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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

CYBERPOP 3D

Com o seu segundo álbum de originais, os Garbage proporcionaram, em 1998, um dos melhores registos pop de final do milénio.
Em "Version 2.0.", a amálgama de rock e electrónica aprimora as desafiantes sonoridades do igualmente recomendável disco de estreia e oferece um saboroso conjunto de doze canções, qualquer delas candidata a single perfeito e inesgotável.

Se em "Garbage" a banda apostava numa simbiose de influências que percorriam o grunge, indie rock, shoegaze e alguns travos góticos, devidamente acompanhadas por uma considerável carga electrónica, em "Version 2.0." os ambientes centram-se numa estimulante power-pop mesclada com reminiscências techno/industriais e trip-hop.

 

 

Mais acessível do que o álbum antecessor, não é por isso menos ousado e inventivo, dado que as cativantes e trauteáveis melodias encontram-se imersas numa complexa rede electrónica composta por um minucioso trabalho de produção.
Devido à densa presença de loops e samples (profissionalmente trabalhados), "Version 2.0." consegue surpreender ao longo de várias audições, e cada canção possui um recanto com territórios inexplorados e refrescantes.

As absorventes texturas e camadas sonoras que o grupo utiliza nas suas composições já seriam suficientes para entusiasmar, mas a sedutora e carismática voz de Shirley Manson fornece uma considerável mais-valia. Por vezes frágil e delicada, como na etérea balada "You Look So Fine", noutros momentos portentosa e rude, como na dinâmica "I Think I'm Paranoid", a presença da vocalista é um condimento tão essencial como o intrincado trabalho de estúdio originado por Buth Vig e demais elementos da banda.

Mais polido e "limpo" do que "Garbage", uma vez que não possui atmosferas tão claustrofóbicas e nebulosas como este, "Version 2.0." contém, ainda assim, uma série de canções pop de alto calibre, como a intrigante "Sleep Together", a belíssima "The Trick is to Keep Breathing", a irresistível e ultra-dançável "Dumb" ou a criativa e viciante "Hammering in My Head" (com uma estranha, mas hipnótica, mistura de techno e spoken word, num dos momentos mais experimentais do álbum).

Apelativo, ecléctico e consistente, "Version 2.0." é um brilhante sucessor de "Garbage", destacando-se, juntamente com este, como um dos mais interessantes discos da década de 90 a interligar as linguagens do rock e da electrónica, numa soberba combinação de referências e universos cada vez mais indissociáveis.

 

E O VEREDICTO É: 5/5 - EXCELENTE

O AMOR NÃO ESCOLHE IDADES (NEM ENCARNAÇÕES)

Há dois anos, o norte-americano Dylan Kidd foi apontado por algumas vozes como um dos mais promissores jovens realizadores dos últimos anos devido aos méritos da sua primeira longa-metragem.
O motivo do considerável entusiasmo era "Roger Dodger", uma comédia razoavelmente subtil e perspicaz sobre "as regras da atracção", apresentadas a partir dos ensinamentos de um tio playboy, Roger Dodger, a um sobrinho adolescente em busca de afirmação. Embora fosse um filme bem interpretado (sobretudo pelo actor principal, Campbell Scott) e com uma curiosa perspectiva da noite nova-iorquina, a obra de estreia de Dylan Kidd não continha a tal genialidade que justificasse a aclamação que alguns suscitaram.

O segundo filme do realizador, "P.S. Amo-te" (P.S.), também não possui atributos que tornem Kidd num cineasta particularmente inspirado.
Desta vez, a acção centra-se numa personagem feminina, Louise Harrington (Laura Linney em mais uma interpretação segura), uma professora da Universidade de Columbia de 39 anos com uma vida pouco motivadora. Algumas doses de irreverência são injectadas no seu quotidiano quando entrevista um jovem pintor de 18 anos candidato à escola de artes onde lecciona (Topher Grace, um actor a reter) e nasce entre ambos uma repentina atracção. A situação é ainda mais inusitada tendo em conta que o jovem, com quem Louise enceta uma relação, exibe diversas semelhanças - tanto na fisionomia como na personalidade e até no nome - com um ex-namorado seu, falecido há vinte anos.

Inspirado num romance de Helen Schulman, "P.S. Amo-te" tem um mote relativamente interessante, mas à medida que o filme se desenvolve as ideias descoordenam-se e a narrativa oscila entre cenas de drama e comédia nem sempre bem combinadas.
A ligação entre o par central é envolvente e as cenas iniciais entre ambos expõem uma visível química, por isso lamenta-se que outros elementos da película não estejam à altura dessa intensidade, uma vez que há personagens secundárias pouco interessantes - sobretudo a de Marcia Gay Harden - e alguns momentos inconsequentes que denotam uma certa relutância quanto ao rumo que o argumento deve seguir.

As cenas entre Louise e a melhor amiga, nos minutos finais, são particularmente desinspiradas, levando o filme para territórios próximos de um esoterismo nada abonatório (quando se questiona a hipótese de uma reencarnação) misturado com os piores vícios das comédias românticas.

Sobram alguns episódios vincados por uma absorvente tensão emocional, que conseguem gerar um olhar maduro sobre a complexidade das relações humanas (as cenas entre Linney e Gabriel Byrne, por exemplo), e um argumento que por vezes surpreende - pela positiva e pela negativa - por tentar contornar alguns lugares-comuns dos chick-flicks.

O resultado final de “P.S. Amo-te” é aceitável e competente, mas ainda não foi desta que Dylan Kidd trouxe sangue novo ao cinema independente norte-americano.

E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

AMOR DE PERDIÇÃO

A expectativa era considerável, tendo em conta, sobretudo, o sucesso do emblemático "O Fabuloso Destino de Amélie" (Le Fabuleux Destin d`Amélie Poulain), mas o novo filme de Jean-Pierre Jeunet, "Um Longo Domingo de Noivado" (Un Long Dimanche de Fiançailles) permite finalmente ver o resultado da segunda colaboração entre o realizador e a actriz Audrey "Amélie" Tautou.

A dupla gerou, no filme anterior, um dos mais acarinhados filmes franceses dos últimos anos, muito bem recebido pelo público a uma escala considerável (a crítica, no entanto, não foi tão unânime), por isso o novo projecto despoletou alguma ansiedade entre os fãs do realizador de "Delicatessen" ou "A Cidade das Crianças Perdidas".

"Um Longo Domingo de Noivado" desenrola-se em inícios do século XX e foca a relação de dois jovens, Mathilde (Audrey Tautou) e Manech (Gaspard Ulliel) que são obrigados a separar-se quando ele tem de ir combater durante a Primeira Guerra Mundial. O romance torna-se mais conturbado quando Manech é apontado como uma das vítimas mortais das batalhas, mas a esperança de Mathilde contraria essa trágica revelação e a jovem inicia uma persistente busca de pistas acerca do paradeiro do seu namorado.

A partir daqui, "Um Longo Domingo de Noivado" aborda a investigação da protagonista e, em paralelo, apresenta alguns dos episódios dos combates nas trincheiras através de flashbacks gerados a partir das memórias das figuras que Mathilde vai encontrando.
Jeunet tempera esta sucessão de acontecimentos com toques de romance, drama e algum humor, referências habituais nas suas obras, e mesmo nos momentos mais pesados e nebulosos deixa espaço para pequenas fagulhas de optimismo e esperança (embora em menores doses do que em "O Fabuloso Destino de Amélie").

Outro dos elementos-chave do filme é, claro, a impressionante componente visual, onde o realizador recorre, mais uma vez, a criativos ângulos de câmara, uma montagem refrescante, múltiplos filtros, um trabalho de iluminação irrepreensível e uma sedutora fotografia. Grande parte do culto em torno do cineasta deve-se, essencialmente, ao apelo estético das suas obras, que contêm sempre pequenos prodígios criativos herdados da mais arrojada linguagem publicitária. "Um Longo Domingo de Noivado" não é excepção e oferece uma mão cheia de belas imagens com cativantes tons dourados e acastanhados, gerando cenas muito bem conseguidas a nível visual.

Infelizmente, a nível de argumento nem tudo funciona tão bem, uma vez que este não é suficientemente intrigante para sustentar duas (longas) horas de filme.
O ponto de partida até é curioso, mas há por aqui demasiadas personagens e raras são as que vão além de uma pouco surpreendente unidimensionalidade. O ritmo da narrativa é irregular, e por vezes a investigação da protagonista conduz a tantas revelações que é quase inevitável o espectador não se perder no meio dos diversos flashbacks.

Fragmentado e desequilibrado, "Um Longo Domingo de Noivado" acerta em cheio no estilo mas não corresponde nas doses de substância, pois a densidade emocional é escassa, embora haja um ou outro momento de maior tensão dramática (as bem construídas cenas da infância do duo principal ou os momentos do par no farol).

Assim, o filme é quase sempre visualmente agradável mas raramente proporciona momentos de antologia, ainda que a banda-sonora de Angelo Badalamenti (não tão boa como a de Yann Tiersen, mas recomendável) e a minuciosa reconstituição de época quase coloquem o filme acima da mediania.
No entanto, depois do visionamento, esses detalhes não evitam que "Um Longo Domingo de Noivado" marque mais pela superficialidade do que por méritos em termos de conteúdo, resultando num filme que, apesar de bonito, é algo inconsequente e subaproveitado.

E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

O GOSTO DOS OUTROS

Depois de cumprido o dever cívico do dia (AKA votar) e de um almoço de família, Sesimbra foi o destino escolhido para tarde de domingo.

Tudo corria bem, até que chegou a hora da inevitável escolha para a banda sonora a ouvir na viagem de carro. Como ia como co-piloto, coube-me a mim fazer a selecção, que acabou por consistir em álbuns dos Nine Inch Nails e Muse. Se a primeira banda ainda foi tolerada pelos restantes passageiros - embora com algum esforço -, o grupo de Matt Bellamy gerou as mais diversas reacções (curiosamente, todas negativas). "Estes gajos são conhecidos?", "Não ouves música moderna?", "Bem, deves ter sido o único a compar esse disco...", "Fogo, mas quem é que canta assim???", "Não há uma música que se aproveite", "Não tens Maroon 5?", "Que cena deprimente..." ou "Porque é que não mudas para a Cidade ou para a Mega?" foram algumas das críticas que circularam de forma unânime...

Temos pena, mas o dono do carro é que escolhe a música, não é muito democrático mas a política do gosto tem destas coisas...