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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

ISTO (NÃO) É NORMAL

Uma das bandas mais interessantes a trabalhar nos domínios da electrónica na recta final dos anos 90, os Gus Gus foram, também, uma das mais subvalorizadas. No entanto, "This is Normal", o segundo disco do colectivo, de 1999, eleva-se bem acima da mediania através de uma muito conseguida mistura de pop, house, techno, trip-hop, jazz, ambient e electro.

Apresentando uma complexa sonoridade fim-de-milénio, "This is Normal" é um álbum diversificado e intrigante, contendo sonoridades envolventes que rapidamente se tornam viciantes. Expondo vozes masculinas e femininas e contrastando-as com atmosferas glaciares, nocturnas e hipnóticas, o disco torna-se simultaneamente estranho e cativante. Essa estranheza verifica-se também nas letras das canções, ambíguas e incomuns, reforçando a peculiar personalidade da banda.

Começando por conquistar logo pela excelente capa - ou não fosse esta da editora 4AD, meticulosa e inovadora a nível gráfico - "This is Normal" proporciona uma viagem por ambientes futuristas, experimentais e sedutores, e entre os momentos de eleição salienta-se o contagiante electropop de "Starlovers", o denso e quase cinematográfico "Blue Mug", o delicado e subtil "Bambi", o enérgico e dançável "Love vs Hate" ou o negro e claustrofóbico "Snoozer".

Consistente, bem-estruturado e inovador, o segundo álbum dos Gus Gus é o melhor que o colectivo gerou até hoje. Os seus sucessores, "Gus Gus vs T-World", de 2000, e, sobretudo, o indistinto "Attention", de 2002, desiludiram ao não exibir os traços de criatividade de "This is Normal". O disco confirma também que a pop islandesa não se resume apenas aos Múm e aos (sobrevalorizados? Eu acho que sim) Bjork e Sigur Ros.

Um dos melhores exemplos da electrónica de finais de 90, para colocar ao lado de Massive Attack, Lamb, Morcheeba, Air, Tricky e Sneaker Pimps...

E O VEREDICTO É: 4/5 - MUITO BOM

REGRESSO AO PASSADO

Muitas vezes, no cinema e noutros domínios artísticos, a melhor forma de surpreender não nasce tanto da inovação mas antes da recuperação de marcas do passado, devidamente contextualizadas e adaptadas ao presente. "Sky Captain e o Mundo de Amanhã" (Sky Captain and the World of Tomorrow), embora inove em alguns aspectos - essencialmente nos visuais - assenta muito num tipo de cinema cuja fase áurea ocorreu nos anos 30 e que raramente encontra sucedâneos nos dias de hoje (pelo menos de forma tão óbvia e decalcada).


A narrativa do primeiro filme de Kerry Conran situa-se na Nova Iorque dos anos 30, não propriamente na do nosso mundo, mas na de um universo mais fantasioso, ingénuo e cartoonish. Um universo onde robôs gigantescos podem invadir cidades de forma abrupta, mas onde há também a esperança da salvação devido à coragem de intrépidos heróis.

As influências da película são as mais diversas - o tom despretensioso da série-B, o carácter lúdico dos comics norte-americanos, as atmosferas nostálgicas do cinema de aventura/ficção científica dos anos 30 - e remetem para um período mais cândido, embora algo maniqueísta e mesmo simplista à luz do que se faz hoje.

"Sky Captain e o Mundo de Amanhã" exibe traços do cinema clássico mas possui também a sofisticação das mais avançadas tecnologias digitais, aqui utilizadas para a criação dos impressionantes cenários artificiais (gerados através do blue screen, que possibilita a construção de espaços virtuais). Esta revisita do passado com tecnologias modernas torna o filme numa curiosa aventura retro-futurista, uma experiência invulgar num contexto de blockbusters formatados e pouco entusiasmantes. Kerry Conran oferece uma interessante componente visual nesta sua primeira obra, mas o argumento não exibe, infelizmente, tanta solidez e criatividade, desenrolando-se de forma demasiado previsível e convencional.


A linearidade da narrativa funciona, no entanto, como uma forma de homenagear algumas das obras da era dourada de Hollywood (que também apresentavam um ritmo escorreito e reduzida densidade emocional), às quais "Sky Captain e o Mundo de Amanhã" retira inspiração. As personagens seguem igualmente esses traços, desde o altruísta e audacioso Sky Captain (Jude Law, numa interpretação convincente) à curiosa e insinuante jornalista Polly Perkins (Gwyneth Paltrow, que incorpora mais uma loura fria e distante), passando pela muito breve participação de Franky Cook (Angelina Jolie, no papel de uma provocante e corajosa agente especial). O trio pode ser acusado de unidimensionalidade, mas o recurso ao estereótipo é intencional - e até justificável - numa obra desta índole.


"Sky Captain e o Mundo de Amanhã", com tanto de imaginativo como de banal, consegue acrescentar algum fôlego ao estafado cinema de aventuras, apresentando uma apelativa dimensão visual numa experiência cinematográfica que combina eficazmente acção, ficção científica, romance e humor (com piscadelas de olho às comédias screwball na divertida relação agridoce das personagens de Jude Law e Gwyneth Paltrow).

Um entretenimento competente, a espaços prodigioso, na linha das aventuras infanto-juvenis capazes de agradar a um público dos 7 aos 77. E talvez marque o início da saga de um novo herói (sem superpoderes) a adicionar à galeria onde se encontram James Bond, Indiana Jones e outros nomes míticos da cultura popular recente.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

CRUELDADE INTOLERÁVEL

Vencedor do Booker Prize em 1998, "Amesterdão" (Amsterdam), de Ian McEwan, é um mordaz retrato da sociedade aristocrática britânica e um olhar sobre os efeitos da mentira, do egoísmo e da fama.

O livro foca a relação de dois amigos, Clive Linley, um conceituado compositor, e Vernon Halliday, editor de um influente jornal. Estas duas personagens encontram-se interligadas por Molly Lane, uma conhecida figura londrina cujo funeral despoleta o início da intriga. Ian McEwan aproveita esta cerimónia fúnebre para iniciar uma narrativa com tons de comédia negra e algum drama, debruçando-se sobre o eventual antagonismo entre a supremacia do ego e os valores ético-morais.

Apesar de Molly Lane ser o elemento de ligação entre as personagens principais deste romance - quase todas foram seus amantes -, McEwan não apresenta muitas informações acerca da sua vida ou dos factores que a tornaram tão carismática, não nos elucidando quanto aos motivos que a transformaram num alvo de tamanha admiração. Mesmo as restantes personagens carecem de maior caracterização e desenvolvimento, uma vez que, nos momentos que antecedem o desenlace, Clive e Vernon exibem comportamentos pouco fundamentados e algo contraditórios face ao que ocorreu anteriormente. McEwan compensa esta limitação com um argumento imprevisível, incluindo reviravoltas suficientes para manter o interesse, mas mesmo aí as personagens parecem ser apenas elementos despoletadores de acontecimentos e não agentes com vontade e motivações próprias.

O escasso número de páginas do romance - menos de 200 - poderá justificar parte da superficial densidade dramática das personagens, embora se esperasse um pouco mais de um autor que já provou - no intrigante e assombroso "O Jardim de Cimento" (The Cement Garden), por exemplo - conseguir mergulhar, de forma exímia, nas tensões e fragilidades humanas. O ritmo também nem sempre entusiasma, já que a primeira metade do livro se desenrola de forma demasiado lenta e, quando a narrativa se torna mais estimulante, é afectada por um final algo conturbado e não muito convincente.

Embora a esfera emocional dos seus protagonistas seja pouco aprofundada, "Amesterdão" proporciona algumas interessantes observações sobre os limites da amizade, os ambientes do jornalismo (e a ameaça da tabloidização, sobretudo tendo em conta que a acção se desenrola em Inglaterra), crispações políticas, o lado negro da fama ou o florescimento do processo de criação artística. Estes elementos conseguem cativar a atenção e promover alguma reflexão, mas não chegam para salvar a reduzida empatia gerada pelo duo protagonista (Clive, auto-indulgente e narcisista, e Vernon, implacável e vingativo). Se, por um lado, a dupla é adequada para um romance de contornos satíricos e irónicos como "Amesterdão", tem a desvantagem de não nos cativar, pelo que o seu destino nos é indiferente e irrelevante. Por isso, o livro torna-se cada vez mais frio e distante e, embora exiba curiosos episódios a espaços, não é a obra mais recomendável de um dos maiores escritores britânicos contemporâneos.

E O VEREDICTO É: 2/5 - RAZOÁVEL

VIBRAÇÃO, ENERGIA E ALMA ROCK

Ao sexto disco de originais, um dos nomes mais prestigiados do rock alternativo actual volta a convencer e a acrescentar mais um interessante capítulo a uma relativamente curta, mas versátil, carreira.

Figura ímpar no panorama musical de hoje, PJ Harvey tem conseguido captar as atenções de um público cada vez mais alargado sem nunca perder o respeito dos fiéis seguidores que a elogiam desde o início e a tornaram numa artista de culto. Essa aproximação a cenários mainstream verificou-se sobretudo em "Stories From the City, Stories From the Sea", de 2000, o seu álbum mais acessível, com uma considerável carga pop, mas nem por isso menos desafiante. "Uh Huh Her", o seu sucessor, revela-se menos directo e imediato, voltando a exibir marcas dos registos iniciais da cantora.

O primeiro single "The Letter" acentuou o regresso a um rock ríspido e potente, semelhante a alguns momentos de discos como "Dry" ou "Rid of Me", e parte dos restantes temas do novo álbum - "Who the Fuck", "Cat on the Wall - exibem essa visceralidade presente nos trabalhos de estreia de PJ Harvey. De resto, "Uh Huh Her" revisita muitas das etapas da discografia da artista, apresentando canções que não destoariam em discos anteriores. As etéreas e densas "It`s You" ou "The Desperate Kingdom of Love" relembram episódios do incontornável "To Bring You My Love", a hipnótica e atmosférica "The Slow Drug" revisita os ambientes claustrofóbicos de "Is This Desire?" e as belíssimas "Shame" e "You Came Through" seguem as tonalidades mais melódicas e apelativas de "Stories From the City, Stories From the Sea".

Esta ligação de "Uh Huh Her" a marcas sonoras do passado não esgota, contudo, o disco num mero exercício de "mais do mesmo", uma vez que a maioria dos temas são suficientemente consistentes para ultrapassarem essa limitação. O problema é que, por vezes, o álbum parece demasiado fragmentado e pouco coeso, dada a diversidade de domínios contrastantes das canções. Apesar de sólido, "Uh Hur Her" não consegue, por isso, ser tão forte e contagiante como alguns dos seus antecessores, sendo penalizado por alguma falta de fluidez. Mesmo assim, há por aqui consideráveis doses de surpresa e inquietação que justificam múltiplas audições, comprovando a vitalidade de PJ Harvey e da sua peculiar amálgama de rock, blues, pop, indie e punk.

E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

ESTREIAS DA SEMANA - 25 DE NOVEMBRO A 1 DE DEZEMBRO

"Nicotina", "The Incredibles: Os Super Heróis", "Open Water - Em Águas Profundas", "História de Marie e Julien", "Lealdade Traída", "A Costa dos Murmúrios" e "O Apartamento" são as estreias cinematográficas da semana.


"Nicotina", de Hugo Rodríguez, apresenta as interligações de nove personagens na Cidade do México, numa história que envolve criminosos, reviravoltas e muito humor negro. Já comparado a "Snatch - Porcos e Diamantes", de Guy Ritchie, ou "Amor Cão" (Amores Perros), de Alejandro Gonzalez Iñarritu, "Nicotina" tem Diego Luna como protagonista (um dos novos valores mexicanos, a par de Gael Garcia Bernal).

"The Incredibles: Os Super Heróis" é mais uma longa-metragem de animação com a marca de qualidade da Pixar. Desta vez, a acção centra-se numa família de super-heróis e nas peripécias mirabolantes que terão de enfrentar. Brad Bird realiza esta película que promete.


"Open Water - Em Águas Profundas" relata as experiências de um casal que, devido a um imprevisto, fica isolado nos mares das Caraíbas. O duo terá de resistir às ameaças climatéricas e à intensa circulação de tubarões. Esta obra de Chris Kentis foi um dos filmes independentes mais elogiados do ano nos EUA, distinguindo-se pelo seu realismo e recurso a poucos meios. Já vi e não acho que mereça o hype e a grande percentagem de críticas positivas a nível internacional...Em breve falo mais do filme.


"História de Marie e Julien" (Histoire de Marie et Julien) é o mais recente filme de Jacques Rivette e foca uma história de amor, segredos e chantagens, dando continuidade aos olhares do realizador sobre as relações humanas. Emmanuelle Béart encontra-se entre as protagonistas deste drama.


"Lealdade Traída" (A Different Loyalty) baseia-se na experiência verídica de uma mulher que descobre que o seu marido trabalha para os serviços secretos. Dirigido por Marek Kanievska, esta amálgama de romance e espionagem inclui Sharon Stone e Rupert Everett entre os nomes do elenco.


"A Costa dos Murmúrios" inspira-se no romance homónimo de Lídia Jorge e apresenta uma perspectiva sobre os efeitos da guerra colonial, focando a conturbada relação amorosa de um jovem que cumpre o serviço militar e da sua namorada que o visita em Moçambique. Beatriz Batarda, Filipe Duarte, Adriano Luz, Mónica Calle são alguns dos actores deste filme de Margarida Cardoso.


"O Apartamento" (Wicker Park) é uma nova versão "L` Appartement", de 1996, realizado por Gilles Mimouni e protagonizado pelo casal Vincent Cassel/ Monica Bellucci. Paul McGuigan adapta a história aos EUA dos dias de hoje e narra as convulsões amorosas de um jovem nesta mistura de drama e thriller. Josh Hartnett e Diane Kruger constituem a dupla central.