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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

O AMOR NÃO ESCOLHE IDADES (NEM ENCARNAÇÕES)

Há dois anos, o norte-americano Dylan Kidd foi apontado por algumas vozes como um dos mais promissores jovens realizadores dos últimos anos devido aos méritos da sua primeira longa-metragem.
O motivo do considerável entusiasmo era "Roger Dodger", uma comédia razoavelmente subtil e perspicaz sobre "as regras da atracção", apresentadas a partir dos ensinamentos de um tio playboy, Roger Dodger, a um sobrinho adolescente em busca de afirmação. Embora fosse um filme bem interpretado (sobretudo pelo actor principal, Campbell Scott) e com uma curiosa perspectiva da noite nova-iorquina, a obra de estreia de Dylan Kidd não continha a tal genialidade que justificasse a aclamação que alguns suscitaram.

O segundo filme do realizador, "P.S. Amo-te" (P.S.), também não possui atributos que tornem Kidd num cineasta particularmente inspirado.
Desta vez, a acção centra-se numa personagem feminina, Louise Harrington (Laura Linney em mais uma interpretação segura), uma professora da Universidade de Columbia de 39 anos com uma vida pouco motivadora. Algumas doses de irreverência são injectadas no seu quotidiano quando entrevista um jovem pintor de 18 anos candidato à escola de artes onde lecciona (Topher Grace, um actor a reter) e nasce entre ambos uma repentina atracção. A situação é ainda mais inusitada tendo em conta que o jovem, com quem Louise enceta uma relação, exibe diversas semelhanças - tanto na fisionomia como na personalidade e até no nome - com um ex-namorado seu, falecido há vinte anos.

Inspirado num romance de Helen Schulman, "P.S. Amo-te" tem um mote relativamente interessante, mas à medida que o filme se desenvolve as ideias descoordenam-se e a narrativa oscila entre cenas de drama e comédia nem sempre bem combinadas.
A ligação entre o par central é envolvente e as cenas iniciais entre ambos expõem uma visível química, por isso lamenta-se que outros elementos da película não estejam à altura dessa intensidade, uma vez que há personagens secundárias pouco interessantes - sobretudo a de Marcia Gay Harden - e alguns momentos inconsequentes que denotam uma certa relutância quanto ao rumo que o argumento deve seguir.

As cenas entre Louise e a melhor amiga, nos minutos finais, são particularmente desinspiradas, levando o filme para territórios próximos de um esoterismo nada abonatório (quando se questiona a hipótese de uma reencarnação) misturado com os piores vícios das comédias românticas.

Sobram alguns episódios vincados por uma absorvente tensão emocional, que conseguem gerar um olhar maduro sobre a complexidade das relações humanas (as cenas entre Linney e Gabriel Byrne, por exemplo), e um argumento que por vezes surpreende - pela positiva e pela negativa - por tentar contornar alguns lugares-comuns dos chick-flicks.

O resultado final de “P.S. Amo-te” é aceitável e competente, mas ainda não foi desta que Dylan Kidd trouxe sangue novo ao cinema independente norte-americano.

E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

AMOR DE PERDIÇÃO

A expectativa era considerável, tendo em conta, sobretudo, o sucesso do emblemático "O Fabuloso Destino de Amélie" (Le Fabuleux Destin d`Amélie Poulain), mas o novo filme de Jean-Pierre Jeunet, "Um Longo Domingo de Noivado" (Un Long Dimanche de Fiançailles) permite finalmente ver o resultado da segunda colaboração entre o realizador e a actriz Audrey "Amélie" Tautou.

A dupla gerou, no filme anterior, um dos mais acarinhados filmes franceses dos últimos anos, muito bem recebido pelo público a uma escala considerável (a crítica, no entanto, não foi tão unânime), por isso o novo projecto despoletou alguma ansiedade entre os fãs do realizador de "Delicatessen" ou "A Cidade das Crianças Perdidas".

"Um Longo Domingo de Noivado" desenrola-se em inícios do século XX e foca a relação de dois jovens, Mathilde (Audrey Tautou) e Manech (Gaspard Ulliel) que são obrigados a separar-se quando ele tem de ir combater durante a Primeira Guerra Mundial. O romance torna-se mais conturbado quando Manech é apontado como uma das vítimas mortais das batalhas, mas a esperança de Mathilde contraria essa trágica revelação e a jovem inicia uma persistente busca de pistas acerca do paradeiro do seu namorado.

A partir daqui, "Um Longo Domingo de Noivado" aborda a investigação da protagonista e, em paralelo, apresenta alguns dos episódios dos combates nas trincheiras através de flashbacks gerados a partir das memórias das figuras que Mathilde vai encontrando.
Jeunet tempera esta sucessão de acontecimentos com toques de romance, drama e algum humor, referências habituais nas suas obras, e mesmo nos momentos mais pesados e nebulosos deixa espaço para pequenas fagulhas de optimismo e esperança (embora em menores doses do que em "O Fabuloso Destino de Amélie").

Outro dos elementos-chave do filme é, claro, a impressionante componente visual, onde o realizador recorre, mais uma vez, a criativos ângulos de câmara, uma montagem refrescante, múltiplos filtros, um trabalho de iluminação irrepreensível e uma sedutora fotografia. Grande parte do culto em torno do cineasta deve-se, essencialmente, ao apelo estético das suas obras, que contêm sempre pequenos prodígios criativos herdados da mais arrojada linguagem publicitária. "Um Longo Domingo de Noivado" não é excepção e oferece uma mão cheia de belas imagens com cativantes tons dourados e acastanhados, gerando cenas muito bem conseguidas a nível visual.

Infelizmente, a nível de argumento nem tudo funciona tão bem, uma vez que este não é suficientemente intrigante para sustentar duas (longas) horas de filme.
O ponto de partida até é curioso, mas há por aqui demasiadas personagens e raras são as que vão além de uma pouco surpreendente unidimensionalidade. O ritmo da narrativa é irregular, e por vezes a investigação da protagonista conduz a tantas revelações que é quase inevitável o espectador não se perder no meio dos diversos flashbacks.

Fragmentado e desequilibrado, "Um Longo Domingo de Noivado" acerta em cheio no estilo mas não corresponde nas doses de substância, pois a densidade emocional é escassa, embora haja um ou outro momento de maior tensão dramática (as bem construídas cenas da infância do duo principal ou os momentos do par no farol).

Assim, o filme é quase sempre visualmente agradável mas raramente proporciona momentos de antologia, ainda que a banda-sonora de Angelo Badalamenti (não tão boa como a de Yann Tiersen, mas recomendável) e a minuciosa reconstituição de época quase coloquem o filme acima da mediania.
No entanto, depois do visionamento, esses detalhes não evitam que "Um Longo Domingo de Noivado" marque mais pela superficialidade do que por méritos em termos de conteúdo, resultando num filme que, apesar de bonito, é algo inconsequente e subaproveitado.

E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

O GOSTO DOS OUTROS

Depois de cumprido o dever cívico do dia (AKA votar) e de um almoço de família, Sesimbra foi o destino escolhido para tarde de domingo.

Tudo corria bem, até que chegou a hora da inevitável escolha para a banda sonora a ouvir na viagem de carro. Como ia como co-piloto, coube-me a mim fazer a selecção, que acabou por consistir em álbuns dos Nine Inch Nails e Muse. Se a primeira banda ainda foi tolerada pelos restantes passageiros - embora com algum esforço -, o grupo de Matt Bellamy gerou as mais diversas reacções (curiosamente, todas negativas). "Estes gajos são conhecidos?", "Não ouves música moderna?", "Bem, deves ter sido o único a compar esse disco...", "Fogo, mas quem é que canta assim???", "Não há uma música que se aproveite", "Não tens Maroon 5?", "Que cena deprimente..." ou "Porque é que não mudas para a Cidade ou para a Mega?" foram algumas das críticas que circularam de forma unânime...

Temos pena, mas o dono do carro é que escolhe a música, não é muito democrático mas a política do gosto tem destas coisas...

NÃO ESQUEÇAM AS BALEIAS

Depois de uma elogiada estreia com "We Care", de 1995, disco que contou com a colaboração de Tricky e incluía o single "Hobo Humpin Slobo Babe" (que obteve considerável passagem pela MTV), os suecos Whale editaram, em 1998, o seu segundo álbum de originais, "All Disco Dance Must End in Broken Bones" (onde é que foram buscar um título destes??).

Se no registo de estreia as canções eram tendencialmente rudes e áridas, expondo um rock alternativo algo agressivo, no álbum sucessor o grupo envereda por tons mais atmosféricos e estranhamente calmos.
O primeiro single, "Crying at Airports", combina trip-hop e spoken word e evidencia as consideráveis doses de electrónica presentes no disco. Para além destas sonoridades, "All Disco Dance Must End in Broken Bones" contém ainda momentos marcados pelo rock, pop, folk, gótico/industrial e mesmo alguns traços hip-hop.
O eclectismo dos Whale manifesta a tendência fusionista de finais dos anos 90, onde múltiplos projectos optaram pela combinação - muitas vezes improvável e arriscada - de referências e registos.

"All Disco Dance Must End in Broken Bones" é um álbum saudavelmente diversificado, mas irregular, pois o entusiasmo gerado pelas primeiras canções do alinhamento vai decrescendo progressivamente.
Temas como a nebulosa balada "Roadkill", o sombrio e inquietante "Smoke" ou o delicioso e irreverente "Losing CTRL" mostram os Whale no seu melhor, com assinaláveis cargas de criatividade e frescura, mas essa energia não se mantém em episódios mais mornos e desinspirados como "Go Where You're Feeling Free", "Into the Strobe" ou "No Better", canções mais banais e lineares.

Mesmo desequilibrado, "All Disco Dance Must End in Broken Bones" não deixa de ser um disco convincente e apelativo, brilhantemente produzido (o uso de samples, loops e restante panóplia electrónica é sedutor) e vincado por uma voz interessante (a vocalista Cia Soro, gélida mas envolvente, lembra Toni Halliday dos Curve ou Claudia Sarne dos 12 Rounds, o que só reverte a seu favor).

Um álbum recomendável, portanto, que percorre domínios próximos dos Garbage, Massive Attack, Sneaker Pimps, Nine Inch Nails ou Lamb mas consegue, ainda assim, gerar uma linguagem própria e peculiar.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

TERNA É A NOITE

"Sapatos Pretos" ou "Ganhar a Vida" já tinham comprovado a singularidade de João Canijo no panorama do cinema português actual, e o título mais recente do realizador, "Noite Escura", volta a confirmar os méritos do cineasta, impondo-se como um dos melhores filmes nacionais dos últimos anos.

Inspirado na tragédia grega "Ifigénia em Áulis", de Eurípedes, "Noite Escura" apresenta um visceral drama familiar centrado em tensos ambientes nocturnos. A tragédia propaga-se por todos os recantos do bar de alterne onde decorre o filme, interligando as vidas dos quatro elementos da família que gere aquele espaço.

Nelson (Fernando Luís), o proprietário, vê-se forçado a entregar a filha mais nova, Sónia (Cleia Almeida) à máfia russa, de forma a reparar uma dívida e reduzir alguma da inquietação e temor que contamina a sua vida. Esta decisão desperta um ciclo de acontecimentos cada vez mais claustrofóbicos e carregados de tensão, uma vez que Celeste (Rita Blanco), a mãe, e Carla (Beatriz Batarda), a filha mais velha, tentam a todo o custo evitar que a sua família seja estilhaçada.

Canijo retrata esta inevitável espiral descendente - embora a família tente contrariar o destino - com assinalável intensidade e fulgor, construindo personagens densas envoltas em atmosferas convincentes e perturbantes. A câmara segue de perto os protagonistas, denunciando os seus movimentos e expondo as suas vulnerabilidades, com um muito eficaz trabalho de realização a conseguir traduzir a agitação e carga sufocante que se propaga pela casa de alterne.

A frequente mistura de conversas paralelas deixa transparecer a atmosfera nebulosa que invade aquele espaço, e o rigoroso e sedutor cuidado na iluminação, com fortes contrastes de verdes e vermelhos, gera uma hipnótica efervescência visual, perfeitamente adequada.

Para além de um ambiente de cortar à faca, "Noite Escura" tem ainda a seu favor uma boa direcção de actores, dispondo de um elenco competente e capaz de dar alma às personagens (algo que, infelizmente, nem sempre ocorre no cinema português). Beatriz Batarda e Rita Blanco são particularmente soberbas, compondo duas figuras marcantes e surpreendentes que terão um papel decisivo no portentoso desenlace.

Com uma profícua combinação de ingredientes, "Noite Escura" é uma das boas surpresas cinematográficas de 2004 e um dos mais sólidos filmes portugueses dos últimos tempos. Um memorável murro no estômago e um sinal de vitalidade para o cinema nacional.

E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM