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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

SANGUE NOVO

20 anos depois da morte de António Variações, as canções do singular músico regressaram e tornaram-se no motor de um dos mais curiosos projectos do panorama musical português actual, os Humanos.

Manuela Azevedo (dos Clã), David Fonseca e Camané - juntamente com Hélder Gonçalves (Clã), Nuno Rafael, João Cardoso e Sérgio Nascimento (ex-elementos dos Despe & Siga e colaboradores de Sérgio Godinho) - trabalharam os temas inéditos que Variações deixou e geraram aquele que terá sido o mais elogiado disco português de 2004, "Humanos", bem-recebido pelo público (já vai na tripla platina) e pela crítica.

O (super)grupo apresentará as suas canções ao vivo no Coliseu de Lisboa hoje e amanhã, pelas 21h30m, num espectáculo promissor e aguardado com expectativa q.b.. Se calhar passo por lá...

VERÃO (CINEMATOGRÁFICO) ESCALDANTE

Até Setembro, os cinemas Nimas e Ávila têm uma programação especial dedicada ao que de melhor se fez nos últimos anos nas àreas do cinema francês e dos independentes norte-americanos.

Os filmes são renovados de dois em dois dias e entre as propostas encontram-se títulos tão recomendáveis como "Não Dou Beijos" e "Juncos Silvestres", de André Téchiné; "Irreversível", de Gaspar Noé; "O Gosto dos Outros", de Agnés Jaoui; "Quem Me Amar Irá de Comboio" e "O Seu Irmão", de Patrice Chereau (no Nimas); ou "Ghost World - Mundo Fantasma", de Terry Zwigoff; "As Regras da Atracção", de Roger Avary; "Tarnation", de Jonathan Caouette e "Antes do Anoitecer", de Richard Linklater (no Ávila); entre muitos outros.

Obviamente, é um programa imperdível para qualquer cinéfilo que se preze. Os horários das exibições de todos os filmes encontram-se aqui. Para hoje destaco "Pedaços de Uma Vida", de Peter Hedges (crítica no post abaixo), às 15h e às 21h30m no Ávila.

A filha pródiga

Peter Hedges não é propriamente um novato, como o atestam trabalhos na área do teatro e literatura.
No campo da sétima arte teve também algumas experiências, através da escrita dos argumentos de "Gilbert Grape", de Lasse Hallstrom, e "Era uma Vez um Rapaz", de Paul Weitz, projectos que lhe deram alguma credibilidade e respeito.
Contudo, Hedges nunca se tinha aventurado na realização, por isso o seu primeiro projecto nessa área despoletou alguma expectativa nos meandros do cinema alternativo em 2003, quando "Pedaços de uma Vida" (Pieces of April) foi gerado.


A premissa do filme não é propriamente genial nem especialmente intrigante: April Burns, uma jovem algo rebelde que vive num bairro nova-iorquino, prepara-se para receber a sua família no Dia de Acção de Graças, mas a confecção do almoço torna-se cada vez mais atribulada à medida que uma série de imprevistos vão ocorrendo.

Tentando não desiludir os seus familiares - com quem, de resto, não tem uma relação muito próspera -, a protagonista envolve-se numa rede de peripécias com os seus vizinhos, procurando alguém que a auxilie na sua tarefa de forma a que o dia não se torne num episódio frustrante.

Acompanhando os dilemas de April e a viagem da sua famíla, "Pedaços de uma Vida" proporciona um olhar agridoce sobre as ambiguidades das relações humanas, adoptando traços de road movie e de história redentora sem cair em estereótipos.
Hedges provou, nos seus trabalhos de argumento anteriores, que sabia retratar habilmente as tensões e dificuldades dos relacionamentos, e aqui o seu talento volta a manifestar-se, transformando o filme numa obra mais interessante do que aquilo que o seu ponto de partida faria prever.


Premiado e nomeado em vários festivais de cinema internacionais - sobretudo devido à convincente interpretação de Patricia Clarkson no papel de Joy Burns, a complexa mãe da protagonista -, "Pedaços de uma Vida" é uma inspirada e refrescante primeira-obra.


Embora siga os moldes da escola do cinema independente norte-americano - não dispensa atmosferas outonais, personagens disfuncionais à deriva, realização seca e despojada (com recurso à câmara à mão), banda-sonora gerada por uma banda indie (no caso, os Magnetic Fields) -, o filme combina drama e comédia de forma muito eficaz, contendo consideráveis doses de sarcasmo e ironia mas nunca ignorado a densidade emocional das personagens.


Se ao sólido argumento e realização se adicionar uma coesa direcção de actores - Katie Holmes surpreende no seu primeiro grande papel , antes de se tornar na namoradinha de Tom Cruise e do novo Batman -, obtêm-se os ingredientes certos para uma apelativa, divertida e absorvente estreia.
Um auspicioso início de um novo cineasta a reter.

E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

(JANTAR) ABERTO ATÉ DE MADRUGADA

Mais um fim-de-semana a dar as últimas. Entre as memórias mais marcantes, fica a noite de ontem, uma saturday night fever que assinalou o reencontro com alguns ex-colegas da fac na casa da Dré.

Entre um acompanhamento musical a cargo dos Placebo, A-Ha, a banda-sonora de "Perto Demais" (com a ala feminina - que a certa altura incluía toda a gente excepto eu - a delirar com o Damien Rice) e salsa (passo!), e uma sessão dupla de cinema com "Antes do Amanhecer" e "Antes do Anoitecer" (este último em versão fast-forward), passou-se uma noite interessante. E daqui a uns meses é a minha vez de ser o anfitrião...

BARALHAR E VOLTAR A DAR

Numa altura em que o cinema oriental parece evidenciar-se cada vez mais, disseminando-se por tudo o mundo e conquistando públicos mais alargados, torna-se não só numa reconhecida influência para o trabalho de cineastas, mas é também influenciado por estes.

"Kung-Fu-Zão" (Kung Fu Hustle), a mais recente película de Stephen Chow, é um esgrouviado combinado de acção, humor, suspense e artes marciais, uma dinâmica paródia a códigos e géneros cinematográficos que tanto satiriza as rebuscadas aventuras de kung-fu como envereda também por paralelismos a obras de ficção científica ou westerns.

Chow, que no currículo contava já com a realização do delirante "Shaolin Soccer", volta a apostar num filme carregado de energia cinética, recorrendo a exageradíssimas sequências de combate numa obra cujo visual estilizado oferece alguns momentos efervescentes, evidenciando os impressionantes progressos do digital.

Ecléctico melting pot de referências, "Kung-Fu-Zão" tanto assenta nas sagas de "Kill Bill" ou "Matrix" como nas tradicionais histórias de kung-fu, passando por uma notória aproximação ao dinamismo dos universos cartoon norte-americanos e anime.

O argumento - que segue as peripécias de um jovem indeciso (interpretado pelo próprio Chow) entre a lealdade ao ameaçador Gang do Machado ou a procura de um caminho mais nobre - dá quase sempre prioridade ao desfile de prodígios visuais, e as personagens nunca vão além da caricatura numa história maniqueísta e formatada.
Contudo, os pequenos achados na concepção de certas cenas conseguem compensar (na medida do possível) a evidente linearidade dramática, tornando "Kung-Fu-Zão" num aceitável entretenimento, que a espaços até entusiasma mas que como um todo é bastante desigual (e sobretudo redundante, pois à medida que o filme decorre o efeito surpresa tende a descrescer).

O que fica? Algumas coreografias e efeitos especiais minuciosamente trabalhados, duas ou três cenas divertidas, uma montagem dinâmica e trepidante e um ritmo escorreito. Longe de revolucionário, é certo, mas dentro do cinema assumidamente lúdico e descartável consegue, ainda assim, elevar-se acima de grande parte da concorrência.
E O VEREDICTO É: 2/5 - RAZOÁVEL