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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

MELANCOLIA E TRISTEZA INFINITA

Entre "Roman Candle", registo de estreia de 1994, e "Figure 8", de 2000, Elliott Smith editou uma série de discos que o consolidaram não como uma promessa, mas uma sólida certeza do rock alternativo norte-americano da década de 90. Infelizmente, o discreto mas profícuo percurso criativo do jovem cantautor não registou consideráveis desenvolvimentos na viragem do milénio, dado que o seu álbum mais recente, "From a Basement on the Hill", foi já editado no final de 2004, após o seu inesperado suicídio um ano antes, que pôs termo a conturbadas experiências envoltas em álcool, drogas e depressão.

O sexto e derradeiro disco já estava quase finalizado quando Smith faleceu, mas aquilo que originalmente se previa ser um álbum duplo acabou transformado num registo com 14 canções, uma vez que alguns dos temas estavam incompletos e não constaram da selecção final (elaborada pela família e alguns amigos). "From a Basement on the Hill" não se afasta muito das atmosferas dos trabalhos anteriores do autor, e congrega tanto as sonoridades mais intimistas e lo-fi presentes na primeira parte da sua discografia - "Roman Candle", "Elliott Smith" e "Either/Or" - como os ambientes mais grandiloquentes e sofisticados de "XO" ou "Figure 8", numa fase mais recente.

As canções centram-se, mais uma vez, no desencanto amoroso, na solidão, na angústia e na amizade, seguindo a tradição clássica dos singers-songwriters, e todo o disco é vincado por consideráveis doses de melancolia que, contudo, nunca apostam e territórios exageradamente depressivos e negros, optando antes por um registo agridoce, outonal e por vezes esperançoso (esta é, de resto, uma característica omnipresente na obra de Smith, até mesmo em "Miss Misery", tema incluído na banda-sonora de "O Bom Rebelde", de Gus Van Sant, que chegou a ser nomeada para o Óscar de Melhor Canção em 1998).

"From a Basement on the Hill" possui alguns momentos de génio que congregam aquilo que a música de Elliott Smith tem de melhor: uma apelativa mistura de simplicidade e genuinidade, pontuada por uma voz cativante em composições sóbrias e profundas, onde coexistem influências dos anos 60 - as fascinantes backing vocals devem muito aos Beatles - e traços do indie rock de 90.

"Coast to Coast", "Let's Get Lost" e "Pretty (Ugly Before)", as faixas de abertura, mostram a faceta mais reconhecível do cantautor, três momentos pop lo-fi com a combinação certa de densidade e leveza, enquanto que a mais desencantada e triste "A Fond Farewell" é quase premonitória ao indiciar uma sofrida e inevitável despedida. "King's Crossing" apresenta sonoridades menos minimalistas, na linha de "Figure 8" e "XO", e a lindíssima e melódica "Twilight", uma das melhores pérolas do disco, é um portento de sensibilidade e entrega.

"From a Basement on the Hill" é quase sempre entusiasmante mas demasiado longo e, a espaços, mesmo um pouco redundante, sobretudo no último terço, onde as composições são ainda competentes mas não estão à altura de alguns momentos da primeira etapa do disco. Se o álbum fosse duplo, como estava previsto inicialmente, talvez este ligeiro desequilíbrio pudesse ser contornado, uma vez que algumas canções ficaram de fora. Ainda assim, "From a Basement on the Hill" é um belo e absorvente testemunho do considerável talento de Elliott Smith, que permite recordar uma das mais expressivas, carismáticas e melódicas vozes do rock alternativo da década de 90. Sem dúvida, um álbum - e uma discografia - a não esquecer...

E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

ALTOS VÔOS?

Projecto aguardado com alguma expectativa, uma vez que se tratava de um biopic sobre uma marcante figura da sétima arte e da aviação, Howard Hughes, realizado por um não menos lendário nome do cinema actual, Martin Scorsese, "O Aviador" (The Aviator) chegou a ser apontado como o filme que assinalaria, finalmente, o reconhecimento do cineasta de "Taxi Driver" pela Academia de Hollywood.

Embora tenha ganho cinco Óscares, quase todos se relacionaram com categorias técnicas - a excepção foi vincada por Cate Blanchett, considerada a Melhor Actriz Secundária -, constatando-se que os méritos de "O Aviador" não foram suficientes para convencer a Academia a atribuir-lhe o Óscar de Melhor Filme ou Melhor Realizador.

Em parte, percebe-se o motivo desta opção. É que, se o filme é muitíssimo competente na direcção artística, guarda roupa, fotografia e montagem, recriando eficazmente as décadas de 30/40 de Hollywood, o difuso e espartilhado argumento e, sobretudo, o desequilibrado e inconsistente ritmo não permitem que "O Aviador" voe mais alto (passe a expressão...).

Sim, Scorsese proporciona uma mão cheia de cenas fulgurantes e visualmente apelativas, como nos momentos da rodagem de "Hell's Angels" ou no acidente de aviação do protagonista, mas este inegável savoir faire não chega para salvar uma obra minada por um considerável convencionalismo (sobretudo na primeira metade) e uma recorrente previsibilidade.

Debruçando-se sobre os traços de genialidade e de vulnerabilidade de Howard Hughes, milionário vincado pela megalomania, obsessão, narcisismo, paixão - pelas mulheres, cinema e aviação - e alguma hipocondria, Scorsese gera mais uma das suas personagens ambíguas, densas e dúbias, mas a sua perspectiva nem sempre é refrescante.
Leonardo DiCaprio encarna o protagonista com entrega e solidez, mas a sua interpretação só se torna verdadeiramente convincente na recta final do filme, quando o argumento permite conceder a Hughes maiores traços de complexidade e efervescência interna. Tratando-se de um biopic, é compreensível que "O Aviador" se centre essencialmente na personagem principal, mas aqui isso é feito de uma forma em que todas as outras figuras se tornam em presenças demasiado unidimensionais e pouco intrigantes. As amantes de Hughes, em particular, sofrem dessa limitação, tanto Ava Gardner (Kate Beckinsale, com uma prestação luminosa mas com escassa substância) como Katherine Hepburn (Cate Blanchett, carismática mas caricatural), reduzindo-se a pin ups que ornamentam a vida do protagonista e não proporcionam especial impacto.

A vertente plana e académica que domina grande parte de "O Aviador" torna-o num filme demasiado superficial e insosso pontuado por ocasionais episódios onde alguma intensidade consegue, apesar de tudo, emergir. É certo que atmosferas mais negras e surpreendentes conseguem impor-se, já na recta final, mas não são suficientes para compensar as mais de duas horas, geralmente monocórdicas, que as antecederam.

Após a experiência com o épico em "Gangs de Nova Iorque" (Gangs of New York), um filme interessante mas desigual, Scorsese volta a apostar em domínios semelhantes mas o resultado é ainda menos profícuo e inventivo. Tal como o seu protagonista, "O Aviador" é uma obra ambivalente, congregando um inatacável profissionalismo técnico e uma narrativa muitas vezes soporífera.

Talvez Scorsese recupere o seu universo tenso, profundo e vibrante quando decidir afastar-se das grandes produções, repletas de ambientes grandiosos mas pífios, que exageram nas doses de pompa e circunstância e oferecem experiências cinematográficas que não ultrapassam a mediania. Assim é "O Aviador"...

E O VEREDICTO É: 2/5 - RAZOÁVEL

LAR DOCE LAR (?)

Mais conhecido - até agora - como protagonista da divertida série "Scrubs - Médicos e Estagiários", Zach Braff assinala a sua estreia na realização com "Garden State", um dos mais refrescantes e calorosos filmes do início de 2005.

Andrew Largeman (Zach Braff) é um actor de escasso sucesso que vive em Los Angeles um pouco aliciante dia-a-dia, marcado pela rotina e pelo alheamento em relação aos que o rodeiam. Devido a um trágico acontecimento, o jovem regressa à sua terra-natal após nove anos de ausência, e aquilo que aparentava ser uma breve e previsível estadia torna-se num período determinante e surpreendente. Regressando às suas raízes, Andrew recupera amizades estagnadas, trava novos conhecimentos e, aos poucos, vai re-equacionando as suas experiências, objectivos, medos, sonhos e motivações.

Se a premissa poderia originar um banal e estereotipado filme assente num processo de auto-descoberta recheado de clichés, Zach Braff - para além de realizador e actor, assina ainda o argumento - consegue inserir subtis variações e detalhes que tornam "Garden State" numa obra que conquista progressivamente.

As atmosferas discretas e lo-fi deixam espaço para as personagens brilharem, com evidente destaque para o trio composto por Zach Braff (num inesperado, mas convincente, registo introspectivo), Peter Sarsgaard (sempre com uma presença marcante e envolvente, mantendo o óptimo nível visto em "Shattered Glass - Verdade ou Mentira") e, sobretudo, a reluzente e deliciosamente irrequieta Natalie Portman (que, mais uma vez, dá provas de forte carisma e versatilidade). O veterano Ian Holm, no papel do pai do protagonista, oferece também uma interpretação meritória, gerando alguns dos momentos de maior tensão dramática.

Apresentando, de forma credível, uma história assente no quotidiano, "Garden State" aborda questões como o processo de crescimento, a falta de comunicação, a recuperação da amizade, a depressão e os laços emocionais, evidenciando alguns dos dilemas que caracterizam as vidas de muitos jovens que nem sempre se adaptam aos primeiros dias da idade adulta.

Braff proporciona uma galeria de personagens com as quais é fácil estabelecer empatia e foca as suas experiências - estranhamente verosímeis - num filme com um ritmo apropriadamente apaziguado mas nunca aborrecido.
Entre o drama e a comédia - dramedy, esse género híbrido tão emblemático do cinema independente norte-americano -, traça-se um possível retrato de uma geração em busca de coordenadas, onde os momentos de melancolia e de optimismo se misturam de forma imprevisível.
A muito adequada banda-sonora vinca os ambientes agridoces, contendo canções de recomendáveis projectos como os The Shins (determinantes na deliciosa cena boy-meets-girl), Coldplay, Thievery Corporation, Iron & Wine, Simon & Garfunkel ou Frou Frou (a inebriante "Let Go", perfeita para o desenlace), numa das mais belas colecções de canções do início de 2005.

Quando encarado com uma perspectiva consideravelmente cínica e desconfiada, "Garden State" pode ser considerado uma obra algo ingénua e imberbe, mas a óbvia e sentida entrega de Braff ao projecto permitem que a visível sensibilidade, encanto e carácter lúdico se sobreponham a um ou dois passos em falso (de resto, naturais numa primeira-obra).

Embora algo eclipsado e subvalorizado, tendo em conta a forte concorrência candidata aos Óscares presente nas salas, "Garden State" não é uma obra menos interessante do que essas - bem pelo contrário -, e destaca-se como uma das melhores propostas indie do início de 2005. Não é uma obra-prima nem um golpe de génio, muito menos um filme revolucionário, mas é dos mais bonitos e emotivos que se têm visto por cá ultimamente...

E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

CRUELDADE INTOLERÁVEL

Prova da continuidade da aposta no recente cinema francês em salas nacionais, "Eros Terapia" (Eros Thérapie) assinala o regresso da realizadora Danièle Dubroux, cuja obra mais emblemático entre nós será, talvez, "O Diário de um Sedutor", que ainda assim passou discretamente pelas salas em 1995.

O filme, em tons de comédia e tragédia, propõe um olhar irónico e cáustico sobre as relações conjugais através de uma série de peripécias algo imprevistas e por vezes inquietantes. Inicialmente, "Eros Terapia" centra-se num casal de meia idade em que a esposa (Catherine Frot) trocou o marido (François Bérleand) por uma companheira mais jovem (Isabelle Carré), e este recorre a um intrincado estratagema para tentar reconquistá-la. Adam (o marido) encontra um aliado no jovem Bruno (Melvil Poupaud), e juntos irão estabelecer um plano de forma a separar o casal feminino. Bruno, em particular, torna-se totalmente dedicado à sua nova causa, recorrendo a quase tudo para atingir o seu fim.

Embora os primeiros minutos sugiram que "Eros Terapia" é uma leve comédia (romântica?) com alguns requintes de malvadez, a segunda metade do filme - intitulada "Thanatos", contrastando com a fase inicial, "Eros" - percorre territórios mais relacionados com o policial e o suspense, fundindo géneros e trocando as coordenadas ao espectador (característica que se vericava também em "O Diário de um Sedutor"). Paralelamente, o argumento debruça-se mais sobre Bruno e a amante da mulher de Adam, que aos poucos se tornam no casal protagonista e desenvolvem uma inusitada relação de amor-ódio, responsável por algumas das cenas mais estranhas da película.

Entre algumas piadas centradas em David Cronenberg, um consultório kinky, atmosferas misteriosas, amores desencantados e mesmo consideráveis doses de swinging - se alguns acusaram "Perto Demais" (Closer), de Mike Nichols, de abusar da promiscuidade, esperem até ver este -, "Eros Terapia" funciona como uma screwball comedy on acid, mas a combinação destes elementos nem sempre resulta. Se, por um lado, a imprevisibilidade da acção joga a favor do filme - nunca se sabe qual será o próximo passo e, quando o desenlace aparenta estar próximo, há mais uma reviravolta -, tudo é demasiado aleatório e, também, um pouco inconsequente.

Embora o elenco seja eficaz, as personagens não são especialmente interessantes, reduzindo-se à caricatura (por vezes bem conseguida) e sem grande complexidade. A espaços divertida e inspirada, noutras ocasiões mais aborrecida e pretensiosa, "Eros Terapia" é uma comédia competente, mas irregular e pouco entusiasmante. Não desmerece uma espreitadela, mas também não é uma das obras cinematográficas imperdíveis em cartaz...

E O VEREDICTO É: 2/5 - RAZOÁVEL

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