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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

HINOS URBANOS

A fusão de referências herdadas do hip-hop, folk, rock e música de dança esteve na origem de muitos - e criativos - projectos musicais dos anos 90, como Beck, Eels, Soul Coughing, Bran Van 300, DJ Shadow ou Luscious Jackson, entre outros, e gerou alguns dos discos mais marcantes dessa década.

"Ordinary Man", o primeiro álbum dos Day One, foi editado em 2000 e consegue ainda destacar-se como um dos exemplos felizes desse cut n' paste de sonoridades e domínios estéticos.


Só o facto de ser um dos nomes divulgados pela editora Melankolic, dos Massive Attack, já tornava o projecto num caso curioso, mas a audição do disco revela que a aposta foi mais do que merecida.

O duo de Phelim Byrne (vocalista) e Donni Hardwidge (multi-instrumentista) apresenta uma muito convincente estreia que congrega o hipnotismo das batidas trip-hop, a aspereza do indie rock, a vertente aconchegante da folk, as camadas doces da pop e a linguagem de rua do hip-hop. É certo que esta mistura de elementos já foi efectuada anteriormente por outros artistas, mas os Day One conseguem gerar aqui uma perspectiva pessoal e singular que os afasta de comparações mais óbvias, construindo uma identidade própria e refrescante.

Embora o disco esteja marcado por ambientes minimalistas, exibindo uma postura lo-fi, o trabalho de produção é exímio e minucioso, o que não é propriamente inesperado tendo em conta que o produtor é Mário Caldato Jr. (colaborador habitual dos Beastie Boys).

As canções ora seguem formas mais convencionais - como na simplicidade pop de "In Your Life" - ora enveredam pelo spoken-word - em "Walk Now, Talk Now" -, mantendo sempre apelativas e surpreendentes sonoridades electro-acústicas.


O resultado final é diversificado mas coeso, unindo um irresistível sentido de humor a uma sentida melancolia e proporcionando episódios tão entusiasmantes como a envolvente e apaziguada "Autumn Rain", as sombrias "Truly Madly Deeply" e "Paradise Lost", os tons optimistas e harmoniosos de "Love on the Dole", a irreverência e ironia de "Bedroom Dancing" e "Trying Too Hard" ou a urgência de "I'm Doing Fine", este o grande momento do disco (o que não é fácil, num álbum repleto de óptimos temas).


Para além das versáteis atmosferas sonoras, outro dos trunfos fortes de "Ordinary Man" são as letras, que reflectem perspicazes retratos do quotidiano urbano e condensam sensibilidade, ironia e uma considerável vertente lúdica.

A voz de Phelim Byrne contém emotividade suficiente para carregar as canções, apresentando subtis fragmentos da vida contemporânea marcados por um idealismo realista.


Apesar de conter bons ingredientes, "Ordinary Man" é um daqueles discos perdidos que permanece numa quase total obscuridade, inversamente proporcional aos traços de criatividade e pontuais momentos de génio que oferece. No entanto ficará, para aqueles que o conhecem, como um saudável exemplo de (re)invenção da linguagem da pop para o novo milénio, assinalando uma das estreias mais auspiciosas dos últimos anos.

E O VEREDICTO É: 4/5 - MUITO BOM

SIM, OUTRO FILME DE ADOLESCENTES...

Co-argumentista de "Cães Danados" (Reservoir Dogs) e "Pulp Fiction", de Quentin Tarantino, e realizador de "Killing Zoe", Roger Avary adapta, em "As Regras da Atracção" (The Rules of Attraction), a obra literária homónima de Bret Easton Ellis para o grande ecrã.

Através de "Psicopata Americano", "Menos que Zero", "Os Confidentes" ou "Glamorama", Ellis retratou, com uma ácida e cortante perspectiva, as experiências dos adultos jovens norte-americanos – especialmente a facção yuppie - durante os anos 80 e a alvorada dos anos 90, com um estilo singular que despertou as mais diversas reacções.

Um filme como "As Regras da Atracção" mantém essa natureza corrosiva e dura indissociável da obra de Ellis, apresentando simultaneamente traços aparentados dos títulos cinematográficos em que Roger Avary trabalhou (humor negro, niilismo, ambientes sombrios, entre outros).


Focando as peripécias de três jovens universitários, a película gera um olhar negro e inquietante sobre domínios da angústia adolescente e do período de instabilidade emocional que vinca a chegada à idade adulta.

Tendo em conta que o argumento é baseado num livro de Easton Ellis, "As Regras da Atracção" raramente apresenta momentos de candura e optimismo, optando antes por despoletar uma complexa teia que combina a tragédia e a comédia de forma desconcertante (a cena do suicídio, em particular, elabora essa estranha mistura de coordenadas).


Contrariamente à maioria dos filmes de adolescentes habituais, marcados por uma linearidade e esquematismo que em nada inovam, aqui a narrativa encontra-se repleta de camadas e texturas, registando-se uma efervescente interligação entre a intrincada montagem, os truques da câmara (split screens, rewinds e demais estratégias de sedução visual) e a adequada banda-sonora (onde constam The Cure, Erasure ou Love&Rockets, entre outros nomes agarrados às fronteiras indie/mainstream). Esta lúdica vertente formal contribui muito para o surgimento de uma aura específica que afasta "As Regras da Atracção" do teen movie mais banal, mas para além do (apelativo) estilo, o filme contém ainda suficientes doses substância.


A curiosa mescla de som e imagem - como a excelente trip pela Europa - é complementada pela refrescante narrativa que se divide pelas perspectivas de vários narradores, o que cria um interessante - ainda que por vezes confuso - ritmo para o filme (o dinamismo narrativo lembra, por exemplo, os saudosos "Pulp Fiction" ou "Trainspotting").

Devido à sua dimensão de filme-puzzle, "As Regras da Atracção" possui um argumento pouco convencional, centrado, essencialmente, nos pontos-de-vista de três personagens: Sean (interpretado por um soturno e convincente James Van Deer Beek), egoísta e arrogante, um daqueles protagonistas susceptíveis de desencadear as mais fortes aversões devido à aparente escassez de valores que o redimam; Lauren (a sempre eficaz Shannyn Sossamon), uma relutante jovem que tenta resistir à solidão enquanto espera pelo regresso do namorado; e Paul (Ian Somerhalder, provavelmente a melhor interpretação do filme), bissexual e incapaz de criar laços sólidos com os que o rodeiam.


As interacções do trio protagonista originam um conturbado triângulo amoroso quando Paul (ex-namorado de Lauren) tenta aproximar-se de Sean, embora este o repudie ao investir numa tentativa de sedução de Lauren.

Estas relações entrecruzadas estão na origem de cenários de frustração e desilusão, que Avary condimenta com consideráveis doses de comédia negra a par de algumas cenas irreverentes e algo gratuitas.


Pela narrativa circular passa uma reflexão sobre o vazio e vulnerabilidade emocional, e por detrás do "fogo de artifício" encontram-se atmosferas de solidão e amargura, que se revelam à medida que as personagens se afastam progressivamente de uma certa unidimensionalidade inicial. O último terço do filme é particularmente intrigante, pois após a descarga de cinismo, hedonismo e aspereza, Avary proporciona envolventes e inesperados territórios góticos e poéticos, cujo ponto alto é o diálogo final entre Paul e Lauren e o abrupto - e muito apropriado - desenlace.


Esta amálgama de episódios a espaços inconsequentes com uma subtil vibração dramática confunde e pode tornar-se desconfortável - a canção "So Alive", dos Love&Rockets, nunca foi tão sinistra como na poderosa cena entre Sean e Paul - mas torna "As Regras da Atracção" num muito estimulante retrato da crise de valores e princípios, da depressão e da desumanização que se insinua nas sociedades contemporâneas.

Não se procura, aqui, fornecer uma visão demasiado realista da experiência universitária (até porque seria redutor caracterizá-la somente com um enfoque baseado no negrume e desolação), antes um olhar satírico e cáustico sobre a natureza dúbia e a carga mais negra do decisivo processo de crescimento.

"As Regras da Atracção" oferece, assim, uma viagem emocional alucinatória e hipnótica tão ímpar e memorável como os igualmente recomendáveis "Donnie Darko", de Richard Kelly, ou "Ghost World - Mundo Fantasma", de Terry Zwigoff, outros entusiasmantes títulos indie acerca das tensões da juventude actual.

E O VEREDICTO É: 4/5 - MUITO BOM

SPOOKY...

Estava eu hoje muito sossegado em mais uma rotineira viagem de comboio, meio inerte devido à partitura de imitação de música clássica (ou de elevador?) que já é habitual ouvir neste percurso (nem sequer é uma opção...), quando a rapariga, aparentemente inofensiva, que estava sentada ao meu lado colocou os auscultadores e começou a ouvir (e eu, embora involuntariamente) um concentrado de hits de gente tão apelativa como Anastasia ou Evanescence :S

Era só o que me faltava para complementar mais um dia de trabalho, ouvir as estridentes melodias (?) de tão apelativas figuras...Decididamente, viajar de comboio pode ser uma experiência sinistra e assustadora...

Tenham medo, tenham muito medo...

Brrrrr....Run, run for your life!!! BIG BAD ANASTACIA is everywhere!!!!