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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

CINEMA - TOP 10 2004

10) "Antes do Anoitecer" - disponíveis para amar?
Richard Linklater, Ethan Hawke e Julie Delpy voltam a juntar-se depois de "Antes do Amanhecer" e demostram que os anos passaram mas a magia manteve-se. A sequela de um dos filmes indie mais emblemáticos dos anos 90 é um genuíno labour of love e um dos mais cativantes dramas de 2004. Uma pequena pérola.

9) "Noite Escura" - terna é a noite
Um murro no estômago é o que se pode dizer do pujante filme de João Canijo sobre o Portugal rural perdido na angústia de uma casa de alterne. Um visceral drama familiar de contornos trágico e uma obra maior do cinema português recente.

8) "Shattered Glass - Verdade ou Mentira" - quanto vale uma boa história?
Um bom filme sobre os meandros do jornalismo e uma interessante oportunidade para ver Hayden Christensen sem o ar baço da sua interpretação na saga "Guerra das Estrelas", esta primeira obra de Billy Ray é um dos mais recomendáveis filmes independentes norte-americanos que passou (despercebido, e é pena) por salas portuguesas em 2004.

7) "Desencontros" - maridos e mulheres
Laura Dern, Mark Ruffalo, Naomi Watts e Peter Krause: quatro dos mais interessantes jovens actores norte-americanos, protagonizam este intenso drama de John Curran sobre o conturbado quotidiano conjugal. Sóbrio e silencioso, é um forte candidato a filme de culto.

6) "A Vila" - espíritos inquietos
M. Night Shyamalan apresenta aqui o seu filme mais conseguido, aliando um irrepreensível elenco a um argumento engenhoso e gerando uma das películas mais inclassificáveis de 2004. É uma história de amor? Uma parábola? Um filme de terror? Não interessa, é um grande momento de cinema, singular e encantatório.

5) "Má Educação" - entre a realidade e a ficção
Negro, denso e perturbante, "Má Educação" é um dos filmes mais obscuros de Pedro Almodóvar, que aqui se centra no universo masculino para proporcionar uma estória de amor, desejo, vingança e obsessão. O resultado é forte e poderoso, e ninguém sai da sala de cinema da mesma forma que entrou…

4) "Kill Bill: A Vingança - Vol. II" - die hard
O segundo episódio da muito amada saga de Quentin Tarantino e Uma Thurman é mais um concentrado de energia cinética, múltiplas referências da cultura pop e, claro, uma inegável coolness. O primeiro filme já continha esses elementos, mas a sequela supera-o ao acrescentar uma vital carga emocional, transformando este segundo tomo num vibrante épico sobre a vingança e a maternidade.

3) "O Homem-Aranha 2" - nas teias de um bom blockbuster
Um dos melhores filmes baseados no universo dos comics, a nova aventura cinematográfica que junta Sam Raimi e Tobey Maguire situa-se muito acima da concorrência e ganha o título de blockbuster do ano. Um delicioso filme-pipoca e um entretenimento de grande nível.

2) "Os Sonhadores" - quando o sonho, através do cinema, comanda a vida
Bernardo Bertolucci regressou e trouxe consigo um dos seus melhores filmes. Absorvente visão sobre o fim da adolescência, o Maio de 68 e a paixão pelo cinema, "Os Sonhadores" é uma obra intemporal e viciante, um dos títulos essenciais de 2004. A (re)descobrir.

1) "O Despertar da Mente" - O FILME DO ANO
O papel da vida de Jim Carrey? Não andará longe disso, já que na segunda obra de Michel Gondry o actor apresenta uma das suas interpretações mais contidas, envolventes e prodigiosas. Contudo, apesar do excelente elenco (com obrigatório destaque para Kate Winslet), o que torna "O Despertar da Mente" num filme tão refrescante é o surpreendente argumento de Charlie Kaufmann aliado às pequenas subtilezas da muito apropriada realização. A resposta emocional é fortíssima, o que só acontece nos grande filmes (como é o caso). Inventivo, delirante, profundo e brilhante...o filme do ano.

POSTO DE ESCUTA: MÚSICA DE 2004

DISCOS:

Não foi, confesso, um ano de grandes descobertas, por isso quase todos os álbuns que destaco aqui são de velhos conhecidos. Enfim, não se pode desbravar novo território todos os anos, e em 2004 dediquei-me mais ao cinema...

Air - Talkie Walkie

Da Weasel - Re-Definições

Elliott Smith - From A Basement On The Hill

Franz Ferdinand - Franz Ferdinand

Gomo - Best Of

Interpol - Antics

Melissa Auf Der Maur - Auf Der Maur

Mirah - C' Mon Miracle

PJ Harvey - Uh Huh Her

Placebo - Once More With Feeling Singles 1996 - 2004

R.E.M. - Around the Sun

The Gift - AM/FM

The Killers - Hot Fuss

The Prodigy - Always Outnumbered, Never Outgunned

X-Wife - Feeding the Machine

CONCERTOS:

Elysian Fields - Santiago Alquimista

Jay Jay Johanson - Aula Magna

Magnetic Fields - Aula Magna

Moloko - Optimus Hype @Meco

Múm - Aula Magna

Peaches - Optumus Hype @Meco

Rufus Wainwright - Aula Magna

The Gift - Teatro S. Luiz

Tim Booth - Aula Magna

Yann Tiersen - Centro Cultural de Belém

O TEMPO REENCONTRADO

Antoine (Gérard Depardieu) e Cécile (Catherine Deneuve) partilharam a decisiva fase do primeiro amor em conjunto, mas acabaram por distanciar-se e nunca mais voltaram a contactar-se nos trinta anos que se seguiram. No entanto, Antoine nunca conseguiu esquecer aquela que, para todos os efeitos, ficou sempre como a única mulher que jamais amou, e por isso pretende reencontrá-la em Tânger, onde Cécile vive há anos com o marido. Apesar de ir supervisionar a construção de uma obra em Marrocos, a verdadeira motivação de Antoine ao aceitar essa responsabilidade não foi profissional, uma vez que o protagonista pretende sobretudo reconquistar a sua ex-amante.

Com base nesta premissa, André Techiné proporciona um drama assente nas vicissitudes das relações humanas, gerando uma perspectiva sobre a forma como a passagem do tempo molda os laços afectivos e afecta as ligações amorosas. A dupla central do filme, Depardieu e Deneuve, é um dos mais emblemáticos pares românticos do cinema francês, e contracena aqui pela sétima vez, 25 anos depois da primeira colaboração em "O Último Metro", de François Truffaut. No entanto, "Os Tempos que Mudam" (Les Temps qui Changent) não foca apenas estas duas personagens, antes oferece um retrato de várias figuras que influenciam o quotidiano dos protagonistas.

A Techiné é reconhecido o mérito de saber contar estórias credíveis, complexas e tridimensionais, talento que se evidenciou em títulos determinantes como "O Local do Crime" ou "A Minha Estação Preferida". Contudo, as mais recentes obras do cineasta - "Alice e Martin", "Longe" e "Os Fugitivos" - apresentaram um considerável declínio qualitativo, onde se manifestava ainda alguma competência e savoir faire mas as abordagens eram cada vez mais insípidas, rotineiras e insípidas.

"Os Tempos que Mudam" ainda não é o filme que promove a revitalização do cineasta, mas em alguns momentos há um certo fôlego criativo que recupera a energia e envolvência de películas como "Os Juncos Silvestres" (o último filme verdadeiramente recomendável do realizador, gerado há mais de dez anos). Este olhar sobre amores desencontrados contém já alguma tensão dramática e afasta-se da letargia emocional que contaminou as películas mais recentes de Techiné, aproximando-nos das personagens e dos seus dilemas.

Há actores consistentes e um apropriado tom realista/naturalista (o recurso à câmara à mão é recorrente), assim como uma eficaz criação de atmosferas, mas Techiné dispersa-se por demasiadas personagens e nem sempre consegue encontrar tempo suficiente para permitir que estas se revelem. O ritmo da narrativa é um pouco irregular e o argumento contém algumas pontas soltas, o que torna "Os Tempos que Mudam" numa obra desequilibrada que aponta em várias direcções mas nem sempre convence.

Sami, o filho de Cécile (excelentemente interpretado por Malik Zidi), é uma das personagens com maior potencial, um jovem sexualmente ambivalente dividido entre a lealdade à namorada Nadia e o desejo pelo marroquino Bilal, mas a sua tensa esfera emocional carece de maior desenvolvimento, e aqui o filme desaproveita uma boa ideia, descartando personagens que poderiam ir mais longe.

Tal como as últimas obras de Techiné, "Os Tempos que Mudam" falha por ser demasiado fragmentado, embora seja globalmente mais coeso do que os títulos que o cineasta tem criado recentemente. Mesmo assim, não deixa de ser um filme interessante de seguir, e a espaços apresenta cenas inspiradas, ainda que não ultrapasse a fasquia de uma mediania competente mas pouco memorável.

E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL