Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

UMA SEMANA INDIE

O oitavo dia do IndieLisboa foi marcado por três estreias, e a primeira a ser exibida foi «Parapalos», de Ana Poliak, um filme que, apesar de ser proveniente da Argentina, não se encontra inserido na secção “Herói Independente” do festival (que destacou ontem «Modelo 73», «Cabeza de Palo» e «Balnearios»), sendo antes uma das obras em competição.

Outro título em competição apresentado ontem foi «Ono», da polaca Malgosia Szumowska. Ambos os filmes focam o universo da adolescência, mas de forma diferente: «Parapalos» centra-se num jovem do meio rural que viaja para Buenos Aires e torna-se empregado de um salão de bowling, já «Ono» narra a inquietação de uma adolescente grávida indecisa entre assumir o papel de mãe ou abortar.

A outra estreia do dia – uma ante-estreia, aliás, tendo em conta que o filme está confirmado para o circuito comercial nacional – foi «Somersault», da australiana Cate Shortland (na foto acima), uma película que tem sido alvo de múltiplos elogios em festivais internacionais. Abordando as peripécias de uma jovem que tenta enfrentar as suas emoções e os laços com os que a rodeiam, Shortland gera uma notável primeira obra e um dos mais belos filmes deste IndieLisboa. Lamenta-se, por isso, que a afluência do público tenha sido apenas moderada, pois este é um título que merece toda a atenção (crítica mais detalhada em breve).

Bem menos entusiasmante, mas bastante concorrido, «Sund@y Seoul», do coreano Oh Myung-hoon, destacou-se como uma das obras em competição mais aguardadas do dia, dado que o filme não foi exibido na íntegra durante a sua primeira exibição, no passado domingo, pois a cópia do mesmo encontrava-se incompleta.

Baseado em artigos da imprensa sensacionalista, «Sund@y Seoul» apresenta os encontros e desencontros de uma série de personagens onde a tecnologia – os telemóveis e a Internet, sobretudo – desempenha um papel fulcral nas formas de comunicação, e é determinante para que as três histórias que compõe o filme se entrecruzem. Contudo, não é com personagens desinteressantes nem com uma narrativa demasiado dispersa que Oh Myung-hoon consegue tornar esta premissa em algo consistente, e esta sua primeira longa-metragem, apesar de conter algumas cenas intrigantes, arrasta-se sem brilho e não tem nada para dizer. Ser indie não basta, é preciso ter ideias...e boas, de preferência...

QUEREM (MAIS) UM?

Ele tinha prometido voltar, em Novembro de 2004, perante uma Aula Magna carregada de vibração e entusiasmo. Mais: comprometeu-se a regressar com a banda, embora o seu concerto a solo tenha comprovado que o músico sabe ser eficaz por si só. E assim foi…

Poucas semanas após ter actuado na primeira parte do concerto dos Keane, Rufus Wainwright voltou a palcos nacionais para um concerto no Coliseu de Lisboa no passado dia 24. E desta vez com a sua banda, conforme tinha prometido.

Um nome em ascensão entre nós, o cantor/compositor/multi-instrumentista tem prosseguido um sólido rumo e conta já com quatro álbuns de originais, conquistando, aos poucos, um público cada vez mais alargado. Prova disso é o acolhimento de que goza em território luso, onde a quantidade de fãs dedicados e já considerável (e até surpreendente, tendo em conta o reduzido mercado). No entanto, a sala do Coliseu não se encontrou muito preenchida, o que se deve, provavelmente, às visitas regulares que o músico canadiano efectuou a palcos nacionais nos últimos meses (espera-se que este não seja mais um artista vítima de uma exposição excessiva, que poderá jogar contra si, como ocorreu com os Tindersticks ou os Lamb há uns anos).

A noite de domingo demonstrou, contudo, que apesar de Wainwright se ir tornando já numa cara mais conhecida, mantém ainda um evidente profissionalismo e entrega. “Want Two”, o mais recente disco do músico, foi o principal destaque do espectáculo, o que não impediu pontuais regressos ao passado para a recuperação de temas emblemáticos.

“Agnus Dei” foi o momento inaugural e gerou logo um ambiente marcado por uma concentração quase religiosa (ou não fosse a pop alvo de culto) por parte dos espectadores. Acompanhado por uma banda com instrumentos que englobavam a guitarra (acústica e eléctrica), bateria, violino e violoncelo, o cantor recorreu ainda à fulcral contribuição do piano e apresentou um lote de sólidas canções. “Vibrate” foi um dos primeiros temas de eleição, congregando a mescla de intimismo e emotividade característica do músico, mas o concerto ofereceu outros episódios de boa memória como “Memphis Skyline” ou o marcante “Hallelujah” (a tal cover de Leonard Cohen), dedicados a Jeff Buckley.

Foto: Cotonete

Algo que tem vindo a evidenciar-se nos concertos de Wainwright é a sua faceta de contador de histórias, que tem sido desenvolvida de forma convincente. Aqui voltou a manifestar-se, tanto nos comentários acerca da religião (“Gay Messiah” foi dedicada a todos os Papas, numa curiosa atitude de provocação que já se previa) ou em revelações acerca da sua família, por vezes divertidas e noutros casos mais emotivas. A química com o público surgiu naturalmente, e para além do talento como músico Wainwright exibiu ainda os seus dotes de entertainer nato, irradiando uma boa-disposição contagiante.

Outros momentos cativantes foram “Across the Universe”, a belíssima cover dos Beatles (incluída na banda-sonora de “I Am Sam”) e o indispensável “Cigarettes and Chocolate Milk”, que não poderia ser esquecido. Todavia, a surpresa da noite chegou com os encores, onde não só o músico mas toda a banda começaram, subitamente, a despir-se, deixando o público expectante e intrigado. Wainwright acabou por ficar apenas com um minúsculo fio dental, sapatos de salto alto de um vermelho berrante e asas de borboleta, sendo imediatamente observado, comentado e aplaudido pelos espectadores (morram de inveja, Scissor Sisters!).

“Aposto que os rapazes dos Keane não fizeram isto”, afirmou o cantor, atirando mais um comentário mordaz e irresistível. A animada “Old Whore’s Diet” ficou assim como o momento mais memorável da noite, mas os três (!!!) encores apresentaram ainda “Oh What a World”, “I Don’t Know What it Is”, “Poses” e o muito trauteável “Califórnia”, que o músico interpretou já de roupão vestido.

Embora tenha sido um concerto agradável e competente, não contou com uma atmosfera tão calorosa e intimista como o espectáculo na Aula Magna, no final do ano passado, e, exceptuando o delirante desenlace, não ocorreu nada de verdadeiramente surpreendente e inesperado. Não afecta, ainda assim, uma performance em boa forma, durante mais de duas horas, e a confirmação de um nome a reter e a seguir com atenção, constando já na selecta lista de artistas de culto.

Antes da actuação de Rufus Wainwright, Joan as a Police Woman (que faz parte da banda de Rufus) foi a escolhida para aquecer a noite, mas não conseguiu animar muito os ânimos dos espectadores através da sua morna selecção de canções. Suficientemente afável e cumpridora, apresentou um conjunto de temas razoáveis mas demasiado indistintos, apostando nos moldes mais convencionais das composições dos singers/songwriters. Curiosamente, o momento alto da sua prestação foi o último tema, (merecidamente) dedicado a Elliott Smith, por sinal um dos nomes mais criativos do género durante a última década. No entanto, artistas como Rufus Wainwright comprovam que a vitalidade continuará presente nesses domínios, e a noite de domingo consta já entre as boas memórias musicais de 2005.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM