough, brilhante noutra das figuras mais contraditórias, ao comando do navio no centro da acção (e bem acompanhada por um surpreendente Dane DeHaan).

3/5

Perseguida pelo passado

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O primeiro álbum de JAVIERA MENA, "Esquemas juveniles" (2006), já sugeria que a chilena tinha um interesse particular pela synthpop e por alguma música surgida nos anos 80. E os discos que se seguiram só vieram acentuá-lo, mas souberam como fugir ao apelo da nostalgia para irem definindo um caminho personalizado em vez de um decalque.

O quinto longa-duração, sucessor de "Espejo" (2018), ainda não tem data de lançamento, mas deverá estar pronto algures em 2020 e vai juntar a cantora a vários produtores, como tem acontecido até aqui, numa atmosfera mais nocturna que terá o desejo como fio condutor. A electropop mantém-se como o ingrediente principal e o resultado deverá ser (ainda) mais dançável, como também já adiantou a artista radicada em Madrid - cidade onde protagonizou um dos grandes concertos do ano passado.

O sueco Stefan Storm, elemento dos The Sound of Arrows, é um dos os nomes convocados para a produção e colabora no primeiro single, "FLASHBACK", amostra com inspirações da música de dança francesa e a confirmar que a chilena continua com um lugar próprio na pop latina actual (sem precisar de ser mais uma a aderir ao reggaeton, apesar do desvio ocasional de "Intuicíon", ao lado de El Guincho). O videoclip, de estética retrofuturista, é em parte uma homenagem ao clássico manga "Akira", de Katsuhiro Otomo, mas também mostra a cantora tão à vontade no palco como na discoteca. Venha o flash forward:

Corpo eléctrico (e electrónico)

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Está mais electrónica do que nunca, a pop dos THE IRREPRESSIBLES. Se em "Mirror Mirror" (2010) e "Nude" (2012) o projecto de Jamie McDermott recorria aos sintetizadores como complemento de canções orquestrais e melancólicas, influenciadas pela música clássica e alguma folk, o terceiro álbum troca o recolhimento pela libertação nas pistas.

"Superheroes" só chega a 29 de Março, mas o cantautor britânico confirma que é o mais influenciado pela música de dança, em parte devido à temporada que passou em Berlim nos últimos anos.

A capital alemã também serve de cenário à história que se contará num álbum conceptual: a de um rapaz que se apaixona por outro, inspirada na adolescência de McDermott e que fará a ponte com questões ligadas à saúde mental ou a conceitos de masculinidade. Não são temas inéditos numa discografia que tem abordado relacionamentos LGBTQ, mergulhando tanto no desejo e na cumplicidade como na homofobia ou no bullying. 

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Essa exploração vai da música às imagens: "Submission", um dos primeiros singles de "Superheroes", conjugou conflitos emocionais e físicos num videoclip ambíguo. Já o novo avanço, "LET GO (Everybody Move Your Body Listen to Your Heart)", mostra uma faceta mais optimista através de um relato de sedução e auto-descoberta, repetindo a colaboração com o norte-americano Jon Campbell na voz e o turco Savvas Stavrou na realização.

O videoclip é facilmente o mais festivo do percurso dos THE IRREPRESSIBLES, mesmo que, tal como a música, arranque em modo robótico antes de se render à euforia dançável. Também é o melhor tema do terceiro álbum revelado até agora (os anteriores, que incluem faixas do disco e lados B, podem ser ouvidos na playlist acima) e dá a entender que teve alguma influência das colaborações de McDermott com os Röyksopp e Rex The Dog, ao apostar num formato synth-pop que atinge o ponto de rebuçado na segunda metade.

Curiosamente, embora o videoclip tenha sido pensado como um apelo contra a homofobia internalizada, as imagens (sobretudo as finais) tornam-se bem mais transgressoras em tempos de coronavírus. Dancemos em casa, então: