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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Venham mais destas, por favor

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Sabe-se lá o que terá levado JESSIE WARE a deixar uma canção como "PLEASE" de fora do seu álbum mais recente, "What's Your Pleasure?" (2020). Mas pelo menos não ficou esquecida na gaveta, já que esta sobra foi promovida a novo single da britânica e é uma das seis faixas extra da edição deluxe do seu quarto longa-duração, que deverá chegar nos próximos meses.

"PLEASE" não fica a dever muito a rebuçados pop como "Spotlight" ou o tema homónimo do álbum e vem confirmar o que já se sabia: que esta é, de longe, a fase mais entusiasmante da sua autora desde os dias da estreia, "Devotion" (2012). Tal como a maioria da colheita recente, resultou da colaboração com James Ford (metade dos Simian Mobile Disco) e contou também com Shungudzo e Danny Parker na composição, equipa que parece querer continuar a atirar a cantora para a pista de dança.

O resultado deriva da faceta mais borbulhante de "What's Your Pleasure?" e vai beber tanto ao disco como à acid house, com uma energia "cheia de optimismo", nas palavras de WARE, e "pronta a ser tocada num espaço onde possamos estar juntos e flertar, dançar, tocar e beijar". O videoclip dá o mote e reforça as inspirações de inícios dos anos 90, da estética VHS a bailarinos vestidos a rigor para uma festa que não destoaria na nova temporada da série "Pose", ambientada nos balls nova-iorquinos dessa época:

Inocente ou culpada?

Terá uma mulher assassinado a filha e a melhor amiga? A dúvida percorre a primeira temporada de "OS DOZE JURADOS", a nova série da RTP2 (e da RTP Play), que promete fintar os lugares comuns das histórias de tribunal - e os primeiros episódios sugerem que consegue.

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Depois de ter estreado a recomendável "O DIA", em Fevereiro, o segundo canal público volta a dedicar as noites de segunda a sexta a uma produção belga. Tal como essa, "OS DOZE JURADOS" move-se entre o drama e o thriller, mas em vez de um assalto debruça-se sobre o homicídio de uma mulher e de uma criança, respectivamente a melhor amiga e a filha de Frie Palmers, a principal suspeita do crime.

Aquele que é considerado, na trama, "o Julgamento do Milénio", depende muito da contribuição dos doze elementos de um júri cujo quotidiano está no centro da primeira temporada desta criação de Sanne Nuyens e Bert Van Dael - dupla que já tinha colaborado na bem-sucedida "Hotel Beau Séjour" (2016).

Ao longo de dez episódios, a série inicialmente emitida no canal belga Eén, a partir do final de 2019, dedica-se tanto à vida pessoal da principal acusada, com flashbacks recorrentes para vários períodos do seu passado, como às dos jurados e dos que lhes são próximos, num modelo narrativo ambicioso e que começa a desafiar as certezas (e simpatias) do espectador logo nos primeiros capítulos.

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Os avanços e recuos temporais também já eram, curiosamente, um dos elementos-chave de "O DIA", embora aí a acção se limitasse a um período de 24 horas. Como também o era a aposta num realismo seco e austero, alicerçado numa atmosfera urbana (aqui bem captada pelo realizador Wouter Bouvijn, no seu maior desafio até agora) e num elenco homogéneo no desenho de personagens verosímeis e contraditórias. E até há pelo menos duas actrizes em comum nas duas séries, Maaike Neuville e Sofie Decleir, que surgem aqui em figuras substancialmente diferentes das anteriores.

Ao cruzar desta forma as esferas públicas e privadas de um núcleo alargado de personagens, "OS DOZE JURADOS" demarca-se dos modelos mais formatados de muitos relatos jurídicos da ficção televisiva, trocando o habitual caso da semana por um julgamento do qual quase ninguém deverá sair ileso depois de se sujeitar a um olhar tão incisivo da câmara (em certos aspectos, e com as devidas distâncias, parece estar aqui uma descendente de "12 Homens em Fúria", a peça de peça de Reginald Rose que inspirou o filme homónimo de Sidney Lumet). Além do duplo homicídio no centro da temporada, há subenredos por onde passam situações de violência doméstica ou de imigração ilegal, e a forma como os elementos do júri lidam com elas na sua vida pessoal promete ter reflexo no seu veredicto.

Os três primeiros episódios, já emitidos na RTP2, são suficientemente intrigantes para dar o voto de confiança à série que venceu o prémio de Melhor Argumento no festival CannesSeries, em 2019, entre outras distinções. E também para continuar a prestar atenção à aposta do segundo canal público na ficção televisiva europeia recente, sobretudo quando parte dela talvez não tivesse palco noutras plataformas.

"OS DOZE JURADOS" estreou-se na RTP2 a 28 de Abril e é transmitida de segunda a sexta, pelas 22h05. A série também está disponível na RTP Play.

Três palcos caseiros para três álbuns a (re)descobrir

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As salas de concertos já voltaram a abrir portas, mas mesmo assim muitos artistas internacionais não devem pisar um palco português tão cedo. E nesses casos, tal como aconteceu durante grande parte do ano passado, a versão online é a resposta possível para descobrir algumas canções ao vivo. Canções como as de ELA MINUS, REY PILA ou SEVDALIZA, autores de três álbuns de 2020 que continuam a valer a descoberta ou a revisitação.

Num showcase caseiro para a KEXP, MINUS apresenta quase todos os pontos altos de "they told us it was hard, but they were wrong", disco de estreia que colocou a colombiana na linha da frente da pop electrónica actual. E nem o facto de estar sozinha impede que a actuação se saia bem tanto na faceta minimalista como na eufórica, à semelhança do que mostrou no concerto no Musicbox Lisboa há uns anos, numa promissora primeira parte dos Austra onde deu a conhecer esta música luminosa para tempos sombrios.

Também mais do que capazes de superar o desafio do palco, os REY PILA apostam na nata de "Velox Veritas", disco produzido por Dave Sitek (dos TV On the Radio) e editado pela Cult Records, de Julian Casablancas (dos The Strokes). O terceiro álbum dos mexicanos é talvez o mais conseguido e singles já de si infecciosos como "Drooling" ou "Dark Paradise" ganham outro embalo ao vivo, com a combinação de guitarras e sintetizadores a atingir o ponto de rebuçado - e defendida por uma banda coesa num cenário tão acolhedor como castiço.

Noutro comprimento de onda, SEVDALIZA lança o convite (difícil de recusar) para uma viagem a "Shabrang", o seu segundo álbum, cortesia de uma sessão Tiny Desk da NPR. Acompanhada de uma banda de luxo - belíssima conjugação de cordas, percussão, teclados e programações -, a irani-holandesa revela uma forma vocal à altura enquanto alia elegância e intensidade, do lamento de "Dormant" (a lembrar a escola dos Portishead) ao contacto com a tradição árabe que marca "Gole Bi Goldoon". Que 2022 permita o regresso a Portugal que já tarda...

Na cama com Birkin (e Daho)

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Mais de meio século depois de "Jane Birkin/Serge Gainsbourg" (1969), álbum tão histórico como controverso, "OH! PARDON TU DORMAIS..." chegou de forma bem mais discreta no final de 2020. Ao contrário dos primeiros discos de JANE BIRKIN, o mais recente não despertou grande atenção fora de portas, mas ainda vale a pena seguir o rasto desta britânica há muito habitué de Paris.

Aos 74 anos, a cantora que também se tornou compositora, realizadora, modelo e actriz regressou com o primeiro registo de originais desde "Enfants d'Hiver" (2008), nascido num dos seus períodos mais amargos: o que sucedeu ao suicídio de uma das filhas, a fotógrafa Kate Barry, em 2013 (morte que também ressoou no disco mais recente de Charlotte Gainsbourg, meia-irmã desta).

BIRKIN tem dito que "OH! PARDON TU DORMAIS..." só foi possível graças ao apoio de Etienne Daho, um dos cúmplices criativos de um alinhamento que também deve muito à colaboração do multi-instrumentista Jean-Louis Piérot. A parceria musical impediu que a britânica se entregasse à melancolia e à inércia numa fase de luto e o resultado foi um álbum que a mostra uma intérprete ainda carismática e insinuante enquanto continua a desenvolver a vertente de escritora de canções.

O disco partilha o título com o telefilme realizado pela própria, juntamente com Christine Boisson e Jacques Perrin, em 1992, e com a peça de teatro encenada por Xavier Durringer, em 1999. Mas se esses tinham o universo conjugal como ponto de partida, o olhar musical é mais amplo, até porque surge, lá está, inevitavelmente marcado pela experiência da perda e do envelhecimento.

Apesar da gravidade evidente, "OH! PARDON TU DORMAIS..." está longe de ser um álbum sisudo, articulando ambientes elegantes e sumptuosos com uma voz que continua a parecer cantar-nos ao ouvido, entre heranças que vão de antigos companheiros e colaboradores como Serge Gainsbourg ou John Barry (pai de Kate) à escola de Kurt Weill. Passando, claro, por Etienne Daho, com quem a autora partilha o protagonismo no novo single, precisamente a faixa-homónima. A dupla, que já colaborou várias vezes no passado, volta a juntar-se no videoclip, realizado por BIRKIN e a tornar literal a conversa de cama.