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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Competência para amar

Um filme baseado num romance de Jane Austen dirigido por um realizador oriundo da televisão não será, à partida, das propostas cinematográficas mais estimulantes, pois traz à memória associações com as muitas séries produzidas regularmente pela BBC, quase sempre competentes mas também algo indistintas e, sobretudo, raramente expondo inventivas ideias de cinema.


“Orgulho e Preconceito” (Pride & Prejudice), a primeira longa-metragem de Joe Wright, destaca-se, contudo, como uma obra refrescante que contorna, em parte, essa tentadora consideração inicial, apresentando méritos suficientes para se sobrepor à insipidez que caracteriza múltiplos objectos aparentados. Não que este filme de época seja especialmente inovador, mas a sua fluidez e leveza imprimem-lhe uma aura contagiante, e embora seja cinema de fácil digestão é elaborado com sensibilidade e alguma imaginação.



Mais próxima da comédia romântica do que do drama, esta adaptação do livro homónimo da autora inglesa narra o percurso dos orgulhosos e obstinados jovens Elisabeth Bennet e Mr. Darcy, apoiando-se em incisivas e por vezes hilariantes trocas de oportunos diálogos, numa realização e narrativa envolventes - bem distantes da monótona rigidez e exagerada teatralidade de inúmeros filmes de época britânicos (a sequência do baile é de antologia) - e num trabalho de reconstituição temporal (de meados do século XIX) que ganha ao fugir ao decorativismo pomposo e à opulência barroca.


Os actores são outro ponto forte, todos credíveis e talentosos, sendo o mais surpreendente o facto dos que se saem melhor nem serem tanto os veteranos já com créditos firmados – Brenda Blethyn cumpre mas abusa do registo histriónico, Judi Dench e Donald Sutherland são seguros porém iguais a si próprios -, mas os mais jovens e inexperientes, em particular o par central, composto por uma desenvolta Keira Knightley (“Colete de Forças” já sugeria e agora confirma-se que afinal há aqui uma actriz) e por um circunspecto e complexo Matthew MacFadyen, não esquecendo uma manipuladora e insinuante Kelly Reilly (em fase de ascensão).


Esta eficaz conjugação de elementos compensa ocasionais deslizes, evidentes no carácter demasiado caricatural de certas personagens secundárias (as da família da protagonista são o caso mais gritante), na previsibilidade do argumento ou em algum simplismo dramático, que não permite profundos mergulhos nas convulsões das relações humanas. Como um todo, no entanto, “Orgulho e Preconceito” é consistente e revela bom-gosto, impondo-se como uma muito aprazível proposta cinematográfica a descobrir.


E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

ESTREIA DA SEMANA: "TRANSAMERICA"

Mais uma quinta-feira e, como tem sido habitual nas últimas semanas, mais filmes nomeados para os Óscares a chegar a salas nacionais (três, neste caso). O destaque vai para "Transamerica", a primeira longa-metragem de Duncan Tucker e um dos filmes independentes norte-americanos mais elogiados de 2005.
Este drama familiar alternativo centra-se em Bree, uma transexual que procura fazer uma operação de mudança de sexo, e no seu filho adolescente cuja existência lhe era desconhecida. A protagonista, nomeada para o Óscar de Melhor Actriz Principal, é Felicity Huffman, mais conhecida como a carismática Lynette, uma das personagens centrais da série "Donas de Casa Desesperadas". Isto promete...

Outras estreias:

"Capote", de Bennett Miller
"Mrs. Henderson Presents", de Stephen Frears
"O Céu Gira", de Mercedes Álvarez

O feitiço perfeito

O primeiro tema, “High Rise”, dominado por inesperados ambientes abrasivos resultantes do recurso às guitarras, sugere desde logo que os Ladytron de “Witching Hour” sofreram mudanças.
Essa primeira impressão confirma-se ao escutar os restantes temas do terceiro disco de originais do quarteto de Liverpool, que se nos registos anteriores provou ser uma das forças mais inventivas do electropop actual continua agora a surpreender ao apresentar ligações mais vincadas ao rock, não implicando isso um abandono da sonoridade que os distinguiu, mas uma melhoria desta.


“604”, de 2001, foi um dos bons álbuns de estreia do início do novo milénio, caracterizado por uma apelativa e complexa pop digital, a que “Light & Magic” deu continuidade um ano depois, sobrepondo as sombras à luz mas conservando as melodias viciantes.
 

“Witching Hour” é um ilustríssimo sucessor desses dois promissores testemunhos, destacando-se como o disco mais consistente dos Ladytron. A banda já havia provado ser exímia na construção de rebuçados pop perfeitos e agridoces, que apesar de acessíveis e directos não se esgotavam ao fim de algumas audições. Do emblemático “Playgirl” a “He Took Her To a Movie”, passando por “The Reason Why” ou “Flicking Your Switch”, boas propostas não faltavam. Faltavam, sim, álbuns que mantivessem sempre a intensidade desses grandes momentos, algo que nem “604” (prejudicado por diversos interlúdios) nem “Light & Magic” (demasiado longo e com composição irregular) conseguiram proporcionar. “Witching Hour” lima essas arestas e revela-se um portentoso exemplo de uma banda em ebulição criativa ao manifestar solidez do início ao fim, oferecendo um apetitoso cardápio de canções.

 

Mais atmosférico e menos clínico do que os seus antecessores, é um disco já não tão próximo de referências da pop electrónica, como os Human League ou Kraftwerk, mas antes de nomes associados ao indie rock e shoegaze, estabelecendo elos fortes com os Lush ou os Curve.


A melancolia continua a ser o sentimento dominante, mas agora a postura das vocalistas Helen Marnie e Mira Aroyo é menos apática e distante, gerando episódios de maior dramatismo e introspecção. Lamenta-se que Aroyo esteja menos presente do que o habitual, cedendo o protagonismo a Marnie, mas a cantora búlgara consegue, ainda assim, triunfar e inquietar no soberbo “Fighting in Built Up Areas”, uma assombrosa canção elíptica onde a banda integra influências industriais, aliando-as a um irresistível apelo dançável com um efeito devastador.
 


“Sugar” é um momento não menos intenso, dominado por sonoridades mais agressivas do que as dos singles anteriores dos Ladytron, com um muito conseguido cruzamento entre as repetitivas frases cantadas por Helen Marnie e o turbilhão visceral das guitarras, que a espaços quase sugere o efeito da imponente wall of sound de uns My Bloody Valentine.
“Beauty*2”, diametralmente oposta, mais pausada e contemplativa, expõe uma tensão emocional raras vezes emanada pelo grupo, edificando um dos momentos mais amargurados do disco. A amargura, assim como a solidão e o isolamento, também se encontram presentes em “AMTV”, embora este seja um tema mais interligado a domínios electroclash (com que muitos quiseram rotular a banda, mas que se evidencia como uma catalogação redutora).
 


Pontuado por diversas canções de elevado calibre, “Witching Hour” contém, no entanto, duas praticamente insuperáveis: “Destroy Everything You Touch”, um magnífico exercício electropop e sério candidato a melhor single de sempre do grupo; e “International Dateline”, um invernoso, claustrofóbico e angustiante lamento em forma de música, ambos com uma genial configuração e manipulação de texturas que pedem múltiplas audições.
 


Absorvente, onírico e constituído por vibrantes brumas e melodias, “Witching Hour” é não só o melhor disco dos Ladytron mas também um dos mais estimulantes de 2005, um concentrado da melhor pop que consolida o jovem quarteto como um dos nomes vitais do cenário musical actual. Indispensável.

E O VEREDICTO É: 4,5/5 - MUITO BOM


 

Mais do mesmo

Há dois anos, “Saw – Enigma Mortal” constituiu, para alguns, uma interessante revisitação do thriller urbano, ancorado num serial killer que se dedicava a massacrar as suas vítimas com apurados requintes de malvadez e sadismo.
O filme de James Wan tornou-se numa obra de culto e chegou a ser comparado com “Sete Pecados Mortais”, pelo tipo de atmosferas e referências, embora o seu nível de inspiração e consistência ficasse muito aquém do que tornou a película de David Fincher num título de recorte superior.

 


“Saw II – A Experiência do Medo” é a obrigatória sequela, motivada decerto pelos relativos bons resultados financeiros do primeiro filme, e não se distancia muito do episódio anterior, centrando-se noutras personagens mas seguindo pressupostos semelhantes.

Desta vez, o vilão Jigsaw é encontrado pela polícia mas isso não implica que os seus jogos de manipulação e violência terminem, pois este revela a Eric Matthews, um dos agentes, que encarcerou o seu filho e outras sete pessoas numa casa, situação que se torna mais problemática quando os prisioneiros dispõem de poucas horas de vida. Jigsaw é o único que poderá salvá-los e impedir que uma toxina os mate, mas para isso Matthews deverá ouvi-lo e obedecer-lhe.


Propondo mais um exercício de suspense, “Saw II – A Experiência do Medo” pouco inova face ao filme antecessor, possuindo os mesmos defeitos e (escassas) virtudes. Darren Lynn Bousman, que ocupa agora a função de realizador, não se revela muito imaginativo, apresentando um trabalho de câmara demasiado colado ao de James Wan, mas ainda menos conseguido, abusando de uma efervescência visual que poderia ser absorvente se não se perdesse numa montagem epiléptica que confunde dinamismo com tensão.


O facto do argumento colocar oito personagens num espaço fechado a lutar pela sobrevivência não é especialmente inovador e já foi feito de forma mais convincente em “Cubo”, de Vincenzo Natali. A ideia poderia voltar a resultar aqui, caso a maioria dos prisioneiros não fossem tão descartáveis e mal interpretados, e embora haja alguns twists razoáveis é ridículo que nenhuma das vítimas consiga resolver o enigma inicial à partida.


Apesar da fraca direcção de actores, Tobin Bell consegue fazer de Jigsaw um vilão com algum interesse e o jovem Eric Knudsen, no papel de filho do detective, é um dos poucos prisioneiros que gera alguma empatia, ainda que não cheguem a ser personagens com grande espessura dramática.
Também interessantes são as discretas ligações com os acontecimentos que decorreram no episódio anterior, que originam uma das melhores surpresas de “Saw II – A Experiência do Medo”, mas nada isto chega para que este seja um filme especialmente marcante ou recomendável.
Quem não aprovou o primeiro dificilmente se deixará envolver por este, enquanto que os restantes poderão dar-lhe o benefício da dúvida, mas pouco encontrarão de novo, entusiasmante ou memorável por aqui.

E O VEREDICTO É: 2/5 - RAZOÁVEL