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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

AMIZADE SEM LIMITES

Depois do popular "As Horas", surge agora mais um filme inspirado numa obra literária de Michael Cunningham, "Uma Casa no Fim do Mundo" (A Home at the End of the World). O livro não é tão mediático como aquele que deu origem à elogiada película interpretada por Nicole Kidman, Julianne Moore e Meryl Streep, mas é, não obstante, um título interessante e absorvente.

Desta vez, o responsável pela adaptação ao grande ecrã não é Stephen Daldry mas o estreante Michael Mayer, encenador da Broadway que assim assinala a sua entrada em domínios cinematográficos.

Infelizmente, não se pode dizer que este primeiro filme de Mayer seja particularmente bem-sucedido, uma vez que a transposição de uma obra literária exigente e complexa é aqui feita de forma pouco surpreendente e singular.

"Uma Casa no Fim do Mundo" é um drama que foca a relação de dois amigos de infância, Bobby e Jonathan, que crescem juntos numa pequena localidade do Ohio, nos anos 60, e voltam a encontrar-se anos depois numa Nova Iorque em mutação e efervescência.
É já na idade adulta que conhecem Clare, uma mulher irreverente e pouco convencional, e com ela irão tentar formar uma família distinta dos padrões socialmente implementados, onde a amizade e o amor se imbricam e confundem.

O livro de Cunningham apresenta uma densa e subtil perspectiva sobre as relações humanas, os contrastes geracionais, a alteração de estilos de vida e as orientações sexuais, mas o filme de Mayer limita-se a ilustrar essas questões de modo ténue e pálido, raramente mergulhando no âmago das personagens.

De facto, é sobretudo na construção de personagens que o filme falha, sobretudo nas interligações entre estes, pois Mayer não lhes injecta grande densidade emocional.

Bobby assume aqui o papel de protagonista e orienta o rumo dos acontecimentos, originando uma secundarização das presenças de Jonathan e Clare, algo que não se manifestava no livro. Colin Farrel encarna a personagem principal na idade adulta e, embora ofereça um desempenho competente, faz com que a peculiaridade de Bobby fique aquém do potencial.
Dallas Roberts, Robin Wright Penn e Sissy Spacek asseguram a consistência do elenco, conseguindo gerar alguma carga dramática mas não a suficiente para elevar o filme acima da mediania.

Michael Mayer aposta numa estrutura narrativa demasiado episódica, com cenas geralmente curtas e apressadas, tornando "Uma Casa no Fim do Mundo" numa película fragmentada que só a espaços concede tempo para as personagens se revelarem.

O realizador é eficaz na escolha da banda-sonora, fotografia, guarda-roupa e nas reconstituições de época, mas um filme não vive só destes elementos e este denuncia as fragilidades de um argumento desequilibrado e de uma irregular construção de personagens, tornando "Uma Casa no Fim do Mundo" numa primeira obra que prometia, mas cujo resultado não é dos mais fascinantes...
E O VEREDICTO É: 2/5 - RAZOÁVEL

NOITE ESCURA

Um dos cantores/compositores que tem visto o seu grupo de fãs aumentar entre nós foi a presença principal da noite da passada sexta-feira no Café-Teatro Santiago Alquimista, em Lisboa.

Perry Blake tem realizado alguns espectáculos para assinalar o lançamento do seu novo álbum de originais, "The Crying Room", e do seu livro "These Pretty Love Songs".
Frequentemente comparado a Leonard Cohen, Scott Walker, Nick Drake ou David Sylvian, Blake possui uma discografia vincada por sonoridades sóbrias e intimistas, proporcionando uma elegante pop de travo clássico.

O concerto do passado dia 20 comprovou a discrição e minimalismo das composições do músico irlandês, expondo canções tranquilas que não precisaram de mais do que uma agradável voz acompanhada apenas pelo piano, contrabaixo e guitarra acústica.
Entre relatos de amores desencontrados e demais inquietações urbano-depressivas, o crooner ofereceu uma série de momentos delicados e soturnos, unindo os universos da pop e da folk numa prestação eficaz, mas pouco vibrante.

Perry Blake movimenta-se com competência nos territórios musicais que escolheu, mas o concerto foi demasiado morno e monocórdio, raramente ultrapassando a fasquia da razoabilidade.
O alinhamento incluiu alguns temas interessantes, como "The Hunchback of San Francisco", "Pretty Love Songs" ou uma versão de "Forbidden Colours", um original de Ryuichi Sakamoto e David Sylvian, mas na globalidade foi excessivamente monótono, sisudo e homogéneo.

O cantor, com uma presença estática e tímida, esboçou alguns contactos com o público entre a interpretação das canções, contudo não exibiu um carisma especialmente marcante ou memorável que o tornem num mestre-de-cerimónias acima da média.

O público, atento e concentrado, aplaudiu consideravelmente o músico em várias ocasiões num espectáculo que não envergonhou ninguém mas que ficou, infelizmente, abaixo das expectativas.

A primeira parte esteve a cargo de Rui Gaio, que propôs um pouco estimulante rock alternativo cujo maior ponto de interesse foi uma inesperada cover de "Sweet Harmony", dos Beloved.

E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

UMA CASA NO FIM DO MUNDO

A primeira longa-metragem de Shainee Gabel chegou discretamente, sem grandes manobras de divulgação e promoção, mas destaca-se como uma das boas surpresas cinematográficas de 2005.

Ambientado nos cenários de calmaria e serenidade de Nova Orleães, "Uma Canção de Amor" (A Love Song for Bobby Long) foca a relação entre Purseland Will (Scarlett Johansson), uma jovem de 18 anos, e dois amigos da sua falecida mãe, Bobby Long (John Travolta) e Lawson Pines (Gabriel Macht). Os contactos iniciais da adolescente com a dupla masculina são conturbados, uma vez que Pursy herdou uma casa da sua mãe mas só após regressar da Florida a Nova Orleães é que se apercebe que terá de conviver com duas inesperadas companhias.

"Uma Canção de Amor" é daquelas obras que, embora não traga nada de especialmente original ou inovador, consegue ser quase sempre convincente e por vezes emanar uma vibrante aura encantatória. Um olhar realista sobre a inadaptação, o conceito de família, o crescimento, a arte e a amizade, a película de estreia de Shainee Gabel oferece um denso e estimulante estudo de personagens, ou não fosse este um filme de (óptimos) actores.

John Travolta assinala aqui a sua interpretação mais sólida e interessante desde o emblemático "Pulp Fiction", encarnado com subtileza e carisma Bobby Long, um ex-professor de literatura inglesa de meia-idade que se encontra imerso num quotidiano marcado pelo ócio, boémia e melancolia.
A estrela ascendente Scarlett Johansson confirma a sua versatilidade, apresentando uma prestação igualmente sedutora e longe da postura algo apática que expôs noutros papéis. Contudo, o actor que mais surpreende é Gabriel Macht, menos mediático do que os restantes protagonistas mas capaz de proporcionar um desempenho seguro, emotivo e magnético como Lawson Pines, afirmando-se como um talento a ter em conta.

Shainee Gabel apresenta uma obra com um ritmo pausado, mas raramente monótono, muito adequado às atmosferas sulistas norte-americanas de tons desencantados e melancólicos. O trabalho de realização é simples, mas não banal, e a narrativa desenvolve-se de forma espontânea e cativante.
"Uma Canção de Amor" é um intrigante retrato das experiências e tensões de um singular trio de anti-heróis que vive um dia-a-dia onde a música, o álcool e a literatura (há muitas citações por aqui) são os três elementos essenciais para que a sua existência ainda tenha algum sentido.

Sóbrio, intimista e agridoce, "Uma Canção de Amor" é mais um bom exemplo do actual cinema independente norte-americano, um título que não revoluciona mas envolve e surpreende consideravelmente. Não fosse o desenlace algo desequilibrado, incapaz de sustentar a discreta carga dramática que se tinha insinuado até então, e estaríamos perante um grande filme. Assim, Shainee Gabel gera uma primeira-obra que é bela sem ser excelente. Não deixa de ser, contudo, uma das que merece um atento visionamento e reflexão.

E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM