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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

O vizinho acidental

"No Mundo das Mulheres" (In the Land of Women) marca a estreia na realização de mais um elemento do clã Kasdan, Jon, depois do seu pai, Lawrence ("Os Amigos de Alex", "Noites Escaldantes", "O Turista Acidental") e do irmão, Jake ("Zero Effect", "Orange County" ou episódios da série "Freaks and Geeks"). E o mínimo que se pode dizer é que o talento parece ser de família, a julgar pela forma hábil como o filme recusa os mecanismos da comédia romântica, ainda que a promoção (e mesmo o título) que lhe foi feita possa levar a que o público o confunda com um banal chick flick. Nada mais errado, este é um melodrama polido mas inteligente e perspicaz, com personagens tridimensionais em situações terra-a-terra, muito longe de fantasias românticas hollywoodescas e facilististas (tendência que aliás até critica nas entrelinhas).

Kasdan relata aqui o percurso de um jovem de 26 anos que, depois de abandonado pela namorada (mais fascinada pela ascendente carreira de modelo e actriz), deixa a sua casa em Los Angeles para passar algum tempo com a sua avó doente, no Michigan, onde tenta encontrar coordenadas para uma nova vida e terminar, finalmente, a escrita de um livro que prepara há muito. Aí, nos intervalos entre a criação de argumentos para filmes softcore - tarefa que lhe vai assegurando alguma independência financeira -, conhece a vizinha da frente, uma serena mulher de meia idade pela qual sente uma empatia imediata, e acaba por sair também com as suas filhas, sobretudo com a mais velha, uma adolescente de carácter firme.

"No Mundo das Mulheres" olha com honestidade e subtileza para as vicissitudes das relações humanas, misturando comédia e drama nas doses certas e alternando sequências ora melancólicas ora espirituosas. A banda-sonora sublinha essa atmosfera agridoce, contando com canções de bandas indie como os Mates of State, OK Go, Rogue Wave ou Kingsbury Manx. Também os diálogos, credíveis e vivos, contribuem muito para situações que nunca são forçadas, e as personagens exibem imperfeições mas não deixam de gerar empatia, tornando-se rapidamente próximas do espectador.
Junte-se uma realização fluída e atenta aos detalhes da vida nos subúrbios, assim como um elenco em estado de graça, onde tanto brilham figuras veteranas - Olympia Dukakis, uma avó hilariante, ou Meg Ryan, mãe e esposa à beira do abismo - como estimáveis novos valores - Adam Brody, a confirmar a boa impressão deixada pela série "The O.C. - Na Terra dos Ricos", ou Kristen Stewart, para quem se prevê uma carreira profícua - e não é preciso mais para que aqui se encontre um dos mais belos filmes dos últimos tempos.

Infelizmente, os muitos bons elementos de "No Mundo das Mulheres" não o impedem de perder algum fulgor na recta final, onde Kasdan parece não saber como resolucionar a teia de relacionamentos que foi desenvolvendo - à semelhança do protagonista, que não encontra um desenlace convincente para o seu livro. Não é um grande tropeço, apenas menos satisfatório do que o que o argumento oferece até aí, embora acabe por retirar algum do impacto emocional ao filme, caindo na mediania após um punhado de sequências brilhantes. Este desequilíbrio percebe-se tendo em conta que esta é, afinal, a obra de estreia de Kasdan, mas pelos momentos refrescantes e inspirados que oferece espera-se que seja a primeira de muitas.

E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

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