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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

CINEMA NA TV

Um dos mais surpreendentes filmes de 2004 é exibido hoje às 23h na 2:

"Os Sonhadores" (The Dreamers), um poderoso retrato da adolescência e da cinefilia ambientado no período do maio de 68, assinalou o regresso em força de Bernardo Bertolucci num dos seus melhores filmes, que já analisei aqui. Imperdível!

AMIZADE SEM LIMITES

Depois do popular "As Horas", surge agora mais um filme inspirado numa obra literária de Michael Cunningham, "Uma Casa no Fim do Mundo" (A Home at the End of the World). O livro não é tão mediático como aquele que deu origem à elogiada película interpretada por Nicole Kidman, Julianne Moore e Meryl Streep, mas é, não obstante, um título interessante e absorvente.

Desta vez, o responsável pela adaptação ao grande ecrã não é Stephen Daldry mas o estreante Michael Mayer, encenador da Broadway que assim assinala a sua entrada em domínios cinematográficos.

Infelizmente, não se pode dizer que este primeiro filme de Mayer seja particularmente bem-sucedido, uma vez que a transposição de uma obra literária exigente e complexa é aqui feita de forma pouco surpreendente e singular.

"Uma Casa no Fim do Mundo" é um drama que foca a relação de dois amigos de infância, Bobby e Jonathan, que crescem juntos numa pequena localidade do Ohio, nos anos 60, e voltam a encontrar-se anos depois numa Nova Iorque em mutação e efervescência.
É já na idade adulta que conhecem Clare, uma mulher irreverente e pouco convencional, e com ela irão tentar formar uma família distinta dos padrões socialmente implementados, onde a amizade e o amor se imbricam e confundem.

O livro de Cunningham apresenta uma densa e subtil perspectiva sobre as relações humanas, os contrastes geracionais, a alteração de estilos de vida e as orientações sexuais, mas o filme de Mayer limita-se a ilustrar essas questões de modo ténue e pálido, raramente mergulhando no âmago das personagens.

De facto, é sobretudo na construção de personagens que o filme falha, sobretudo nas interligações entre estes, pois Mayer não lhes injecta grande densidade emocional.

Bobby assume aqui o papel de protagonista e orienta o rumo dos acontecimentos, originando uma secundarização das presenças de Jonathan e Clare, algo que não se manifestava no livro. Colin Farrel encarna a personagem principal na idade adulta e, embora ofereça um desempenho competente, faz com que a peculiaridade de Bobby fique aquém do potencial.
Dallas Roberts, Robin Wright Penn e Sissy Spacek asseguram a consistência do elenco, conseguindo gerar alguma carga dramática mas não a suficiente para elevar o filme acima da mediania.

Michael Mayer aposta numa estrutura narrativa demasiado episódica, com cenas geralmente curtas e apressadas, tornando "Uma Casa no Fim do Mundo" numa película fragmentada que só a espaços concede tempo para as personagens se revelarem.

O realizador é eficaz na escolha da banda-sonora, fotografia, guarda-roupa e nas reconstituições de época, mas um filme não vive só destes elementos e este denuncia as fragilidades de um argumento desequilibrado e de uma irregular construção de personagens, tornando "Uma Casa no Fim do Mundo" numa primeira obra que prometia, mas cujo resultado não é dos mais fascinantes...
E O VEREDICTO É: 2/5 - RAZOÁVEL

NOITE ESCURA

Um dos cantores/compositores que tem visto o seu grupo de fãs aumentar entre nós foi a presença principal da noite da passada sexta-feira no Café-Teatro Santiago Alquimista, em Lisboa.

Perry Blake tem realizado alguns espectáculos para assinalar o lançamento do seu novo álbum de originais, "The Crying Room", e do seu livro "These Pretty Love Songs".
Frequentemente comparado a Leonard Cohen, Scott Walker, Nick Drake ou David Sylvian, Blake possui uma discografia vincada por sonoridades sóbrias e intimistas, proporcionando uma elegante pop de travo clássico.

O concerto do passado dia 20 comprovou a discrição e minimalismo das composições do músico irlandês, expondo canções tranquilas que não precisaram de mais do que uma agradável voz acompanhada apenas pelo piano, contrabaixo e guitarra acústica.
Entre relatos de amores desencontrados e demais inquietações urbano-depressivas, o crooner ofereceu uma série de momentos delicados e soturnos, unindo os universos da pop e da folk numa prestação eficaz, mas pouco vibrante.

Perry Blake movimenta-se com competência nos territórios musicais que escolheu, mas o concerto foi demasiado morno e monocórdio, raramente ultrapassando a fasquia da razoabilidade.
O alinhamento incluiu alguns temas interessantes, como "The Hunchback of San Francisco", "Pretty Love Songs" ou uma versão de "Forbidden Colours", um original de Ryuichi Sakamoto e David Sylvian, mas na globalidade foi excessivamente monótono, sisudo e homogéneo.

O cantor, com uma presença estática e tímida, esboçou alguns contactos com o público entre a interpretação das canções, contudo não exibiu um carisma especialmente marcante ou memorável que o tornem num mestre-de-cerimónias acima da média.

O público, atento e concentrado, aplaudiu consideravelmente o músico em várias ocasiões num espectáculo que não envergonhou ninguém mas que ficou, infelizmente, abaixo das expectativas.

A primeira parte esteve a cargo de Rui Gaio, que propôs um pouco estimulante rock alternativo cujo maior ponto de interesse foi uma inesperada cover de "Sweet Harmony", dos Beloved.

E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL