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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

ECOS DO PASSADO

O ex-vocalista dos James, Tim Booth, actuou na passada terça-feira, dia 2, na Aula Magna em Lisboa. O cantor trouxe na bagagem o seu recente disco a solo, "Bone", mas não resistiu à evocação de algumas das memórias da sua antiga banda.

Um dos grupos de terras de Sua Majestade mais acarinhados pelo público português na década de 90, os James foram gerando um devoto e atento grupo de fãs entre nós através de canções marcantes como "Sit Down", "Born of Frustation" ou "Say Something". As suas actuações ao vivo também auxiliaram, e muito, a criação do culto, não deixando a audiência indiferente e fornecendo boas memórias. Por isso, o regresso de Tim Booth a salas nacionais gerou alguma curiosidade e expectativa, assinalando a sua segunda prestação a solo em Portugal (a primeira decorreu no Festival Sudoeste deste ano).

Numa noite de chuva, o concerto adoptou os tons do clima e iniciou-se de forma não muito calorosa ao som de uma discreta versão acústica de "Laid" (um dos temas mais mediáticos dos James). Aos poucos, as atmosferas de calmaria e alguma frieza iniciais foram derretendo e deram lugar a uma crescente simbiose entre o cantor (acompanhado pelo grupo que o suporta a solo) e o fiel público da Aula Magna. Confirmou-se, então, a química especial que o ex-elemento da saudosa banda de Manchester partilha com os fãs portugueses, dado que o espectáculo, tímido e algo morno no princípio, logo se transformou num concentrado de contagiante energia e vibração.

Se "Bone" não representou um regresso à melhor forma de Tim Booth (apesar de interessante, é um disco desequilibrado), as actuações ao vivo do cantor não padecem de tal falta de chama, pois a noite de dia 2 assinalou grandes doses de profissionalismo e empatia. As canções dos James, como não poderia deixar de ser, despoletaram alguns dos picos de aclamação da noite, com destaque para "Sometimes", um dos seus hinos clássicos que extasiou o público.

O caloroso ambiente encorajado por Booth e os seus colegas de palco suscitou momentos de boa-disposição, originando uma atmosfera afável e intimista, aquecendo os ânimos e contrastando com as brumas outonais do exterior da sala. O cantor chegou mesmo a sair do palco para se infiltrar na plateia, convidando à dança e conquistando os espectadores. O convite foi aceite diversas vezes, embora o espaço não fosse o mais propício a grandes movimentos físicos.

A noite ficou marcada por canções apelativas como o primeiro single retirado de "Bone" - o trauteável e radio-friendly "Down to the Sea"-, o hipnótico e dinâmico "Monkey God" ou os fortes tons pop de "Wave Hello". Para encerrar o ambiente festivo, o muito solicitado encore recuperou a serenidade inicial e ofereceu o introspectivo "Fall in Live", registando uma despedida melancólica (e que soube a pouco...).

Apesar de ter durado pouco mais de uma hora, o concerto de Tim Booth confirmou a vitalidade e boa forma vocal do cantor, assim como o seu reconhecido carisma em palco. Ficamos à espera do próximo disco e, sobretudo, de um novo concerto...

E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

ONE MAN ARMY

Conhecido por títulos como "State & Main" ou "Jogo Fatal" (House of Games), David Mamet é um cineasta que tem trabalhado o tema das aparências ilusórias e verdades dúbias em grande parte dos seus projectos. O seu novo filme, "Spartan - O Rapto", não foge à regra e volta a investir numa narrativa com surpresas recorrentes e twists constantes, apresentando uma aventura cuja complexidade tende a aumentar progressivamente.

No cerne da acção encontra-se Scott (Val Kilmer), um agente especial que é incumbido de descobrir o paradeiro de Laura, a jovem filha de um influente político americano. À medida que o agente prossegue a sua busca e investigação, vê-se envolvido numa teia de revelações cada vez mais desconcertantes e inesperadas, tornando-se numa peça essencial (e indesejada) de um intrincado esquema de corrupção e interesses.

"Spartan - O Rapto" aposta assim num jogo de múltiplas e inquietantes peripécias que inserem o protagonista numa atmosfera de meias-verdades, esquemas de espionagem e um (sub)mundo de determinantes e nocivas convulsões. A lealdade dos aliados de Scott torna-se progressivamente questionável e a figura do "inimigo" permanece uma incógnita, uma vez que este se encontra enraizado em diversos quadrantes de uma sociedade contemporânea caracterizada por intensos fluxos de informação. Por isso, Scott só pode contar consigo mesmo, travando um combate isolado na tentativa de resgatar Laura (à semelhança dos soldados que o Rei de Esparta, Leónidas, enviava para os seus inimigos, preferindo atacar de forma abrupta através de um homem só em detrimento de um exército).

Val Kilmer interpreta competentemente o sisudo e perspicaz Scott, e o restante elenco (William H. Macy, Derek Luke, Tia Texada) fornece prestações igualmente seguras, apesar da caracterização das personagens não ser muito complexa e entusiasmante (apenas o protagonista tem um desenvolvimento com alguma substância, uma vez que as figuras secundárias são reduzidas a meras peças da engrenagem). A falta de chama das personagens é compensada pela eficiência do argumento, mas mesmo este apresenta alguns problemas, dado que certas surpresas são tão inesperadas quanto inverosímeis, tornando o filme inconstante e irregular.

A realização de Mamet, sofisticada e eficaz, auxilia o tom minimalista desta história de espionagem com um carácter mais cerebral do que explosivo. Ao contrário de muitos thrillers, "Spartan - O Rapto" não proporciona uma overdose de sequências de acção ultra-dinâmicas, antes prefere optar por uma vertente mais discreta e sóbria. Este elemento torna o filme frio e distante em alguns momentos, mas gera também curiosas cenas de suspense e episódios que testam as certezas do espectador.

Mais criativo do que alguns dos títulos recentes de Mamet (os insípidos "Heist - O Golpe" e "O Prisioneiro Espanhol") e ambientado num contexto de forte ambiguidade política e moral (aludindo para o poder dos media e os conflitos de interesses de uma nova e problemática ordem mundial), "Spartan - O Rapto" é um interessante e eficaz thriller, que sofre contudo de um argumento pouco convincente e credível a espaços. Dentro do género, atreve-se a oferecer algumas curiosas variações e a afastar a previsibilidade que mina muita da concorrência actual, reforçando o talento de um realizador que ainda consegue surpreender.

E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

THE BOYS ARE BACK IN TOWN

Os germânicos Rammstein regressam a palcos portugueses para um concerto no Pavilhão Atlântico na próxima terça-feira, dia 9. Espera-se um concentrado de pirotecnia, dinamismo e amplas doses de energia cinética (por isso não se deixem enganar pelo aspecto sereno e amistoso da foto...).

Antes dos carismáticos alemães entram em cena os italianos Exilia, às 20h30m (meia hora mais cedo do que havia sido divulgado inicialmente), para apresentar o seu mais recente álbum "Unleashed". Tendo já tocado nas primeiras partes de concertos dos Guano Apes, HIM, Ill Niño, Pink e Therapy, os Exilia contam já com rodagem de palco suficiente para abrir as hostilidades antes do peculiar grupo alemão.
Com um (bom) álbum acabado de chegar às discotecas, os Rammstein estarão presentes em Lisboa na sequência da sua digressão europeia. "Reise Reise", o novo registo de originais, é o sucessor do portentoso "Mutter" e conta com algumas canções de refrão forte que já rodam nas rádios. O abrasivo "Mein Teil" e o subversivo "Amerika", os dois primeiros singles, comprovam a eficácia da banda, embora o novo disco exiba muitos outros momentos marcantes como o frenético "Moskau" ou o intrigante "Amour". Com méritos reconhecidos nas suas prestações ao vivo, onde a imagem é tão vital como a música, o sexteto traz a palcos nacionais a sua original e característica mistura de metal, rock, industrial-gótico e techno. Uma boa proposta para a véspera do meu aniversário...