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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

QUINTETO FANTÁSTICO

Belo concerto, o que os Kaiser Chiefs apresentaram ontem à tarde na Fnac do Chiado. Que as canções de "Employment" eram boas já se sabia, mas quando interpretadas in loco por uma banda coesa e dedicada tornam-se ainda mais convincentes, sobretudo quando os temas escolhidos para este showcase são os mais consistentes do disco ("Na Na Na Na Naa", "Everyday I Love You Less and Less", "Modern Way", "I Predict a Riot", "Born to Be a Dancer" e "Oh My God").

Soube a pouco, mas foi bom, e o vocalista, além dos méritos enquanto cantor, pareceu ser um bom entertainer, com um sentido de humor contagiante. Os U2 que se acautelem no concerto de logo à noite, pois arriscam-se a ser destronados pela banda da primeira parte (refiro-me aos Kaiser Chiefs e não aos Keane, claro...).

O PREÇO DA FAMA

Autor de obras aclamadas como "Menos que Zero", "As Regras da Atracção", "Psicopata Americano" e "Os Confidentes", Bret Easton Ellis salientou-se na década de 80 como um dos escritores norte-americanos mais singulares da sua geração, proporcionando um olhar negro e corrosivo sobre certos aspectos das sociedades urbanas contemporâneas.

"Glamorama", editado em 1998, mantém a perspectiva corrosiva e cáustica acerca de alguns elementos da american way of life, demolindo em especial o culto das celebridades e os ambientes do star system actual.

Ellis apresenta as peripécias de Victor Ward/Johnson, um modelo em ascensão que tenta também desenvolver uma carreira de actor. Tal como a maioria das personagens criadas pelo escritor, o protagonista de "Glamorama" não é propriamente um ser humano de qualidades assinaláveis, uma vez que o egoísmo e o narcisismo são as suas principais características, mas Ellis consegue torná-lo num anti-herói suficientemente interessante e por vezes hilariante.

Uma vez que a acção é narrada por Victor, é mais fácil para o leitor tomar contacto com o seu mundo vincado por ambientes de frivolidade, onde a busca da fama é uma constante e a imagem sobrepõe-se a qualquer outro elemento. Se em obras anteriores Ellis retratava de forma irónica e satírica as atmosferas universitárias ou o quotidiano dos yuppies, aqui o alvo são os (pseudo)famosos e todos os que se esforçam por atingir tal estatuto, que o autor caracteriza sem quaisquer contemplações.

A primeira parte de "Glamorama" mergulha nas vedetas do showbiz nova-iorquino de finais dos anos 90 e segue o dia-a-dia de Victor, que decorre entre cocktails, filmagens, castings, festas e reuniões, onde a agitação é constante e a futilidade serve de acompanhamento.
Ellis oferece uma descrição minuciosa deste microcosmos, enumerando regularmente uma série de figuras que obtiveram os seus cinco minutos de fama e apostando também num obsessivo product placement e numa banda-sonora detalhada (elementos interessantes mas que podem fazer, no entanto, com que o livro se torne um pouco datado).
Assim, na sua rotina diária Victor encontra gente como Joaquin Phoenix, Uma Thurman ou Patrick Bateman (o protagonista de "Psicopata Americano"), entre outros nomes mediáticos desta esfera de estrelas.

Contudo, o livro não se esgota num olhar cortante sobre a banalidade que contamina as celebridades, pois "Glamorama" junta a esta comédia de costumes elementos de espionagem e suspense, uma vez que o clima de tensão se instala abruptamente e mantém-se até ao final.

O quotidiano boémio do imaturo e leviano protagonista é interrompido quando este aceita uma proposta (monetariamente compensadora) e viaja para a Europa na tentativa de localizar uma ex-colega de liceu, Jamie Fields.
Ao submeter-se a este desafio algo enigmático, Victor envolve-se numa complexa teia de conflitos e conspirações, uma vez que contactará de perto com operações terroristas cujos responsáveis são as figuras menos óbvias.

Denso e intrigante, "Glamorama" escapa a modelos convencionais e aposta numa narrativa surpreendente onde a imprevisibilidade é uma constante e os acontecimentos decorrem a um ritmo frenético. Se nas primeiras páginas o livro envereda por atmosferas leves, torna-se depois cada vez mais negro e claustrofóbico à medida que o mundo de Victor se desmorona aos poucos, tornando-o numa vítima de um sistema que ajudou a consolidar.

Ellis gera aqui uma obra ousada que descoordena não só o protagonista mas também o leitor, proporcionando uma sequência de acontecimentos com progressivas doses de bizarria e surrealismo.
Oscilando entre o humor negro e cruéis e arrepiantes descrições de catástrofes (as peripécias do último terço do livro são literalmente explosivas), "Glamorama" é uma obra envolvente como poucas, mas que nem sempre convence. Se por um lado a sinistra espiral de mistérios é absorvente, as suas resoluções não são as mais conseguidas, pois o desenlace não é dos mais inspirados e deixa muitas questões em aberto.

Esquizofrénico e desregrado, "Glamorama" possui um bom ritmo, uma série de momentos de antologia e um protagonista interessante de seguir, mas contém também alguns episódios repetitivos e inconsequentes que o tornam num livro desequilibrado.
Apesar do seu potencial não ser plenamente atingido, os seus méritos superam os defeitos, e Ellis proporciona aqui uma curiosa amálgama de temáticas, onde cabem a solidão, o consumismo, a cultura pop, a vertente descartável e efémera das relações, a violência, ou o hedonismo, todas abordadas com a acidez habitual do autor.

"Glamorama" não é um livro para juntar ao núcleo de obras essenciais, mas é suficientemente perspicaz, divertido e relevante para merecer que se percam algumas horas com ele. E dificilmente haverá uma mistura mais conseguida de "Pret-a-Porter" e "Clube de Combate" do que a que Ellis apresenta aqui...

E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

I PREDICT A RIOT

Antes de actuarem no Festival Paredes de Coura e de, juntamente com os Keane, fazerem a primeira parte do concerto dos U2, os Kaiser Chiefs proporcionarão um showcase na Fnac do Chiado hoje à tarde, pelas 18h30m.

"Employment", o álbum de estreia deste quinteto britânico, é uma das boas surpresas musicais de 2005, e espera-se que estes rapazes sejam igualmente convincentes ao vivo. Se calhar vou vê-los mais logo para confirmar... Quem mais vai???

A MINHA ESTAÇÃO PREFERIDA

Uma das boas surpresas do cinema independente norte-americano dos últimos anos, “A Estação” (The Station Agent) marca a estreia de Thomas McCarthy na realização e confirma que nem sempre é preciso trazer algo de ousado ou inovador para conseguir surpreender e conquistar.

Um olhar sobre o desencanto de um quotidiano rotineiro, as relações humanas, a esperança e a amizade, a película segue as peripécias do dia-a-dia de três personagens solitárias que encontram uns nos outros não necessariamente a solução, mas pelo menos uma via para combaterem a melancolia e amargura que caracteriza parte das suas vidas.

Finbar é um anão que, após a morte do seu melhor amigo, viaja para New Fountland, uma pequena localidade de New Jersey, onde passa a habitar uma estação de comboios abandonada que herdou deste. É nesse novo ambiente que trava conhecimento com Joe, um pacato e espirituoso dono de uma bar numa roulotte, e Olivia, uma mulher divorciada que tenta lidar com a morte do seu filho.

De alguma forma, estas três personagens foram marcadas por acontecimentos nefastos: Finbar é reservado e taciturno, receando relações próximas devido à constante humilhação a que é sujeito por ser anão; Joe não consegue fazer com que os que o rodeiam retribuam o altruísmo que irradia naturalmente; e Olivia é regularmente atormentada pelo sentimento de perda.
Aos poucos, o trio apercebe-se de que partilha mais semelhanças do que diferenças, e inicia uma amizade que expõe os melhores e piores traços de um considerável envolvimento emocional.

Thomas McCarthy proporciona uma primeira-obra simples e discreta, mas não banal, dando às personagens o destaque que estas merecem e convencendo sobretudo pela sólida direcção de actores, onde constam nomes pouco conhecidos, mas bastante talentosos, como Peter Dinklage (que compõe um complexo e intrigante Finbar), Bobby Canavale (muito credível como o cativante Joe) e Patricia Clarkson (que encarna uma Olivia tão absorvente como as suas participações em “Pedaços de uma Vida” ou na série “Sete Palmos de Terra”).

Se ao coeso elenco se acrescentar uma realização sóbria, um ritmo tranquilo, mas não enfadonho, e uma fotografia de apropriados tons secos e outonais, não se torna difícil de perceber porque é que “A Estação” foi uma das obras mais elogiadas de 2003, vencendo categorias no Festival de Sundance ou nos Independent Spirit Awards. Não é um filme revolucionário, mas é muito agradável, e evidencia que McCarthy é um realizador a ter em conta...

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM