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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

POSTO DE ESCUTA: MÚSICA DE 2004

DISCOS:

Não foi, confesso, um ano de grandes descobertas, por isso quase todos os álbuns que destaco aqui são de velhos conhecidos. Enfim, não se pode desbravar novo território todos os anos, e em 2004 dediquei-me mais ao cinema...

Air - Talkie Walkie

Da Weasel - Re-Definições

Elliott Smith - From A Basement On The Hill

Franz Ferdinand - Franz Ferdinand

Gomo - Best Of

Interpol - Antics

Melissa Auf Der Maur - Auf Der Maur

Mirah - C' Mon Miracle

PJ Harvey - Uh Huh Her

Placebo - Once More With Feeling Singles 1996 - 2004

R.E.M. - Around the Sun

The Gift - AM/FM

The Killers - Hot Fuss

The Prodigy - Always Outnumbered, Never Outgunned

X-Wife - Feeding the Machine

CONCERTOS:

Elysian Fields - Santiago Alquimista

Jay Jay Johanson - Aula Magna

Magnetic Fields - Aula Magna

Moloko - Optimus Hype @Meco

Múm - Aula Magna

Peaches - Optumus Hype @Meco

Rufus Wainwright - Aula Magna

The Gift - Teatro S. Luiz

Tim Booth - Aula Magna

Yann Tiersen - Centro Cultural de Belém

O TEMPO REENCONTRADO

Antoine (Gérard Depardieu) e Cécile (Catherine Deneuve) partilharam a decisiva fase do primeiro amor em conjunto, mas acabaram por distanciar-se e nunca mais voltaram a contactar-se nos trinta anos que se seguiram. No entanto, Antoine nunca conseguiu esquecer aquela que, para todos os efeitos, ficou sempre como a única mulher que jamais amou, e por isso pretende reencontrá-la em Tânger, onde Cécile vive há anos com o marido. Apesar de ir supervisionar a construção de uma obra em Marrocos, a verdadeira motivação de Antoine ao aceitar essa responsabilidade não foi profissional, uma vez que o protagonista pretende sobretudo reconquistar a sua ex-amante.

Com base nesta premissa, André Techiné proporciona um drama assente nas vicissitudes das relações humanas, gerando uma perspectiva sobre a forma como a passagem do tempo molda os laços afectivos e afecta as ligações amorosas. A dupla central do filme, Depardieu e Deneuve, é um dos mais emblemáticos pares românticos do cinema francês, e contracena aqui pela sétima vez, 25 anos depois da primeira colaboração em "O Último Metro", de François Truffaut. No entanto, "Os Tempos que Mudam" (Les Temps qui Changent) não foca apenas estas duas personagens, antes oferece um retrato de várias figuras que influenciam o quotidiano dos protagonistas.

A Techiné é reconhecido o mérito de saber contar estórias credíveis, complexas e tridimensionais, talento que se evidenciou em títulos determinantes como "O Local do Crime" ou "A Minha Estação Preferida". Contudo, as mais recentes obras do cineasta - "Alice e Martin", "Longe" e "Os Fugitivos" - apresentaram um considerável declínio qualitativo, onde se manifestava ainda alguma competência e savoir faire mas as abordagens eram cada vez mais insípidas, rotineiras e insípidas.

"Os Tempos que Mudam" ainda não é o filme que promove a revitalização do cineasta, mas em alguns momentos há um certo fôlego criativo que recupera a energia e envolvência de películas como "Os Juncos Silvestres" (o último filme verdadeiramente recomendável do realizador, gerado há mais de dez anos). Este olhar sobre amores desencontrados contém já alguma tensão dramática e afasta-se da letargia emocional que contaminou as películas mais recentes de Techiné, aproximando-nos das personagens e dos seus dilemas.

Há actores consistentes e um apropriado tom realista/naturalista (o recurso à câmara à mão é recorrente), assim como uma eficaz criação de atmosferas, mas Techiné dispersa-se por demasiadas personagens e nem sempre consegue encontrar tempo suficiente para permitir que estas se revelem. O ritmo da narrativa é um pouco irregular e o argumento contém algumas pontas soltas, o que torna "Os Tempos que Mudam" numa obra desequilibrada que aponta em várias direcções mas nem sempre convence.

Sami, o filho de Cécile (excelentemente interpretado por Malik Zidi), é uma das personagens com maior potencial, um jovem sexualmente ambivalente dividido entre a lealdade à namorada Nadia e o desejo pelo marroquino Bilal, mas a sua tensa esfera emocional carece de maior desenvolvimento, e aqui o filme desaproveita uma boa ideia, descartando personagens que poderiam ir mais longe.

Tal como as últimas obras de Techiné, "Os Tempos que Mudam" falha por ser demasiado fragmentado, embora seja globalmente mais coeso do que os títulos que o cineasta tem criado recentemente. Mesmo assim, não deixa de ser um filme interessante de seguir, e a espaços apresenta cenas inspiradas, ainda que não ultrapasse a fasquia de uma mediania competente mas pouco memorável.

E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

ÍDOLOS

Vencedor do Grande Prémio do Júri do Festival Sundance de 2004, “DiG!” é um documentário que se debruça sobre a história de duas bandas do rock alternativo norte-americano, os Dandy Warhols e os Brian Jonestown Massacre, focando os seus primeiros passos e os rumos divergentes que acabariam por adoptar.
A realizadora Ondi Timoner passou sete anos a registar em vídeo algumas das experiências dos grupos, desde os ensaios iniciais, na recta final dos anos 90, passando pela gravação dos discos de estreia e o modo como ambos os projectos lidaram com o estrelato (ou ausência deste), até 2003.

Noutras mãos, “DiG!” poderia ser mais um episódio de um “Behind the Scenes” da VH1 ou de qualquer programa semelhante, expondo o percurso de uma banda de forma cronológica e recorrendo a uma estrutura mais ou menos convencional, abordando o período conturbado dos primeiros dias e a fase áurea da ascensão do grupo. Embora estes elementos também estejam presentes no documentário, a perspectiva de Timoner vai mais longe e não se limita a gerar mais um retrato estereotipado.

“DiG!” começa por entusiasmar ao centrar-se em dois grupos em paralelo que provêm da mesma cidade, Portland, no estado de Oregon, partilham uma sonoridade semelhante – amálgama de indie rock, folk e pop, claramente assente em sonoridades retro mas reformulando-as e adaptando-as ao presente - e cujos membros estabelecem laços de amizade e companheirismo, influenciando-se mutuamente. Essa proximidade reflecte-se sobretudo na química partilhada pelos seus vocalistas – e líderes – Courtney Taylor, dos Dandy Warhols, e Anton Newcombe, dos Brian Jonestown Massacre, que forjam uma complexa relação de amor-ódio, capaz de despoletar uma sincera admiração a par de uma não menos intensa inveja e desdém.
Este relacionamento conflituoso provém das opções contraditórias que ambos os músicos defendem para as suas bandas, uma vez que Taylor não hesita em negociar com grandes editoras e Newcombe adopta uma obstinada postura individualista assente no do-it-yourself, recusando que os Brian Jonestown Massacre se sujeitem a qualquer pressão externa.

Assim, a ligação dos dois vocalistas – e, consequentemente, dos seus grupos – torna-se mais dúbia e nebulosa à medida que os Dandy Warhols iniciam um percurso rumo a um sucesso moderado – primeiro através de um contrato com a Capitol Records, posteriormente com uma inesperada aclamação no Reino Unido ou pela cedência da canção “Bohemian Like You” para uma emblemática campanha publicitária -, enquanto que os Brian Jonestown Massacre se mantêm como um nome praticamente desconhecido fora da sua terra-natal devido à atitude auto-destrutiva de Anton Newcombe (figura onde a genialidade convive de perto com a auto-indulgência e o narcisismo, desencadeando uma série de episódios conturbados que vão minando os sonhos dos seus colegas e suscitando convulsões internas na banda).

Ondi Timoner apresenta alguns momentos elucidativos da tensão que se vai insinuando entre os dois grupos ao longo dos anos, originando uma subtil animosidade que tem expressão máxima na canção “Not If You Were the Last Dandy on Earth”, a “resposta” dos Brian Jonestown Massacre a um dos temas mais mediáticos da fase inicial dos Dandy Warhols, “Not If You Were the Last Junkie on Earth”. Este é um dos diversos casos em que Anton Newcombe lança ácidas considerações acerca das opções artísticas do seu (ex?) amigo, acusando-o de perda de genuinidade e amor à música em prol de uma conversão às oportunidades do sucesso comercial (que Newcombe abomina e rejeita).

Curiosamente, apesar destas atitudes - não muito distantes da “mítica” rivalidade Blur/Oasis, como chega a ser comentado a certo ponto - Courtney Taylor (que faz a voz off do documentário) não deixa de elogiar os traços de criatividade e singularidade da música de Newcombe, defendendo-o como um dos mais inspirados artistas contemporâneos e demonstrando assim um considerável fair-play.

“DiG!” é um vibrante olhar sobre a juventude, o universo do rock, a ambição, o sonho e o sucesso, um profícuo documentário que aposta mais numa bem arquitectada tensão dramática do que em domínios contemplativos ou demonstrativos.

Ondi Timoner consegue proporcionar uma obra suficientemente intrigante, recusando eventuais lugares comuns que poderiam tornar o projecto num inócuo concentrado de “sexo, drogas e rock n’ roll” com muita irreverência mas pouca substância. Felizmente isso não acontece, e o resultado final tem densidade q.b., focando os músicos com uma crueza assinalável, para o bem e para o mal (se Newcombe é alvo de maior atenção, protagonizando uma espiral descendente vincada pelas drogas e um individualismo exacerbado, Taylor também não é poupado, pois a realizadora inclui algumas cenas com os seus caprichos de drama queen, como no episódio da gravação de um videoclip).

Uma boa surpresa e uma das provas de vitalidade do género documental proveniente de esferas mais alternativas, à semelhança dos igualmente recomendáveis “Os Friedman”, de Andrew Jarecki, ou “Tarnation”, de Jonathan Caouette. A ver (e ouvir).

E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM