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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

A canção do beijinho (aos Depeche Mode)

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À terceira é de vez: "KISS", o terceiro single de avanço do próximo álbum dos EDITORS, faz da fase actual dos britânicos a mais entusiasmante desde os seus primeiros dias (para não dizer de sempre).

Depois de "Heart Attack" e "Karma Climb", ambos a merecer figurar entre o melhor da banda de Birmingham, a nova canção continua a vertente mais electrónica, que deverá adensar-se no disco. Afinal, o sétimo longa-duração chama-se "EBM" (acrónimo de Electronic Body Music) e é o primeiro a contar com Benjamin John Power, mais conhecido como Blanck Mass e metade dos Fuck Buttons, enquanto membro oficial após uma colaboração como produtor no disco anterior, "Violence" (2018).

O britânico é bem capaz de ser o principal responsável pela viragem sonora, que além da moldura mais sintética tem uma composição mais aventureira. Quase todos os temas de "EBM" ultrapassam os cinco minutos de duração, o que sugere que a faceta exploratória vai ser dominante, e "KISS" segue esse caminho ao desviar-se do modelo de synth-pop mais redondo na segunda metade, enquanto se aproxima, de forma muito pouco subtil, do livro de estilo dos Depeche Mode (em especial dos dias de "Music for the Masses" e "Violator"). Nada contra quando a pulsão rítmica consegue manter-se revigorante, ganhando uma proposta de coreografia no videoclip que acompanha a dança de sedução e tensão dos bailarinos Harry Ondrak-Wright e Rory Macleod:

Verão em família

Viagem à Espanha rural, "ALCARRÀS" mergulha na localidade homónima da Catalunha para mais um retrato familiar de Carla Simón depois do surpreendente "Verão 1993". Uma das apostas seguras a descobrir nas salas em tempo de férias.

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Vencedor do Urso de Ouro no Festival de Cinema de Berlim e filme de abertura do Curtas Vila do Conde deste ano, a segunda-longa metragem de Carla Simón não trai as boas primeiras impressões deixadas por "Verão 1993", estreia muito promissora da realizadora e argumentista catalã.

Mais uma vez ambientado no interior espanhol, o novo drama retoma o interesse pelo universo familiar e pelas cores e ritmos veraneantes, captados por uma combinação sóbria de realismo e humanismo. Mas se o olhar do primeiro filme privilegiava o universo da infância, o de "ALCARRÀS" é mais amplo e acolhe três gerações de um clã que vive da cultura de pessegueiros na Catalunha. Esse modo de vida, no entanto, parece estar à beira do fim quando a família é obrigada a ceder território ao senhorio, que desconsidera um antigo acordo verbal de patriarcas e pretende dedicar a área de cultivo à instalação de painéis solares.

Expondo aqui traços de um realismo social pouco evidentes em "Verão 1993", Simón continua, ainda assim, a concentrar-se sobretudo na dinâmica familiar, mesmo que esta seja inevitavelmente afectada pelo cenário cada vez mais notório de precariedade económica. O contraste entre a crise da tradição e o avanço do "progresso", ou pelo menos da mudança, marca de formas distintas o quotidiano do avô, pais, filhos, irmãos e primos, das disputas entre adultos à separação forçada de crianças ou à inquietação de adolescentes colocados no fosso de duas realidades.

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A realizadora e co-argumentista (dividiu os créditos da escrita com Arnau Vilaró) gosta claramente de todas estas personagens, acompanhando-as (de forma desigual) em vários arcos narrativos que formam uma moldura cativante, tirando partido de um elenco credível de actores não-profissionais oriundos da região e da forma meticulosa e paciente como a narrativa vai revelando as ligações entre os elementos do clã (modelo que o filme anterior também já tinha aplicado com inteligência).

Evitando o sentimentalismo sem deixar de ser sensível enquanto desenha um conto de Verão movido pela curiosidade observacional, em particular nas cenas com as crianças, especialmente vívidas e genuínas, "ALCARRÀS" não será, ainda assim, uma experiência tão singular como "Verão 1997", nem chega a atingir uma tensão dramática tão forte. E a nível formal não traz grandes rasgos, valendo-se de um recurso hábil à câmara à mão conjugado com a fotografa granulada de Daniela Cajías. Mas traduz um olhar pessoal e imersivo de uma autora que atesta uma maturidade assinalável à segunda longa-metragem, justa na abordagem às emoções e a conseguir equilibrar o caloroso e o melancólico sem esforço aparente. Mais um belo filme, portanto, a sinalizar um nome da cinematografia de "nuestros hermanos" que merece claramente o voto de confiança.

3,5/5

Um álbum à beira do abismo

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Agosto é bem capaz de ser o mês menos estimulante para edições discográficas, mas às vezes ainda se vislumbram alguns oásis no meio do deserto. Um deles talvez seja "Ever Crashing", o segundo álbum de SRSQ, projecto de Kennedy Ashlyn, que fez parte dos Them Are Us Too e dá aqui um novo passo no caminho a solo.

Entre terreno gótico e dream pop, a norte-americana tem deixado um belo conjunto de canções etéreas defendidas por uma voz envolvente, às vezes a lembrar a de Elizabeth Fraser, dos Cocteau Twins. Mas Kate Bush ou Julee Cruise também serão faróis da sua música, sobretudo de temas como "ABYSS", o single mais recente.

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Canção orquestral em câmara lenta, estende-se ao longo de sete minutos que ficam entre os mais bonitos até agora desta obra relativamente curta, depois de "Someday I Will Bask in the Sun", "Saved for Summer" e "Used to Love" já terem sido amostras promissoras para o próximo longa-duração - agendado para dia 19.

Tal como outras faixas do disco, foi inspirada por um diagnóstico de transtorno bipolar que encaminhou a autora para alguns dos seus dias mais negros, com episódios de depressão e auto-flagelação. Mas o refúgio na música acabou por tornar "Ever Crashing" um álbum de catarse depois de o antecessor, "Unreality" (2018), ter ajudado Ashlyn a fazer o luto de Cash Askew, a sua ex-colega de banda.

O videoclip, realizado pela própria ao lado de Leigh Violet, encontra-a num cenário turvo e aquático, curiosamente numa rima visual (deliberada?) com o de "Euadaemonia", cartão de visita dos Them Are Us Too: