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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Duo ele e ela, secção gótica Outono-Inverno

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Estrearam-se no Verão passado, com o álbum "Predator/Prey", e estão de volta já este ano com o sucessor. Formados em Chicago, os GRÜN WASSER têm proposto um encontro entre a darkwave e o industrial que lembra a electrónica áspera e minimalista dos ADULT. ou Boy Harsher, caminho que deverá manter-se em "Not OK With Things", disco agendado para 4 de Outubro.

 

Aposta da Holodeck Records (casa dos também regressados Automelodi), a dupla da vocalista Keely Dowd e do produtor Essej Pollock deixa algumas pistas do que esperar nos dois singles de avanço, entre sussurros nervosos e uma atmosfera de estranheza. "STRANGER'S MOUTH" e "DRIVING" estão longe de ser das canções mais convidativas para dias de Verão, mas são bons cartões de visita para o universo que o duo tem vindo a construir.

 

Os videoclips ajudam a dar forma aos ambientes cinematográficos da música, entre o thriller urbano, o filme de terror e o surrealismo à la David Lynch, cenários apropriados para canções nascidas de uma mistura de beleza e tragédia:

 

 

 

Da Rússia com fulgor (e algum mau feitio)

Apesar de ser realizado por Ralph Fiennes e de contar com Liam Neeson entre os produtores executivos, "O CORVO BRANCO" tem tido um percurso relativamente discreto. Mas este olhar sobre o bailarino Rudolf Nureyev é mais interessante do que alguns biopics que levam a corridas às bilheteiras.

 

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Depois de "Coriolano" (2011) e "The Invisible Woman" (2013), a terceira aventura de Ralph Fiennes atrás das câmaras arrisca um retrato de um dos ícones da dança do século passado. E se o resultado é bastante mais modesto do que a pedrada no charco que foi Rudolf Nureyev, não desmerece ao acompanhar os primeiros anos do bailarino russo até à entrada na idade adulta, partindo do livro "Rudolp Nureyev: The Life", de Julie Kavanagh, aqui adaptado por David Hare ("As Horas", "O Leitor").

 

A primeira visita do protagonista a Paris, nos anos 60, marca o centro de uma narrativa que vai recuando até à infância e adolescência, na sua terra natal. Essa opção, se por um lado contraria o formato linear de muitos biopics, nem sempre é a mais eficaz para ajudar a situar o espectador na cronologia de Nureyev, com os saltos temporais a quebrarem algum impacto dramático na primeira metade do filme. Também não ajuda que as sequências centradas no bailarino ainda criança, numa pequena localidade, estejam entre as mais estereotipadas, com os filtros sombrios da fotografia a reforçarem um isolamento e solidão que Fiennes ilustra com mão pesada.

 

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Nas outras fases da vida do protagonista, contudo, "O CORVO BRANCO" mostra-se substancialmente mais desenvolto, embora boa parte do mérito seja de Oleg Ivenko. Na sua primeira experiência como actor, o bailarino profissional ucraniano revela-se uma escolha de casting certeira, não só pelas parecenças físicas (surpreendentes) com Nureyev mas sobretudo pela espontaneidade e garra com que se entrega ao papel.

 

Tão insolente como obstinado, e movido por uma capacidade de deslumbramento que o filme sabe explorar ao recordar outros "grandes" das artes em paralelo, o protagonista não facilita a empatia do espectador, embora isso seja mais feitio do que defeito - o lado temperamental da estrela russa ficou bem documentado em várias ocasiões, e é bom ver que o filme não a ignora.

 

Ivenko surge bem acompanhado num elenco coeso, com destaque para o próprio Fiennes, que na pele do contido professor de dança de Nureyev opta por se expressar em russo, um dos detalhes que asseguram a verosimilhança da maioria das cenas (além de uma lição que produções como a série "Chernobyl" poderiam ter em conta, em vez de optarem pelo inglês). Adèle Exarchopoulos também convence enquanto cúmplice do protagonista em Paris, ainda que outras personagens secundárias pudessem ter sido mais exploradas, sobretudo os rapazes com quem Nureyev se vai relacionando (seja platonicamente, como o colega de quarto e um bailarino francês, ou um rapaz alemão com o qual se envolve de forma mais íntima).

 

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Embora desequilibrado, "O CORVO BRANCO" ganha outro fôlego na recta final, ao abandonar o recurso a flashbacks sucessivos para se concentrar num único acontecimento: o da tentativa de detenção de Nureyev pelo KGB em Paris, que pretendia levá-lo para Moscovo e impedi-lo de prosseguir para Londres juntamente com a sua companhia de dança.

 

De repente, Fiennes salta do drama iniciático para o thriller de contornos políticos e assina as sequências mais empolgantes do filme, mantendo-se fiel ao mergulho no individualismo e ao grito de liberdade (pessoal e artística) que percorre os momentos anteriores, também assentes nos contrastes da Guerra Fria e na repressão soviética. E consegue fazê-lo com um acumular de tensão que não desemboca no retrato hagiográfico, deixando bem evidentes as nuances da personalidade de Nureyev, que acabariam por ser determinantes para que o seu génio performativo (vincado pela diluição entre o masculino e o feminino) pudesse ter, finalmente, um palco global. 

 

3/5

 

O insustentável peso da pop

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O novo e terceiro álbum de MARIKA HACKMAN, "Any Human Friend", parece vir a dar prioridade a um rock entre o grunge e a new wave e não tanto à escola folk que dominou as primeiras canções da britânica. O primeiro (e óptimo) single, "I'm Not Where You Are", já tinha apontado nessa direcção, aliás confirmada pela cantautora, e o segundo aprimora a sensibilidade pop num dos temas mais directos desta discografia.

 

A confirmação chegará a 9 de Agosto, data de lançamento do registo, e até lá "THE ONE" vai abrindo o apetite enquanto ganha lugar entre os singles mais orelhudos da temporada, que não destoaria ao lado de canções dos Blondie ou dos Metric.

 

O salto melódico da calma ao caos tem eco num videoclip a apelar à revolta na rotina laboral, com aproximações a uma cena-chave de "O Insustentável Peso do Trabalho" ("Office Space", de 1999), filme de culto de David Slade que também sacrificava uma fotocopiadora a certa altura:

 

 

Há um novo multiverso partilhado (e inclui Portugal)

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De trapezista de circo a um percurso como estilista, LIA PARIS já se movimentou em várias áreas antes de decidir assentar na música (pelo menos por agora). Mas mesmo aí tem um currículo em bandas que passaram pelo samba, rock ou jazz, a denunciar uma artista que não parece interessada em fixar-se num território específico.

 

"MultiVerso" será, então, um título certeiro para o segundo álbum da brasileira, o novo capítulo de um caminho a solo. Editado há poucos dias, o disco tem entre os muitos colaboradores Daniel Hunt, dos Ladytron, que assegura a produção de "A Roda" (um dos pontos altos do alinhamento) depois de uma primeira parceria no EP "Lva Vermelha" (2016).

 

Os títulos de algumas canções, como "Coração Cigano", "Tropical" ou "Andaluz", também dão logo conta da versatilidade de uma música com letras em português e inglês (embora soe mais singular no primeiro caso) que vai poder ser ouvida em palcos nacionais nas próximas semanas. A cantautora paulista subirá ao palco do Musicbox (Lisboa), dia 19; da Casa da Música (Porto), dia 20; do Texas Bar (Leiria), dia 21; e do Anfiteatro Montargil (Ponte de Sor), dia 26.

 

Presença praticamente assegurada em todos esses concertos, "NOITE" é o tema de abertura do álbum e também o novo single, com um embalo sedutor a abrir a porta para um multiverso pessoal mas transmissível:

 

 

40 de 2019

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Julho é um mês mais dado a banhos do que a balanços, mas também é uma boa altura para recordar o melhor que o primeiro semestre de 2019 foi trazendo. No cinema, destaque para os regressos de Abdellatif Kechiche (apesar das polémicas), Clint Eastwood (mais do que um regresso, uma reconciliação), Christophe Honoré (idem, aspas) e Florian Henckel von Donnersmarck (não há dois sem três). Embora aquém do impacto que mereciam ter, "Brightburn - O Filho do Mal" e "Mirai" souberam fugir ao óbvio no universo dos super-heróis e da animação, respectivamente.

 

No pequeno ecrã, duas desilusões: "A Guerra dos Tronos" e "Black Mirror", com aquelas que foram, de longe, as suas piores temporadas. Valham-nos surpresas como "Pose", "Das Boot: O Submarino" ou "Boneca Russa" - um balanço mais completo ficará para depois, com outras séries cujas temporadas ainda estão a meio.

 

Nos discos, a synth-pop e arredores ficaram mais uma vez bem entregue aos Ladytron, TR/ST, Automelodi ou Boy Harsher, bandas que tem sido difícil encontrar num palco nacional (só mesmo a primeira, e já lá vão uns anos). Não por acaso, alguns dos melhores concertos vistos nos últimos meses foram mesmo fora de portas... Pelo menos vai ser possível ver Sharon Van Etten por cá daqui a uns dias (no NOS Alive), embora o convite também pudesse alargar-se a outras vozes femininas (Honeyblood, CARLA ou Requin Chagrin deixaram boas recordações nos últimos tempos). Além destes, vale a pena ir (re)descobrindo os nomes da lista abaixo:

 

10 FILMES

 

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"A Educadora de Infância", Sara Colangelo
"Agradar, Amar e Correr Depressa", Christophe Honoré
"Brightburn - O Filho do Mal", David Yarovesky
"Correio de Droga", Clint Eastwood
"Em Trânsito", Christian Petzold
"Mektoub, Meu Amor: Canto Primeiro", Abdellatif Kechiche
"Mirai", Mamoru Hosoda
"Nunca Deixes de Olhar", Florian Henckel von Donnersmarck
"Os Irmãos Sisters", Jacques Audiard
"Verão", Kirill Serebrennikov

Fora de circuito: "Bangla", Phaim Bhuiyan; "Entre Corredores", Thomas Stuber; "Mario", Marcel Gisler; "Napoli Velata", Ferzan Ozpetek

Filme nacional: "Gabriel", Nuno Bernardo

 

10 DISCOS

 

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"Careful", Boy Harsher
"Dreaming the Dark", Tamaryn
"Hypnos", Xeno & Oaklander
"In Plain Sight", Honeyblood
"Kill a Feeling", CARLA
"Ladytron", Ladytron
"Mirages au futur verre-brisé", Automelodi
"Remind Me Tomorrow", Sharon Van Etten
"Sémaphore", Requin Chagrin
"The Destroyer - 1", TR/ST

Álbuns nacionais: "Desalmadamente", Lena D'Água; "Do Outro Lado", PZ; "Enza", Throes + The Shine

 

5 CONCERTOS

 

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Automelodi no Maravillas Club, Madrid
dEUS no Coliseu dos Recreios, Lisboa
Javiera Mena na Sala Mon Live, Madrid
Mashrou' Leila na Botanique/Orangerie, Bruxelas
Throes + The Shine no B.Leza, Lisboa

 

15 CANÇÕES

 

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