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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Uma linguagem a (re)descobrir

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"It Comes", o álbum de estreia dos NOVA MATERIA, contou-se entre as boas revelações do ano passado - e o concerto em Lisboa, no Musicbox, terá sido um dos melhores que (quase) ninguém viu.

 

Com viagens do pós-punk a heranças da música tradicional sul-americana, passando pelo krautrock ou EBM, é um disco que continua a valer e (re)descoberta e tem mais uma chamada de atenção: "SPEAK IN TONGUES", o novo single, que chega quando a dupla de Caroline Chaspoul e Eduardo Henriquez (ex-elementos dos Panico) se prepara para arrancar a digressão francesa.

 

O tema não anda longe do dance-punk (em modo sinuoso) de apostas da editora DFA, num ambiente tenso, percussivo e dançável cujo videoclip reforça o lado performativo do projecto franco-chileno - enquanto também revela alguns dos materiais pouco comuns utilizados na sua música, um dos seus principais factores distintivos:

 

 

A fúria do dragão e o travo a desilusão

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Nota: texto com spoilers de "A Guerra dos Tronos" (T8E5)

 

E de repente, parece que estamos a ver uma versão alternativa (e muito esbatida) de "A GUERRA DOS TRONOS"... daquelas que não andam longe das teorias de alguns fãs. Tem sido esta a sensação deixada pela oitava e última temporada da série da HBO - e que o quinto episódio veio, infelizmente, reforçar.

 

A construção de personagens meticulosa e exigente, estabelecida pelos livros de George R. R. Martin e em boa parte mantida durante a maioria dos capítulos da série, parece ter ficado para trás para dar prioridade a um inventário de eventos, com os protagonistas quase todos tornados meros peões de um tabuleiro cujo jogo perdeu a graça. 

 

Esse avanço mecânico foi especialmente notório em "The Bells", por muito que as acções de Daenerys Targaryen tenham incendiado as redes sociais. O problema nem foi tanto a mudança de postura da Mãe dos Dragões, já sugerida em acontecimentos anteriores, mas a forma apressada como este episódio a colocou em marcha (sem direito a especiais nuances trabalhadas pelos mais recentes). E mesmo com um desenvolvimento mais complexo, a decisão de "Khaleesi" chegar ao ponto de assassinar inocentes (e particularmente crianças) em massa seria sempre pouco compatível com o percurso da personagem.

 

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Essa viragem não teria sido tão grave caso se tratasse de um equívoco isolado, mas o argumento também não ajudou noutros arcos. A despedida de Varys nem conseguiu ser morna e resultou de uma quebra de calculismo e subtileza do conselheiro que também tem afectado Tyrion Lannister de forma penosa. De repente, parecem ambos tão ingénuos como Jon Snow, mesmo que a passividade deste tenha atingido máximos históricos (ao ponto de nem sequer tentar qualquer pedido de clemência à sua rainha - com a qual continua a não ter química - quanto ao destino de Varys).

 

Menos sorte teve Euron Greyjoy, figura que arrancou como versão abonecada do já de si caricatural Jack Sparrow para morrer sem qualquer tipo de progressão. O combate com Jaime Lannister fica entre os momentos mais ridículos (e ridiculamente convenientes) de um episódio que também apostou na violência extrema no encontro entre Cão e Montanha - muito aguardado pelos fãs e com um desfecho que terá surpreendido poucos.

 

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Mais imprevisível, apesar de tudo, foi o modo como a série se despediu de Cersei Lannister, concedendo-lhe uma fragilidade que tinha andado ausente nos últimos episódios. E até acabou por ser dos momentos mais aceitáveis de "The Bells", muito por culpa do empenho de Lena Headey, embora tenha ficado aquém do grande final que esta personagem e esta actriz mereciam.

 

Também mais frágil do que nunca, Arya Stark deixou de ser um símbolo de vingança ou heroísmo e teve de se contentar com o estatuto de sobrevivente. Tendo em conta o panorama geral, já não é nada pouco, ainda que a adesão tão repentina ao pedido emotivo de Cão (com direito a agradecimento e tudo) tenha vincado outro momento que desafiou a suspensão da descrença. Mesmo assim, foi a única personagem que ganhou alguma coisa num episódio dominado pela perda, com a câmara de Miguel Sapochnik a olhar de frente para o terror da guerra. Nada a apontar ao cenário de barbárie desenhado pelo realizador britânico, mas é pena que a construção dramática nunca se tenha mostrado tão robusta.

 

 

Entre Roma e Nápoles, da comédia ao crime

Depois de ter arrancado em Lisboa em Abril, a 12ª edição FESTA DO CINEMA ITALIANO chega a Évora, Tomar, Caldas da Rainha e Loulé nos próximos dias. Da programação que passou pela capital, "Bangla" e "Napoli Velata" ficaram entre as melhores apostas deste ano.

 

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"BANGLA", de Phaim Bhuiyan: Deliciosa, esta mistura de comédia e drama, a marcar a estreia de um realizador que também se encarrega do argumento, da produção e ainda arrisca o papel de protagonista. O facto de ser uma história em parte autobiográfica talvez ajude a explicar que seja tão credível, e com uma espontaneidade que obras de muitos realizadores mais experientes não conseguem emanar. A partir do dia-a-dia de um rapaz de uma comunidade do Bangladesh dos subúrbios de Roma (albergue de "hipsters, turistas e velhotes"), Bhuiyan vai falando, de forma certeira e contagiante, dos dilemas das diferenças culturais e da entrada na idade adulta. Essa inquietação é ampliada quando o protagonista se apaixona por uma rapariga italiana e caucasiana, obrigando-o a questionar códigos familiares, sociais e religiosos, mas "Bangla" nem tenta forçar uma resposta. Limita-se a dar conta da inquietação emocional de uma forma tão irreverente como calorosa, enquanto revela um realizador capaz de oferecer uma série de gags inspiradíssimos, numa das melhores comédias românticas em muito tempo - e uma espécie de resposta italiana à também aconselhável "Master of None", de Aziz Ansari, sem sair a perder na comparação e com personalidade e carisma mais do que suficientes.

 

3,5/5

 

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"IO SONO TEMPESTA", de Daniele Luchetti: Uma das maiores desilusões desta edição, o novo filme do realizador de "O Meu Irmão é Filho Único" (2007) ou "A Nossa Vida" (2010) fica muito aquém desses dramas (sobretudo do segundo, excelente) ao propor uma viragem para a comédia. A mudança de rumo em si não é o problema, mas esta história, que deve alguma inspiração à figura de Berlusconi, opta sempre pelo maior denominador comum enquanto tenta elaborar uma sátira política e social à Itália contemporânea - num registo que está mais próximo do pequeno do que do grande ecrã. Marco Giallini, na pele de milionário ganancioso e condenado a serviço social, nunca vai além da caricatura (o argumento também não lhe pede mais), e Elio Germano, como sem-abrigo tornado braço-direito do protagonista, é ainda mais desperdiçado depois de ter sido brilhante noutros voos com Luchetti. Mas pior estão as personagens femininas, que dão conta das maiores limitações da escrita em situações quase sempre ridículas. Pelo menos "Anni Felici" (2013), que passou pela Festa do Cinema Italiano há uns anos, revelava algum esforço em construir personagens minimamente intrigantes e em olhar ao redor de forma menos simplista. "Io Sono Tempesta", depois da encomenda "Francisco, O Papa do Povo" (2015), já é só obra de um autor que deu lugar ao tarefeiro mais acomodado...

 

1,5/5

 

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"NAPOLI VELATA", de Ferzan Ozpetek: Ao contrário da esmagadora maioria dos filmes (ou séries) que têm Nápoles como cenário, aqui a cidade italiana não surge como mero palco de crimes ligados à máfia. E embora não faltem homicídios, por uma vez não resultam de acções da "La Familia". Esse é talvez o elemento mais refrescante do novo filme do autor de "A Janela em Frente" (2003), "Saturno Contro" (2007) ou "Uma Família Moderna" (2010), cuja obra tem chegado às salas portuguesas de forma irregular. Mas é uma filmografia que merecia ser mais vista, uma vez que o realizador turco radicado em Itália tem-se mostrado um artesão habilidoso, movendo-se com desenvoltura entre vários géneros. Desta vez opta pelo thriller com contornos noir, e à partida ostensivamente eróticos... embora com uma classe e arrojo muito acima de subprodutos como "As Cinquenta Sombras de Grey", saga com a qual sugere algumas afinidades na premissa. Ainda assim, o que começa como um one night stand entre a protagonista e um homem misterioso acaba por revelar mais paralelos com o também recente "O Amante Duplo", de François Ozon, embora o retrato de Ozpetek seja bem mais rico a nível dramático, não se esgotando no exercício de estilo vistoso. Além da óptima galeria de secundários, o grande destaque é mesmo Nápoles como personagem de relevo, a quem o realizador dedica uma carta de amor a partir dos ambientes do meio artístico e intelectual. Entre a arquitectura da cidade e ruas tão labirínticas como algumas pistas do argumento, "Napoli Velata" vai moldando um olhar enigmático e sedutor, com tanto de realista como de barroco e surreal, e Ozpetek não perde a mão ao longo de uma viagem desconcertante ancorada na solidão e angústia de uma mulher. Bela surpresa.

 

3,5/5

 

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"PIRANHA - OS MENINOS DA CAMORRA", de Claudio Giovannesi: Se "Napoli Velata" consegue espreitar recantos pouco vistos de Nápoles, o segundo filme de um dos novos realizadores italianos (sucessor de "Fiore", de 2016) nunca chega a sair de cenários habituais. Em parte talvez nem pudesse sair muito, já que se trata de uma adaptação de um livro de Roberto Saviano, autor de "Gomorra", também adaptado para cinema e TV. Giovannesi assinou, aliás, alguns episódios da série, e tanto essa experiência como a passagem pelo documentário informam o realismo palpável desta saga de iniciação ao crime. Mas embora o realizador traduza um verismo de espaços e figuras com uma solidez assinalável, reforçado pela direcção de jovens actores não profissionais (e todos da região onde decorre o filme), esta história de um grupo de adolescentes decididos a integrar a Camorra não será muito surpreendente para quem está familiarizado com outros retratos do mesmo submundo. A perda da inocência e o mergulho numa espiral descendente são dados adquiridos logo à partida, tanto como as consequências de um ciclo de violência sem fim à vista - que chega a instalar um determinismo confirmado pelo desenlace. De qualquer forma, está longe de ser um mau filme, já que Giovannesi apresenta este relato de ambição e decadência a partir do quotidiano de Nicolas, rapaz de 15 anos e um protagonista suficientemente interessante para que sigamos a sua jornada (e Francesco Di Napoli é uma das boas escolhas de um casting seguro). Só faltou mesmo algum arrojo, sobretudo depois de tantos episódios de "Gomorra" muito mais transgressores e inventivos.

 

3/5

 

Tudo por causa do indie rock

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No ano passado, o EP de estreia de Filipe PALAS tinha proposto um mergulho no rock depois de outras aventuras (algumas lá perto) com os Smix Smox Smux ou Máquina Del Amor. Mas "Dente de Leão" parece ter sido apenas o primeiro de novos capítulos que juntam uma escrita mais pessoal (e até mesmo confessional, sem abdicar do sentido de humor associado aos projectos anteriores) a um interesse acrescido pelas possibilidades das guitarras.

 

Numa altura de tantos regressos aos anos 90, não é má ideia revisitar a escola indie da altura e o cantor, compositor e guitarrista nortenho parece ter a lição bem estudada. As canções do novo EP, "CAUSA PERDIDA", não destoam ao lado dos ensinamentos de uns Pixies, Sonic Youth ou Sebadoh e a faixa-título apresenta um cartão de visita que não leva ninguém ao engano.

 

Colaboração com Graciela Coelho (vocalista dos Dear Telephone e cúmplice de White Haus), o tema arranca em modo melancólico, à medida do olhar sobre um relacionamento que esboça, antes de deixar as palavras de lado e abraçar um crescendo instrumental de riffs distorcidos. E acende o rastilho para uma história a retomar mais para o final do ano, com o lançamento de um primeiro álbum em nome próprio já garantido.